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A minha obsessão por objetos e pelas histórias que eles contam

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    Há uns quatro anos,
    a revista New Yorker publicou um artigo
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    sobre um conjunto de ossos de dodó
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    encontrado num poço na ilha Maurícia.
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    A ilha Maurícia é uma pequena ilha
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    ao largo da costa oriental de Madagáscar,
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    no Oceano Índico, e é o lugar
    onde foi descoberto a ave dodó
  • 0:19 - 0:22
    e onde se extinguiu, num período
    de cerca de 150 anos.
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    Toda a gente ficou excitada
    com esta descoberta arqueológica,
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    porque significava
    que talvez pudessem montar
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    um esqueleto de dodó completo.
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    Embora museus em todo o mundo
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    tenham esqueletos de dodó
    nas suas coleções,
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    ninguém, nem sequer o Museu
    de História Natural da ilha Maurícia
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    tem um esqueleto composto
    por ossos de um único dodó.
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    Bem, isto não é inteiramente verdade.
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    Na realidade, o Museu Britânico
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    teve um espécime completo
    de dodó na sua coleção
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    até ao século XVIII.
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    Totalmente mumificado, com pele e tudo,
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    mas, durante um ataque
    de poupança de espaço,
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    cortaram-lhe a cabeça e as patas,
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    e queimaram o resto numa fogueira.
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    Se consultarem o site deles, hoje em dia,
  • 0:59 - 1:01
    eles referem esses espécimes, e dizem:
  • 1:01 - 1:04
    "o resto perdeu-se num incêndio".
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    Não é bem toda a verdade. Mas enfim...
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    A primeira página do artigo
    era esta fotografia.
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    Eu acho que a Tina Brown
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    fez fotografias fantásticas
    para o The New Yorker,
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    porque esta fotografia
    fez tremer o meu mundo.
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    Fiquei obcecado com o objeto,
  • 1:18 - 1:20
    e não apenas com a fotografia lindíssima,
  • 1:20 - 1:23
    com a cor, a profundidade de campo,
    os detalhes que se veem,
  • 1:23 - 1:25
    o arame que se vê aqui no bico,
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    que o conservador usou
    para montar o esqueleto.
  • 1:27 - 1:29
    Há aqui toda uma história.
  • 1:29 - 1:31
    E pensei para mim mesmo:
  • 1:31 - 1:33
    Não seria o máximo
  • 1:33 - 1:37
    se eu tivesse o meu próprio
    esqueleto de dodó?
  • 1:37 - 1:39
    (Risos)
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    Tenho de confessar, neste momento,
  • 1:42 - 1:44
    que passei a minha vida obcecado
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    por objetos e pelas histórias
    que eles contam,
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    e este era o mais recente dessa lista.
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    Portanto, comecei à procura,
    a ver se alguém vendia algum kit,
  • 1:53 - 1:55
    algum modelo que eu pudesse comprar.
  • 1:55 - 1:58
    Descobri imenso material
    de referência, imensas fotografias,
  • 1:58 - 2:02
    mas só isso; continuava sem um esqueleto,
    mas o mal já estava feito.
  • 2:02 - 2:04
    Tinha umas centenas
    de fotos de esqueletos de dodó
  • 2:04 - 2:06
    na minha pasta de "Projetos Criativos",
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    um armazém para o meu cérebro,
    com tudo o que me possa vir a interessar.
  • 2:10 - 2:12
    Sempre que tenho ligação à Internet
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    guardo lá coisas que nunca mais acabam,
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    desde anéis lindíssimos
    a fotografias de cockpits.
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    A chave que o Marquês de Lafayette
    enviou a George Washington
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    para celebrar a tomada da Bastilha.
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    Uma chave de lançamentos
    nucleares da Rússia.
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    A de cima é uma foto
    de uma que achei no eBay,
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    a de baixo foi feita por mim,
  • 2:29 - 2:32
    porque não tinha dinheiro
    para comprar a do eBay.
  • 2:32 - 2:34
    Fatos de Stormtroopers.
    Mapas da Terra Média.
  • 2:34 - 2:37
    Este desenhei-o eu.
    E ali está a pasta do esqueleto de dodó.
