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Antes de Avatar... um rapaz curioso

  • 0:02 - 0:06
    Eu cresci com uma dieta regular
    de ficção científica.
  • 0:06 - 0:09
    No liceu, apanhava
    um autocarro para a escola,
  • 0:09 - 0:11
    a viagem durava uma hora de ida
    e outra de volta, todos os dias.
  • 0:11 - 0:14
    Eu ia sempre absorto por um livro,
    um livro de ficção científica,
  • 0:14 - 0:18
    que transportava a minha imaginação
    a outros mundos,
  • 0:18 - 0:21
    e satisfazia, de uma forma narrativa,
  • 0:21 - 0:25
    este sentido insaciável
    de curiosidade que eu tinha.
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    Aquela curiosidade também se manifestava
  • 0:29 - 0:32
    no facto de que,
    quando não estava na escola
  • 0:32 - 0:35
    estava algures nos bosques,
  • 0:35 - 0:38
    a fazer caminhadas e a colher "amostras"
  • 0:38 - 0:41
    — sapos, cobras e insetos e água do lago.
  • 0:41 - 0:43
    Levava-os para casa
    e observava-os ao microscópio.
  • 0:44 - 0:45
    Era um verdadeiro "cromo" da ciência.
  • 0:45 - 0:48
    Mas tratava-se de tentar
    compreender o mundo,
  • 0:48 - 0:52
    compreender os limites da possibilidade.
  • 0:52 - 0:56
    O meu amor pela ficção científica
  • 0:56 - 0:59
    parecia refletir-se
    no mundo à minha volta,
  • 0:59 - 1:01
    por causa do que estava a acontecer
  • 1:01 - 1:04
    — isto foi em finais dos anos 60,
    íamos viajar até à lua,
  • 1:04 - 1:07
    estávamos a explorar
    as profundezas dos oceanos.
  • 1:07 - 1:09
    Jacques Cousteau entrava na nossa casa
  • 1:09 - 1:11
    com os seus programas
    especiais e espantosos
  • 1:11 - 1:15
    que nos mostravam animais, sítios
    e um mundo maravilhoso
  • 1:15 - 1:17
    que nós nunca podíamos ter imaginado.
  • 1:17 - 1:19
    Isso parecia estar em consonância
  • 1:19 - 1:22
    com toda a parte da ficção científica.
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    Eu era um artista.
  • 1:24 - 1:26
    Sabia desenhar. Sabia pintar.
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    Descobri isso porque,
    como havia jogos de vídeo,
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    nem este excesso de filmes gerados
    por computador
  • 1:33 - 1:36
    e todas estas imagens
    no panorama dos "media",
  • 1:36 - 1:39
    eu tinha de criar
    estas imagens na minha cabeça.
  • 1:39 - 1:42
    Todos o fizemos, em crianças
    tínhamos de ler um livro
  • 1:42 - 1:44
    e pela descrição do escritor,
  • 1:44 - 1:47
    projetávamos alguma coisa
    no ecrã de cinema da nossa imaginação.
  • 1:47 - 1:50
    Assim, a minha resposta a isso
    era pintar, desenhar
  • 1:50 - 1:53
    criaturas alienígenas,
    mundos extraterrestres
  • 1:53 - 1:55
    robôs, naves espaciais,
    todas essas coisas.
  • 1:55 - 1:57
    Estava sempre a ser apanhado
    nas aulas de matemática
  • 1:57 - 2:00
    a rabiscar por trás do livro.
  • 2:02 - 2:06
    A criatividade tinha de encontrar
    o seu escape, fosse como fosse.
  • 2:07 - 2:10
    Aconteceu uma coisa interessante:
  • 2:10 - 2:13
    os programas do Jacques Cousteau
    entusiasmaram-me muito
  • 2:13 - 2:15
    por haver um mundo alienígena
    aqui mesmo na Terra.
