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A magia visual da banda desenhada

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    Dos cinco sentidos, a visão
    é aquele que eu mais aprecio,
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    e é aquele que eu menos
    posso dar como garantido.
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    Acho que, em parte, se deve
    ao facto de o meu pai ser cego.
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    Era uma coisa a que, normalmente,
    ele não dava muita importância.
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    Uma vez na Nova Escócia,
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    quando fomos assistir
    a um eclipse total do sol,
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    — sim, o mesmo da música da Carly Simon,
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    que se pode referir ou não
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    a James Taylor, Warren Beatty
    ou Mick Jagger; não tenho a certeza —
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    entregaram-nos uns óculos
    escuros de plástico
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    que nos permitiam olhar para o sol
    sem danificar s olhos.
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    Mas o meu pai ficou assustado.
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    Não queria que usássemos aquilo,
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    queria que usássemos
    uns óculos baratos de cartão
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    para não haver hipótese
    nenhuma de danificarmos a vista.
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    Na altura, achei aquilo um pouco estranho.
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    O que nessa altura eu não sabia
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    era que o meu pai tinha nascido
    com uma visão perfeita.
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    Quando ele e a sua irmã Martha
    eram pequenos,
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    a mãe deles levou-os
    a ver um eclipse total do sol
  • 0:53 - 0:55
    e pouco tempo depois disso,
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    ambos começaram a perdar a visão.
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    Décadas mais tarde,
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    descobriu-se que a razão da cegueira deles
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    seria mais provavelmente
    um tipo de infecção bacterial.
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    Pelo que sabemos,
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    não teve nada ver com o eclipse solar,
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    mas por essa altura
    já a minha avó tinha morrido
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    pensando que a culpa era dela.
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    O meu pai formou-se em Harvard em 1946,
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    casou com a minha mãe,
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    e comprou uma casa em Lexington,
    Massachusetts,
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    local onde foram disparados
    os primeiros tiros
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    contra os britânicos em 1775,
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    embora não tenhamos acertado
    nenhum até Concord.
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    Arranjou um emprego
    a trabalhar para a Raytheon,
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    a desenhar sistemas de telecomando,
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    que fazia parte do polo
    de tecnologia de ponta da Route 128
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    equivalente a Silicone Valley nos anos 70.
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    O meu pai não era o tipo de homem militar;
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    apenas lamentava não ter podido
    combater na II Guerra Mundial
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    devido à sua deficiência,
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    embora lhe tivessem permitido passar
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    o teste físico de várias horas do exército
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    até chegarem ao último teste,
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    que era o da visão.
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    (Risos)
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    O meu pai começou a juntar
    toda uma série de patentes
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    e a ganhar uma reputação de génio cego,
    cientista dos misseis, inventor.
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    Mas para nós era só o pai,
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    e a nossa vida em casa
    era bastante normal.
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    Enquanto criança, via muito televisão
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    e tinha muitos passatempos de nerd
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    como mineralogia e microbiologia
    e o programa espacial
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    e um pouco de política.
  • 2:16 - 2:17
    Jogava muito xadrez.
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    Mas, aos 14 anos, interessei-me
    pela banda desenhada,
  • 2:20 - 2:22
    e decidi que era isso que queria fazer.
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    Assim, o meu pai é cientista,
    engenheiro, trabalhador militar.
  • 2:30 - 2:32
    E tem quatro filhos, certo?
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    Um vem a ser cientista informático,
  • 2:35 - 2:37
    outro entra para marinha,
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    outro vem a ser engenheiro,
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    e aqui estou eu,
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    o artista da banda desenhada.
  • 2:43 - 2:45
    (Risos)
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    O que me torna no oposto de Dean Kamen.
  • 2:48 - 2:50
    Eu, artista de banda desenhada,
    filho de um inventor,
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    e ele, inventor, filho de um artista
    de banda desenhada.
  • 2:53 - 2:54
    (Risos)
  • 2:54 - 2:55
    Bom, é verdade.
