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Pode ser por isso que você esteja deprimido ou ansioso

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    Durante um bom tempo,
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    dois mistérios me assombraram.
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    Eu não os entendia
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    e, para ser honesto,
    tinha medo de encará-los.
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    O primeiro era que, ano após ano,
    durante toda minha vida...
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    e já estou com 40 anos...
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    graves problemas de depressão
    e ansiedade aumentavam
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    nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha,
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    e em todo o mundo ocidental.
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    Eu queria entender o porquê.
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    Por que isso está acontecendo conosco?
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    Por que, a cada ano que passa,
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    mais e mais pessoas acham
    difícil levantar da cama?
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    Eu queria entender isso,
    porque era uma questão pessoal.
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    Quando adolescente,
    lembro-me de ir ao médico
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    e explicar esse sentimento
    como se a dor estivesse me consumindo.
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    Eu não podia controlá-lo,
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    não entendia o que estava acontecendo,
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    me sentia muito envergonhado.
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    Meu médico contou uma história,
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    e só agora percebi como era
    bem-intencionada, mas muito simplista,
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    não totalmente errada.
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    Ele disse: "Sabemos
    por que as pessoas se sentem assim.
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    Algumas possuem um desequilíbrio
    químico no cérebro,
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    e você é uma delas.
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    Tudo que precisamos é um tratamento,
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    e seu equilíbrio químico
    voltará ao normal".
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    Comecei a tomar uma droga
    chamada Paxil ou Seroxat,
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    mesmo remédio, mas nomes
    diferentes em outros países,
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    e me senti muito melhor, mais estimulado.
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    Mas, após algum tempo,
    o sentimento de dor começou a voltar.
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    Recebi doses cada vez mais altas
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    e, por 13 anos, tomei
    a dose máxima legalmente permitida.
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    Durante esses 13 anos,
    e praticamente o tempo todo,
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    eu sofri muito.
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    Comecei a me perguntar:
    "O que está acontecendo?
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    Fazemos tudo que nos é solicitado
    pela cultura dominante,
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    e por que a gente se sente assim?"
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    Para ir a fundo nesses dois mistérios,
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    acabei numa grande jornada pelo mundo,
    para um livro que escrevi,
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    viajando mais de 64 mil km.
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    Queria conversar
    com especialistas do mundo todo
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    sobre as causas da depressão e ansiedade
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    e, principalmente, sobre a solução,
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    e com pessoas que encontraram
    uma saída para o problema
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    das mais diversas formas.
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    Aprendi muita coisa
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    com pessoas incríveis
    que conheci ao longo do caminho.
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    Acho que, no fundo, o que aprendi
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    até agora é que temos
    evidências científicas
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    de nove causas diferentes
    da depressão e da ansiedade.
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    Duas delas estão ligadas à nossa biologia.
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    Seus genes podem torná-lo
    suscetível a esses problemas,
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    embora não determinem seu destino.
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    Existem mudanças cerebrais
    quando se está deprimido,
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    o que dificulta a cura.
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    Mas a maioria dos fatores causadores
    da depressão e ansiedade
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    não estão na biologia.
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    Estão na maneira como vivemos.
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    Depois que você os compreende,
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    abre-se um leque de opções
    a todas as pessoas,
  • 2:52 - 2:55
    além dos antidepressivos.
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    Por exemplo,
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    se você está sozinho,
    é mais fácil sentir-se deprimido.
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    Se, quando você vai trabalhar,
    não tem controle sobre nada,
  • 3:04 - 3:06
    e faz apenas o que mandam,
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    provavelmente se sentirá deprimido.
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    Se raramente tem contato com a natureza,
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    mais chance de se sentir deprimido.
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    Descobri uma coisa que interliga
    muitas causas da depressão e ansiedade.
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    Nem todas elas, mas muitas delas.
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    Todo mundo aqui sabe
    que temos necessidades físicas, certo?