  • 2:37 - 2:39
    Esta pasta tem mais de 17 mil fotografias,
  • 2:39 - 2:40
    uns 20 gigabytes de informação,
  • 2:40 - 2:42
    e está constantemente a crescer.
  • 2:42 - 2:45
    Um dia, umas semanas depois
    ou talvez um ano depois,
  • 2:45 - 2:48
    fui a uma papelaria com os meus filhos,
  • 2:48 - 2:50
    comprar ferramentas para modelar,
    para trabalhos manuais.
  • 2:50 - 2:53
    Comprei pasta Super Sculpey,
    uns arames, vários materiais.
  • 2:53 - 2:56
    Olhei para a pasta de modelar e pensei:
  • 2:56 - 2:57
    Talvez...
  • 2:57 - 3:00
    Sim, talvez possa fazer um crânio de dodó.
  • 3:01 - 3:04
    Convém esclarecer, desde já,
    que não sou escultor.
  • 3:04 - 3:06
    Sou construtor de modelos rígidos.
  • 3:06 - 3:08
    Deem-me um desenho,
    um adereço para copiar,
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    deem-me uma grua, um andaime,
    peças da "Guerra das Estrelas"...
  • 3:11 - 3:13
    — sobretudo peças
    da "Guerra das Estrelas".
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    Sou capaz de passar o dia inteiro naquilo.
  • 3:15 - 3:18
    Foi assim que ganhei a vida
    durante 15 anos.
  • 3:18 - 3:20
    Mas se me derem algo assim,
  • 3:20 - 3:22
    — isto foi esculpido
    pelo meu amigo Mike Murnane,
  • 3:22 - 3:25
    é uma maqueta do Episódio II,
    da Guerra das Estrelas —
  • 3:25 - 3:26
    não é o meu género de coisa,
  • 3:26 - 3:29
    é trabalho para outras pessoas,
    que fazem dragões, coisas moles.
  • 3:29 - 3:33
    Mesmo assim, achei que tinha visto
    fotos suficientes de crânios de dodó
  • 3:33 - 3:38
    para ser capaz de compreender
    a topologia e talvez reproduzi-la.
  • 3:38 - 3:40
    Afinal, não podia ser assim tão difícil.
  • 3:40 - 3:43
    Vai daí, estudei as melhores fotografias
    que consegui encontrar.
  • 3:43 - 3:45
    Procurei todas as referências,
  • 3:45 - 3:47
    e descobri esta referência fantástica.
  • 3:47 - 3:49
    Estava alguém a vender isto no eBay.
  • 3:49 - 3:52
    Era uma mulher, uma mão feminina,
    espero que fosse uma mulher.
  • 3:52 - 3:54
    Devia ser do tamanho
    da mão da minha mulher.
  • 3:54 - 3:57
    Tirei as medidas do polegar
    e calculei o tamanho do crânio.
  • 3:57 - 4:00
    Ampliei-o até ao tamanho real
    e comecei a usar isso,
  • 4:00 - 4:03
    juntamente com as outras referência,
    comparando-o com isto,
  • 4:03 - 4:06
    como referência do tamanho,
    para decidir o tamanho do bico,
  • 4:06 - 4:08
    que comprimento devia ter, etc., etc..
  • 4:08 - 4:10
    Ao fim de umas horas, acabei por fazer
  • 4:10 - 4:13
    um crânio de dodó bastante razoável,
    e ia ficar por aí.
  • 4:13 - 4:16
    Mas sabem, é como limpar
    um quarto super-desarrumado,
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    arrumamos uma coisa de cada vez,
    não pensamos na totalidade.
  • 4:19 - 4:21
    Eu não estava a pensar
    no esqueleto do dodó,
  • 4:21 - 4:23
    mas reparei, quando acabei o crânio,
  • 4:23 - 4:25
    que o arame que estava a usar
    para o segurar
  • 4:25 - 4:28
    saía da parte de trás,
    como uma coluna vertebral.
  • 4:28 - 4:32
    Uma coisa que sempre me fascinou
    são colunas e esqueletos.
  • 4:32 - 4:33
    Colecionei cerca de 200,
  • 4:33 - 4:37
    e conheço a forma
    como funcionam as vértebras
  • 4:37 - 4:39
    ao ponto de ser capaz de as imitar.
