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Uma teoria sobre tudo

  • 0:01 - 0:04
    Eu vou falar sobre mim,
  • 0:04 - 0:09
    uma coisa que raramente faço,
    porque, em primeiro lugar,
  • 0:09 - 0:11
    prefiro falar sobre coisas
    de que não sei nada.
  • 0:12 - 0:16
    E, em segundo lugar,
    sou uma narcisista em recuperação.
  • 0:16 - 0:18
    (Risos)
  • 0:18 - 0:21
    Na verdade, eu não sabia
    que era narcisista.
  • 0:21 - 0:23
    Julgava que narcisismo
    significava amar-se a si mesmo.
  • 0:23 - 0:25
    Mas disseram-me que há
    um outro significado
  • 0:25 - 0:28
    que é pior do que o amor de si próprio.
  • 0:28 - 0:30
    É o amor de si próprio não correspondido.
  • 0:30 - 0:33
    (Risos)
  • 0:35 - 0:37
    Acho que não posso
    permitir-me uma recaída.
  • 0:37 - 0:40
    Apesar disso, quero explicar
  • 0:40 - 0:43
    como acabei por conceber
    o meu estilo de comédia,
  • 0:43 - 0:45
    pois passei por diversas variantes.
  • 0:45 - 0:47
    Comecei pela improvisação,
  • 0:47 - 0:51
    com um tipo específico de improvisação,
    chamado jogos teatrais,
  • 0:51 - 0:53
    que tinha uma única regra,
  • 0:53 - 0:56
    que sempre considerei uma ótima regra
    para a ética de uma sociedade .
  • 0:56 - 1:00
    Essa regra era: "Não podemos negar
    a realidade do próximo,
  • 1:00 - 1:02
    "só podemos construir sobre ela".
  • 1:02 - 1:05
    Claro que vivemos numa sociedade
  • 1:05 - 1:07
    que repousa na contradição
    da realidade dos outros.
  • 1:07 - 1:09
    Tudo se concentra na contradição,
  • 1:09 - 1:12
    Penso que é por isso que sou
    tão sensível à contradição, em geral.
  • 1:12 - 1:14
    Vejo-a em toda parte.
  • 1:14 - 1:16
    Como nas sondagens, por exemplo.
  • 1:16 - 1:19
    Sempre achei curioso
    que, nas sondagens de opinião pública,
  • 1:19 - 1:23
    a percentagem de americanos
    que não sabe responder a uma pergunta
  • 1:23 - 1:25
    é sempre de 2%.
  • 1:26 - 1:28
    75% dos americanos pensam
  • 1:28 - 1:30
    que o Alasca pertence ao Canadá.
  • 1:30 - 1:33
    Mas só 2% desconhecem o efeito
  • 1:33 - 1:38
    que o colapso na Argentina terá
    na política monetária do FMI.
  • 1:38 - 1:39
    (Risos)
  • 1:39 - 1:42
    Isto parece-me uma contradição.
  • 1:42 - 1:45
    Ou esta publicidade que li
    no New York Times:
  • 1:45 - 1:49
    "Usar um belo relógio diz muito
    sobre a sua posição na sociedade.
  • 1:49 - 1:52
    "Comprá-lo é um grito de bom gosto."
  • 1:52 - 1:54
    (Risos)
  • 1:54 - 1:58
    Ou isto que achei numa revista
    chamada California Lawyer,
  • 1:58 - 2:01
    num artigo que era certamente
    destinado aos advogados da Enron.
  • 2:02 - 2:05
    "Sobreviver à prisão:
    O que fazer ou não fazer."
  • 2:05 - 2:06
    (Risos)
  • 2:06 - 2:08
    "Não usar palavras difíceis."
  • 2:08 - 2:09
    (Risos)
  • 2:09 - 2:12
    "Aprender a língua franca."
  • 2:12 - 2:15
    (Risos)
  • 2:19 - 2:21
    Sim. "Lingua isto, Frankie".
  • 2:22 - 2:24
    (Risos)
  • 2:24 - 2:27
    Suponho que seja uma contradição
  • 2:27 - 2:31
    eu falar de ciência
    quando não sei nada de matemática.
  • 2:32 - 2:34
    Por falar nisso,
    estou muito grata a Dean Kamen...
  • 2:34 - 2:37
    ... por assinalar que uma das razões,
    porque há razões culturais
  • 2:38 - 2:43
    para as mulheres e as minorias não entrarem
    nas áreas da ciência e da tecnologia,
  • 2:43 - 2:46
    porque, por exemplo, a razão
    por que não sei matemática
  • 2:46 - 2:49
    é porque me ensinaram matemática
    e leitura ao mesmo tempo.