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    Óbvio.
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    Precisamos comer, beber,
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    de abrigo, de ar puro.
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    Sem essas coisas,
    estaríamos com sérios problemas.
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    Mas, ao mesmo tempo,
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    todo ser humano
    tem necessidades psicológicas.
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    Precisamos nos sentir aceitos.
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    Precisamos dar significado a nossas vidas.
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    Precisamos nos sentir valorizados.
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    Precisamos sentir
    que temos um futuro pela frente.
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    Nossa cultura é boa em muitas coisas.
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    Muitas coisas estão melhorando -
    estou feliz por viver neste tempo -
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    mas estamos piorando
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    no conhecimento de nossas necessidades
    psicológicas latentes.
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    Não é a única coisa que está acontecendo,
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    mas acho que é a principal razão
    para essa crise continuar aumentando.
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    Achei isso muito difícil de absorver.
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    Lutei com a ideia
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    de não pensar na minha depressão
    apenas como um problema no meu cérebro,
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    mas com outras causas,
    incluindo a maneira como vivemos.
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    Isso começou a fazer sentido para mim
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    quando entrevistei
    um psiquiatra sul-africano
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    chamado Dr. Derek Summerfield.
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    Uma grande pessoa.
  • 4:31 - 4:35
    Ele estava no Camboja em 2001,
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    para apresentar antidepressivos químicos
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    às pessoas daquele país.
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    Os médicos locais, cambojanos,
    nunca tinham ouvido falar dessas drogas,
  • 4:43 - 4:45
    então estavam curiosos.
  • 4:45 - 4:46
    E ele explicou.
  • 4:46 - 4:48
    Eles responderam:
  • 4:48 - 4:50
    "Não precisamos delas,
    nós já temos antidepressivos".
  • 4:50 - 4:52
    E ele: "O que querem dizer"?
  • 4:52 - 4:55
    Ele pensou que falariam
    sobre algum tipo de remédio natural,
  • 4:55 - 4:59
    como erva-de-são-joão,
    ginkgo biloba, ou algo parecido.
  • 5:00 - 5:02
    Em vez disso, lhe contaram uma história.
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    Havia um agricultor em sua comunidade
    que trabalhava nos campos de arroz.
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    Um dia, ele pisou numa mina terrestre,
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    resquício da guerra com os EUA,
    e sua perna foi arrancada.
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    Ele ganhou uma perna mecânica
  • 5:13 - 5:16
    e, após um tempo, voltou
    a trabalhar nos campos de arroz.
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    Deve ser superdifícil trabalhar na água
    com um membro artificial;
  • 5:20 - 5:22
    acho que foi bem traumático
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    voltar ao mesmo campo
    em que ele perdeu a perna.
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    O rapaz chorava o dia todo,
    recusava-se a sair da cama
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    e desenvolveu todos os sintomas
    de depressão clássica.
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    O médico cambojano disse:
  • 5:33 - 5:36
    "Foi quando lhe demos um antidepressivo".
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    O Dr. Summerfield perguntou: "Como assim?"
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    Eles explicaram que se sentaram com ele,
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    e o ouviram.
  • 5:44 - 5:47
    Perceberam que a sua dor fazia sentido,
  • 5:47 - 5:50
    foi difícil para ele perceber,
    no meio da depressão,
  • 5:50 - 5:54
    mas ele tinha consciência
    das causas de sua dor.
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    Um dos médicos, conversando
    com as pessoas, pensou:
  • 5:57 - 5:59
    "Se comprássemos uma vaca para ele,
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    poderia se tornar um fazendeiro,
    e sairia daquela situação,
  • 6:03 - 6:05
    e não precisaria voltar
    a trabalhar nos arrozais".
  • 6:05 - 6:07
    Então, compraram uma vaca.
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    Em algumas semanas ele parou de chorar
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    e, em um mês, sua depressão acabou.
