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4 Adventures of Reinette and Mirabelle

  • 0:10 - 0:19
    ''AS 4 AVENTURAS DE
    REINETTE E MIRABELLE''
  • 0:19 - 1:30
    HORA AZUL
  • 1:30 - 1:31
    Desculpe.
  • 1:31 - 1:34
    Sabe onde tem uma oficina perto?
  • 1:34 - 1:38
    A dois quilômetros.
  • 1:38 - 1:44
    -Acho que o pneu furou.
    -Posso dar uma olhada?
  • 1:44 - 1:54
    Pode segurar isto?
  • 1:54 - 1:56
    Tem remendos?
  • 1:56 - 2:00
    Tenho, mas...
    como vou achar o furo?
  • 2:00 - 2:07
    Nunca consertou um pneu?
  • 2:07 - 2:10
    Deixe comigo.
  • 2:10 - 2:13
    -Tem a tampa?
    -Não está comigo.
  • 2:13 - 2:28
    Tudo bem.
  • 2:28 - 2:41
    É por ali.
  • 2:41 - 2:43
    Está vendo as bolhas?
  • 2:43 - 2:44
    O furo está aí.
  • 2:44 - 2:48
    Ponha seu dedo em cima...
    assim.
  • 2:48 - 2:50
    Deixe-me fazer isso.
  • 2:50 - 2:56
    Pronto. Você seca para
    a cola pegar melhor.
  • 2:56 - 3:00
    -Segure.
    -Deixe que eu faço.
  • 3:00 - 3:05
    Agora vou passar a lixa.
  • 3:05 - 3:08
    Passe a lixa.
    Quer fazer?
  • 3:08 - 3:13
    Assim... para pegar bem.
  • 3:13 - 3:28
    Você pega a cola...
    os remendos.
  • 3:28 - 3:32
    O tubo está novinho.
    Eles fazem coisas...
  • 3:32 - 3:37
    Agora tudo é feito de metal.
    É uma coisa!
  • 3:37 - 3:40
    É preciso uma coisa afiada
    para furar o tubo.
  • 3:40 - 3:42
    Uma agulha.
  • 3:42 - 4:03
    -Vou buscar.
    -Um garfo serve.
  • 4:03 - 4:07
    -Podemos botar mais.
    -Não. Está bem assim.
  • 4:07 - 4:10
    Vou pôr também no remendo...
  • 4:10 - 4:22
    para segurar mais.
  • 4:22 - 4:24
    -Agora o remendo.
    -Você não colocou em cima.
  • 4:24 - 4:29
    Está bom.
    Agora aperte bem forte...
  • 4:29 - 4:34
    para maior aderência.
  • 4:34 - 4:37
    Depois remova o papel.
  • 4:37 - 4:56
    Vou pendurar ali para secar.
  • 4:56 - 5:00
    -O que é isto?
    -''Isto'' o quê?
  • 5:00 - 5:03
    Este lugar.
  • 5:03 - 5:06
    É a minha casa.
  • 5:06 - 5:11
    -Mas você mora onde?
    -Ali.
  • 5:11 - 5:19
    Aqui é minha cozinha.
  • 5:19 - 5:22
    Meu quarto é lá em cima.
  • 5:22 - 5:25
    -É a sua casa?
    -Que mais poderia ser?
  • 5:25 - 5:28
    Sei lá...
    parece mais um celeiro.
  • 5:28 - 5:33
    Era antes. Fizemos um quarto.
    Quer visitar?
  • 5:33 - 5:35
    Quero.
  • 5:35 - 5:37
    Cuidado com as plantas.
  • 5:37 - 5:42
    Elas espetam. Gosto de deixar
    as plantas crescerem naturalmente.
  • 5:42 - 5:46
    Eu também. Mas a cabra
    do vizinho pensa diferente.
  • 5:46 - 5:48
    Essa árvore é magnífica!
  • 5:48 - 5:52
    É a árvore da minha bisavó.
    É linda, não?
  • 5:52 - 5:55
    Como assim, ''da sua bisavó''?
  • 5:55 - 5:59
    Foi plantada no dia em que ela
    nasceu, há mais de 100 anos.
  • 5:59 - 6:02
    É uma pereira.
  • 6:02 - 6:06
    Venha, é por aqui.
  • 6:06 - 6:17
    A pequena porta verde.
  • 6:17 - 6:25
    -Entre, senhorita.