  • 2:55 - 2:58
    (Aplauso)
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    O mais engraçado é que o meu pai
    tinha muita fé em mim,
  • 3:01 - 3:03
    na minha capacidade como cartunista,
  • 3:03 - 3:06
    mesmo sem ter prova directa
    que o filho fosse minimamente bom:
  • 3:06 - 3:08
    ele via tudo enevoado.
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    Isto dá um verdadeiro significado
    à expressão "fé cega",
  • 3:11 - 3:15
    que para mim não tem a conotação negativa
    que tem para outras pessoas.
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    A fé em coisas que não podemos ver,
    que não podem ser provadas,
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    não é de todo o tipo de fé
    com que me identifique.
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    Tenho tendência para gostar de ciência,
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    onde aquilo que vemos
  • 3:25 - 3:28
    e conseguimos provar
    são os pilares do nosso conhecimento.
  • 3:29 - 3:31
    Mas também existe um meio-termo.
  • 3:31 - 3:34
    Um meio-termo percorrido por pessoas
    como o pobre Charles Babbage,
  • 3:34 - 3:38
    e os seus computadores a vapor
    que nunca foram construídos.
  • 3:38 - 3:41
    Ninguém percebeu realmente
    qual era a sua ideia,
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    excepto Ada Lovelace,
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    e ele morreu tentando
    perseguir o seu sonho.
  • 3:47 - 3:49
    Vannevar Bush com o seu Memex,
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    esta ideia de todo o conhecimento
    na ponta dos vossos dedos
  • 3:52 - 3:54
    ele teve essa visão.
  • 3:54 - 3:57
    Julgo que muitas pessoas, nessa altura,
    deviam achar que ele era louco.
  • 3:57 - 4:00
    E, sim, podemos olhar
    em retrospectiva e dizer:
  • 4:00 - 4:02
    "Ah-ah, sabes, tudo isso são os microfilmes.
  • 4:02 - 4:06
    Mas a questão não é essa:
    ele percebeu a forma do futuro.
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    Assim como J.C.R. Liklider e a sua noção
    da interacção homem/computador
  • 4:11 - 4:14
    A mesma coisa:
    ele entendeu a forma do futuro,
  • 4:14 - 4:17
    embora tenha sido uma coisa ímplementada
  • 4:17 - 4:19
    só muito mais tarde, por outras pessoas.
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    Ou Paul Barron, e a sua visão
    de comutação de pacotes.
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    Dificilmente, alguém lhe podia
    dar atenção, no seu tempo.
  • 4:25 - 4:27
    Ou as pessoas que conseguiram
    torná-lo realidade,
  • 4:27 - 4:30
    o pessoal da Bolt, Beranek
    e Newman em Boston,
  • 4:30 - 4:33
    que apenas fizeram
    um rascunho dessas estruturas
  • 4:33 - 4:35
    que acabaram por se tornar
    numa rede mundial,
  • 4:35 - 4:39
    fazendo esses rascunhos
    em guardanapos e blocos de notas
  • 4:39 - 4:41
    e discutindo tudo isso no Howard Johnson's
  • 4:41 - 4:44
    na Route 128 em Lexington, Massachusetts,
  • 4:44 - 4:46
    a apenas 3 km de onde eu estudava,
    na Queen's Gambit Deferred,
  • 4:46 - 4:48
    a ouvir Gladys Knight & the Pips
  • 4:48 - 4:50
    cantar "Midnight Train to Georgia"...
  • 4:50 - 4:51
    (Risos)
  • 4:51 - 4:54
    ... sentado na confortável poltrona
    do meu pai.
  • 4:54 - 4:56
    Portanto, três tipos de visão.
  • 4:56 - 4:59
    Visão baseada naquilo
    que uma pessoa não pode ver,
  • 4:59 - 5:02
    a visão do invisível e desconhecido.
  • 5:02 - 5:05
    A visão daquilo
    que já foi provado ou confirmado.