  • 2:49 - 2:53
    Aos seis anos, estamos a ler
    a Branca de Neve e os Sete Anões.
  • 2:53 - 2:55
    Torna-se logo óbvio
  • 2:55 - 2:57
    que só há dois tipos de homens no mundo:
  • 2:57 - 2:59
    os anões e os príncipes encantados.
  • 2:59 - 3:02
    As probabilidades são de um contra sete
    para encontrar o príncipe.
  • 3:02 - 3:05
    (Risos)
  • 3:05 - 3:08
    É por isso que as raparigas não gostam
    de matemática, é muito deprimente.
  • 3:08 - 3:11
    (Risos)
  • 3:14 - 3:16
    Claro que, ao falar de ciência,
  • 3:16 - 3:18
    também posso, como na noite passada,
  • 3:18 - 3:22
    incorrer na ira violenta
    de alguns cientistas
  • 3:22 - 3:24
    que ficaram muito aborrecidos comigo.
  • 3:24 - 3:28
    Usei a palavra "pós-moderno",
    como se estivesse ok.
  • 3:29 - 3:32
    E eles ficaram muito irritados.
  • 3:32 - 3:34
    Na verdade, creio que um deles
  • 3:34 - 3:37
    só queria arrastar-me
    para uma discussão a sério.
  • 3:38 - 3:40
    Mas eu não me meto em discussões a sério.
  • 3:40 - 3:42
    Não as aprovo,
  • 3:43 - 3:46
    porque todas as discussões
    são sobre contradições.
  • 3:46 - 3:49
    Formam-se segundo valores
    que eu ponho em causa.
  • 3:49 - 3:53
    Eu ponho em causa os valores da ciência
    de Newton, como a racionalidade.
  • 3:53 - 3:55
    Supostamente, temos que ser
    racionais numa discussão.
  • 3:55 - 3:58
    Mas a racionalidade é construída
  • 3:58 - 4:00
    por aquilo de que Christie Hefner
    falou hoje,
  • 4:00 - 4:03
    a separação entre o corpo e o espírito.
  • 4:03 - 4:05
    A cabeça é boa, o corpo é mau.
  • 4:05 - 4:07
    A cabeça é o ego, o corpo é a coisa.
  • 4:07 - 4:09
    Quando dizemos "eu"
  • 4:09 - 4:12
    — como quando Descartes disse:
    "Eu penso, logo eu existo" —
  • 4:12 - 4:14
    estamos a falar na cabeça.
  • 4:14 - 4:17
    E como David Lee Roth cantou
    em "Just a Gigolo"
  • 4:17 - 4:19
    "Eu não tenho corpo".
  • 4:21 - 4:24
    É assim que obtemos a razão.
  • 4:24 - 4:27
    É por isso que grande parte do humor
  • 4:27 - 4:30
    é o corpo a afirmar-se contra a cabeça.
  • 4:30 - 4:34
    É por isso que temos humor
    de sanita e humor sexual.
  • 4:34 - 4:36
    É por isso que temos os Irmãos Raspyni
  • 4:36 - 4:39
    a bater na área genital de Richard.
  • 4:39 - 4:44
    E rimos a dobrar porque ele é o corpo,
    mas também é...
  • 4:45 - 4:46
    (Voz off): Richard.
  • 4:46 - 4:48
    Emily Levine: Richard.
    O que foi que eu disse?
  • 4:48 - 4:49
    (Risos)
  • 4:49 - 4:53
    Richard. Mas ele também é a cabeça,
    a cabeça da conferência.
  • 4:53 - 4:55
    É diferente daquele humor
  • 4:55 - 4:58
    com que Art Buchwald
    visa os chefes-de-estado.
  • 4:59 - 5:02
    Não ganha tanto dinheiro
    como o humor do corpo, certamente.
  • 5:02 - 5:04
    (Risos)
  • 5:04 - 5:07
    Apesar disso, apreciamos-te e adoramos-te.
  • 5:08 - 5:11
    Mas também há uma contradição
    na razão neste país.
  • 5:11 - 5:14
    Por mais que veneremos a cabeça,
  • 5:14 - 5:16
    somos muito anti-intelectuais.