  • 4:39 - 4:40
    Assim, botão por botão,
  • 4:40 - 4:43
    vértebra por vértebra, fui por ali abaixo.
  • 4:43 - 4:47
    No fim do dia, tinha um crânio razoável,
  • 4:47 - 4:50
    umas vértebras bastantes boas
    e metade do pélvis.
  • 4:50 - 4:53
    De novo, continuei à procura
    de mais referências
  • 4:53 - 4:56
    de referências que conseguisse
    encontrar: desenhos, fotografias...
  • 4:56 - 4:59
    Adoro este tipo!
    Pôs ossos da perna de um dodó
  • 4:59 - 5:01
    num scanner, com uma régua.
  • 5:01 - 5:05
    Era o nível de precisão que eu procurava,
    e fi-los todos,
  • 5:05 - 5:07
    reproduzi todos os ossos e juntei-os.
  • 5:07 - 5:10
    Passadas aí umas seis semanas,
  • 5:10 - 5:13
    completei, pintei, montei
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    o meu esqueleto de dodó.
  • 5:16 - 5:18
    (Aplausos)
  • 5:18 - 5:20
    Podem ver que até lhe fiz
    uma placa de museu,
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    que inclui um resumo da história do dodó.
  • 5:22 - 5:25
    A TAP Plastics fez-me,
    embora não esteja na foto,
  • 5:25 - 5:26
    uma vitrina de museu.
  • 5:26 - 5:28
    Não tenho espaço para isto em casa,
  • 5:28 - 5:31
    mas tinha de acabar o que tinha começado.
  • 5:31 - 5:34
    Isto, para mim, representou
    uma grande mudança.
  • 5:34 - 5:36
    Como disse, ao longo da minha vida
  • 5:36 - 5:39
    sempre fui fascinado por objetos
    e histórias que eles contam,
  • 5:39 - 5:42
    e também por fazê-los, por obtê-los,
  • 5:42 - 5:44
    por apreciá-los e por mergulhar neles.
  • 5:44 - 5:47
    Nesta pasta, nos "Projetos Criativos",
  • 5:47 - 5:49
    há montanhas de projetos
    em que estou a trabalhar,
  • 5:49 - 5:52
    projetos em que já trabalhei,
    coisas em que queira trabalhar, um dia,
  • 5:52 - 5:57
    e coisas que talvez só queira achar,
    comprar, ter, ver, e tocar.
  • 5:57 - 6:00
    Mas agora havia uma nova
    categoria potencial de coisas
  • 6:00 - 6:02
    que eu podia esculpir,
  • 6:02 - 6:04
    e isso era diferente.
  • 6:04 - 6:06
    Bem, eu tenho um R2D2, mas isso...
  • 6:07 - 6:09
    Comparado com esculpir,
    para mim, isso é fácil.
  • 6:09 - 6:13
    Portanto dei uma vista de olhos
    à minha pasta dos "Projetos Criativos"
  • 6:13 - 6:15
    e reparei no Falcão Maltês.
  • 6:17 - 6:19
    Acho isto engraçado:
  • 6:19 - 6:22
    Apaixonar-me por um objeto
    de um livro do Hammett,
  • 6:22 - 6:24
    porque, se no mundo
    há dois tipos de pessoas,
  • 6:24 - 6:28
    os fãs de Chandler e os fãs de Hammett,
    eu sou um fã de Chandler.
  • 6:28 - 6:30
    Mas, neste caso, o que é importante
  • 6:30 - 6:33
    não é o autor, nem o livro,
    nem o filme, nem a história.
  • 6:33 - 6:35
    O que é importante é o objeto em si.
  • 6:36 - 6:38
    E, neste caso, o objeto...
  • 6:38 - 6:41
    ...existe numa série de níveis.
  • 6:41 - 6:43
    Primeiro, há o objeto no mundo.
  • 6:43 - 6:45
    Isto é o "Falcão Kniphausen".
  • 6:45 - 6:47
    É um jarro cerimonial
  • 6:47 - 6:51
    feito por volta do ano 1700
    para um conde sueco,
  • 6:51 - 6:54
    e é provavelmente o objeto
    a partir do qual
  • 6:54 - 6:56
    Hammett foi buscar a inspiração
    para o Falcão Maltês.
