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Pensar Utopicamente a Educação | David Rodrigues | TEDxLisboaED

  • 0:11 - 0:14
    Toda a minha vida profissional
    tenho trabalhado
  • 0:14 - 0:17
    em Educação Especial e em
    Educação Inclusiva.
  • 0:17 - 0:21
    Tenho ensinado crianças com dificuldades,
    tenho ensinado professores,
  • 0:21 - 0:25
    e por força disto, tenho investigado e
    também, obrigatoriamente,
  • 0:25 - 0:28
    tenho que fazer conferências,
    como é o caso hoje.
  • 0:28 - 0:31
    Há cerca de um ano atrás estive
    numa universidade brasileira,
  • 0:31 - 0:34
    e depois de ter feito a minha
    conferência, no final,
  • 0:34 - 0:38
    naquela perigosíssima parte
    das perguntas,
  • 0:38 - 0:40
    alguém me perguntou:
  • 0:40 - 0:43
    "Desculpe, isso que o senhor está a falar,
  • 0:43 - 0:48
    "a inclusão, é realidade ou é utopia?"
  • 0:48 - 0:51
    E eu fiquei muito preocupado...
    Será que eu ando enganado?
  • 0:51 - 0:55
    Eu ando a enganar as pessoas a falar
    de utopias? De coisas irreais?
  • 0:55 - 1:00
    E foi isso, basicamente, que motivou o
    pensamento que eu vos trago hoje:
  • 1:00 - 1:05
    Pensar um pouco sobre "o que é a
    utopia em Educação",
  • 1:05 - 1:10
    ou, de outra maneira, "pensar a Educação
    de uma maneira utópica".
  • 1:10 - 1:12
    A primeira reflexão que eu fiz,
    foi exatamente
  • 1:12 - 1:14
    a de procurar o significado
    do termo "utopia".
  • 1:14 - 1:17
    Como a maioria de vocês saberá, "utopia"
  • 1:17 - 1:25
    é um termo que foi cunhado por um escritor
    inglês, Thomas More, que em 1516, escreveu
  • 1:25 - 1:29
    um livro chamado "Utopia", que se referia
    a uma ilha onde se passavam coisas
  • 1:29 - 1:31
    completamente estranhas e ao contrário.
  • 1:31 - 1:37
    Ele disse: "Esta ilha chama-se "Utopia",
    porque é um "ut-topos": é um "não-lugar".
  • 1:37 - 1:41
    Um não-lugar — eu fiquei logo descansado!
  • 1:41 - 1:47
    Já percebi! Utopia não é uma coisa irreal,
    é um "não-lugar"!
  • 1:47 - 1:50
    E eu até me lembrei de um quadro de uma
    tia minha, que eu tenho lá em casa,
  • 1:50 - 1:55
    e que eu não consigo encontrar um
    lugar para esse quadro na minha casa!
  • 1:55 - 1:57
    Eu disse: "Ah! Espera aí, já percebi!
  • 1:57 - 2:01
    "O quadro não é irreal:
    o que é irreal é ele não ter lugar."
  • 2:01 - 2:05
    Humm, pronto, fiquei mais descansado
    (e acho que a minha tia me agradeceu muito
  • 2:05 - 2:10
    por este pensamento em relação ao quadro
    que ela tão amorosamente me deixou).
  • 2:10 - 2:13
    A segunda questão é que,
    durante 500 anos,
  • 2:13 - 2:19
    (reparem: de 1516 até agora),
    a utopia foi tendo muitas aceções,
  • 2:19 - 2:21
    muitos sentidos...
  • 2:21 - 2:25
    E um dos mais interessantes é, sem dúvida,
    o colocado por Eduardo Galeano
  • 2:25 - 2:28
    — um grande intelectual sul-americano —
  • 2:28 - 2:32
    que disse:
    "a função da utopia é fazer-nos caminhar".
  • 2:32 - 2:35
    É como se fosse um farol para o qual nós
    temos que caminhar.
  • 2:35 - 2:37
    E ele diz, inclusivamente:
  • 2:37 - 2:42
    "Alcançar a utopia é impossível, porque
    quando nós damos dois passos,
  • 2:42 - 2:44
    a utopia dá dez".