  • 2:15 - 2:18
    Eu até podia não ir realmente
    a um mundo extraterrestre
  • 2:18 - 2:20
    numa nave espacial um dia
  • 2:20 - 2:23
    — isso parecia uma coisa
    muito pouco provável.
  • 2:23 - 2:25
    Mas havia um mundo
    aonde eu podia mesmo ir,
  • 2:25 - 2:27
    aqui mesmo na Terra,
  • 2:27 - 2:30
    que era rico e exótico, como tudo
    o que eu tinha imaginado
  • 2:30 - 2:32
    ao ler aqueles livros.
  • 2:32 - 2:36
    Então, aos 15 anos.
    decidi que ia ser mergulhador.
  • 2:37 - 2:41
    O único problema era que eu vivia
    numa pequena vila no Canadá,
  • 2:41 - 2:43
    quase a 1000 km do oceano mais próximo.
  • 2:43 - 2:45
    Mas não deixei que isso me intimidasse.
  • 2:45 - 2:48
    Eu chaguei o meu pai
    até ele encontrar finalmente
  • 2:48 - 2:51
    uma escola de mergulho
    em Buffalo, Nova Iorque
  • 2:51 - 2:53
    mesmo do outro lado
    da fronteira de onde vivíamos.
  • 2:53 - 2:55
    E obtive o meu certificado
  • 2:55 - 2:59
    numa piscina do YMCA, no pico do inverno,
    em Buffalo, Nova Iorque.
  • 2:59 - 3:02
    Só vi o oceano, o verdadeiro oceano,
  • 3:02 - 3:04
    passados dois anos,
  • 3:04 - 3:06
    quando nos mudámos para a Califórnia.
  • 3:06 - 3:11
    Desde então, nestes últimos 40 anos,
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    passei quase 3000 horas debaixo de água,
  • 3:15 - 3:18
    e 500 horas destas dentro de submersíveis.
  • 3:18 - 3:22
    Aprendi que o ambiente
    das profundezas do oceano
  • 3:22 - 3:24
    e mesmo das águas superficiais
    do oceano,
  • 3:24 - 3:27
    são muito ricos de uma vida espantosa,
  • 3:27 - 3:31
    que está para lá da nossa imaginação.
  • 3:31 - 3:35
    A imaginação da natureza é tão ilimitada
  • 3:35 - 3:38
    comparada com a nossa
    pobre imaginação humana.
  • 3:38 - 3:41
    Ainda hoje, fico absolutamente deslumbrado
  • 3:41 - 3:44
    com o que vejo
    quando faço estes mergulhos.
  • 3:44 - 3:48
    O meu caso amoroso com o oceano
    continua tão forte como sempre foi.
  • 3:49 - 3:51
    Mas quando escolhi
    uma carreira, em adulto,
  • 3:53 - 3:54
    escolhi realizar filmes.
  • 3:54 - 3:56
    Isso parecia ser a melhor forma
  • 3:56 - 3:59
    de conciliar esta vontade
    que tinha de contar histórias
  • 3:59 - 4:03
    com a minha necessidade de criar imagens.
  • 4:03 - 4:06
    Em miúdo, eu estava constantemente
    a desenhar banda desenhada e afins.
  • 4:06 - 4:09
    Então, realizar filmes era a forma
    de juntar imagens e histórias
  • 4:09 - 4:11
    e isso fazia todo o sentido.
  • 4:11 - 4:13
    Claro que as histórias que escolhi contar
  • 4:13 - 4:15
    eram de ficção científica:
  • 4:15 - 4:17
    "O Exterminador", "Aliens" e "O Abismo".
  • 4:17 - 4:20
    Com "O Abismo", eu estava a juntar
  • 4:20 - 4:24
    o meu amor pelo mundo subaquático
    e pelo mergulho com a realização de filmes.
  • 4:24 - 4:25
    Estava a fundir as duas paixões.
  • 4:25 - 4:29
    Houve uma coisa interessante
    que resultou de "O Abismo".