  • 5:16 - 5:21
    Sei disso, porque li no New York Times
  • 5:21 - 5:24
    a Fundação Ayn Rand
    publicou um anúncio de página inteira
  • 5:24 - 5:27
    depois do 11 de setembro,
    em que dizia:
  • 5:27 - 5:29
    "O problema não é o Iraque nem o Irão,
  • 5:29 - 5:33
    "o problema neste país,
    que este país enfrenta,
  • 5:33 - 5:36
    "são os professores universitários
    e a sua prole".
  • 5:36 - 5:39
    (Risos)
  • 5:44 - 5:47
    Por isso, voltei a ler "Vontade Indómita".
  • 5:47 - 5:48
    (Risos)
  • 5:49 - 5:51
    Não sei quantos aqui já o leram.
  • 5:51 - 5:54
    Não sou especialista em sadomasoquismo.
  • 5:54 - 5:56
    (Risos)
  • 5:57 - 6:01
    Mas vou ler-vos algumas passagens
    ao acaso, na página 217.
  • 6:01 - 6:02
    "O ato de um dono
  • 6:02 - 6:05
    "que toma posse dela,
    de modo desprezível e doloroso,
  • 6:05 - 6:08
    "era o tipo de êxtase que ela queria.
  • 6:08 - 6:10
    "Quando estavam deitados na cama,
  • 6:10 - 6:14
    "era, como devia ser, como a natureza
    do ato exigia,
  • 6:14 - 6:16
    "um ato de violência.
  • 6:16 - 6:20
    "Era um ato de dentes cerrados e ódio,
    era o insuportável.
  • 6:21 - 6:23
    "Nem uma carícia,
    apenas uma onda de dor.
  • 6:23 - 6:26
    "A agonia como um ato de paixão".
  • 6:27 - 6:29
    Podem imaginar a minha surpresa
  • 6:29 - 6:31
    ao ler no The New Yorker
  • 6:31 - 6:35
    que Alan Greenspan, presidente
    do Federal Reserve,
  • 6:35 - 6:37
    afirma que Ayn Rand
    é a sua mentora intelectual.
  • 6:38 - 6:40
    (Risos)
  • 6:41 - 6:44
    É como descobrir que a nossa ama
    é uma dominadora.
  • 6:44 - 6:46
    (Risos)
  • 6:46 - 6:49
    Já foi mau ver J. Edgar Hoover de vestido.
  • 6:49 - 6:51
    Agora temos que imaginar Alan Greenspan
  • 6:51 - 6:54
    de corpete de couro preto,
    com uma tatuagem no rabo que diz:
  • 6:54 - 6:56
    "Chicoteia a inflação já!"
  • 6:56 - 6:58
    (Risos)
  • 6:58 - 7:01
    (Aplausos)
  • 7:03 - 7:08
    Claro que Ayn Rand é famosa
    por uma filosofia chamada Objetivismo,
  • 7:08 - 7:11
    que reflete outro valor
    da física de Newton,
  • 7:11 - 7:13
    que é a objetividade.
  • 7:13 - 7:16
    A objetividade constrói-se,
    basicamente,
  • 7:16 - 7:19
    do mesmo modo que o sadomasoquismo.
  • 7:19 - 7:21
    É o sujeito que subjuga o objeto.
  • 7:22 - 7:23
    É assim que nos afirmamos.
  • 7:23 - 7:28
    Tornamo-nos na voz ativa
    e o objeto é a não-voz passiva.
  • 7:29 - 7:31
    Fiquei fascinada
    por aquele anúncio da Oxygen.
  • 7:32 - 7:34
    Não sei se sabem isto
  • 7:34 - 7:38
    — talvez agora seja diferente,
    ou talvez estejam a fazer uma afirmação —
  • 7:38 - 7:41
    mas em muitas maternidades do país,
  • 7:41 - 7:45
    até há pouco tempo, segundo
    um livro de Jessica Benjamin,
  • 7:46 - 7:49
    a tabuleta por cima dos berços
    dos rapazinhos dizia:
  • 7:49 - 7:50
    "Eu sou um rapaz".
  • 7:50 - 7:53
    e a tabuleta por cima dos berços
    das meninas dizia:
  • 7:53 - 7:55
    "É uma rapariga". É mesmo.
  • 7:56 - 8:01
    Portanto, a passividade era projetada
    culturalmente para as raparigas.
  • 8:01 - 8:05
    E isto continua, como penso
    que vos disse no ano passado.
  • 8:05 - 8:07
    Há uma sondagem que prova
  • 8:07 - 8:10
    — foi uma sondagem feita
    pela revista Time,
  • 8:10 - 8:12
    em que só perguntavam aos homens:
  • 8:12 - 8:16
    "Alguma vez teve relações sexuais
    com uma mulher de quem não gostava nada?"