  • 2:44 - 2:48
    E, portanto, a utopia continua sempre a
    ser qualquer coisa que nós
  • 2:48 - 2:52
    perseguimos mas que, certamente,
    nunca alcançamos.
  • 2:52 - 2:56
    Segundo aspeto para me tornar mais
    descansado em relação à utopia!
  • 2:56 - 3:03
    Em terceiro lugar, pensei que ser
    utópico é fundamentalmente conhecer,
  • 3:03 - 3:06
    antes de mais, o lugar onde
    nós estamos.
  • 3:06 - 3:12
    Uma pessoa que não conhece o lugar onde
    está é louca, não utópica.
  • 3:12 - 3:15
    A pessoa tem que conhecer,
    antes de mais, reflexivamente...
  • 3:15 - 3:19
    Tem que "refletir reflexivamente" sobre a
    realidade em que está
  • 3:19 - 3:23
    E depois, então, sim, imaginar a
    realidade que quer.
  • 3:23 - 3:27
    E a utopia está aqui situada
    entre estes dois polos:
  • 3:27 - 3:30
    entre a reflexão sobre a realidade
    que temos
  • 3:30 - 3:33
    e a imaginação sobre o que nós
    queremos ter.
  • 3:33 - 3:39
    Nós, na verdade (terceiro aspeto),
    vivemos rodeados de utopias.
  • 3:39 - 3:43
    Querem ver uma utopia fantástica?
    A democracia.
  • 3:43 - 3:45
    Todos nós dizemos que vivemos em
    democracia.
  • 3:45 - 3:48
    Não me digam que há
    maior utopia do que a democracia...
  • 3:48 - 3:52
    Se eu perguntasse aqui na sala quantas
    pessoas é que estão satisfeitas com
  • 3:52 - 3:56
    a nossa democracia, eu não sei se havia
    algum braço levantado.
  • 3:56 - 4:00
    No entanto, nós falamos em democracia como
    se fosse uma coisa real!
  • 4:00 - 4:03
    É uma grande utopia a nossa democracia,
    não é verdade?
  • 4:03 - 4:07
    Também o nosso sistema de saúde.
    Nós pensamos:
  • 4:07 - 4:10
    "Nós temos um sistema de saúde e,
    qualquer dia, quando eu ficar doente,
  • 4:10 - 4:14
    "eu vou ter um atendimento rápido e eficaz,
    imediatamente."
  • 4:14 - 4:17
    "Hummm... seu utópico!
    Nem pense nisso!"
  • 4:17 - 4:21
    "Calma, homem, calma.
    Não é tanto assim..."
  • 4:21 - 4:24
    Portanto, nós estamos rodeados de utopias,
    entre as quais a Educação
  • 4:24 - 4:26
    — e era isso que eu vos queria apresentar.
  • 4:26 - 4:29
    Há pouco não falei de uma questão que eu
    penso que é importante:
  • 4:29 - 4:31
    há pessoas também retrópicas.
  • 4:31 - 4:35
    Eu, há pouco tempo, escrevi
    um artigo sobre os retrópicos,
  • 4:35 - 4:39
    considerando que "retrópicos" são aquelas
    pessoas que não conseguem ver a utopia
  • 4:39 - 4:42
    à frente delas, mas só a veem atrás delas.
  • 4:42 - 4:44
    Dizem assim:
  • 4:44 - 4:46
    "Hummm, no meu tempo é que
    o lombo de porco era bom..."
  • 4:46 - 4:50
    "Ahh, no meu tempo é que era!
    E a escola?
  • 4:50 - 4:55
    "Aquela maravilha da escola era uma coisa
    fantástica! Ahh, antigamente..."
  • 4:55 - 4:57
    [Aplausos]
  • 4:57 - 5:00
    "Antigamente
    havia respeito... as ruas estavam limpas...".
  • 5:00 - 5:06
    Retrópicos: são pessoas que imaginam que
    a utopia está atrás delas.