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    Disseram para o Summerfield:
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    "Então, doutor, aquela vaca
    era um antidepressivo, certo?"
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    (Risos)
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    (Aplausos)
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    Quem foi criado para pensar
    sobre depressão como eu pensava,
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    e a maioria aqui foi,
    parece piada de mau gosto, certo?
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    "Fui ao médico para um antidepressivo,
    e ele me deu uma vaca."
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    Mas o que os médicos cambojanos
    sabiam intuitivamente,
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    baseados nesse indivíduo,
    num episódio não científico,
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    é o que o principal corpo médico do mundo,
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    a Organização Mundial de Saúde,
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    vem tentando nos dizer há anos,
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    com base nas melhores
    evidências científicas.
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    Se você está deprimido,
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    ansioso,
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    não é fraco, nem louco,
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    não é uma máquina defeituosa.
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    Você é um ser humano
    com necessidades não atendidas.
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    É muito importante pensar
    no que aqueles médicos cambojanos
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    e a OMS não estão dizendo.
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    Eles não disseram ao agricultor:
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    "Cara, você precisa se aprumar,
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    descobrir e resolver
    esse problema sozinho".
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    Mas, pelo contrário:
  • 7:20 - 7:23
    "Estamos aqui para ajudá-lo
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    e, juntos, descobrir a causa
    e resolver esse problema".
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    É disso que as pessoas deprimidas precisam
  • 7:33 - 7:36
    e é o que elas merecem.
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    Por isso, um dos principais
    médicos das Nações Unidas,
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    em sua declaração
    para o Dia Mundial da Saúde,
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    há alguns anos, em 2017,
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    disse que precisamos falar menos
    em desequilíbrios químicos
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    e mais sobre os desequilíbrios
    na forma como vivemos.
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    As drogas ajudam algumas pessoas,
    como me ajudaram durante um período,
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    mas, justamente porque esse problema
    é muito mais complexo que nossa biologia,
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    as soluções também precisam
    ser muito mais complexas.
  • 8:01 - 8:05
    Quando compreendi isso, lembro de pensar:
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    "Consigo ver as evidências científicas,
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    li um grande número de artigos,
    entrevistei muitos especialistas",
  • 8:11 - 8:14
    mas continuava pensando:
    "Como resolver isso?"
  • 8:14 - 8:16
    As coisas que estão nos deprimindo
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    são mais complexas
    do que aquilo que ocorreu
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    com o agricultor cambojano.
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    Com base nesse "insight",
    por onde começar?
  • 8:23 - 8:27
    Na longa jornada do meu livro,
    pelo mundo todo,
  • 8:28 - 8:30
    conheci pessoas que estavam
    fazendo exatamente isso,
  • 8:30 - 8:34
    de Sydney a São Francisco, a São Paulo.
  • 8:34 - 8:36
    Conheci pessoas que estavam pesquisando
  • 8:36 - 8:38
    as causas mais profundas
    da depressão e ansiedade
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    e, em grupos, trazendo soluções.
  • 8:41 - 8:45
    Não dá pra falar sobre todas as pessoas
    incríveis que conheci e sobre quem escrevi
  • 8:45 - 8:48
    ou todas as nove causas da depressão
    e ansiedade que aprendi,
  • 8:48 - 8:52
    pois não permitem uma palestra TED
    de dez horas, e vocês iam reclamar.
  • 8:52 - 8:55
    Assim, gostaria
    de concentrar em duas causas
  • 8:55 - 8:58
    e duas soluções que apareceram.
  • 8:59 - 9:00
    Primeira:
  • 9:00 - 9:03
    somos a sociedade mais solitária
    na história da humanidade.
  • 9:03 - 9:06
    Recentemente, um estudo
    perguntou aos norte-americanos:
  • 9:06 - 9:09
    "Você se sente próximo de alguém?"
  • 9:09 - 9:13
    E 39% das pessoas responderam:
  • 9:13 - 9:14
    "Não tenho ninguém".