  • 6:56 - 6:59
    Depois há o pássaro fictício,
    que Hammett criou para o livro.
  • 6:59 - 7:01
    Feito de palavras, é o motor
  • 7:01 - 7:04
    que faz avançar o enredo do livro,
    e também do filme,
  • 7:04 - 7:06
    no qual é criado outro objeto:
  • 7:06 - 7:09
    Um adereço que tem de representar
    a coisa que Hammett criou com palavras,
  • 7:09 - 7:13
    inspirado pelo Falcão Kniphausen ,
    e este representa o falcão no filme.
  • 7:13 - 7:15
    E depois há um quarto nível,
  • 7:15 - 7:17
    um novo objeto no mundo:
  • 7:17 - 7:20
    O adereço feito para o filme,
    o representante da coisa,
  • 7:20 - 7:24
    transforma-se, por direito próprio,
    numa coisa diferente,
  • 7:24 - 7:27
    num novo objeto de desejo.
  • 7:27 - 7:29
    Estava na hora de fazer mais pesquisa.
  • 7:29 - 7:31
    Já tinha feito alguma pesquisa
    alguns anos antes,
  • 7:31 - 7:33
    por isso é que tinha aquela pasta.
  • 7:33 - 7:35
    Tinha comprado uma réplica muito rasca,
  • 7:35 - 7:36
    do Falcão Maltês no eBay,
  • 7:36 - 7:38
    e tinha gravado imagens suficientes
  • 7:38 - 7:40
    para ter uma referência razoável.
  • 7:40 - 7:44
    Mas descobri,
    à medida que pesquisava,
  • 7:44 - 7:47
    à procura de referências mais exatas,
  • 7:47 - 7:49
    que um dos pássaros originais, de chumbo,
  • 7:49 - 7:52
    tinha sido vendido
    pela Christie's em 1994.
  • 7:52 - 7:54
    Contactei um vendedor
    de livros sobre antiguidades
  • 7:54 - 7:56
    que tinha o catálogo original
    da Christie's,
  • 7:56 - 7:59
    e foi aí que encontrei
    esta imagem magnífica,
  • 7:59 - 8:01
    que incluía as medidas.
  • 8:01 - 8:04
    Digitalizei a imagem e ampliei-a
    até ao tamanho real.
  • 8:04 - 8:06
    Descobri outra referência.
  • 8:06 - 8:10
    Avi Chekmayan, um editor de New Jersey,
    achou este Falcão Maltês em resina
  • 8:10 - 8:13
    numa feira de rua em 1991,
  • 8:13 - 8:15
    embora tenha demorado cinco anos
  • 8:15 - 8:17
    até conseguir autenticá-lo
  • 8:17 - 8:19
    a ponto de ser aceite em leilões,
  • 8:19 - 8:21
    porque havia muita controvérsia sobre ele.
  • 8:21 - 8:24
    Era de resina, um material
    invulgar em adereços de cinema
  • 8:24 - 8:26
    na época em que o filme foi feito.
  • 8:26 - 8:27
    Demoraram muito a autenticá-lo
  • 8:27 - 8:29
    embora, em comparação com isto,
    eu digo logo:
  • 8:29 - 8:32
    É o modelo verdadeiro.
  • 8:32 - 8:35
    É feito exatamente
    do mesmo molde que este.
  • 8:35 - 8:37
    No caso deste, como o leilão
    foi tão controverso,
  • 8:37 - 8:39
    a leiloeira Profiles in History,
    que o vendeu
  • 8:39 - 8:42
    — julgo que em 1995,
    por cerca de cem mil dólares —
  • 8:42 - 8:44
    decidiu incluir
    — como se vê aqui em baixo —
  • 8:44 - 8:47
    não só uma vista frontal,
    mas também de lado,
  • 8:47 - 8:50
    de trás, e ainda do outro lado.
  • 8:50 - 8:54
    Portanto, agora, tinha
    toda a topologia necessária
  • 8:54 - 8:56
    para reproduzir o Falcão Maltês.
  • 8:56 - 8:58
    Mas eu não sabia como fazer,
    como começar algo assim?