  • 4:30 - 4:32
    Para resolvermos um problema específico
  • 4:32 - 4:35
    da narrativa nesse filme,
  • 4:35 - 4:39
    que era criar uma espécie
    de criatura marinha líquida,
  • 4:39 - 4:45
    utilizámos a animação
    gerada por computador, CG.
  • 4:45 - 4:52
    Assim nasceu a primeira personagem
    de superfície suave,
  • 4:52 - 4:55
    gerada por computador, a entrar num filme.
  • 4:55 - 4:57
    Apesar de o filme não ter sido lucrativo
  • 4:57 - 5:00
    — melhor dizendo,
    quase não cobriu os custos —
  • 5:00 - 5:01
    testemunhei uma coisa espantosa.
  • 5:01 - 5:04
    Foi ver que o público em geral
    ficou hipnotizado
  • 5:04 - 5:07
    por aquela aparente magia,
  • 5:07 - 5:08
    aquela lei do Arthur Clarke
  • 5:08 - 5:11
    de que qualquer tecnologia
    suficientemente avançada
  • 5:11 - 5:13
    não se distingue da magia.
  • 5:13 - 5:15
    Eles estavam a ver uma coisa mágica.
  • 5:15 - 5:18
    Isso entusiasmou-me imenso
    e pensei:
  • 5:18 - 5:21
    "Uau, isto é uma coisa
    que precisa de ser adotada
  • 5:21 - 5:22
    "pela arte cinematográfica".
  • 5:22 - 5:25
    No "Exterminador 2",
    que foi o meu filme seguinte,
  • 5:25 - 5:26
    levámos a coisa mais longe.
  • 5:26 - 5:30
    Trabalhando com o ILM, criámos
    o indivíduo de metal líquido desse filme.
  • 5:30 - 5:33
    O sucesso dependia de
    o efeito funcionar ou não.
  • 5:33 - 5:35
    E funcionou, voltámos a fazer magia,
  • 5:35 - 5:38
    e tivemos o mesmo resultado
    com o público,
  • 5:38 - 5:40
    apesar de fazermos um pouco
    mais de dinheiro com este.
  • 5:41 - 5:46
    Então, ao traçar uma linha
    entre estes dois pontos de experiência
  • 5:47 - 5:50
    cheguei a "isto vai ser um mundo
    totalmente diferente",
  • 5:50 - 5:52
    isto era um mundo
    inteiramente novo de criatividade
  • 5:52 - 5:55
    para os artistas cinematográficos.
  • 5:55 - 5:57
    Então, criei uma empresa
    com o Stan Winston,
  • 5:57 - 5:59
    o meu grande amigo Stan Winston,
  • 5:59 - 6:04
    que era o especialista em maquilhagem
    e designer de criaturas, naquela época,
  • 6:04 - 6:06
    e chamámos-lhe Digital Domain.
  • 6:06 - 6:09
    O conceito da empresa era de contornar
  • 6:09 - 6:13
    todo o processo analógico
    das impressoras digitais e afins,
  • 6:13 - 6:16
    e passar diretamente
    para a produção digital.
  • 6:16 - 6:19
    Fizemos isso o que nos deu uma vantagem
    competitiva durante uns tempos.
  • 6:19 - 6:23
    Mas em meados dos anos 90
    ficámos para trás
  • 6:23 - 6:25
    no design das criaturas e das personagens
  • 6:25 - 6:28
    que era aquilo para que tínhamos
    fundado a empresa.
  • 6:28 - 6:30
    Então, escrevi um texto chamado "Avatar",
  • 6:30 - 6:34
    destinado a levar, para lá dos limites,
    de uma vez por todas,
  • 6:34 - 6:37
    os efeitos visuais
    gerados por computador,
  • 6:37 - 6:41
    com personagens humanas
    realistas e emotivas
  • 6:41 - 6:43
    geradas por computador,
  • 6:43 - 6:46
    e as personagens principais
    seriam todas geradas por computador,
  • 6:46 - 6:48
    e o mundo seria gerado por computador.