  • 5:06 - 5:09
    A Educação é também uma utopia.
  • 5:09 - 5:12
    Eu gostava de chamar a atenção para
    dois aspetos desta utopia.
  • 5:12 - 5:15
    Em primeiro lugar, a educação prometeu
  • 5:15 - 5:19
    ser universal e gratuita.
  • 5:19 - 5:21
    Prometeu mas não cumpriu.
  • 5:21 - 5:24
    A educação nem é universal
  • 5:24 - 5:26
    — e nós, por exemplo, em Portugal
    temos a maior taxa de abandono
  • 5:26 - 5:30
    no ensino secundário de toda a
    Comunidade Europeia —,
  • 5:30 - 5:33
    nem é universal, nem é gratuita.
  • 5:34 - 5:37
    Bom... isto foi uma utopia.
    Mas uma segunda utopia mais importante
  • 5:37 - 5:40
    foi que a educação prometeu igualdade de
    oportunidades.
  • 5:40 - 5:43
    A ideia da escola, que foi criada no
    século XIX
  • 5:43 - 5:47
    — a escola que nós conhecemos hoje é
    uma criação do século XIX —
  • 5:47 - 5:51
    era: "Nós vamos dar a todos o mesmo,
    e a partir de darmos a todos o mesmo,
  • 5:51 - 5:54
    "nós criamos igualdade de oportunidades".
  • 5:54 - 5:57
    E nós sabemos: isso não é verdade.
  • 5:57 - 6:01
    A igualdade de oportunidades
    não se avalia por aquilo
  • 6:01 - 6:04
    que se dá, mas por aquilo que se recebe.
  • 6:05 - 6:08
    Isto é, não adianta dar
    a todas as pessoas o mesmo,
  • 6:08 - 6:11
    se eu souber que as pessoas não
    têm capacidade para receber,
  • 6:11 - 6:14
    para absorver, para usar,
    para utilizar,
  • 6:14 - 6:17
    para integrar aquilo que lhes é dado.
  • 6:17 - 6:21
    A igualdade de oportunidades não é do lado
    do que se dá, mas do lado que se recebe.
  • 6:21 - 6:25
    E, portanto nunca foi tão importante
    quanto hoje...
  • 6:25 - 6:28
    [Aplausos]
  • 6:29 - 6:35
    Nunca foi tão importante como hoje
    falar de valores, de utopias em Educação.
  • 6:35 - 6:37
    E regressando àquela minha amiga
    que me pôs a pergunta
  • 6:37 - 6:39
    "Você está a falar de utopias?"
  • 6:39 - 6:43
    eu estou mais descansado:
    as utopias são reais;
  • 6:43 - 6:47
    estamos rodeados delas, e são úteis,
    e por isso, eu vos vou falar das
  • 6:47 - 6:52
    cinco utopias que eu tenho para
    a Educação do futuro:
  • 6:52 - 6:56
    Em primeiro lugar, a minha primeira
    utopia, é que nós tenhamos
  • 6:56 - 7:00
    uma escola que seja para todos
    e para cada um.
  • 7:00 - 7:02
    Sem dúvida, uma escola para todos,
    uma escola universal.
  • 7:02 - 7:05
    Mas também que seja uma escola
    para cada um.
  • 7:05 - 7:09
    Quer dizer que cada criança tenha
    na escola o atendimento,
  • 7:09 - 7:14
    tenha a atenção, tenha o respeito que
    merece na escola.
  • 7:14 - 7:15
    Cada criança!
  • 7:16 - 7:19
    [Aplausos]
  • 7:19 - 7:23
    Não nos interessa ter uma escola que é
    só para todos.
  • 7:23 - 7:28
    Interessa-nos também ter uma escola
    que seja suficientemente atenta
  • 7:28 - 7:30
    às necessidades de cada criança.
  • 7:30 - 7:34
    A minha primeira utopia é uma escola para
    todos e para cada um.
  • 7:34 - 7:38
    A segunda utopia é que eu gostava que
    a Educação fosse centrada
  • 7:38 - 7:41
    no aluno e na aprendizagem.