  • 8:58 - 9:01
    Portanto, voltei a fazer
    como com o crânio de dodó,
  • 9:01 - 9:03
    ampliei todas as referências
    até ao tamanho real,
  • 9:03 - 9:08
    e comecei a cortar os negativos
    e usei essas formas como referência
  • 9:08 - 9:09
    Com a pasta Sculpey fiz um grande bloco,
  • 9:09 - 9:13
    e fui-a passando até ter os perfis certos.
  • 9:13 - 9:16
    Depois, lentamente, pena por pena,
    detalhe por detalhe,
  • 9:16 - 9:18
    fui trabalhando até conseguir...
  • 9:18 - 9:20
    Trabalhava em frente à televisão.
  • 9:20 - 9:21
    Este sou eu ao lado da minha mulher.
  • 9:21 - 9:24
    Foi a única fotografia que tirei
    durante toda esta fase.
  • 9:24 - 9:28
    À medida que avançava, consegui
    uma cópia muito razoável do Falcão Maltês.
  • 9:28 - 9:30
    Mas, mais uma vez, eu não sou escultor,
  • 9:30 - 9:33
    e portanto não sei
    a maior parte dos truques.
  • 9:33 - 9:36
    Não sei como o meu amigo Mike
    consegue superfícies brilhantes.
  • 9:36 - 9:39
    eu não as consegui criar.
  • 9:39 - 9:40
    Fui até à minha oficina,
  • 9:40 - 9:43
    fiz um molde e moldei-o com resina,
  • 9:43 - 9:46
    porque sabia que, com a resina,
    conseguia um acabamento vidrado.
  • 9:46 - 9:49
    Há várias formas de conseguir
    um acabamento brilhante.
  • 9:49 - 9:52
    A minha preferida é usar umas 70 camadas
  • 9:52 - 9:54
    deste primário preto para automóvel.
  • 9:54 - 9:57
    Aplico-o ao longo de três ou quatro dias,
    pinga imenso,
  • 9:57 - 10:00
    mas cria uma superfície muito boa,
    que pode ser levemente lixada
  • 10:00 - 10:03
    e consigo deixá-la lisa como vidro.
  • 10:03 - 10:05
    O acabamento é com lã de aço número 000.
  • 10:05 - 10:07
    A parte melhor de ter chegado a este ponto
  • 10:07 - 10:10
    foi que, no filme, quando finalmente
    mostram o pássaro,
  • 10:10 - 10:13
    e o põem na mesa,
    dão-lhe uma volta completa.
  • 10:13 - 10:14
    Portanto eu tive a possibilidade
  • 10:14 - 10:17
    de fazer pausas nessa cena para comparar.
  • 10:17 - 10:20
    Segui os brilhos todos da superfície,
    com a luz na mesma posição,
  • 10:20 - 10:23
    para garantir que os reflexos eram iguais.
  • 10:23 - 10:26
    Para verem o nível de detalhe
    a que eu cheguei.
  • 10:26 - 10:29
    O resultado foi este: o meu Falcão Maltês.
  • 10:29 - 10:31
    E é lindo. Posso dizer, com autoridade,
  • 10:31 - 10:33
    que nesse momento, quando o acabei,
  • 10:33 - 10:36
    de todas as réplicas que por aí há
    — e há várias —
  • 10:36 - 10:40
    esta é de longe a representação
    mais exata do Falcão Maltês original
  • 10:40 - 10:42
    que alguém já esculpiu.
  • 10:42 - 10:45
    O original foi esculpido
    por um tipo chamado Fred Sexton.
  • 10:45 - 10:48
    E é aqui que as coisas
    se tornam estranhas.
  • 10:48 - 10:51
    O Fred Sexton era amigo
    deste tipo, George Hodel.
  • 10:51 - 10:55
    Um tipo assustador, suspeito
    de ser o assassino da "Dália Negra".
  • 10:55 - 11:00
    James Ellroy julga que Fred Sexton,
    o escultor do Falcão Maltês,
  • 11:00 - 11:02
    matou a mãe de James Ellroy.
  • 11:02 - 11:04
    Mas ainda é mais estranho.