  • 9:14 - 9:17
    Nas medições internacionais de solidão,
  • 9:17 - 9:19
    a Grã-Bretanha e a Europa
    vêm logo atrás dos EUA,
  • 9:20 - 9:21
    caso alguém se ache superior.
  • 9:21 - 9:22
    (Risos)
  • 9:22 - 9:24
    Passei muito tempo discutindo isso
  • 9:24 - 9:27
    com o maior especialista
    mundial em solidão,
  • 9:27 - 9:30
    um homem incrível, o professor
    John Cacioppo, de Chicago,
  • 9:30 - 9:33
    e pensei numa questão que ele levantou.
  • 9:33 - 9:35
    O professor perguntou:
  • 9:35 - 9:37
    "Por que existimos?
  • 9:37 - 9:39
    Por que estamos aqui, vivos?"
  • 9:39 - 9:41
    Um dos principais motivos
  • 9:41 - 9:44
    é que nossos ancestrais
    nas savanas da África
  • 9:44 - 9:46
    eram muito bons numa coisa.
  • 9:46 - 9:50
    Eles não eram maiores
    do que os animais que caçavam,
  • 9:50 - 9:53
    não eram mais rápidos,
  • 9:53 - 9:56
    mas eram muito melhores em grupos
  • 9:56 - 9:57
    e cooperação.
  • 9:57 - 10:01
    Esse foi o nosso superpoder
    como espécie, nós nos unimos,
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    e, assim como as abelhas nas colmeias,
  • 10:04 - 10:06
    vivemos em tribos.
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    Somos os primeiros humanos
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    a abandonar nossas tribos.
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    Isso nos fez muito mal.
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    Mas não precisa ser assim.
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    Um dos heróis do meu livro e da minha vida
  • 10:20 - 10:22
    é um médico chamado Sam Everington.
  • 10:22 - 10:25
    Ele é clínico geral numa região
    pobre do leste de Londres,
  • 10:25 - 10:26
    onde morei por muitos anos.
  • 10:26 - 10:30
    Sam estava muito incomodado
    porque muitos pacientes
  • 10:30 - 10:32
    apareciam muito depressivos e ansiosos.
  • 10:32 - 10:35
    Assim como eu, ele não se opõe
    ao uso de antidepressivos,
  • 10:35 - 10:37
    e acha que dão alívio a algumas pessoas.
  • 10:37 - 10:38
    Ele observou duas coisas.
  • 10:39 - 10:42
    Primeiro, os pacientes eram depressivos
    e ansiosos na maior parte do tempo,
  • 10:42 - 10:46
    e uma das razões, bastante
    compreensível, era a solidão.
  • 10:46 - 10:49
    Segundo, embora as drogas
    ajudassem algumas pessoas,
  • 10:49 - 10:52
    para outras, elas não
    resolviam o problema.
  • 10:52 - 10:54
    O problema era mais profundo.
  • 10:54 - 10:57
    Um dia, Sam decidiu
    fazer uma abordagem diferente.
  • 10:57 - 10:59
    Uma mulher veio à sua clínica,
  • 10:59 - 11:00
    Lisa Cunningham.
  • 11:01 - 11:02
    Eu a conheci depois.
  • 11:02 - 11:06
    Lisa vivia trancada em casa
    com depressão e ansiedade incapacitantes
  • 11:07 - 11:08
    havia sete anos.
  • 11:09 - 11:12
    Quando ela chegou à clínica,
    disseram: "Não se preocupe,
  • 11:12 - 11:14
    continuaremos com os medicamentos,
  • 11:14 - 11:16
    mas também prescreveremos mais uma coisa.
  • 11:17 - 11:20
    Você deverá vir à clínica
    duas vezes por semana
  • 11:20 - 11:23
    se reunir com um grupo de pessoas
    deprimidas e ansiosas,
  • 11:23 - 11:26
    não para falar sobre o quão mal você está,
  • 11:26 - 11:29
    mas descobrir algo significativo
    para fazerem juntos,
  • 11:29 - 11:32
    para você não se sentir sozinha,
    achando que a vida é inútil".