  • 7:41 - 7:44
    Eu gostava de vos chamar a atenção para
    quantas coisas existem nas nossas escolas
  • 7:44 - 7:48
    que não têm nada a ver com a aprendizagem,
    nem têm nada a ver com os alunos:
  • 7:48 - 7:52
    há as atas, há as reuniões, há os
    relatórios, há os perfis...
  • 7:52 - 7:54
    Há quinhentas coisas que as pessoas
    têm de fazer...
  • 7:54 - 7:55
    [Aplausos]
  • 7:55 - 7:58
    ... mas que não têm a ver com o aluno!
  • 7:58 - 8:03
    Eu gostava que a escola fizesse,
    como se diz em linguagem empresarial,
  • 8:03 - 8:07
    o seu "core business" ao nível
    do que é a aprendizagem.
  • 8:07 - 8:10
    É com isto que nós nos devíamos preocupar
    na escola, é com a aprendizagem.
  • 8:10 - 8:16
    Tudo? Não, vá lá, 95% está bem,
    mas deixar 5% para o resto.
  • 8:16 - 8:18
    E não é isso o que se passa.
  • 8:18 - 8:21
    Nós precisamos de uma aprendizagem
  • 8:21 - 8:24
    que seja centrada no aluno
    e que seja centrada também
  • 8:24 - 8:28
    em todo o processo de aprendizagem.
  • 8:28 - 8:32
    Em terceiro lugar, a minha terceira utopia,
    é uma Educação que confie no aluno.
  • 8:32 - 8:36
    Vocês sabem que eu acho que
    a nossa escola passa
  • 8:36 - 8:39
    a vida a desconfiar dos alunos?
  • 8:39 - 8:41
    Nós desconfiamos que eles são preguiçosos,
  • 8:41 - 8:44
    que eles são burros, que eles são
    facilitistas...
  • 8:44 - 8:47
    Eu adoro este termo "facilitistas":
    porque nós, por exemplo,
  • 8:47 - 8:50
    se tivermos uma maneira de fazer uma coisa
    fácil, e fazer a mesma coisa difícil,
  • 8:50 - 8:52
    nós escolhemos sempre o difícil, não é?
  • 8:52 - 8:54
    (Risos)
  • 8:54 - 8:55
    Obviamente!
  • 8:55 - 8:58
    Não é como os alunos,
    que são uns "facilitistas", não é?
  • 8:58 - 8:59
    (Aplausos)
  • 8:59 - 9:01
    Não faz sentido!
  • 9:01 - 9:04
    [Aplausos]
  • 9:04 - 9:08
    A minha utopia é uma escola que confie
  • 9:08 - 9:15
    nos alunos, que saiba que as crianças
    evoluem por patamares de competência.
  • 9:15 - 9:19
    E todas as crianças têm competência!
    Todas as crianças têm responsabilidade.
  • 9:19 - 9:24
    O que nós não podemos pedir a "todas" as
    crianças, em "todas" as circunstâncias,
  • 9:24 - 9:27
    é a mesma capacidade e as mesmas
    responsabilidades.
  • 9:27 - 9:31
    Portanto, nós temos que ter a ideia que
    podemos confiar nos alunos,
  • 9:31 - 9:34
    podemos confiar na sua forma de se
    organizarem, na sua forma de aprender,
  • 9:34 - 9:39
    na sua seriedade, na sua solidariedade.
    E temos que confiar nisso, nos alunos,
  • 9:39 - 9:43
    e não passar a vida neste braço de ferro
    entre o que somos nós e
  • 9:43 - 9:46
    "aqueles malandros que estão a ver
    se nos enganam..."
  • 9:46 - 9:49
    (Risos)
    (Aplausos]
  • 9:52 - 9:57
    A minha quarta utopia é que a escola seja
    "um espaço de liberdade e cidadania".
  • 9:57 - 10:00
    Precisamos de uma escola que seja um
    espaço de liberdade,
  • 10:00 - 10:03
    sem dúvida — também um espaço
    de cidadania.