  • 8:19 - 8:22
    Bem, houve 58% que responderam "Sim"
  • 8:22 - 8:24
    o que eu acho que é um exagero
  • 8:24 - 8:26
    porque há muitos homens
    a quem basta dizer:
  • 8:26 - 8:28
    "Alguma vez teve relações sexuais..."
    "Sim".
  • 8:28 - 8:30
    Nem esperam pelo resto da pergunta.
  • 8:30 - 8:33
    (Risos)
  • 8:32 - 8:35
    Claro que 2% não sabiam se o tinham feito.
  • 8:35 - 8:38
    (Risos)
  • 8:38 - 8:40
    É o primeiro lembrete
  • 8:40 - 8:43
    da minha tentativa
    dum lembrete quádruplo.
  • 8:43 - 8:45
    (Risos)
  • 8:46 - 8:48
    Esta coisa de sujeito-objeto
  • 8:48 - 8:52
    faz parte duma coisa
    em que estou muito interessada
  • 8:52 - 8:57
    porque é por isso que eu acredito
    no politicamente correto.
  • 8:57 - 9:00
    Acredito. Acho que pode ir longe demais
  • 9:00 - 9:03
    Penso que os Irmãos Rigling
    talvez tenham ido longe demais
  • 9:03 - 9:05
    com um anúncio que fizeram
    no New York Times Magazine:
  • 9:05 - 9:08
    "Temos um compromisso emotivo
    e financeiro, de longa duração
  • 9:08 - 9:11
    "com os nossos parceiros
    elefantes asiáticos".
  • 9:11 - 9:13
    (Risos)
  • 9:13 - 9:16
    Talvez longe demais. Mas sabem...
  • 9:16 - 9:22
    Penso que uma pessoa de cor
    a fazer troça de pessoas brancas
  • 9:22 - 9:24
    não é a mesma coisa
    que uma pessoa branca
  • 9:24 - 9:26
    a fazer troça de pessoas de cor.
  • 9:26 - 9:29
    Ou mulheres a troçar de homens
    seja o mesmo que homens a troçar...
  • 9:29 - 9:32
    Ou pobres a troçar de ricos,
    a mesma coisa que ricos...
  • 9:32 - 9:36
    Penso que podemos fazer troça de quem tem
    mas não de quem não tem.
  • 9:36 - 9:38
    Por isso é que não me veem a fazer troça
  • 9:38 - 9:40
    de Kenneth Lay
    e da sua encantadora mulher.
  • 9:40 - 9:42
    (Risos)
  • 9:42 - 9:44
    Que graça tem ficar reduzido
    a quatro casas?
  • 9:44 - 9:47
    (Risos)
  • 9:47 - 9:49
    Aprendi esta lição
  • 9:49 - 9:53
    durante os escândalos sexuais
    da administração Clinton
  • 9:53 - 9:56
    ou, como lhes chamo,
    os belos velhos tempos,
  • 9:56 - 9:58
    (Risos)
  • 9:58 - 10:02
    Quando pessoas que eu conheço,
    pessoas que se consideram liberais
  • 10:02 - 10:04
    e tudo o mais,
  • 10:04 - 10:08
    faziam troça de Jennifer Flowers
    e de Paula Jones,
  • 10:08 - 10:10
    na verdade, estavam a fazer troça delas
  • 10:10 - 10:14
    por serem esterco ou escumalha branca.
  • 10:14 - 10:17
    Dir-se-ia, suponho,
    um preconceito inofensivo
  • 10:17 - 10:19
    e que não estamos a ofender ninguém.
  • 10:19 - 10:25
    Até lerem, como eu li,
    um anúncio no Los Angeles Times:
  • 10:25 - 10:28
    "Para venda: compressor de lixo branco".
  • 10:29 - 10:31
    (Risos)
  • 10:36 - 10:40
    Portanto, toda esta história
    de sujeito e objeto
  • 10:40 - 10:42
    tem relevância para o humor.
  • 10:44 - 10:47
    Li um livro duma mulher
    chamada Amy Richlin,
  • 10:47 - 10:51
    que é presidente do departamento Clássico
    na Universidade da Califórnia.
  • 10:51 - 10:53
    O livro chama-se "O Jardim de Priapo".
  • 10:53 - 10:56
    Ela diz que o humor romano
  • 10:56 - 11:00
    reflete a construção da sociedade romana.