  • 11:32 - 11:35
    Na primeira vez que o grupo se reuniu,
  • 11:35 - 11:37
    Lisa, literalmente, vomitou de ansiedade,
  • 11:37 - 11:39
    foi muito difícil para ela.
  • 11:39 - 11:42
    As pessoas massagearam
    suas costas, perguntando:
  • 11:42 - 11:44
    "O que podemos fazer por você?"
  • 11:44 - 11:47
    Eram pessoas do leste de Londres, como eu,
    e não sabiam nada sobre jardinagem.
  • 11:47 - 11:52
    "Por que não aprender jardinagem?" -
    havia um matagal atrás dos consultórios -
  • 11:52 - 11:55
    "Por que não fazer um jardim?"
  • 11:55 - 11:59
    Começaram a pegar livros na biblioteca
    e a assistir clipes no YouTube.
  • 11:59 - 12:02
    E começaram a trabalhar na terra.
  • 12:02 - 12:05
    Estudaram os ciclos das estações.
  • 12:05 - 12:08
    Há muitas evidências
    de que a exposição à natureza
  • 12:08 - 12:10
    é um antidepressivo muito poderoso.
  • 12:10 - 12:13
    Mas elas começaram a fazer algo
    ainda mais importante.
  • 12:13 - 12:15
    Começaram a formar uma tribo,
  • 12:15 - 12:17
    a formar um grupo,
  • 12:17 - 12:19
    a se preocupar umas com as outras.
  • 12:19 - 12:21
    Se um não aparecia,
  • 12:21 - 12:23
    os outros o procuravam: "Você está bem?",
  • 12:23 - 12:26
    para saber qual tinha sido o problema.
  • 12:26 - 12:28
    Nas palavras de Lisa,
  • 12:28 - 12:31
    "quando o jardim começou a florescer,
  • 12:31 - 12:32
    nós começamos a florescer".
  • 12:32 - 12:36
    Essa abordagem, chamada prescrição social,
    é conhecida por toda a Europa.
  • 12:36 - 12:38
    Há pequenas, mas crescentes evidências,
  • 12:38 - 12:41
    sugerindo quedas significativas
  • 12:41 - 12:43
    na depressão e ansiedade.
  • 12:43 - 12:49
    Um dia, em pé no jardim cultivado
    por Lisa e seus amigos,
  • 12:49 - 12:52
    um jardim muito bonito,
    comecei a pensar,
  • 12:52 - 12:56
    inspirado pelo professor
    Hugh Mackay, da Austrália:
  • 12:56 - 13:01
    quando as pessoas estão mal
    em nossa cultura,
  • 13:01 - 13:04
    o que dizemos a elas, tenho certeza,
    todos aqui já disseram, é:
  • 13:04 - 13:07
    "Você só precisa ser você mesmo".
  • 13:08 - 13:10
    Na verdade, deveríamos dizer:
  • 13:10 - 13:12
    "Não seja você.
  • 13:12 - 13:14
    Não seja você mesmo;
  • 13:14 - 13:16
    seja nós, sejamos nós.
  • 13:17 - 13:18
    Seja parte do grupo".
  • 13:18 - 13:21
    (Aplausos)
  • 13:22 - 13:24
    A solução para esses problemas
  • 13:24 - 13:29
    não está em usar seus próprios recursos
    como um indivíduo isolado -
  • 13:29 - 13:31
    isso, em parte, nos levou a esta crise -,
  • 13:31 - 13:34
    mas se reconectar com algo maior que você.
  • 13:34 - 13:36
    Isso está interligado com outras causas
  • 13:36 - 13:39
    de depressão e ansiedade
    que gostaria de comentar.