  • 5:05 - 5:07
    E este terceiro tipo
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    de visão daquilo que pode ser,
    que talvez seja,
  • 5:12 - 5:15
    baseado no conhecimento,
    mas ainda por provar.
  • 5:15 - 5:17
    Até agora, temos visto
    vários exemplos de pessoas
  • 5:17 - 5:20
    que perseguem
    este tipo de visão na ciência,
  • 5:20 - 5:23
    mas acho que isso também se verifica
    nas artes, na política,
  • 5:23 - 5:25
    e até em realizações pessoais.
  • 5:25 - 5:27
    Tudo isto se resume
    a quatro princípios básicos:
  • 5:27 - 5:29
    aprender com toda a gente,
  • 5:29 - 5:31
    não seguir ninguém,
  • 5:31 - 5:33
    procurar padrões,
  • 5:33 - 5:34
    e matar-se a trabalhar.
  • 5:34 - 5:37
    Penso que são os quatro princípios
    que seguem essa ideia.
  • 5:37 - 5:39
    É, especialmente, neste terceiro,
  • 5:39 - 5:42
    em que as visões do futuro
    começam por se manifestar.
  • 5:42 - 5:46
    O que é interessante nesta forma
    em especial de olhar para o mundo,
  • 5:46 - 5:48
    é, na minha opinião,
    apenas uma de quatro formas
  • 5:48 - 5:51
    que se manifestam em diferentes
    campos de realização pessoal.
  • 5:51 - 5:54
    Na banda desenhada, sei que resulta
  • 5:54 - 5:56
    numa espécie
    de atitude formal direccionada
  • 5:56 - 5:58
    na tentativa de perceber como funciona.
  • 5:58 - 6:00
    Depois existe uma outra atitude,
    mais clássica,
  • 6:00 - 6:02
    que se liga à beleza e ao engenho.
  • 6:02 - 6:06
    Outra acredita na transparência do conteúdo.
  • 6:06 - 6:10
    E outra que sublinha a autenticidade
    da experiência humana
  • 6:10 - 6:11
    a honestidade, e anudez.
  • 6:11 - 6:15
    São quatro formas diferentes
    de olhar para o mundo. Até lhes dei nomes.
  • 6:15 - 6:18
    Os clássicos, os animistas,
    os formalistas e os iconoclastas.
  • 6:18 - 6:20
    Curiosamente, parece corresponder
    mais ou menos
  • 6:20 - 6:23
    às subdivisões do pensamento
    humano de Jung.
  • 6:24 - 6:26
    E reflectem a dicotomia de arte e prazer
  • 6:26 - 6:28
    da esquerda para a direita;
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    tradição e revolução de cima para baixo.
  • 6:30 - 6:32
    Se virmos na diagonal,
    temos forma e conteúdo
  • 6:32 - 6:34
    e depois beleza e verdade.
  • 6:34 - 6:36
    Provavelmente, isto aplica-se também
  • 6:36 - 6:39
    na música e nos filmes e nas artes nobres
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    que nada tem a ver com a visão
  • 6:41 - 6:44
    ou, sem nada a ver
    com o tema da nossa conferência:
  • 6:44 - 6:46
    — "Inspirados pela Natureza" —
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    excepto no sentido da fábula do sapo
  • 6:48 - 6:51
    que leva o escorpião às costas
    para atravessar o rio
  • 6:51 - 6:53
    porque o escorpião promete não o picar,
  • 6:53 - 6:55
    mas o escorpião acaba por picá-lo
    e morrem ambos,
  • 6:55 - 6:58
    mas antes o sapo pergunta ao escorpião
    porquê e ele responde:
  • 6:58 - 7:00
    "Porque é a minha natureza".
  • 7:00 - 7:01
    Nesse sentido, sim.
  • 7:01 - 7:04
    (Risos)
  • 7:05 - 7:08
    Por isso esta era a minha natureza. A questão era, eu percebi
  • 7:08 - 7:10
    que a via que tomei para descobrir
  • 7:10 - 7:13
    esta dedicação no meu trabalho
  • 7:13 - 7:15
    e naquilo que eu era,
  • 7:15 - 7:17
    entendi-o sobretudo como uma via para a descoberta.