  • 6:49 - 6:51
    Mas a inovação era demasiada,
  • 6:51 - 6:55
    e os homens da minha empresa disseram-me
  • 6:55 - 6:57
    que não íamos ser capazes
    de fazer aquilo naquela altura.
  • 6:57 - 7:02
    Assim, foi para a gaveta, e fiz outro filme
    sobre um grande navio que se afunda.
  • 7:02 - 7:04
    (Risos)
  • 7:04 - 7:08
    Fui ao estúdio e vendi-o como
    o "Romeu e Julieta" num navio:
  • 7:08 - 7:11
    "Vai ser um romance épico,
    um filme apaixonante."
  • 7:12 - 7:14
    Secretamente, o que eu queria fazer
  • 7:14 - 7:17
    era mergulhar até aos destroços
    do verdadeiro "Titanic".
  • 7:17 - 7:19
    Foi por isso que fiz o filme.
  • 7:19 - 7:22
    (Aplausos)
  • 7:22 - 7:25
    Essa é que é a verdade.
    Mas o estúdio não sabia disso.
  • 7:25 - 7:26
    Mas eu convenci-os, e disse:
  • 7:26 - 7:29
    "Vamos mergulhar até aos destroços.
    Vamos mesmo filmá-los.
  • 7:29 - 7:32
    Vamos usá-los no início do filme.
    Vai ser muito importante.
  • 7:32 - 7:34
    Vai ser o grande elemento-chave
    do marketing."
  • 7:34 - 7:36
    E convenci-os a pagar
    os custos da expedição.
  • 7:36 - 7:38
    (Risos)
  • 7:38 - 7:39
    Parece loucura, mas assim voltamos ao tema
  • 7:39 - 7:42
    de como a vossa imaginação
    cria a realidade.
  • 7:42 - 7:45
    Porque criámos uma realidade
    em que, seis meses depois,
  • 7:45 - 7:47
    eu estava num submersível russo
  • 7:47 - 7:49
    a quatro mil metros de profundidade
    no Atlântico norte,
  • 7:49 - 7:52
    a olhar para o verdadeiro Titanic
    através de uma escotilha.
  • 7:52 - 7:55
    Não era um filme, nem alta definição,
    era a sério.
  • 7:55 - 7:57
    (Aplausos)
  • 7:57 - 7:59
    Aquilo impressionou-me imenso.
  • 7:59 - 8:02
    Foi preciso muita preparação,
    tivemos de construir câmaras,
  • 8:02 - 8:03
    luzes e todo o género de coisas.
  • 8:03 - 8:05
    Mas, impressionou-me até que ponto
  • 8:05 - 8:10
    estes mergulhos de profundidade,
    se assemelham a uma missão especial,
  • 8:10 - 8:12
    no que diz respeito a alta tecnologia
  • 8:12 - 8:14
    e por exigir muito planeamento.
  • 8:14 - 8:15
    Entramos numa cápsula,
  • 8:15 - 8:18
    descemos até àquele ambiente
    escuro e hostil
  • 8:18 - 8:20
    onde não há esperança de salvamento
  • 8:20 - 8:22
    se não conseguirmos regressar
    por nós mesmos.
  • 8:22 - 8:24
    E eu pensei:
  • 8:24 - 8:26
    "Uau! Estou a viver
    num filme de ficção científica.
  • 8:26 - 8:28
    "Isto é mesmo fixe."
  • 8:28 - 8:32
    Então, fui mordido pelo bichinho
    da exploração dos grandes oceanos.
  • 8:32 - 8:35
    Claro, a curiosidade,
    a componente científica daquilo
  • 8:35 - 8:36
    era tudo.
  • 8:36 - 8:38
    Era a aventura,
    a curiosidade, a imaginação.