  • 11:01 - 11:04
    Portanto, a sociedade romana
    era muito hierarquizada,
  • 11:04 - 11:07
    como a nossa, em certa medida.
  • 11:06 - 11:07
    E o humor também.
  • 11:07 - 11:10
    Tinha que ser sempre o alvo de piadas.
  • 11:10 - 11:15
    Era sempre o satírico,
  • 11:14 - 11:16
    como Juvenal ou Marcial,
  • 11:16 - 11:18
    que representava o público,
  • 11:18 - 11:21
    e fazia troça do estranho,
  • 11:21 - 11:25
    da pessoa que não partilhava
    do estatuto de sujeito.
  • 11:25 - 11:28
    Claro que na comédia "stand-up",
  • 11:28 - 11:32
    o ator sozinho no palco
    supostamente domina o público
  • 11:33 - 11:35
    Muitas interrupções provocam a tensão
  • 11:35 - 11:42
    de tentar assegurar que o ator
    vai ser capaz de dominar,
  • 11:42 - 11:44
    e ultrapassar as interrupções.
  • 11:45 - 11:48
    Eu era boa nisso, quando fiz "stand-up".
  • 11:48 - 11:52
    Mas odiava aquilo, porque
    eles impunham os termos da interação.
  • 11:52 - 11:56
    do mesmo modo que
    envolver-se numa discussão séria
  • 11:56 - 11:59
    determina o conteúdo, em certa medida,
  • 11:59 - 12:01
    daquilo de que estamos a falar.
  • 12:01 - 12:05
    Eu andava à procura duma forma
    que não tivesse isso.
  • 12:09 - 12:13
    Queria uma coisa
    que fosse mais interativa.
  • 12:13 - 12:17
    Sei que, hoje, a palavra
    está muito rebaixada
  • 12:16 - 12:19
    pelo seu uso pelos publicitários
    na Internet.
  • 12:21 - 12:24
    Digo-vos, hoje sinto a falta dos antigos
    televendedores.
  • 12:24 - 12:26
    (Risos)
  • 12:26 - 12:28
    Sinto mesmo porque, pelo menos,
    tínhamos uma hipótese.
  • 12:28 - 12:32
    Eu desligava na cara deles.
  • 12:32 - 12:34
    Mas depois li em "Dear Abby"
    que isso era grosseiro.
  • 12:34 - 12:36
    Por isso, quando um deles me ligou,
  • 12:36 - 12:38
    eu deixei-o chegar a meio da conversa
    e depois disse:
  • 12:38 - 12:41
    "Tens uma voz muito sensual".
  • 12:41 - 12:44
    (Risos)
  • 12:44 - 12:46
    Foi ele que me desligou na cara!
  • 12:47 - 12:50
    (Risos)
  • 12:55 - 12:57
    Mas a interatividade permite que o público
  • 12:57 - 13:00
    modele o que nós vamos fazer
  • 13:00 - 13:04
    tal como modelamos a experiência do mundo.
  • 13:05 - 13:07
    É disso que eu ando à procura.
  • 13:07 - 13:10
    E, quando eu comecei a analisar,
  • 13:10 - 13:12
    era isso que eu estava a fazer.
  • 13:12 - 13:17
    Li um livro chamado
    "Trickster Makes This World" de Lewis Hyde.
  • 13:17 - 13:19
    Foi como se estivesse a fazer psicanálise.
  • 13:19 - 13:21
    Quer dizer, tinha lá tudo.
  • 13:21 - 13:23
    Quando vinha para esta conferência,
  • 13:23 - 13:26
    percebi que quase toda a gente aqui
  • 13:26 - 13:28
    partilhava as mesmas qualidades
  • 13:28 - 13:31
    porque um trapaceiro
    é um agente de mudança.
  • 13:31 - 13:34
    Um trapaceiro é um agente de mudança.
  • 13:34 - 13:36
    As qualidades que vou descrever
  • 13:36 - 13:38
    são as qualidades que tornam possível
  • 13:38 - 13:40
    fazer acontecer a mudança.
  • 13:40 - 13:44
    Uma delas é ultrapassar os limites.
  • 13:44 - 13:48
    Penso que foi isso
    que enfureceu os cientistas.
  • 13:48 - 13:50
    Mas eu gosto de ultrapassar os limites.
  • 13:50 - 13:53
    Como já disse, gosto de falar
    de coisas de que nada sei.
  • 13:55 - 13:57
    (Toque de telefone)
  • 13:57 - 14:01
    Espero que seja o meu agente
    porque aqui não me pagam nada.
