< Return to Video

Orgulho em Acolher | Episódio 04: Casa Resistências

  • 0:00 - 0:02
    Meu nome é Kelly
  • 0:02 - 0:03
    eu sou trans
  • 0:04 - 0:05
    eu moro na Maré...
  • 0:05 - 0:07
    Eu me chamo Paloma, tenho 38 anos,
  • 0:07 - 0:09
    sou moradora do Complexo da Maré.
  • 0:11 - 0:13
    Sou uma mulher cis, lésbica,
  • 0:13 - 0:16
    me relaciono com mulheres
    desde os meus 18 anos.
  • 0:17 - 0:18
    E atualmente casada...
  • 0:18 - 0:20
    com uma mulher.
  • 0:21 - 0:25
    Primeiro você por ser mulher,
    favelada, sapatão. Entendeu?
  • 0:25 - 0:28
    A gente não... geralmente a gente
    não tem uma rede de apoio
  • 0:28 - 0:31
    nem familiar, nem nada disso.
  • 0:31 - 0:35
    Então a Casa Resistências, ela se torna
    importante justamente por isso.
  • 0:35 - 0:37
    É saber que você, a qualquer momento
    do dia e da noite,
  • 0:37 - 0:40
    a gente sabe que tem um lugar
    onde a gente possa correr.
  • 0:48 - 0:50
    Então, a Casa Resistências nasce
  • 0:50 - 0:54
    a partir das iniciativas da Coletiva
    Resistência Lésbica da Maré.
  • 0:54 - 0:57
    A gente começa a receber uma demanda
    de meninas que precisavam
  • 0:57 - 0:59
    ficar nas casas de companheiras nossas
  • 0:59 - 1:02
    porque tinham sido expulsas de casa
    por seus familiares
  • 1:02 - 1:04
    ao descobrirem que elas são lésbicas.
  • 1:05 - 1:10
    Então, ao longo de 2018 a gente
    foi lidando muito com isso.
  • 1:10 - 1:12
    Em 2019, também.
  • 1:12 - 1:17
    E em 2020, com a pandemia, isso
    ficou muito mais forte.
  • 1:18 - 1:20
    E aí eu começo então um
    movimento de pensar
  • 1:20 - 1:25
    que não dá mais pra gente cuidar de um
    problema social de tanta magnitude
  • 1:25 - 1:27
    só do jeito que a gente está fazendo.
  • 1:27 - 1:30
    A gente começa, então, a gestar
    a Casa Resistências,
  • 1:30 - 1:32
    buscando parcerias.
  • 1:32 - 1:36
    A casa me ajudou muito na parte
    de alimentação mesmo,
  • 1:36 - 1:39
    porque lá em casa somos
    cinco pessoas
  • 1:39 - 1:40
    e as cinco desempregadas.
  • 1:41 - 1:44
    E... ela ajudou muito nessa
    parte da alimentação.
  • 1:44 - 1:47
    Ah, eu me sinto, tipo, acolhida...
  • 1:47 - 1:50
    tipo um lugar que, se a gente precisar
    vir e chegar e falar assim:
  • 1:50 - 1:52
    "Ai, a gente tá precisando
    de um alimento",
  • 1:52 - 1:54
    eles vão dar um alimento a nós.
  • 1:54 - 1:57
    Aqui, eu me sinto mais em casa
    do que na minha casa,
  • 1:57 - 1:59
    porque aqui não tem stress.
  • 1:59 - 2:00
    Aqui é só...
  • 2:00 - 2:05
    é aquele momento, tipo, é pra
    gente relaxar, esfriar a cabeça,
  • 2:05 - 2:07
    conversar, ser a gente mesmo,
  • 2:07 - 2:10
    coisa que muita das vezes a gente não
    pode ser nem dentro da nossa casa.
  • 2:10 - 2:15
    Eu diria que o principal serviço é
    produção segura de sociabilidade
  • 2:16 - 2:18
    E a casa é pensada intencionalmente pra isso.
  • 2:18 - 2:21
    Quando a gente tem uma laje,
    com chuveirão,
  • 2:21 - 2:25
    uma laje pensada pro
    churrasquinho do fim de tarde,
  • 2:25 - 2:29
    a gente não está pensando na
    festa enquanto bagunça,
  • 2:29 - 2:33
    a gente está pensando na festa, enquanto
    produção de sociabilidade,
  • 2:33 - 2:34
    enquanto um espaço seguro.
  • 2:35 - 2:38
    Esse para mim é o principal
    ganho da casa.
  • 2:38 - 2:40
    A gente tem um lugar onde
  • 2:40 - 2:44
    mulheres podem festejar o seu amor