  • 8:38 - 8:43
    Era uma experiência
    que Hollywood não me podia dar.
  • 8:43 - 8:46
    Porque eu posso imaginar uma criatura
    e podia criar um efeito visual para ela.
  • 8:46 - 8:49
    Mas não podia imaginar
    o que estava a ver por aquela janela.
  • 8:49 - 8:52
    À medida que fazíamos
    as expedições seguintes,
  • 8:52 - 8:55
    fui vendo criaturas em fontes hidrotermais
  • 8:55 - 8:58
    e, às vezes, coisas
    que eu nunca tinha visto,
  • 8:58 - 9:01
    às vezes, coisas que ninguém tinha visto,
  • 9:01 - 9:03
    que não estavam descritas pela ciência
  • 9:03 - 9:06
    na época em que as vimos
    e as captámos em imagem.
  • 9:06 - 9:08
    Eu fiquei completamente apanhado por isto,
  • 9:08 - 9:11
    e tinha de fazer mais.
  • 9:11 - 9:13
    Por isso, tomei uma decisão curiosa.
  • 9:13 - 9:15
    Depois do êxito do "Titanic", disse:
  • 9:15 - 9:17
    "Ok, eu vou suspender
    o meu trabalho de dia
  • 9:17 - 9:20
    "como realizador de filmes em Hollywood,
  • 9:20 - 9:24
    "e vou ser explorador a tempo inteiro
    durante uns tempos".
  • 9:24 - 9:27
    E assim, começámos
    a planear umas expedições.
  • 9:27 - 9:30
    Acabámos por ir até ao Bismark,
  • 9:30 - 9:33
    e explorámo-lo com veículos robóticos.
  • 9:33 - 9:35
    Voltámos aos destroços do Titanic.
  • 9:35 - 9:37
    Levámos pequenos robôs
    que tínhamos criado
  • 9:37 - 9:39
    que tinham bobinas de fibra ótica.
  • 9:39 - 9:43
    A ideia era entrar e fazer
    uma pesquisa interior daquele navio,
  • 9:43 - 9:45
    coisa que nunca tinha sido feita.
  • 9:45 - 9:48
    Nunca ninguém tinha visto
    o interior dos destroços.
  • 9:48 - 9:51
    Não havia meios para o fazer,
    nós criámos a tecnologia para isso.
  • 9:51 - 9:54
    Então, ali estava eu,
    no convés do Titanic,
  • 9:54 - 9:55
    sentado num submersível,
  • 9:55 - 9:58
    a olhar para tábuas
    muito parecidas com estas,
  • 9:58 - 10:02
    onde eu sabia que a banda tinha tocado.
  • 10:02 - 10:07
    Estou pilotar um pequeno veículo robótico
    pelo corredor do navio.
  • 10:07 - 10:10
    Quando digo "estou a comandá-lo,"
  • 10:10 - 10:12
    mas a minha mente estava no veículo.
  • 10:12 - 10:17
    Eu sentia que estava fisicamente presente
    dentro dos destroços do Titanic.
  • 10:17 - 10:21
    E foi a experiência mais surrealista
    de "déjà-vu" que alguma vez tive
  • 10:21 - 10:25
    porque, antes de virar uma esquina,
    eu sabia o que ia estar ali,
  • 10:25 - 10:28
    antes de as luzes do veículo o revelarem,
  • 10:28 - 10:31
    porque eu tinha andando pelo cenário
    durante meses,
  • 10:31 - 10:33
    quando estivemos a filmar.
  • 10:33 - 10:36
    E o cenário era baseado numa réplica exata
  • 10:36 - 10:38
    das plantas arquitetónicas do navio.
  • 10:38 - 10:40
    Foi uma experiência absolutamente notável.