  • 14:01 - 14:02
    (Risos)
  • 14:03 - 14:05
    Acho que é bom falar de coisas
    de que não sei nada
  • 14:05 - 14:08
    porque contribuo
    com um ponto de vista novo.
  • 14:08 - 14:12
    Consigo ver a contradição
    que vocês podem não ser capazes de ver.
  • 14:12 - 14:14
    Como, por exemplo,
    uma vez, um mímico
  • 14:14 - 14:16
    — ou um meme, como ele se intitulava.
  • 14:16 - 14:18
    Era um meme muito egoísta.
  • 14:19 - 14:23
    Dizia que eu devia mostrar mais respeito
  • 14:23 - 14:26
    porque eram precisos 18 anos
  • 14:26 - 14:29
    para aprender a fazer mímica corretamente.
  • 14:29 - 14:33
    E eu disse: "É assim que sabemos
    que só os estúpidos se dedicam a isso".
  • 14:33 - 14:34
    (Risos)
  • 14:34 - 14:37
    Bastam dois anos para aprender a falar.
  • 14:37 - 14:39
    (Risos)
  • 14:39 - 14:42
    (Aplausos)
  • 14:43 - 14:47
    Sabem, este é o problema
    com a "objetividade",
  • 14:48 - 14:50
    Quando só estamos rodeados por pessoas
  • 14:50 - 14:52
    que falam o mesmo vocabulário que nós
  • 14:52 - 14:55
    ou partilham o mesmo conjunto
    de premissas que nós,
  • 14:55 - 14:57
    começamos a pensar que a realidade é essa.
  • 14:57 - 15:01
    Tal como os economistas,
    a sua definição de racional,
  • 15:01 - 15:05
    de que todos nós agimos segundo
    o nosso interesse económico.
  • 15:05 - 15:09
    Olhem para Michael Hawley,
    ou para Dean Kamen,
  • 15:09 - 15:10
    ou para a minha avó.
  • 15:10 - 15:13
    A minha avó sempre agiu
    no interesse dos outros,
  • 15:13 - 15:15
    quer eles quisessem ou não.
  • 15:15 - 15:17
    (Risos)
  • 15:18 - 15:20
    Se houvesse Jogos Olímpicos do martírio,
  • 15:20 - 15:23
    a minha avó perderia de propósito.
  • 15:23 - 15:25
    (Risos)
  • 15:30 - 15:31
    "Não, fica tu com o prémio.
  • 15:31 - 15:34
    "És nova, eu sou velha.
    Quem é que vai ver?
  • 15:34 - 15:36
    "Para onde é que eu vou?
    Vou morrer em breve".
  • 15:37 - 15:38
    (Risos)
  • 15:38 - 15:40
    Portanto, esta é uma
  • 15:40 - 15:43
    — este ultrapassar os limites,
    este mediador...
  • 15:44 - 15:45
    Fritz Lanting, é o seu nome,
  • 15:45 - 15:48
    disse que era um mediador.
  • 15:48 - 15:50
    É uma verdadeira qualidade do trapaceiro.
  • 15:50 - 15:53
    Outra é, estratégias que não se opõem.
  • 15:54 - 15:57
    Isto substitui a contradição.
  • 15:57 - 16:00
    Quando negamos a realidade
    de outra pessoa,
  • 16:00 - 16:01
    temos um paradoxo,
  • 16:01 - 16:05
    em que aceitamos que coexiste
    mais do que uma realidade.
  • 16:05 - 16:08
    Penso que há outra construção filosófica.
  • 16:09 - 16:12
    Não sei bem como se chama.
  • 16:12 - 16:16
    Mas o meu exemplo disso é uma tabuleta
    que vi numa joalharia, que dizia:
  • 16:15 - 16:18
    "Orelhas furadas enquanto esperam".
  • 16:18 - 16:21
    (Risos)
  • 16:23 - 16:25
    Aqui as possibilidades
    desafiam a imaginação.
  • 16:26 - 16:27
    (Risos)
  • 16:27 - 16:30
    "Oh, não. Mas obrigada,
    eu deixo-as aqui, muito obrigada.
  • 16:31 - 16:32
    "Tenho umas coisas a tratar.
  • 16:32 - 16:36
    "Depois volto para as vir buscar.
    por volta das cinco, se acharem bem.
  • 16:36 - 16:37
    (Risos)
  • 16:37 - 16:39
    "O quê? Não oiço nada".
  • 16:39 - 16:41
    (Risos)
  • 16:44 - 16:47
    Outro atributo do trapaceiro
  • 16:47 - 16:49
    é a sorte danada.