    e isso não ser alvo de violência.
  • 2:44 - 2:48
    A gente sempre pensa a casa também
    como um espaço de empregabilidade,
  • 2:48 - 2:50
    tanto para vínculos formais,
  • 2:50 - 2:52
    e pra isso a gente abre
    algumas parcerias,
  • 2:52 - 2:54
    mas também para trabalhadoras informais,
  • 2:54 - 2:57
    porque a gente não entende o cuidado
  • 2:58 - 3:00
    desmembrado.
  • 3:00 - 3:05
    Pra gente, cuidar da saúde mental
    é garantir saúde integral.
  • 3:05 - 3:07
    E a gente entende
  • 3:07 - 3:11
    a questão do fortalecimento da saúde
    mental das nossas mulheres
  • 3:11 - 3:12
    como principal bem,
  • 3:12 - 3:16
    porque se você não tem condições
    emocionais sólidas
  • 3:16 - 3:18
    ou minimamente organizadas,
  • 3:18 - 3:22
    você não sustenta nenhum processo de cuidado
    de produção de direitos humanos.
  • 3:28 - 3:30
    Então, o acolhimento aqui na casa,
  • 3:30 - 3:33
    ele segue a lógica antimanicomial.
  • 3:33 - 3:37
    Então, as acolhidas chegam por vias diversas
  • 3:37 - 3:40
    e o acolhimento aqui tem essa ideia
  • 3:40 - 3:43
    de ser um acolhimento de até três meses,
  • 3:43 - 3:46
    onde a gente discute com aquela
    mulher que vai chegar
  • 3:46 - 3:49
    todos os passos que vão ser feitos, né?
  • 3:49 - 3:52
    Ela ganha a chave aqui da porta,
  • 3:52 - 3:56
    então ela pode circular livremente tanto
    pela casa quanto pelo território.
  • 3:56 - 3:58
    Então a moça não chega aqui,
    vai ficar presa.
  • 3:58 - 4:02
    Ela vai poder circular, fazer a sua
    própria comida,
  • 4:02 - 4:04
    ter os utensílios necessários pra isso.
  • 4:04 - 4:09
    Eu tenho a chave da casa. Posso entrar
    e sair a hora que eu quiser, entendeu?
  • 4:09 - 4:13
    E a casa pra mim, aqui é como se
    fosse minha segunda casa.
  • 4:13 - 4:14
    De verdade.
  • 4:14 - 4:17
    Na verdade, eu me sinto mais acolhida
    aqui do que na minha casa.
  • 4:18 - 4:22
    Então, se você consegue garantir
    alimentação, moradia,
  • 4:22 - 4:25
    um acompanhamento que sustente
    a cabeça dessa menina,
  • 4:25 - 4:28
    ela não vai viver na rua, ela vai
    se sentir acompanhada.
  • 4:28 - 4:32
    Se você consegue que ela tenha um
    emprego, você deu dignidade mínima
  • 4:32 - 4:36
    A casa acolhe também, mas
    não é só o acolhimento
  • 4:36 - 4:38
    Ela é uma casa de afeto também.
  • 4:40 - 4:41
    E a gente acredita também que
  • 4:41 - 4:47
    é muito importante mostrar para essas
    pessoas aqui desse território,
  • 4:47 - 4:49
    que é um território marginalizado,
  • 4:49 - 4:54
    mostrar que a psicologia é
    uma coisa possível, né?
  • 4:55 - 4:58
    Oferecer esse acesso à psicologia
  • 4:58 - 5:02
    como uma coisa que não é
    só da burguesia, né?
  • 5:02 - 5:06
    Que o povo favelado também tem
    esse direito a esse cuidado.
  • 5:06 - 5:10
    E ter esse esse espaço aqui na casa
  • 5:10 - 5:11
    eu acho que é um pouco disso também,
  • 5:11 - 5:14
    trazer a psicologia pra perto
    dessas pessoas
  • 5:14 - 5:17
    e mostrar que elas também
    têm direito a esse cuidado.
  • 5:18 - 5:19
    Isso, teve um acolhimento bom...
  • 5:20 - 5:21
    tipo um carinho.
  • 5:22 - 5:25
    Tipo coisas que às vezes eu não
    tinha nem lá onde que eu morava.
  • 5:25 - 5:27
    A casa também me ajudou nisso.
  • 5:27 - 5:30
    Ah, porque é a única que dão valor
    a gente, porque o resto...
  • 5:30 - 5:33
    sinceramente, nem liga pra gente.
  • 5:39 - 5:42