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    Na verdade, isto era apenas eu a abraçar a minha natureza,
  • 7:19 - 7:21
    o que significa
  • 7:21 - 7:24
    que, no fundo, não fui parar assim tão longe da árvore.
  • 7:26 - 7:28
    Então o que faz uma "mente científica"
  • 7:28 - 7:30
    nas artes?
  • 7:31 - 7:32
    Bom, comecei a fazer banda desenhada,
  • 7:32 - 7:34
    mas também comecei, quase simultaneamente, a tentar percebê-la
  • 7:34 - 7:37
    E uma das coisas mais importantes sobre banda desenhada, descobri,
  • 7:37 - 7:39
    foi que a banda desenhada é um intermediário visual,
  • 7:39 - 7:43
    mas que tenta agarrar todos os sentidos em si.
  • 7:43 - 7:47
    Por isso, os diferentes elementos da banda desenhada, como a imagem e as palavras,
  • 7:47 - 7:50
    e os diferentes símbolos e tudo o resto pelo meio
  • 7:50 - 7:51
    que a banda desenhada apresenta,
  • 7:51 - 7:53
    afunila-se pela conduta única da visão.
  • 7:53 - 7:55
    Por isso temos elementos como parecenças,
  • 7:55 - 7:58
    onde algo que se parece com o mundo físico pode ser tornado abstracto
  • 7:58 - 8:00
    num par de direcções diferentes:
  • 8:00 - 8:02
    abstraídas de uma parecença,
  • 8:02 - 8:04
    mas que mantêm o significado por inteiro,
  • 8:04 - 8:08
    ou então abstraídas igualmente por parecença e significado para o plano da imagem.
  • 8:08 - 8:10
    Juntamos estas três, e temos um belo mapa
  • 8:10 - 8:13
    de todo o conjunto de fronteiras da iconografia visual
  • 8:13 - 8:15
    que envolve a banda desenhada.
  • 8:15 - 8:18
    E se nos movemos para a direita temos também a linguagem,
  • 8:18 - 8:21
    porque isto é abstrair para além da parecença,
  • 8:21 - 8:23
    mas ainda mantendo o significado.
  • 8:24 - 8:26
    A visão é chamada a representar o som
  • 8:26 - 8:29
    e a entender as propriedades comuns dos dois sentidos
  • 8:29 - 8:31
    assim como as suas heranças comuns.
  • 8:31 - 8:34
    Da mesma forma, a tentar representar a textura do som;
  • 8:34 - 8:38
    captar a sua característica essencial através da visão.
  • 8:39 - 8:41
    Também há um equilíbrio
  • 8:41 - 8:43
    entre o visível e o invisível, na banda desenhada.
  • 8:44 - 8:46
    A banda desenhada é uma espécie de chamada e resposta
  • 8:46 - 8:47
    na qual o artista nos dá
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    algo para ver dentro dos painéis,
  • 8:48 - 8:52
    e, depois, algo para imaginar entre os painéis.
  • 8:53 - 8:55
    Outro sentido
  • 8:55 - 8:58
    que a visualização da banda desenhada representa é o tempo.
  • 8:59 - 9:02
    A sequência é um aspecto muito importante na banda desenhada.
  • 9:03 - 9:05
    A banda desenhada apresenta uma espécie de mapa temporal.
  • 9:06 - 9:09
    E este mapa temporal foi algo que dinamizou a banda desenhada moderna,
  • 9:09 - 9:12
    mas perguntei-me se por algum acaso poderia ter dinamizado
  • 9:12 - 9:14
    outras formas,
  • 9:14 - 9:15
    e encontrei algumas na história.
  • 9:16 - 9:19
    E podemos notar este mesmo princípio operando
  • 9:19 - 9:22
    nestas versões antigas da mesma ideia.