  • 10:40 - 10:44
    Aquilo fez-me perceber
    a experiência em telepresença,
  • 10:44 - 10:47
    de que podemos ter
    estes avatares robotizados,
  • 10:47 - 10:51
    e a nossa consciência
    ser injetada nesse veículo,
  • 10:51 - 10:54
    nesta outra forma de existência.
  • 10:54 - 10:56
    Era realmente, muito profundo.
  • 10:56 - 10:59
    E pode ser um pequeno vislumbre
    do que pode vir a acontecer
  • 10:59 - 11:00
    daqui a umas décadas
  • 11:00 - 11:04
    quando começarmos a ter corpos ciborgue
  • 11:04 - 11:06
    para exploração ou para outras coisas
  • 11:06 - 11:10
    em muitos géneros de futuros pós-humanos
  • 11:10 - 11:11
    que eu posso imaginar,
  • 11:11 - 11:14
    enquanto fã de ficção científica.
  • 11:14 - 11:18
    Depois daquelas expedições,
  • 11:18 - 11:22
    e de começar a apreciar
    o que estava lá em baixo,
  • 11:22 - 11:26
    como as fontes dos grandes oceanos
  • 11:26 - 11:28
    onde tínhamos visto
    aqueles espantosos animais...
  • 11:28 - 11:31
    Eles eram como extraterrestres
    aqui na Terra.
  • 11:31 - 11:33
    Vivem num ambiente de quimiossíntese.
  • 11:33 - 11:38
    Não sobrevivem num sistema
    baseado na luz solar, como nós.
  • 11:38 - 11:42
    Estão a ver animais que vivem
    nas temperaturas próximas dos 500ºC
  • 11:42 - 11:44
    das fontes hidrotermais oceânicas?
  • 11:44 - 11:46
    Vocês acham
    que não é possível eles existirem.
  • 11:46 - 11:47
    Ao mesmo tempo,
  • 11:47 - 11:50
    eu também estava a ficar
    muito interessado em ciência especial,
  • 11:50 - 11:54
    mais uma vez, por influência
    da ficção cientifica em miúdo.
  • 11:54 - 11:57
    E acabei por me envolver
    com a comunidade espacial,
  • 11:57 - 12:00
    mesmo envolvido com a NASA,
  • 12:00 - 12:02
    sentado com o comité consultivo da NASA,
  • 12:02 - 12:04
    a planear missões espaciais verdadeiras,
  • 12:04 - 12:05
    ir até à Rússia,
  • 12:05 - 12:08
    passar pelos protocolos biomédicos
    dos pré-cosmonautas,
  • 12:08 - 12:10
    e todo esse género de coisas,
  • 12:10 - 12:13
    e voar até à estação espacial internacional
  • 12:13 - 12:15
    através dos nossos sistemas de câmaras 3D.
  • 12:15 - 12:16
    Isso foi fascinante.
  • 12:16 - 12:19
    Acabei por levar cientistas espaciais
  • 12:19 - 12:21
    connosco até às profundezas.
  • 12:21 - 12:24
    Levá-los para o fundo
    para eles terem acesso
  • 12:24 - 12:27
    — astrobiólogos, cientistas planetários,
  • 12:27 - 12:30
    pessoas que estavam interessados
    nestes ambientes extremos —
  • 12:30 - 12:33
    levá-los até às fontes, deixá-los observar
  • 12:33 - 12:36
    tirar amostras, testar instrumentos
    e coisas do género.
  • 12:36 - 12:38
    Estávamos a fazer documentários,
  • 12:38 - 12:41
    e também a fazer ciência,
    a fazer ciência espacial.
  • 12:41 - 12:43
    Eu tinha fechado completamente o ciclo
  • 12:43 - 12:47
    entre ser fã de ficção científica,
    em criança,
  • 12:48 - 12:49
    e fazer aquelas coisas a sério.
  • 12:50 - 12:54
    Ao longo do caminho,
    nesta viagem de descoberta
  • 12:54 - 12:56
    aprendi muito.
  • 12:56 - 12:58
    Aprendi muito sobre ciência.