  • 16:50 - 16:54
    Os acidentes
    — Louis Kahn falou de acidentes —
  • 16:53 - 16:55
    é outra qualidade do trapaceiro.
  • 16:55 - 17:00
    O espírito do trapaceiro
    está preparado para o inesperado.
  • 17:01 - 17:05
    Eu digo aos cientistas
  • 17:05 - 17:10
    que o trapaceiro tem a capacidade
    de manter ideias ligeiras
  • 17:11 - 17:14
    de modo a deixar espaço para novas ideias
  • 17:14 - 17:18
    ou ver as contradições
    ou os problemas ocultos
  • 17:18 - 17:20
    nas suas ideias.
  • 17:20 - 17:22
    Não tenho piadas para isso.
  • 17:22 - 17:25
    Só queria pôr os cientistas no seu lugar.
  • 17:25 - 17:27
    (Risos)
  • 17:29 - 17:33
    Mas eis como penso que gostava
    de fazer uma mudança
  • 17:33 - 17:35
    e é na criação de ligações.
  • 17:35 - 17:38
    É aqui que tenho tendência para ver
  • 17:38 - 17:40
    quase mais do que as contradições.
  • 17:40 - 17:43
    Por exemplo, como é que se chamam
    os dedos dos pés da osga?
  • 17:44 - 17:46
    Sabem, os dedos dos pés da osga,
  • 17:46 - 17:49
    que enrolam e desenrolam
    como os dedos de Michael Moschen.
  • 17:50 - 17:52
    Adoro as ligações.
  • 17:52 - 17:56
    Vou ler um dos dois atributos
    da matéria no universo de Newton
  • 17:57 - 17:59
    — há dois atributos da matéria
    no universo de Newton —
  • 17:59 - 18:02
    um é a ocupação do espaço
    — a matéria ocupa espaço.
  • 18:02 - 18:06
    Acho que, quanto mais massa tiverem,
    mais espaço vocês ocupam,
  • 18:06 - 18:08
    o que explica todo o fenómeno dos SUV.
  • 18:08 - 18:10
    (Risos)
  • 18:11 - 18:13
    O outro é a impenetrabilidade.
  • 18:14 - 18:19
    Na antiga Roma, a impenetrabilidade
    era um critério de masculinidade.
  • 18:20 - 18:24
    A masculinidade dependia
    de se ser o penetrador ativo.
  • 18:25 - 18:29
    Mas na economia, há o produtor ativo
  • 18:29 - 18:30
    e o consumidor passivo,
  • 18:30 - 18:32
    o que explica porque é que os negócios
  • 18:32 - 18:35
    têm que penetrar sempre em novos mercados.
  • 18:35 - 18:40
    Ou seja, porque é que forçámos a China
    a abrir os seus mercados?
  • 18:40 - 18:42
    Isso não nos soube bem?
  • 18:42 - 18:44
    (Risos)
  • 18:46 - 18:48
    Agora, estamos a ser penetrados.
  • 18:48 - 18:51
    As empresas biotécnicas
    estão a entrar dentro de nós
  • 18:51 - 18:53
    e a implantar as suas bandeirinhas
    nos nossos genes.
  • 18:53 - 18:56
    Sabemos que estamos a ser penetrados.
  • 18:56 - 18:59
    E suspeito que é por alguém
    que nos detesta ativamente.
  • 18:59 - 19:01
    (Risos)
  • 19:02 - 19:06
    É o segundo do lembrete quádruplo.
  • 19:07 - 19:09
    Claro que apanharam esta. Muito obrigada.
  • 19:09 - 19:10
    Ainda não acabei.
  • 19:10 - 19:13
    (Risos)
  • 19:13 - 19:17
    O que eu espero fazer,
    quando faço estas ligações.
  • 19:17 - 19:20
    é curtocircuitar o pensamento das pessoas.
  • 19:20 - 19:25
    Obrigar-vos a não seguirem
    o vosso caminho habitual de associações,
  • 19:25 - 19:28
    mas tentar rebobinar-vos.
  • 19:28 - 19:31
    Quando as pessoas falam
    do choque de reconhecimento
  • 19:31 - 19:36
    trata-se de re-conhecimento,
    de rebobinar a forma como pensam.
  • 19:41 - 19:44
    Eu tinha uma piada para isto,
    mas esqueci-a.
  • 19:44 - 19:48
    Desculpem, estou a ficar
    como a mulher, naquela anedota.