    -Obrigada.
  • 6:25 - 6:28
    Não repare na bagunça.
  • 6:28 - 6:33
    A escada é ali.
  • 6:33 - 6:47
    Pode subir. É sólida.
  • 6:47 - 6:49
    -Você mora sozinha?
    -Moro.
  • 6:49 - 6:52
    Minha mãe tem uma
    mercearia em Rebais.
  • 6:52 - 7:06
    Eu gosto de passar o verão aqui.
  • 7:06 - 7:24
    -A sua casa é uma graça.
    -Obrigada.
  • 7:24 - 7:27
    Você pinta?
  • 7:27 - 7:30
    Bem... eu tento.
  • 7:30 - 7:32
    E você, o que faz?
  • 7:32 - 7:34
    -Eu sou estudante.
    -De quê?
  • 7:34 - 7:37
    -Etnologia.
    -O que é isso?
  • 7:37 - 7:40
    O estudo das etnias.
  • 7:40 - 7:42
    -Do quê?
    -Das etnias.
  • 7:42 - 7:48
    Vem do grego ''ethnos'',
    que significa ''povo''.
  • 7:48 - 7:51
    Entendi.
    Como você se chama?
  • 7:51 - 7:56
    -Mirabelle.
    -Eu sou Reinette.
  • 7:56 - 7:58
    Posso dar uma olhada
    nos seus quadros?
  • 7:58 - 8:02
    Claro, à vontade.
  • 8:02 - 8:10
    Chamei esse de ''Fuga''.
  • 8:10 - 8:16
    -É assim...
    -Assim?
  • 8:16 - 8:20
    É melhor ficar olhando... de longe.
  • 8:20 - 8:23
    Esse é ''A Recusa''.
  • 8:23 - 8:26
    -Por quê?
    -Ou ''A Escolha''.
  • 8:26 - 8:29
    Você se recusa a ficar com
    os olhos fechados ou abertos...
  • 8:29 - 8:32
    e escolhe a cabeça
    para esse corpo.
  • 8:32 - 8:35
    É só você a colocar.
  • 8:35 - 8:37
    E esse?
  • 8:37 - 8:43
    -Pode ser assim? Não tem problema?
    -Esse aí, só olhando de longe.
  • 8:43 - 8:47
    Eu pinto assim.
    Não é para entender.
  • 8:47 - 8:50
    Parecem histórias em quadrinhos.
  • 8:50 - 8:54
    Não conheço nada de histórias
    em quadrinhos. Só Grimm e Perrault.
  • 8:54 - 8:56
    Eles desenhavam
    histórias em quadrinhos?
  • 8:56 - 8:59
    Não sei, mas é parecido.
  • 8:59 - 9:02
    Quer ver o meu preferido?
    Não, primeiro outro.
  • 9:02 - 9:05
    Espere! Tem um muito
    engraçado que eu adoro.
  • 9:05 - 9:08
    Chama-se ''Uns Milímetros a Mais''.
  • 9:08 - 9:13
    -Os milímetros são por causa disso?
    -Não, porque esta é menor que essa.
  • 9:13 - 9:16
    Essa é a minha formiga predileta.
  • 9:16 - 9:19
    -Você pinta formigas?
    -Adoro as formigas.
  • 9:19 - 9:24
    Gostei desse quadro porque
    a formiga ficou muito boa.
  • 9:24 - 9:26
    Tudo isso acontece na Lua?
  • 9:26 - 9:29
    Pode-se dizer que sim.
  • 9:29 - 9:31
    Quer ver meu pôr-do-sol?
  • 9:31 - 9:40
    Vou lhe mostrar.
  • 9:40 - 9:45
    Nesse, os milímetros a mais
    estão ali.
  • 9:45 - 9:49
    Acho que é a parte mais bonita
    do corpo da mulher.
  • 9:49 - 9:53
    -Por isso, a coloco no centro.
    -Eu gosto.
  • 9:53 - 9:55
    Redondinho assim é bonito.
  • 9:55 - 9:58
    O que você faz é surrealista, não?
  • 9:58 - 10:04
    É... é muito...
  • 10:04 - 10:14
    Ano que vem vou a Paris
    fazer um curso.
  • 10:14 - 10:20
    Você tem muita sorte de poder
    viver aqui. É tão bonito.
  • 10:20 - 10:26
    -Você mora onde?