  • 12:58 - 13:01
    Mas também aprendi muito sobre liderança.
  • 13:01 - 13:03
    Vocês pensam que um realizador
    tem de ser um líder,
  • 13:03 - 13:06
    capitão do navio, e todas essas coisas.
  • 13:06 - 13:08
    Na verdade, eu não sabia nada
    sobre liderança
  • 13:08 - 13:10
    até fazer aquelas expedições.
  • 13:10 - 13:14
    Porque, a dada altura, tive de perguntar,
  • 13:14 - 13:15
    "O que é que estou a fazer aqui?
  • 13:15 - 13:18
    Porque é que faço isto?
    O que é que vou aprender com isto?"
  • 13:18 - 13:21
    Nós não fazemos dinheiro
    com estes documentários.
  • 13:21 - 13:23
    Quase não cobrem os custos.
    Não nos traz fama.
  • 13:23 - 13:27
    As pessoas devem pensar que eu fugi,
    entre o "Titanic" e o "Avatar"
  • 13:27 - 13:30
    e que me estava a bronzear algures,
    sentado numa praia.
  • 13:30 - 13:32
    Fiz todos estes filmes,
    fiz todos estes documentários
  • 13:32 - 13:34
    para um público muito limitado.
  • 13:34 - 13:37
    Sem fama, sem glória, sem dinheiro.
    O que é que estás a fazer?
  • 13:37 - 13:41
    Estás a fazê-lo pela obra em si,
    pelo desafio
  • 13:41 - 13:44
    — e o oceano é o ambiente
    mais desafiador que existe —
  • 13:44 - 13:47
    pela emoção da descoberta,
  • 13:47 - 13:50
    e por aquele estranho laço que se forma
  • 13:50 - 13:54
    quando um pequeno grupo de pessoas
    formam uma equipa unida.
  • 13:54 - 13:57
    Porque nós fazíamos estas coisas
    com 10, 12 pessoas,
  • 13:57 - 13:59
    trabalhando durante anos seguidos,
  • 13:59 - 14:02
    ficando no mar por vezes,
    durante dois, três meses seguidos.
  • 14:03 - 14:06
    Naquela ligação, percebemos
  • 14:06 - 14:07
    que a coisa mais importante
  • 14:07 - 14:11
    é o respeito que nós temos por eles
    e que eles têm por nós,
  • 14:11 - 14:12
    por termos feito uma obra
  • 14:12 - 14:15
    que não conseguimos explicar
    a outras pessoas.
  • 14:15 - 14:16
    Quando voltamos à costa e dizemos:
  • 14:16 - 14:19
    "Tivemos de fazer isto,
    e a fibra ótica, e a atenuação..."
  • 14:19 - 14:21
    e isto e mais aquilo,
  • 14:21 - 14:23
    toda a tecnologia daquilo,
    e a dificuldade,
  • 14:23 - 14:25
    os aspetos do desempenho humano
    de trabalhar no mar,
  • 14:25 - 14:27
    não se consegue explicar isso às pessoas.
  • 14:27 - 14:31
    É como os polícias ou os combatentes
    que passaram juntos por qualquer coisa.
  • 14:31 - 14:34
    Eles sabem que nunca
    vão conseguir explicá-lo.
  • 14:34 - 14:36
    Criam-se laços de respeito.
  • 14:36 - 14:40
    Quando voltei para fazer o filme seguinte,
    que foi o "Avatar,"
  • 14:40 - 14:43
    tentei aplicar aquele mesmo
    princípio de liderança,
  • 14:43 - 14:46
    ou seja, respeitarmos a nossa equipa
  • 14:46 - 14:48
    e assim ganharmos o respeito dela.
  • 14:48 - 14:49
    Isso mudou muito a dinâmica.
  • 14:49 - 14:52
    Ali estava eu de novo
    com uma pequena equipa,
  • 14:52 - 14:55
    em território desconhecido,
    a fazer o "Avatar",
  • 14:55 - 14:58
    a inventar uma nova tecnologia
    que antes não existia.