  • 13:39 - 13:41
    Como todos sabem,
  • 13:41 - 13:45
    estamos comendo muita besteira
    e isso nos deixou fisicamente doentes.
  • 13:45 - 13:47
    Não digo isso com superioridade,
  • 13:47 - 13:49
    passei no McDonald's antes desta palestra.
  • 13:49 - 13:53
    Vi todos vocês tomando
    um café da manhã saudável no TED.
  • 13:53 - 13:58
    Assim como as besteiras
    nos deixaram fisicamente doentes,
  • 13:58 - 14:02
    uma espécie de princípios inadequados
    assumiram nossas mentes,
  • 14:02 - 14:04
    deixando-nos mentalmente doentes.
  • 14:04 - 14:07
    Há milhares de anos, filósofos disseram:
  • 14:07 - 14:12
    se achar que a vida
    é só dinheiro, status e ostentação,
  • 14:12 - 14:13
    você vai se sentir um lixo.
  • 14:13 - 14:17
    Não é uma citação exata de Schopenhauer,
    mas é a essência do que ele disse.
  • 14:17 - 14:20
    Estranhamente, quase ninguém
    tinha investigado isso cientificamente,
  • 14:20 - 14:24
    até eu conhecer uma pessoa extraordinária
    o professor Tim Kasser,
  • 14:24 - 14:26
    que está no Knox College em Illinois,
  • 14:26 - 14:29
    e tem pesquisado esse assunto
    há cerca de 30 anos.
  • 14:29 - 14:32
    Sua pesquisa sugere
    várias coisas muito importantes.
  • 14:32 - 14:35
    Primeiro, quanto mais você acredita
  • 14:35 - 14:40
    que consumir e ostentar afasta a tristeza
  • 14:40 - 14:42
    e melhora a vida,
  • 14:42 - 14:45
    maior a probabilidade de se tornar
    deprimido e ansioso.
  • 14:45 - 14:46
    Segundo,
  • 14:46 - 14:51
    como sociedade, nos tornamos
    muito mais suscetíveis a essas crenças.
  • 14:51 - 14:52
    Durante toda minha vida,
  • 14:52 - 14:56
    fui dominado por propagandas,
    Instagram e tudo o mais.
  • 14:57 - 14:58
    Enquanto pensava sobre isso,
  • 14:58 - 15:04
    percebi que fomos alimentados
    por uma espécie de KFC para a alma.
  • 15:04 - 15:08
    Fomos treinados a procurar
    a felicidade nos lugares errados
  • 15:08 - 15:11
    e, assim como as besteiras não
    suprem necessidades nutricionais
  • 15:11 - 15:13
    e nos fazem sentir horríveis,
  • 15:13 - 15:16
    valores fajutos não atendem
    nossas necessidades psicológicas,
  • 15:16 - 15:19
    privando-nos de uma vida de qualidade.
  • 15:19 - 15:22
    A primeira vez que passei tempo
    com o professor Kasser,
  • 15:22 - 15:23
    aprendendo tudo isso,
  • 15:23 - 15:26
    senti uma mistura estranha de emoções.
  • 15:26 - 15:28
    Por um lado, achei isso desafiador.
  • 15:28 - 15:32
    Pude ver quantas vezes,
    quando estava triste,
  • 15:32 - 15:37
    tentei remediar a situação ostentando,
    buscando uma solução externa grandiosa.
  • 15:37 - 15:40
    Claro que Isso não funcionou muito bem.
  • 15:41 - 15:44
    Também pensei: "Não é óbvio?
  • 15:44 - 15:46
    Não é quase banal?"
  • 15:46 - 15:49
    Se eu disser a vocês que ninguém
    vai se deitar no leito de morte
  • 15:49 - 15:52
    e pensar em todos os sapatos
    que comprou e os retuítes que recebeu,
  • 15:52 - 15:55
    mas, sim, nos momentos
    de amor, significado e conexão,
  • 15:55 - 15:57
    vai parecer quase um clichê.
