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Na psicologia ocidental,
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fala-se dos medos como…
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uma emoção intensa.
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E dizem que, se estivermos bem preparados,
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não seremos esmagados nem levados por essa emoção forte.
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Se soubermos que está frio lá fora
e já nos tivermos preparado com antecedência,
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quando abrirmos a porta,
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não seremos apanhados de surpresa
e teremos menos probabilidade de apanhar uma constipação.
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Mas, se não soubermos que está frio lá fora,
saímos e, de repente, sentimos frio,
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seremos apanhados de surpresa
e teremos uma grande probabilidade de adoecer.
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A diferença está em estarmos preparados ou não.
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Quando alguém vai caçar ursos na floresta,
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está preparado para ver ursos.
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Quando alguém vai caçar ursos na floresta,
está preparado para ver ursos.
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Quando alguém vai caçar tigres na floresta,
está preparado para ver tigres.
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E, por essa razão,
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quando esses caçadores veem os ursos
e os tigres, não sentem tanto medo…
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como nós, que podemos estar apenas a passear na floresta.
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Se estivermos simplesmente a passear pela floresta
e, por acaso, nos depararmos com um urso,
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ficaremos extremamente assustados,
porque não nos preparámos previamente.
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Talvez os caçadores sintam algum medo.
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Do que é que eles têm medo?
Têm medo de falhar o alvo.
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Mas, comparativamente, o medo dos caçadores
não é tão grande como o dos não-caçadores.
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Porque nós não estamos à espera de um tigre.
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Não estamos mentalmente preparados para ver um tigre ou um urso,
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por isso, se nos cruzarmos com um,
ficaremos em pânico, sentiremos um medo extremo.
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Portanto, estar mentalmente preparado é muito importante.
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Meditar sobre a impermanência é uma prática
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que nos permite ver que tudo pode acontecer.
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Porque, ao longo da nossa vida, sempre acreditámos que
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acidentes de viação e cancros só acontecem aos outros.
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Nunca nos podem acontecer a nós.
Foi sempre nisso que acreditámos.
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Mas, quando nos acontece, dizemos:
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"Não pode ser! Impossível!"
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Não conseguimos aceitar a realidade.
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Mas a verdade é que
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essas coisas podem acontecer a qualquer um de nós.
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Quando nós…
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Primeiramente, quando treinamos a mente
para meditar sobre a impermanência,
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passamos a ver que esses acidentes e infortúnios
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também nos podem acontecer.
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No início, sentimos que…
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vivemos num mundo cheio de desgraças.
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As pessoas que hoje nos amam…
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As pessoas que hoje nos amam
podem deixar de nos amar amanhã.
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O…
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O trabalho que temos hoje pode ser perdido amanhã.
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A nossa boa saúde de hoje pode tornar-se frágil amanhã.
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Nós fica…
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No início, sentimos…
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Sentimos uma grande insegurança.
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A sensação de insegurança.
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Mas a verdade é que
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tocar a realidade
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traz-nos muitos benefícios.
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Passamos a viver…
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a viver profundamente o momento presente.
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A princípio,
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o pensamento
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de vivermos…
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de vivermos rodeados de infortúnios
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faz-nos sentir…
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muito inquietos, muito desconfortáveis.
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Quando o grande poeta Victor Hugo
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perdeu a sua filha primogénita
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— chamava-se Léopoldine —
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sofreu imensamente.
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Retirou-se para o campo,
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em Villequier.
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Já não conseguia desfrutar…
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já não conseguia desfrutar das maravilhas da terra
e do céu. Fechou-se na sua dor.
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E, num poema que escreveu em Villequier,
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no fundo, ele queria culpar Deus.
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Ele pensou: "Como é possível que uma jovem
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tão nova e fresca como uma flor,
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tão saudável e tão graciosa, possa morrer?"
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E então ele compreendeu...
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Ele tocou a realidade da impermanência.
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Mas ele era cristão,
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por isso encontrou consolo no cristianismo.