  • 9:22 - 9:24
    O que está a acontecer é que a forma artística está a colidir
  • 9:24 - 9:25
    com a tecnologia de um dado momento,
  • 9:25 - 9:29
    quer sejam pinturas em rocha, como o Túmulo do Escrivão no antigo Egipto,
  • 9:29 - 9:31
    ou uma escultura em relevo subindo por uma coluna de pedra,
  • 9:32 - 9:34
    ou um bordado de 60 metros,
  • 9:34 - 9:36
    ou pinturas em pele de veado e casca de árvore
  • 9:36 - 9:39
    ao longo de 88 páginas dobradas em forma de acordeão.
  • 9:39 - 9:41
    O que aqui é interessante ver, é que, a partir do momento em que nasce a impressão,
  • 9:41 - 9:43
    e, já agora, isso data de 1450,
  • 9:43 - 9:45
    todos os artefactos usados pela banda desenhada moderna começam a mostrar:
  • 9:45 - 9:47
    disposições rectilíneas dos painéis,
  • 9:47 - 9:49
    desenhos de linhas simples sem tom
  • 9:49 - 9:52
    e uma sequência de leitura da esquerda para a direita.
  • 9:53 - 9:54
    E ao longo de 100 anos,
  • 9:54 - 9:57
    já começamos a ver balões com palavras e legendas,
  • 9:58 - 10:00
    e depois é só um pequeno salto daqui para aqui.
  • 10:01 - 10:03
    Portanto, escrevi um livro sobre isto, em 93,
  • 10:03 - 10:05
    mas enquanto acabava o livro,
  • 10:05 - 10:06
    tive de fazer um pouco de composição tipográfica.
  • 10:06 - 10:08
    e estava cansado de ter de ir à loja de cópias do meu bairro para o fazer,
  • 10:08 - 10:10
    por isso, comprei um computador
  • 10:11 - 10:14
    E era muito básico -- não servia para grande coisa a não ser para entrada de texto --
  • 10:14 - 10:17
    mas o meu pai já me tinha falado da lei de Moore,
  • 10:17 - 10:20
    nos anos 70: e eu sabia o que estava para vir.
  • 10:21 - 10:23
    Por isso, mantive os olhos atentos
  • 10:23 - 10:25
    para ver se o tipo de mudanças que ocorreram
  • 10:25 - 10:28
    quando foi introduzido o sistema de impressão,
  • 10:28 - 10:31
    voltariam a ocorrer quando se fosse para além do sistema de impressão
  • 10:31 - 10:33
    Portanto, uma das primeiras coisas que foram propostas
  • 10:33 - 10:35
    era que se pudesse misturar o lado visual da banda desenhada
  • 10:35 - 10:37
    com o som, o movimento e a interactividade
  • 10:37 - 10:39
    dos CD-ROMs que estavam a ser fabricados nesses tempos
  • 10:39 - 10:41
    Isto foi ainda antes da Web.
  • 10:41 - 10:42
    E uma das primeiras coisas que fizeram,
  • 10:42 - 10:44
    foi tentar pegar no sistema de páginas tal como já existia
  • 10:44 - 10:45
    e recreá-lo no monitor,
  • 10:45 - 10:47
    o que foi um erro McLuhanesco clássico -
  • 10:48 - 10:51
    o de apropriar a forma de uma tecnologia anterior
  • 10:51 - 10:53
    como o conteúdo de uma nova tecnologia.
  • 10:53 - 10:54
    E então, o que eles faziam era
  • 10:54 - 10:56
    estas espécies de páginas de banda desenhada que se assemelhavam
  • 10:56 - 10:59
    às páginas convencionais e onde introduziam todo um conjunto de efeitos sonoros e de movimento.
  • 11:00 - 11:02
    O problema era que, se seguíssemos essa ideia,
  • 11:02 - 11:05
    com a noção que na banda desenhada o espaço é igual ao tempo,
  • 11:05 - 11:07
    o que acontecia era que quando se introduzia som e movimento,
  • 11:07 - 11:11
    que são fenómenos temporais apenas representáveis pelo tempo,
  • 11:11 - 11:16
    então esses efeitos acabavam por quebrar a continuidade da apresentação.