    Seria muito importante por dentro
    da máquina do Estado
  • 5:42 - 5:44
    a gente ter esse serviço específico, né?
  • 5:44 - 5:47
    Pra que a Casa Resistências pudesse
    ser só um espaço de arte e cultura.
  • 5:48 - 5:50
    Eu penso que sim,
  • 5:50 - 5:54
    a ajuda do governo pudesse ser
    importante pra algumas ações,
  • 5:54 - 5:56
    sobretudo a garantia de alimentação,
  • 5:56 - 5:58
    que é uma coisa que é muito custosa
    para nós, porque é mensal, né?
  • 5:59 - 6:01
    Sim, acho que é essencial
    ter políticas públicas
  • 6:01 - 6:04
    pra manutenção de espaços como esse.
  • 6:04 - 6:08
    Não só essa casa como até a
    ampliação pra outros locais também.
  • 6:08 - 6:11
    A gente tem custos com energia,
  • 6:11 - 6:14
    a gente tem custos com a
    alimentação das meninas,
  • 6:14 - 6:17
    custos com deslocamento para
    entrevistas de emprego,
  • 6:17 - 6:20
    deslocamentos para cuidado em saúde,
  • 6:20 - 6:22
    de manter uma pessoa de
    apoio administrativo aqui,
  • 6:22 - 6:27
    pra minimamente ajudar, porque
    todas nós da coletiva trabalhamos.
  • 6:27 - 6:29
    Então aqui a gente faz como voluntário,
  • 6:29 - 6:32
    é a equipe da casa é inteira
    voluntária ou por parceria.
  • 6:32 - 6:34
    E tudo porque a gente não tem grana.
  • 6:40 - 6:44
    No meu sonho, a gente teria uma grana
    para poder bancar uma equipe fixa,
  • 6:44 - 6:48
    pra que todo mundo pudesse trabalhar
    só pra Casa Resistências.
  • 6:48 - 6:51
    Eu acho que assim a gente poderia oferecer
    mais serviços pras mulheres do território.
  • 6:51 - 6:55
    Eu acho que a casa por si
    só já é um sonho, né?
  • 6:56 - 7:02
    É difícil imaginar mais porque parece que todo dia
    a gente está fazendo uma coisa que não é possível,
  • 7:02 - 7:05
    mas que é feito aqui todo dia.
  • 7:05 - 7:09
    Então eu acho que essa casa
    existir já é um sonho, assim...
  • 7:09 - 7:12
    daqui há cinco anos que o sonho
    é que ela continue existindo.
  • 7:13 - 7:14
    Ai, que sempre continue...
  • 7:15 - 7:19
    Sempre continue, que ela é muito boa.
    O povo é muito bom mesmo.
  • 7:19 - 7:21
    E os únicos que ajudam a gente,
    na verdade.
  • 7:21 - 7:25
    Daqui há uns cinco anos eu quero que
    essa casa esteja toda reformulada...
  • 7:25 - 7:26
    reformada.
  • 7:26 - 7:29
    E eu espero que a casa seja
    nossa de verdade.
  • 7:29 - 7:32
    Que a gente possa dizer:
    "Aqui é a Casa Resistências"
  • 7:32 - 7:33
    "É nossa."
  • 7:33 - 7:37
    E, tipo, num outro mundo,
    uma outra cara...
  • 7:37 - 7:40
    Mas assim, que a gente possa mesmo
    chegar, fazer uma comida
  • 7:40 - 7:42
    e tapar isso daqui,
  • 7:42 - 7:45
    poder fazer um vídeo descente,
    sem esse barulho.
  • 7:46 - 7:47
    Entendeu? Eu vejo ela...
  • 7:47 - 7:50
    e com bastante sapatão, de preferência.
  • 7:51 - 7:52
    Bastante acolhida.
  • 7:52 - 7:56
    Não que... não que necessariamente 
    precisamos ficar acolhidas aqui
  • 7:56 - 7:57
    pra sempre, que a ideia não é essa.
  • 7:57 - 8:01
    A ideia é a gente vir, entendeu?
    Esfriar a cabeça,
  • 8:01 - 8:03
    voltar pro nosso eu
  • 8:03 - 8:05
    e voltar pro nosso lar.
  • 8:05 - 8:07
    Que a casa sempre esteja de pé.
Title:
Orgulho em Acolher | Episódio 04: Casa Resistências
Description:

more » « less
Video Language:
Portuguese, Brazilian
Team:
Amplifying Voices
Project:
All Out
Duration:
08:25

Portuguese, Brazilian subtitles

Revisions Compare revisions