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Ele disse: "Senhor,
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eu venho até vós, Senhor,
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Pai em quem se deve acreditar;
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Levo-vos, apaziguado, os pedaços deste coração
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cheio da vossa glória que vós quebrastes."
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"Je vous porte, apaisé,
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Les morceaux de cœur plein de votre gloire
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Que vous avez brisé."
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Eu sei que Deus quis "tudo o que me acontece."
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Confesso que "vós sois
bom, misericordioso, indulgente e doce!"
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Mas nós, mortais, nunca podemos saber...
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nunca podemos saber
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os...
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os...
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os atos de Deus,
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os...
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os planos de Deus.
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Por isso, sentimos que caminhamos
"na noite de um mistério assustador,"
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sem saber realmente o que está a acontecer.
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"Je viens à vous, Seigneur!
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confessant que vous êtes
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Bon, clément, indulgent et doux,
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ô Dieu vivant !
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Je conviens que vous seul savez ce que vous faites,
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Et que l'homme n'est rien qu'un jonc
qui tremble au vent."
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"Concordo que só Deus sabe o que Deus faz,
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e que o homem não é nada
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além de um junco
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a tremer ao vento" — completamente inútil.
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O homem não é nada além de um frágil junco,
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e qualquer vento que sopre pode fazê-lo tremer.
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Totalmente indefeso.
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"Nous ne voyons jamais qu'un seul côté des choses ;
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L'autre plonge en la nuit d'un mystère effrayant.
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L'homme subit le joug sans connaître les causes.
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Tout ce qu'il voit est court, inutile et fuyant."
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"Nós, humanos,
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vemos sempre
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apenas um lado das coisas;
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o outro mergulha na noite
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de um mistério assustador.
O homem suporta o jugo sem conhecer as causas."
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O homem suporta calamidades e desastres
sem saber o porquê.
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"Tudo o que ele vê
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é breve,
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inútil
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e fugaz." É assim que ele vê as coisas.
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Ou seja, Victor Hugo não era budista,
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mas já conseguia tocar
a realidade da impermanência.
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E nela, há uma ideia de resistência.
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Deus sabe tudo, nós não sabemos nada.
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Só conseguimos ver uma pequena parte das coisas,
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mas o resto permanece totalmente escondido atrás de um véu
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— apenas Deus sabe.
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Na atitude cristã,
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diante da dor e do sofrimento, devemos acreditar em Deus.
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Devemos saber que...
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Devemos pensar que Deus planeia tudo
e que devemos obedecer e suportar.
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Basta acreditarmos que Deus sabe
o que está a fazer e porquê.
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Por alguma razão, Deus quis que a nossa filha morresse.
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Temos de acreditar que Deus é misericordioso,
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benevolente e compassivo.
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Mas, por um bom motivo, para nosso próprio bem,
Deus fez isso.
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Isto é fé.
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Mas quando passamos para o budismo,
vemos uma maneira diferente de encarar as coisas.
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Percebemos que o budismo nos ajuda
a tocar a realidade da impermanência.
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E, embora essa característica da impermanência
possa trazer-nos dores, ansiedades e medos,
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o budismo ensina-nos a tocar sempre a realidade.
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Temos de tocar a realidade com coragem.
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Essa...
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Essa infeção de SIDA, esse cancro, esse acidente de viação,
podem perfeitamente acontecer connosco,
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não apenas com os outros à nossa volta.
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Quando deixamos esta realidade penetrar completamente em nós,
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abre-se um novo horizonte
— vivemos num estado de consciência desperta.
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Já não tomamos cada um dos nossos dias como garantido.
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Cada dia, com as suas vinte e quatro horas,
torna-se uma joia preciosa.
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E fazemos o voto de viver essas vinte e quatro horas profundamente.
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Cada dia é um presente de todo o universo.
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E cada um dos nossos passos
passa a ser dado com tranquilidade,
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porque não temos ideia
se nos será concedido outro dia para viver.
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Por isso,
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tocar a impermanência, antes de mais,
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priva-nos
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da nossa segurança.
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Da sensação de segurança.