  • 19:49 - 19:52
    Já ouviram a anedota da mulher
    que ia de carro, com a mãe?
  • 19:53 - 19:55
    A mãe é idosa
  • 19:55 - 19:57
    e a mãe passa um sinal vermelho.
  • 19:57 - 19:59
    A filha não quer dizer nada.
  • 19:59 - 20:03
    Não quer ser, tipo:
    "Estás demasiado velha para guiar".
  • 20:02 - 20:05
    A mãe passa outro sinal vermelho.
  • 20:05 - 20:08
    E a filha diz, com o maior tacto possível:
  • 20:09 - 20:12
    "Mãe, reparaste que passaste
    dois sinais vermelhos?"
  • 20:13 - 20:15
    E a mãe diz: "Oh! Sou eu que vou a guiar?"
  • 20:15 - 20:17
    (Risos)
  • 20:21 - 20:24
    É este o choque do reconhecimento,
  • 20:24 - 20:26
    no momento do choque do reconhecimento.
  • 20:26 - 20:28
    Este completa o lembrete quádruplo.
  • 20:29 - 20:30
    (Risos)
  • 20:33 - 20:35
    Só quero dizer mais duas coisas.
  • 20:35 - 20:38
    Uma é que outra característica
    do trapaceiro
  • 20:38 - 20:42
    é que o trapaceiro
    tem que andar na corda bamba.
  • 20:43 - 20:45
    Tem que ter equilíbrio.
  • 20:45 - 20:49
    Para mim, o maior obstáculo,
    naquilo que faço
  • 20:49 - 20:54
    é construir o meu espetáculo
    que seja preparado e improvisado.
  • 20:55 - 20:58
    Encontrar o equilíbrio
    entre estas duas coisas
  • 20:58 - 20:59
    é sempre perigoso
  • 20:59 - 21:03
    porque podemos inclinar-nos demasiado
    na direção do improvisado.
  • 21:02 - 21:07
    Mas estar preparado demais
    não deixa espaço para os acidentes.
  • 21:09 - 21:13
    Estava a pensar no que Moshe Safdie
  • 21:13 - 21:15
    disse ontem sobre a beleza
  • 21:15 - 21:17
    porque no seu livro, Hyde diz
  • 21:17 - 21:22
    que, por vezes, o trapaceiro
    pode hesitar na beleza.
  • 21:23 - 21:28
    Mas, para isso, é preciso
    perder todas as outras qualidades
  • 21:28 - 21:31
    porque, depois de entrarem na beleza,
  • 21:31 - 21:33
    entram numa coisa acabada.
  • 21:33 - 21:37
    Entram numa coisa que ocupa espaço
    e habita o tempo.
  • 21:37 - 21:39
    É uma grande verdade.
  • 21:40 - 21:43
    É sempre extraordinário
    ver uma coisa bela.
  • 21:44 - 21:46
    Mas se não fizermos isso,
  • 21:46 - 21:49
    se permitirmos que o acidente
    continue a acontecer,
  • 21:49 - 21:52
    temos a possibilidade de entrar
    num comprimento de onda.
  • 21:53 - 21:58
    Gosto de pensar no que faço
    como uma onda de probabilidade.
  • 21:59 - 22:02
    Quando entramos na beleza,
    a onda de probabilidade
  • 22:02 - 22:04
    soçobra numa só possibilidade.
  • 22:04 - 22:07
    E eu gosto de explorar
    todas as possibilidades
  • 22:07 - 22:11
    na esperança de ficar no mesmo
    comprimento de onda do público.
  • 22:13 - 22:16
    A última qualidade do trapaceiro
    de que quero falar
  • 22:16 - 22:17
    é que ele não tem casa.
  • 22:17 - 22:19
    Anda sempre na estrada.
  • 22:20 - 22:24
    Quero dizer-te, Richard, a terminar,
  • 22:25 - 22:29
    que no TED criaste uma casa.
  • 22:29 - 22:31
    Obrigada por me terem convidado.
  • 22:32 - 22:33
    Muito obrigada.
  • 22:33 - 22:35
    (Aplausos)
Title:
Uma teoria sobre tudo
Speaker:
Emily Levine
Description:

A filósofa-comediante Emily Levine fala (divertidamente) sobre ciência, matemática, sociedade e a forma como tudo se relaciona. É uma brilhante humorista, fazendo-nos questionar as nossas ideias fixas e trazendo à luz verdades ocultas. Acomodem-se e abram a cabeça.

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English
Team:
closed TED
Project:
TEDTalks
Duration:
22:40
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