  • 15:57 - 16:01
    Daí, perguntei ao professor Kasser:
  • 16:01 - 16:03
    "Por que estou sentindo essa dubiedade?"
  • 16:03 - 16:07
    Ele disse: "No fundo,
    todos sabemos essas coisas,
  • 16:07 - 16:09
    mas, nesta cultura,
    não vivemos segundo elas.
  • 16:09 - 16:13
    São tão conhecidas que viraram clichê,
    mas não vivemos segundo elas".
  • 16:13 - 16:16
    Continuei perguntando a ele
    a razão de sabermos algo tão profundo
  • 16:16 - 16:17
    e não vivermos de acordo.
  • 16:17 - 16:20
    Depois de um tempo,
    o professor Kasser respondeu:
  • 16:21 - 16:23
    "Porque moramos numa máquina
  • 16:23 - 16:27
    projetada para negligenciar
    o que é importante na vida".
  • 16:27 - 16:29
    Eu parei pra pensar naquilo:
  • 16:29 - 16:32
    "Porque moramos numa máquina
    projetada para negligenciar
  • 16:32 - 16:34
    o que é importante na vida".
  • 16:34 - 16:38
    O professor Kasser queria descobrir
    se poderíamos sabotar essa máquina.
  • 16:38 - 16:40
    Ele pesquisou muito;
  • 16:40 - 16:42
    vou dar um exemplo
  • 16:42 - 16:45
    e peço a todos para tentar
    isso com seus amigos e familiares.
  • 16:45 - 16:48
    Junto com Nathan Dungan, ele
    estimulou adolescentes e adultos
  • 16:48 - 16:53
    a se reunir numa série de sessões
    durante um período de tempo.
  • 16:53 - 16:54
    Parte do objetivo do grupo
  • 16:54 - 16:58
    era levar as pessoas a pensar
    sobre um momento em suas vidas
  • 16:58 - 17:01
    em que encontraram
    significado e propósito.
  • 17:01 - 17:03
    Para pessoas diferentes,
    coisas diferentes.
  • 17:03 - 17:06
    Para alguns era tocar um instrumento,
    escrever, ajudar alguém...
  • 17:06 - 17:09
    tenho certeza de que todos aqui
    podem pensar em algo, certo?
  • 17:09 - 17:12
    Parte do objetivo era levar
    as pessoas a se perguntarem:
  • 17:12 - 17:15
    "Como dedicar mais da nossa vida
  • 17:15 - 17:18
    para buscar momentos
    e propósitos significativos,
  • 17:18 - 17:21
    e menos dela comprando
    bobagens de que não precisamos,
  • 17:21 - 17:25
    postando nas mídias sociais apenas
    para os outros dizerem: 'Que inveja!'?"
  • 17:25 - 17:28
    O que eles descobriram
    foi que, apenas com essas reuniões,
  • 17:28 - 17:31
    uma espécie de Alcoólicos Anônimos
    para consumistas,
  • 17:32 - 17:35
    conseguir a participação das pessoas,
    articular esses valores,
  • 17:35 - 17:37
    determinar como agir
    e se conectar aos outros
  • 17:37 - 17:40
    levou a uma mudança acentuada
    nos valores pessoais.
  • 17:40 - 17:45
    Levou-os para longe deste furacão
    de mensagens geradoras de depressão,
  • 17:45 - 17:47
    que induzem a busca da felicidade
    nos lugares errados,
  • 17:47 - 17:51
    para valores mais
    significativos e gratificantes
  • 17:51 - 17:53
    que nos ajudam a sair da depressão.
  • 17:53 - 17:57
    Mas, muitas das soluções que vi
    e sobre as quais escrevi,
  • 17:57 - 17:59
    e não dá pra falar de todas aqui,
  • 17:59 - 18:01
    fiquei analisando:
  • 18:01 - 18:05
    por que demorei tanto para compreender?