  • 11:04 - 11:07
    Em 1974, durante a produção
    de uma sequela cómica
  • 11:07 - 11:10
    do filme "Relíquia Macabra",
    chamada "Black Bird", com o George Segal,
  • 11:10 - 11:12
    o Museu de Arte de Los Angeles County
  • 11:12 - 11:15
    tinha um dos originais
    do Falcão Maltês, em gesso,
  • 11:15 - 11:17
    um dos seis modelos de gesso
    feitos para o filme,
  • 11:17 - 11:19
    que foi roubado do museu.
  • 11:19 - 11:21
    Muita gente julgou que era
    publicidade para o filme.
  • 11:21 - 11:23
    O restaurante John's Grill,
  • 11:23 - 11:25
    — que aparece no filme "Relíquia Macabra"
  • 11:25 - 11:27
    e ainda existe, em São Francisco —
  • 11:27 - 11:30
    contava Elisha Cook
    entre os seus clientes habituais ,
  • 11:30 - 11:31
    que fez o papel de Wilmer Cook no filme,
  • 11:31 - 11:36
    e ele deu-lhes um dos seus modelos
    de gesso originais do Falcão Maltês.
  • 11:36 - 11:39
    Eles guardaram-no num armário
    durante uns 15 anos,
  • 11:39 - 11:43
    até ser roubado em janeiro de 2007.
  • 11:44 - 11:47
    Parece que o objeto do desejo
  • 11:47 - 11:49
    só se revela ao desaparecer repetidamente.
  • 11:49 - 11:52
    Portanto ali estava eu,
    com o Falcão, e era lindo.
  • 11:52 - 11:55
    Tinha mesmo bom aspeto,
    reagia mesmo bem à luz,
  • 11:55 - 11:57
    era melhor que qualquer coisa
    que eu pudesse fazer
  • 11:57 - 11:59
    ou obter de qualquer fonte.
  • 11:59 - 12:02
    Mas havia um problema.
    E o problema era este:
  • 12:03 - 12:05
    Eu queria a totalidade do objeto,
  • 12:05 - 12:07
    queria o peso do objeto.
  • 12:08 - 12:10
    Este era feito de resina
    e era leve demais.
  • 12:10 - 12:13
    Há um grupo na Internet
    que eu costumo frequentar.
  • 12:13 - 12:15
    É um grupo de aderecistas malucos como eu,
  • 12:15 - 12:18
    o Fórum das Réplicas de Adereços,
    para pessoas que compram,
  • 12:18 - 12:20
    fazem e trocam informações
    sobre adereços de cinema.
  • 12:21 - 12:22
    Um dos tipos desse fórum,
  • 12:22 - 12:26
    com quem nunca me encontrei,
    mas de quem me tornei amigo no fórum,
  • 12:26 - 12:28
    era diretor de uma fundição.
  • 12:28 - 12:30
    Ele pegou no meu Falcão original,
  • 12:30 - 12:32
    fez um molde de cera perdida
  • 12:32 - 12:34
    e encheu-o de bronze fundido.
  • 12:34 - 12:36
    Este é o modelo em bronze
    que ele me entregou.
  • 12:36 - 12:39
    Depois de um banho ácido,
    foi este que considerei acabado.
  • 12:39 - 12:41
    Este objeto deixa-me
    profundamente satisfeito.
  • 12:41 - 12:44
    Vou pô-lo ali fora,
  • 12:44 - 12:46
    logo à noite, e vocês podem...
  • 12:47 - 12:50
    Quero que lhe peguem e que lhe mexam.
  • 12:50 - 12:52
    (Aplausos)
  • 12:52 - 12:55
    Querem ver onde chega
    a minha obsessão?
  • 12:55 - 12:57
    Este projeto é só para mim
  • 12:57 - 12:59
    mas, mesmo assim,
    fui ao ponto de comprar no eBay
  • 12:59 - 13:03
    um jornal chinês
    de São Francisco, de 1941,
  • 13:03 - 13:07
    para o pássaro poder ser
    devidamente embrulhado
  • 13:07 - 13:08
    como no filme.
  • 13:08 - 13:11
    (Risos)
  • 13:12 - 13:14
    Pois, eu sei...!
  • 13:14 - 13:16
    (Risos)
  • 13:17 - 13:19
    (Aplausos)
  • 13:19 - 13:22
    Aqui, como podem ver, pesa 12,5 kg.