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Mas essa sensação de segurança é uma falsa segurança.
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Acreditamos que as coisas são permanentes,
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por isso essa sensação de segurança
baseia-se na ideia da permanência.
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E isso é ignorância.
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E agora,
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quando vemos que tudo é impermanente,
perdemos essa sensação de segurança.
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Mas aprendemos algo mais
— aprendemos a viver na realidade,
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e sabemos como tocar a vida profundamente
no momento presente.
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E talvez, num único dia,
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num único dia apenas,
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ao tocar a impermanência
e viver profundamente esse único dia,
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possamos já viver muito mais
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do que viver cem anos na ignorância,
nessa falsa sensação de segurança.
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Vivemos nessa falsa sensação de segurança
até que enfrentamos uma desgraça.
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O nosso ente querido morre de repente, ou
nós próprios enfrentamos a nossa própria morte.
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Percebemos que essa sensação de segurança
já durava há dez ou vinte anos.
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Mas nunca vivemos verdadeiramente,
porque era uma ilusão.
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Deixámos o tempo passar demasiado depressa, desperdiçadamente.
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Pisoteámos,
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desperdiçámos a nossa própria vida.
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Sempre acreditámos que a vida era permanente,
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e assim, vinte anos passaram por nós como um sonho.
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Agora, ao tocar a impermanência,
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perdemos essa sensação de segurança,
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mas essa perda é positiva,
porque era uma falsa sensação de segurança.
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Estivemos sentados numa bomba-relógio
sem saber.
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Agora que sabemos que estamos sentados numa bomba-relógio,
levantamo-nos.
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E compreendemos que
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o momento presente é o mais importante.
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Recebemos um presente: um dia com vinte e quatro horas,
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com o sol, o céu, as nuvens;
com os nossos companheiros de prática e com o nosso professor.
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Então, com esta consciência da impermanência,
vivemos profundamente para merecer essas vinte e quatro horas.
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Só desta forma,
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só vivendo desta forma, só com esta atitude,
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podemos enfrentar a impermanência.
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Só desta forma de viver, podemos enfrentar...
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esse sentimento paralisante de insegurança.
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Se alguém perguntar,
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"Tu segues o budismo, praticas o budismo.
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Como lidas com as desgraças?"
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Podemos responder,
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"Lidamos com elas vivendo verdadeiramente
e profundamente cada momento da nossa vida diária.
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Se eu realmente viver assim,
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se cuidar bem dos meus entes queridos hoje,
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se amanhã eles morrerem,
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não terei nada de que me arrepender.
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Caso contrário, vou arrepender-me pelo resto da vida.
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Porque tive essa falsa sensação de permanência,
pensei que os meus entes queridos estariam sempre ali para mim.
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Nem sequer me dei ao trabalho de cuidar deles.
Pensei: 'Bem, há tempo de sobra para isso.'
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E assim, nunca cuidei deles da melhor forma possível.
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Mas se tiver esta consciência da impermanência,
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não vou esperar até amanhã.
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Vou expressar o meu amor através das palavras,
vou fazer algo por eles,
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vou pensar neles,
vou cuidar deles
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e vou fazê-los felizes, hoje. Agora mesmo."
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E essa é uma resposta budista
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para as desgraças e infortúnios,
para o sentimento de insegurança.
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Não se trata de ficarmos preocupados,
mas de realmente viver bem no presente.
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E se eu já vivi desta maneira,
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e se já ajudei outros a viver
da mesma forma no momento presente,
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significa que já fiz o meu melhor.
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Não terei nada de que me arrepender
quando esse momento de impermanência chegar.
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Essa é uma visão budista.
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Tocar a impermanência não é sentir
medo, inquietação ou insegurança.
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Essa sensação de medo ou insegurança
pode surgir no início,
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para quebrar as falsas noções
de permanência e de um "eu" separado.
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São essas ilusões que nos privam da vida real.
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Agora, ao tocar a impermanência e o não-eu,
aprendemos a tocar profundamente a realidade da vida,
-
e permitimos que a verdadeira vida aconteça.