  • 18:05 - 18:09
    Quando as explicamos pra pessoas,
    e algumas são mais complicadas que outras,
  • 18:09 - 18:11
    não é um bicho de sete cabeças, certo?
  • 18:11 - 18:14
    De certa forma, conhecemos essas coisas.
  • 18:14 - 18:17
    Por que é tão difícil de entender?
  • 18:17 - 18:19
    Acho que há muitas razões.
  • 18:19 - 18:24
    Mas a principal é que precisamos
    mudar nosso entendimento
  • 18:24 - 18:27
    do que é depressão e ansiedade.
  • 18:28 - 18:32
    A biologia contribui muito
    para a depressão e a ansiedade.
  • 18:32 - 18:36
    Mas, se permitirmos que ela
    seja a principal responsável,
  • 18:36 - 18:41
    como pensei grande parte da vida
    - e a cultura também faz pensar assim -,
  • 18:41 - 18:45
    o que estamos dizendo implicitamente
    às pessoas, e não é nossa intenção,
  • 18:45 - 18:48
    mas o que estamos dizendo
    implicitamente é:
  • 18:48 - 18:50
    "Sua dor não significa nada.
  • 18:51 - 18:52
    É apenas um mau funcionamento.
  • 18:52 - 18:54
    É como uma falha
    num programa de computador,
  • 18:54 - 18:57
    é um problema de fios
    soltos na sua cabeça".
  • 18:58 - 19:01
    Só consegui mudar minha vida
  • 19:01 - 19:06
    quando entendi que depressão
    não é um mau funcionamento.
  • 19:07 - 19:08
    É um sinal.
  • 19:09 - 19:11
    Sua depressão é um sinal.
  • 19:11 - 19:13
    Ela está te dizendo alguma coisa.
  • 19:13 - 19:15
    (Aplausos)
  • 19:18 - 19:20
    Sentimos-nos assim por razões,
  • 19:20 - 19:23
    às vezes difíceis de ser entendidas
    no meio duma depressão.
  • 19:23 - 19:25
    Sei disso muito bem
    por experiência própria.
  • 19:25 - 19:29
    Com a ajuda certa, podemos
    compreender esses problemas
  • 19:29 - 19:31
    e resolvê-los juntos.
  • 19:31 - 19:34
    Mas, para isso, o primeiro passo
  • 19:34 - 19:37
    é parar de desprezar esses sinais,
  • 19:37 - 19:41
    afirmando que são sinais de fraqueza,
    ou loucura, ou puramente biológicos,
  • 19:41 - 19:43
    caso de um pequeno número de pessoas.
  • 19:43 - 19:47
    Precisamos começar a ouvir esses sinais,
  • 19:47 - 19:50
    porque eles estão dizendo
    o que precisamos ouvir.
  • 19:51 - 19:55
    Somente quando realmente
    ouvirmos esses sinais,
  • 19:56 - 19:59
    e aceitá-los e respeitá-los,
  • 20:00 - 20:02
    é que começaremos a enxergar
  • 20:02 - 20:06
    soluções libertadoras,
    saudáveis e profundas:
  • 20:07 - 20:11
    as vacas que esperam ao nosso redor.
  • 20:12 - 20:13
    Obrigado.
  • 20:13 - 20:15
    (Aplausos) (Vivas)
Títol:
Pode ser por isso que você esteja deprimido ou ansioso
Speaker:
Johann Hari
Descripció:

Numa palestra emocionante e voltada para a prática, o jornalista Johann Hari compartilha ideias novas sobre as causas da depressão e da ansiedade, colhidas de especialistas do mundo todo - bem como algumas soluções novas e animadoras. "Se você está deprimido ou ansioso, não é fraco nem louco - é um ser humano com necessidades não atendidas", afirma Hari.

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Video Language:
English
Team:
TED
Projecte:
TEDTalks
Duration:
20:31

Portuguese, Brazilian subtitles

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