  • 10:03 - 10:07
    E, para isso, nós precisamos talvez
    de uma coisa muito simples:
  • 10:07 - 10:13
    nós precisamos de fazer com que
    a escola "ensine menos e faça mais".
  • 10:13 - 10:17
    Quer dizer que, muitas vezes nós ensinamos
    a cidadania na escola,
  • 10:17 - 10:21
    mas quando há um conflito na escola,
    nós resolvemo-lo segundo outros princípios
  • 10:21 - 10:24
    que não são os da cidadania.
  • 10:24 - 10:28
    Nós ensinamos, por exemplo, a questão
    da sustentabilidade. Sem dúvida!
  • 10:28 - 10:31
    Mas os meninos sabem para onde vai
    o lixo da escola?
  • 10:31 - 10:34
    Sabem de onde vem a comida da escola?
  • 10:34 - 10:36
    Sabem como é que se recicla
    o lixo da escola?
  • 10:36 - 10:37
    Sabem isso, ou não?
  • 10:37 - 10:42
    Portanto, nós falamos muito "sobre" mas
    mas vivemos pouco na escola estes valores.
  • 10:42 - 10:47
    Eu quero que a escola "viva" os valores,
    em lugar de só "falar" deles.
  • 10:47 - 10:51
    Precisamos de uma escola que seja cidadã,
    que seja solidária, que seja sustentável
  • 10:51 - 10:54
    e que "viva" estes valores no dia-a-dia.
  • 10:54 - 10:57
    [Aplausos]
  • 10:58 - 11:03
    Finalmente, a minha quinta utopia é uma
    Educação comprometida com
  • 11:03 - 11:06
    a criatividade e a com sustentabilidade.
  • 11:06 - 11:10
    Nós sabemos que a criatividade é
    um parente muito pobre da escola.
  • 11:10 - 11:14
    Deixem-me contar-vos um episódio que se
    passou comigo.
  • 11:14 - 11:17
    Eu era um jovem professor e
    estava a trabalhar com um menino
  • 11:17 - 11:21
    com dificuldades de aprendizagem,
    a apoiá-lo na leitura e na escrita,
  • 11:21 - 11:24
    e ele ficou muito interessado num jornal
    que eu tinha em cima da secretária.
  • 11:24 - 11:27
    Ele olhou para o jornal e eu disse: "Uau!
  • 11:27 - 11:30
    "Aqui está o meu tema de hoje!
    É o jornal!"
  • 11:30 - 11:34
    E, então, eu decidi fazer uma operação
    aritmética com ele, e disse-lhe: "Olha,
  • 11:34 - 11:38

    — ele chamava-se Rui; era um bravo rapaz —:
  • 11:38 - 11:45
    "Rui, se cada folha do jornal pesar
    dez gramas, e se o jornal tiver
  • 11:45 - 11:48
    "dez folhas, quanto é que pesa o jornal?"
  • 11:48 - 11:56
    Ele ficou a pensar: "Duzentos gramas!"
    —"Não, não, não. Oh, Rui, espera aí.
  • 11:56 - 12:03
    "Cada folha são dez gramas.
    O jornal tem dez folhas, estás a ver?
  • 12:03 - 12:06
    "Quanto pesa o jornal?
  • 12:06 - 12:11
    Ele pensa e responde:
    "Duzentos gramas!"
  • 12:11 - 12:15
    Eu fiquei... Finalmente fiz a pergunta
    que devia ter feito no princípio:
  • 12:15 - 12:18
    "Porquê?"
    Ele disse-me assim:
  • 12:18 - 12:21
    "é muito fácil: o jornal está
    impresso dos dois lados."
  • 12:21 - 12:25
    (Risos) (Aplausos)
  • 12:29 - 12:34
    Eu já sabia que há erros que
    valem mais do que acertos,
  • 12:34 - 12:37
    mas fiquei convencido desta vez.
  • 12:37 - 12:42
    E nós precisamos de uma escola que tome
    atenção a estes "erros",
  • 12:42 - 12:45
    a estes aspetos da criatividade, e que
    não julgue só que há
  • 12:45 - 12:50
    crianças estúpidas e inteligentes, mas
    perceber porque é que uma resposta é dada.