  • 11:17 - 11:18
    A interactividade era outra das questões.
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    Havia banda desenhada com Hipertexto.
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    Mas a característica do Hipertexto
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    é que tudo o que está em Hipertexto tanto está aqui, noutro lado ou ligado a aqui;
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    é profundamente não-espacial.
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    A distância de Abraham Lincoln a um penny de Lincoln,
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    a Penny Marshall ao Plano Marshall
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    ao "Plan 9" ao Nove Vidas:
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    é completamente igual.
  • 11:33 - 11:34
    (Risos)
  • 11:34 - 11:36
    Porém, na banda desenhada,
  • 11:37 - 11:39
    qualquer um dos aspectos e dos elementos do trabalho
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    tem uma relação espacial com todos os outros elementos em todos os tempos.
  • 11:43 - 11:44
    Por isso, a questão que se colocava era:
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    Existirá alguma forma de preservar a relação espacial
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    e ainda assim tirando partido de tudo aquilo
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    que o digital nos oferece?
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    E encontrei a minha resposta pessoal para isto
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    naquelas bandas desenhadas antigas que vos mostrei.
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    Todos elas têm uma única sequência de leitura, nunca quebrada,
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    quer seja indo em ziguezagues pelas paredes
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    ou para cima em espiral numa coluna
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    ou apenas da esquerda para a direita, ou até mesmo em ziguezague para trás
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    por essas 88 páginas dobradas em acordeão.
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    A mesma coisa acontece aqui, e essa é a ideia central,
  • 12:11 - 12:13
    de que à medida que nos deslocamos no espaço nos deslocamos no tempo
  • 12:13 - 12:15
    sem que haja qualquer perda,
  • 12:15 - 12:18
    mas quando a impressão apareceu houve perdas.
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    Espaços adjacentes deixaram de ser momentos adjacentes,
  • 12:21 - 12:24
    por isso o princípio básico da banda desenhada passou a ser quebrada vezes e vezes
  • 12:24 - 12:25
    e vezes sem conta.
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    E eu pensei, OK, bom,
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    se tudo isto é verdade, haverá alguma maneira de,
  • 12:29 - 12:31
    agora que vamos passar desta ideia de impressão,
  • 12:31 - 12:33
    trazer de volta esse princípio básico?
  • 12:34 - 12:36
    Portanto, o monitor é
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    tão limitado, tecnicamente, quanto uma página, certo?
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    É uma forma diferente mas, fora isso,
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    tem o mesmo tipo de limitação.
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    Contudo, isso é apenas verdade se olharmos para o monitor como uma página
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    e não se olharmos para o monitor como uma janela.
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    E foi isso que propus: que talvez pudéssemos criar estas banda desenhadas
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    num quadro infinito:
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    ao longo do eixo dos X e dos Y e em escada.
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    Poderíamos fazer narrativas circulares que fosse literalmente circulares.
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    Poderíamos criar uma viragem na estória que fosse mesmo uma viragem.
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    Narrativas paralelas poderiam ser literalmente paralelas.
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    X, Y e também Z.
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    E pronto, tive todas estas noções. Isto foi no final dos anos 90,
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    e outras pessoas no meu meio acharam que eu era bastante louco,
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    mas muitas outras experimentaram e acabaram por fazê-lo.
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    Agora, vou vos mostrar alguns exemplos.
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    Esta foi uma das primeiras bandas desenhadas feita por um tipo chamado Jason Lex.
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    E reparem no que se passa aqui.
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    Aquilo que eu procuro é uma mutação durável --
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    é isso que todos nós procuramos.
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    Enquanto os média se encaminham para esta nova era,
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    nós procuramos por mutações
  • 13:41 - 13:45
    que sejam duráveis, que tenham um certo poder de se manterem.