  • 13:23 - 13:25
    É metade do peso do meu cão, o Huxley.
  • 13:26 - 13:29
    Mas há um problema.
  • 13:29 - 13:32
    Esta é a evolução recente dos Falcões.
  • 13:32 - 13:35
    O da esquerda é uma porcaria,
    a réplica comprada no eBay.
  • 13:35 - 13:39
    Temos o meu Falcão feito de Sculpey,
    meio estragado — tive de o tirar do molde.
  • 13:39 - 13:40
    Aqui o primeiro modelo líquido,
  • 13:40 - 13:42
    depois a cópia-mestra
    e o modelo em bronze.
  • 13:42 - 13:45
    Mas, quando as coisas
    são moldadas e derretidas,
  • 13:45 - 13:48
    cada vez que o modelo é mergulhado
    em silicone ou cheio de resina
  • 13:48 - 13:51
    perdemos um bocadinho de volume,
    um bocadinho do tamanho.
  • 13:51 - 13:53
    E quando pus o bronze ao lado
    do modelo feito de Sculpey,
  • 13:53 - 13:56
    era 19 mm mais baixo.
  • 13:57 - 13:59
    Pois, não, a sério, foi tipo... oooh!
  • 14:00 - 14:01
    (Risos)
  • 14:01 - 14:03
    Porque é que eu não me lembrei disto?
  • 14:03 - 14:05
    Porque é que não comecei com ele maior?
  • 14:05 - 14:08
    Portanto, o que fazer?
    Acho que tenho duas opções.
  • 14:08 - 14:12
    Primeiro, posso apontar-lhe um laser,
  • 14:12 - 14:13
    o que, aliás, já fiz,
  • 14:13 - 14:16
    para o digitalizar em 3D;
    já existe um modelo 3D deste Falcão.
  • 14:16 - 14:18
    Calculei a redução exata que ocorreu
  • 14:18 - 14:20
    quando passámos do modelo
    em cera para o de bronze,
  • 14:20 - 14:22
    e ampliei isto o suficiente para fazer
  • 14:22 - 14:24
    um modelo litográfico em 3D
  • 14:24 - 14:27
    que eu irei polir
    antes de enviar para a fundição,
  • 14:27 - 14:30
    onde irá ser feito em bronze. Ou então...
  • 14:30 - 14:32
    Há várias pessoas que têm originais,
  • 14:32 - 14:35
    e tenho andado a tentar contactá-las,
    encontrar-me com elas,
  • 14:35 - 14:37
    na esperança de poder
    passar alguns minutos
  • 14:37 - 14:41
    na presença de um dos pássaros originais,
    talvez tirar um fotografia,
  • 14:41 - 14:43
    ou até usar um digitalizador laser portátil
  • 14:43 - 14:46
    que eu comprei,
    que cabe numa caixa de cereais,
  • 14:46 - 14:49
    e talvez pudesse, sem tocar sequer
    no pássaro deles, juro,
  • 14:49 - 14:51
    criar um modelo 3D perfeito.
  • 14:51 - 14:54
    E até assino um documento a dizer
    que jamais o darei a outra pessoa,
  • 14:54 - 14:56
    só eu, no meu escritório, juro.
  • 14:56 - 14:57
    Dou uma cópia ao dono, se ele quiser.
  • 14:57 - 15:00
    Talvez aí eu possa dar
    por concluído este exercício.
  • 15:00 - 15:02
    Mas, no fundo, para sermos todos honestos,
  • 15:02 - 15:05
    tenho de admitir que
    chegar ao fim deste exercício
  • 15:05 - 15:08
    nunca foi o verdadeiro objetivo
    do exercício, pois não?
  • 15:08 - 15:10
    Obrigado
  • 15:10 - 15:13
    (Aplausos)
Title:
A minha obsessão por objetos e pelas histórias que eles contam
Speaker:
Adam Savage
Description:

Na conferência EG'08, Adam Savage fala do seu fascínio com o dodó, e como isso o lançou numa estranha e surpreendente busca dupla. Uma emocionante aventura pelo interior da mente de um criativo obsessivo.

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Video Language:
English
Team:
closed TED
Project:
TEDTalks
Duration:
15:13

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