  • 12:50 - 12:54
    (Aplausos)
  • 12:56 - 13:01
    Gostava de, depois de ter apontado estas
    avenidas, que eu penso que são o meu sonho
  • 13:01 - 13:05
    — como dizia Martin Luther King
    "I have a dream" —
  • 13:05 - 13:07
    o meu sonho em relação à evolução,
  • 13:07 - 13:09
    eu gostava de vos apontar
    três ou quatro caminhos
  • 13:09 - 13:12
    que eu penso que são importantes
    para lá chegar.
  • 13:12 - 13:14
    A primeira questão é
    a formação em serviço.
  • 13:14 - 13:18
    A nossa formação em serviço é uma
    formação muito deficitária.
  • 13:18 - 13:21
    Nós continuamos a fazer uma formação em
    serviço, como se os professores
  • 13:21 - 13:25
    não tivessem aprendido ou ouvido bem,
    na formação inicial.
  • 13:25 - 13:29
    Nós precisamos é de uma formação em
    serviço centrada nos problemas
  • 13:29 - 13:32
    da escola e centrada nos problemas
    dos alunos.
  • 13:32 - 13:34
    Porque eu já ouvi bem na formação inicial.
  • 13:34 - 13:37
    Preciso agora é de uma outra coisa,
    de um outro apoio para
  • 13:37 - 13:39
    a minha formação profissional.
  • 13:39 - 13:43
    Formação em serviço é, sem dúvida,
    um aspeto fundamental.
  • 13:43 - 13:45
    Segundo: o apoio.
  • 13:45 - 13:50
    Como é possível nós deixarmos crianças
    que precisam de apoio sem terem apoio?
  • 13:50 - 13:54
    Às vezes questionam-se: "Ai, eu não sei
    se esta criança é elegível para o apoio".
  • 13:54 - 13:57
    Elegível?
    Elegível é ele ter dificuldades, não é?
  • 13:57 - 14:01
    Porque é que é preciso eu estar a ver se
    ele é "elegível" para o apoio?
  • 14:01 - 14:04
    O elegível é a criança ter dificuldades.
  • 14:04 - 14:07
    Nos EUA, como sabem,
    havia um programa que se chamava
  • 14:07 - 14:12
    "No Child Left Behind" — "Nenhuma criança
    pode ser deixada para trás".
  • 14:12 - 14:14
    E é isso que eu penso que é muito
  • 14:14 - 14:16
    importante nas nossas escolas:
  • 14:16 - 14:20
    nós não podemos deixar nenhuma criança,
    por nenhum motivo, para trás,
  • 14:20 - 14:23
    porque senão somos incompetentes.
  • 14:23 - 14:26
    (Aplausos)
  • 14:29 - 14:31
    E finalmente,
    a questão da Educação alternativa.
  • 14:31 - 14:34
    Cada vez que nós lemos livros sobre
    Educação,
  • 14:34 - 14:36
    que lemos investigação sobre Educação,
  • 14:36 - 14:40
    nós constatamos que existe
    imensa coisa que funciona em Educação
  • 14:40 - 14:41
    e que não é usada.
  • 14:41 - 14:45
    Olhem, por exemplo, o que falou
    a nossa oradora anterior,
  • 14:45 - 14:49
    a questão do recurso ao concreto,
    a questão da dramatização,
  • 14:49 - 14:52
    os métodos ativos,
    a questão do trabalho em grupo...
  • 14:52 - 14:57
    tanta coisa que funciona e que nós
    classificamos como métodos alternativos.
  • 14:57 - 15:01
    Eu lembro-me sempre daquela piada, de
    que os aviões deviam ser feitos da mesma
  • 15:01 - 15:04
    matéria da caixa negra, porque assim
    eles nunca caíam
  • 15:04 - 15:07
    — porque a única coisa que se
    salva nos aviões é a caixa negra, não é?
  • 15:07 - 15:08
    (Risos)
  • 15:08 - 15:12
    E eu pergunto-me: "Mas então, se nós
    sabemos qual é a caixa negra, porque é que
  • 15:12 - 15:14
    "não fazemos o avião com a caixa negra?"