  • 13:45 - 13:49
    Então, estamos a pegar nesta ideia básica de apresentar a banda desenhada através de um suporte visual,
  • 13:49 - 13:52
    e em seguida estamos a levá-la todo o caminho, do princípio ao fim.
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    Isso é o que acabaram de ver em toda esta banda desenhada
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    que está agora no ecrã.
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    Mas ainda que estejamos só a captá-la uma peça de cada vez,
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    isso é apenas onde a tecnologia está neste momento.
  • 14:01 - 14:03
    À medida que a tecnologia evolui,
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    à medida que acedemos a suportes de visualisação - e não só- que nos submergem,
  • 14:06 - 14:08
    este tipo de fenómeno só vai crescer.
  • 14:08 - 14:10
    Vai adaptar-se. Vai --
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    Vai adaptar-se ao que o rodeia:
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    é uma mutação durável.
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    Aqui está mais um que vos vou mostrar. Este é de Drew Weing;
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    e chama-se,
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    "Pop contempla a destruição do Universo pelo calor"
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    Vejam o que se está a passar aqui
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    ao desenhar estas estórias num quadro infinito
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    estamos a criar uma expressão mais pura
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    daquilo que este suporte pretende.
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    Vamos avançar um pouco mais depressa -- já perceberam a ideia.
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    Só quero chegar ao último painel.
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    (Risos)
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    Cá está.
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    (Risos)
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    (Risos)
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    Só mais uma.
  • 15:34 - 15:36
    A propósito de um quadro infinito.
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    Este é dum tipo chamado Daniel Merlin Goodbrey da Grã-Bretanha.
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    Porque é que isto é importante?
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    Acho que é porque os media,
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    todos eles,
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    nos oferecem uma janela de volta ao nosso mundo.
  • 15:51 - 15:53
    Então, podiam ser as tais imagens em movimento --
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    e, eventualmente, a realidade virtual ou algo equivalente a isso --
  • 15:56 - 15:58
    algum tipo de suporte que nos submergisse
  • 15:58 - 16:03
    e que nos vai fornecer o mais eficiente escape do mundo onde vivemos.
  • 16:03 - 16:06
    É por essa razão que muitas pessoas se tornam contadoras de histórias, é para escapar.
  • 16:06 - 16:09
    Mas os media dão nos uma janela
  • 16:09 - 16:12
    que nos permite voltar ao mundo em que vivemos.
  • 16:13 - 16:15
    E quando os média evoluírem
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    ao ponto em que a sua identidade se torne mais única.
  • 16:21 - 16:24
    Porque aquilo que estão a ver é a banda desenhada em cubos:
  • 16:24 - 16:27
    estão a ver banda desenhada que são mais próximas da sua essência do que alguma vez estiveram.
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    Quando isso acontecer, as pessoas terão múltiplas formas
  • 16:31 - 16:34
    de voltar a entrar no mundo por diferentes janelas,
  • 16:35 - 16:38
    e quando fizerem isso, vai lhes permitir triangular o mundo onde vivem
  • 16:38 - 16:40
    e ver a sua forma.
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    E esta é a razão pela qual eu julgo que isto é importante.
  • 16:42 - 16:44
    Uma de várias razões, mas por agora tenho de ir.
  • 16:44 - 16:45
    Obrigado por me receberem.
Title:
A magia visual da banda desenhada
Speaker:
Scott McCloud
Description:

Nesta imperdível análise à magia da banda desenhada, Scott McCloud transforma uma apresentação de formato tradicional numa experiência ao estilo da banda desenhada, onde manobras coloridas murmuram entre fascínios de infância e imagens do futuro em que os nossos olhos podem ouvir e tocar.

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Video Language:
English
Team:
closed TED
Project:
TEDTalks
Duration:
16:45
Margarida Ferreira edited Portuguese subtitles for The visual magic of comics
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Margarida Ferreira edited Portuguese subtitles for The visual magic of comics
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Francisco Ramada added a translation

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