    -Em Paris.
  • 10:26 - 10:30
    -Mas não está vindo de Paris.
    -Não.
  • 10:30 - 10:34
    Meus pais têm uma casinha
    perto de La Ferté.
  • 10:34 - 10:40
    Com um jardinzinho,
    muita grama, muitas florzinhas.
  • 10:40 - 10:44
    Pode imaginar o gênero.
    A casa dos vizinhos é igual.
  • 10:44 - 10:50
    Nunca estive realmente no campo.
  • 10:50 - 10:52
    Acho o campo muito selvagem.
  • 10:52 - 10:56
    Por que não fica?
  • 10:56 - 11:01
    -Não. Falei por falar.
    -Fique! Tenho uma cama dobrável.
  • 11:01 - 11:04
    -Não quero incomodar.
    -Se incomodasse, eu não convidaria.
  • 11:04 - 11:08
    Terminei de pintar. Quando
    não pinto, gosto de conversar.
  • 11:08 - 11:11
    Se eu falar demais,
    você vai embora.
  • 11:11 - 11:14
    Não posso.
    Meus pais me esperam.
  • 11:14 - 11:18
    Ligue para eles.
  • 11:18 - 11:21
    -Você tem telefone?
    -Eu não. Meus vizinhos têm.
  • 11:21 - 11:28
    Vamos até lá.
  • 11:28 - 11:30
    Este silêncio é magnífico.
  • 11:30 - 11:33
    Em Paris não é assim.
  • 11:33 - 11:37
    Sempre tem um carro que passa...
  • 11:37 - 11:42
    o rádio do vizinho,
    um ruído contínuo.
  • 11:42 - 11:50
    Aqui também não há silêncio.
    Escute!
  • 11:50 - 11:55
    Ouça estes ruídos.
  • 11:55 - 12:00
    O silêncio não pode
    existir na Natureza.
  • 12:00 - 12:06
    No topo de uma montanha, talvez.
  • 12:06 - 12:10
    -Já esteve no topo de uma montanha?
    -Nunca.
  • 12:10 - 12:12
    Mas aqui também há o silêncio.
  • 12:12 - 12:15
    -Talvez à noite.
    -Não. A noite é cheia de ruídos.
  • 12:15 - 12:25
    Os gatos... as corujas.
    Não estou pensando na noite.
  • 12:25 - 12:27
    Conhece a hora azul?
  • 12:27 - 12:29
    ''A hora azul''?
  • 12:29 - 12:34
    Não é uma hora, é um minuto.
  • 12:34 - 12:39
    Um pouco antes do amanhecer,
    há um minuto de silêncio total.
  • 12:39 - 12:43
    Os pássaros do dia
    ainda não acordaram...
  • 12:43 - 12:46
    e os da noite já foram dormir.
  • 12:46 - 12:52
    Aí, é o silêncio.
  • 12:52 - 12:56
    Quando era menina, eu pedia
    à minha mãe para me acordar.
  • 12:56 - 13:01
    -Todas as manhãs?
    -Não todas as manhãs.
  • 13:01 - 13:07
    Duas ou três vezes ao ano,
    no verão, quando o céu é claro.
  • 13:07 - 13:12
    É difícil explicar isso
    a quem não vive no campo.
  • 13:12 - 13:19
    Mas o silêncio da Natureza
    é apavorante.
  • 13:19 - 13:22
    É um pouco como no tribunal...
  • 13:22 - 13:27
    quando o júri delibera e espera-se
    a sentença: ou é a vida...
  • 13:27 - 13:30
    ou é a morte.
  • 13:30 - 13:36
    Se um dia o mundo acabar,
    sei que será durante a hora azul.
  • 13:36 - 13:40
    Sabe por quê?
  • 13:40 - 13:46
    Porque é o momento em que
    a Natureza pára de respirar.
  • 13:46 - 13:52
    E isso dá medo.
  • 13:52 - 13:56
    Todos os camponeses temem
    essa hora. Por isso, dizem:
  • 13:56 - 14:00
    ''Amanhã será outro dia!''
    E é verdade.
  • 14:00 - 14:05
    Aconteça o que acontecer, nada
    impedirá que um novo dia surja.
  • 14:05 - 14:10
    É a maior lição de humildade
    que você pode receber.
  • 14:10 - 14:16
    Nós é que precisamos da Natureza,
    não ela de nós.