  • 15:14 - 15:17
    Porque é que nós não usamos mais os
    métodos da Educação alternativa?
  • 15:17 - 15:21
    E continuamos a dizer:
    "Educação a sério é isto,
  • 15:21 - 15:24
    "e Educação alternativa
    são aquelas coisas que... funcionam".
  • 15:24 - 15:27
    (Risos) (Aplausos)
  • 15:32 - 15:35
    Benjamin Franklin dizia:
    "Há três tipos de pessoas:
  • 15:35 - 15:38
    "há as pessoas inamovíveis"
  • 15:38 - 15:41
    — nós conhecemos, são aquelas pessoas
    que desde o berço já sabem que o leite
  • 15:41 - 15:44
    tem que ser àquela temperatura e
    a mais nenhuma —,
  • 15:44 - 15:48
    sabem, há pessoas inamovíveis,
    depois diz:
  • 15:48 - 15:51
    "há as pessoas amovíveis"
    — aquelas com quem se pode dialogar
  • 15:51 - 15:53
    e que se podem modificar —
  • 15:53 - 15:54
    — "e há as pessoas que se movem."
  • 15:54 - 15:56
    Eu tenho à minha frente 700 pessoas
    que se movem.
  • 15:56 - 15:59
    Senão vocês estavam em casa a esta hora.
  • 15:59 - 16:02
    (Aplausos)
  • 16:06 - 16:11
    A utopia pertence a quem se move.
    As utopias são de "quem se move",
  • 16:11 - 16:16
    não daqueles que fazem
    da espera contemplativa, a sua esperança
  • 16:16 - 16:18
    — a esperança vem de "espera..."
  • 16:18 - 16:21
    Nós às vezes temos
    a esperança contemplativa.
  • 16:21 - 16:24
    à espera de que as coisas nos aconteçam:
  • 16:24 - 16:28
    "Será que o Ministério da Educação
    vai fazer?..."
  • 16:28 - 16:35
    Só quem, ativamente, espera,
    pode encontrar o inesperado.
  • 16:36 - 16:40
    E a inovação. E o futuro.
  • 16:41 - 16:46
    Um grande poeta e grande músico português
    escreveu, antes de morrer, uma música
  • 16:46 - 16:52
    a que chamou "Utopia".
  • 16:52 - 16:55
    Eu vou-vos ler a
    parte final deste poema, que diz:
  • 16:55 - 17:00
    "Será que existe
    lá para os lados do Oriente
  • 17:00 - 17:06
    "este rio, este rumo, esta gaivota?
  • 17:06 - 17:10
    "Que outro fumo deverei seguir
    na minha rota?"
  • 17:10 - 17:15
    Zeca Afonso.
    Nós seguimos a utopia.
  • 17:15 - 17:16
    Obrigado.
  • 17:16 - 17:18
    (Aplausos)
Title:
Pensar Utopicamente a Educação | David Rodrigues | TEDxLisboaED
Description:

David Rodrigues é Professor e Investigador na área da Educação Especial e Inclusiva.
No seu vasto currículo destaca-se o envolvimento em diversos organismos nacionais e internacionais de grande relevo, tais como a Sociedade Internacional para Estudos da Criança ou o Conselho da Europa.
É fundador e coordenador do Fórum de Estudos de Educação Inclusiva, Presidente da Pró-Inclusão - Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, e fundador e diretor da Revista Educação Inclusiva.
Já lecionou em diversas Universidades Portuguesas e Estrangeiras, e é atualmente coordenador do Mestrado em Educação Especial do Instituto Piaget.

O que é a Inclusão? Qual é a utilidade da Utopia?
Nesta palestra, o Professor David Rodrigues reflete sobre a importância de não temer sonhar outro “real”, e apresenta-nos as suas cinco Utopias para a Educação do Futuro – sem medos.

Esta palestra foi dada num evento local TEDx, produzido independentemente das Conferências TED.

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Video Language:
Portuguese
Team:
closed TED
Project:
TEDxTalks
Duration:
17:28

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