  • 14:58 - 15:00
    Tremendamente excitante.
  • 15:00 - 15:02
    Tremendamente desafiador.
  • 15:02 - 15:05
    Tornámo-nos uma família,
    durante quatro anos e meio.
  • 15:05 - 15:07
    Isso mudou completamente
    a forma como faço filmes.
  • 15:07 - 15:09
    As pessoas comentavam:
  • 15:09 - 15:12
    "Trouxeste de volta
    os organismos do oceano
  • 15:12 - 15:14
    "e puseste-os no planeta de Pandora".
  • 15:14 - 15:18
    Para mim, era mais
    a forma fundamental de fazer negócio,
  • 15:18 - 15:20
    o processo em si,
    que mudou em resultado disso.
  • 15:20 - 15:23
    O que podemos resumir de tudo isto?
  • 15:23 - 15:25
    Quais são as lições aprendidas?
  • 15:25 - 15:29
    Bem, acho que a lição número um
    é a curiosidade.
  • 15:29 - 15:32
    É a coisa mais poderosa que temos.
  • 15:32 - 15:35
    A imaginação é uma força
  • 15:35 - 15:39
    que pode manifestar uma realidade.
  • 15:40 - 15:43
    E o respeito da vossa equipa
  • 15:43 - 15:48
    é mais importante do que
    todos os prémios do mundo.
  • 15:48 - 15:52
    Há jovens realizadores
    que vêm ter comigo e dizem:
  • 15:52 - 15:54
    "Dê-me um conselho para fazer isto".
  • 15:54 - 15:58
    E eu respondo:
    "Não se limitem a vocês mesmos.
  • 15:58 - 16:00
    "Outras pessoas fá-lo-ão por vocês.
  • 16:00 - 16:02
    "Não o façam vocês,
    não apostem contra vocês mesmos.
  • 16:02 - 16:04
    "E corram riscos."
  • 16:04 - 16:07
    A NASA tem este lema de que eles gostam:
  • 16:07 - 16:10
    "O fracasso não é uma opção."
  • 16:10 - 16:12
    Mas o fracasso tem que ser uma opção
  • 16:12 - 16:15
    na arte e na exploração,
    porque é um salto de fé.
  • 16:15 - 16:18
    Nenhum empreendimento importante
  • 16:18 - 16:20
    que tenha exigido inovação
  • 16:20 - 16:22
    foi feito sem correr riscos.
  • 16:22 - 16:24
    Têm de estar dispostos
    a correr esses riscos.
  • 16:24 - 16:26
    É este o pensamento que vos deixo:
  • 16:27 - 16:30
    Em tudo aquilo que vocês façam,
  • 16:30 - 16:33
    o fracasso é uma opção,
    mas o medo não é.
  • 16:35 - 16:36
    Obrigado.
  • 16:36 - 16:40
    (Aplausos)
Title:
Antes de Avatar... um rapaz curioso
Speaker:
James Cameron
Description:

Os filmes de grande orçamento (e sempre a aumentar) de James Cameron criam mundos irreais únicos. Nesta palestra pessoal, ele revela o seu fascínio pelo fantástico desde a infância — desde ler ficção científica até ao mergulho em alto mar — e como isso o conduziu ao êxito dos seus espetaculares "Aliens", "O Exterminador", "Titanic" e "Avatar".

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Video Language:
English
Team:
closed TED
Project:
TEDTalks
Duration:
16:47
Margarida Ferreira edited Portuguese subtitles for Before Avatar ... a curious boy
Margarida Ferreira edited Portuguese subtitles for Before Avatar ... a curious boy
Margarida Ferreira edited Portuguese subtitles for Before Avatar ... a curious boy
Margarida Ferreira edited Portuguese subtitles for Before Avatar ... a curious boy
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