  • 14:16 - 14:20
    Se quiser,
    podemos ir dormir agora.
  • 14:20 - 14:23
    Amanhã, acordo você
    para a hora azul.
  • 14:23 - 14:25
    -Você quer?
    -Nunca acordaremos.
  • 14:25 - 14:41
    -Nem ouço o despertador.
    -Pode deixar comigo.
  • 14:41 - 14:47
    Mirabelle!
  • 14:47 - 15:22
    Está na hora.
  • 15:22 - 15:26
    Ouça!
  • 15:26 - 15:31
    O sapo.
  • 15:31 - 15:38
    Ali é uma rã.
  • 15:38 - 15:50
    Uma coruja.
  • 15:50 - 15:57
    Que barulho é esse?
  • 15:57 - 16:03
    Assim não é possível!
  • 16:03 - 16:06
    Ande mais rápido, droga!
  • 16:06 - 16:27
    -Não se irrite.
    -Um minuto é muito curto, entende?
  • 16:27 - 16:33
    Ele está indo embora.
  • 16:33 - 16:38
    Foi embora.
  • 16:38 - 16:43
    Foi embora, mas estragou tudo!
  • 16:43 - 16:47
    -Não é possível, eu juro.
    -Pare com isso. Não é grave.
  • 16:47 - 16:54
    -Foi bem impressionante.
    -Silêncio total não é isso! Droga!
  • 16:54 - 16:56
    Não é, mas eu entendi.
  • 16:56 - 17:00
    Não se trata de entender.
    Todos dizem: ''Entendi!''
  • 17:00 - 17:02
    Pode dizer que um morango vermelho
    é melhor que um verde...
  • 17:02 - 17:06
    mas não saberá até provar os dois.
  • 17:06 - 17:11
    Pare de chorar.
  • 17:11 - 17:15
    Estou cheia!
    Os amigos vêm e estragam tudo!
  • 17:15 - 17:18
    Você não ouviu mais de
    mil vezes essa hora azul?
  • 17:18 - 17:26
    Eu queria que você a ouvisse.
  • 17:26 - 17:29
    Haverá outras oportunidades.
  • 17:29 - 17:36
    Como, se você vai embora amanhã?
  • 17:36 - 17:41
    Se quiser, eu fico.
  • 17:41 - 17:45
    Está bem?
  • 17:45 - 17:47
    Fica mesmo?
  • 17:47 - 17:51
    Basta um telefonema.
  • 17:51 - 17:55
    -Tudo bem?
    -Tudo.
  • 17:55 - 17:59
    Não chore mais.
  • 17:59 - 18:04
    Vamos nos deitar.
  • 18:04 - 18:30
    Você é ridícula.
  • 18:30 - 18:32
    Olhe para eles!
  • 18:32 - 18:33
    Os patos.
  • 18:33 - 18:36
    Eles sempre parecem
    estar discutindo negócios.
  • 18:36 - 18:39
    Agora não.
    Estão apenas passeando.
  • 18:39 - 18:43
    Não. Estão discutindo.
  • 18:43 - 18:45
    Ei, galinhas!
  • 18:45 - 18:49
    Não vamos comê-las.
  • 18:49 - 18:52
    Você as assustou!
  • 18:52 - 18:55
    Com os bichos,
    temos que ter muito cuidado.
  • 18:55 - 18:58
    Não estão acostumados.
    Não conhecem você.
  • 18:58 - 19:01
    Ei, galo!
    Você vem comer?
  • 19:01 - 19:04
    Deixe de ser vaidoso!
  • 19:04 - 19:08
    Não parecem com vontade
    de conhecer você.
  • 19:08 - 19:11
    O que tem lá dentro?
  • 19:11 - 19:13
    Cabritas.
    Olhe, elas nos viram.
  • 19:13 - 19:15
    -Podemos ir até lá?
    -Bom dia, cabritas!
  • 19:15 - 19:21
    Vamos lá.
  • 19:21 - 19:24
    É imundo, não?
  • 19:24 - 19:30
    É normal, não?
  • 19:30 - 19:36
    Elas são superbonitas!
  • 19:36 - 19:40
    Sirvo as ruivas primeiro...
  • 19:40 - 19:42
    porque são mais numerosas.
  • 19:42 - 19:46
    -Não é uma questão de cor?
    -É, sim.
  • 19:46 - 19:49
    Se houvesse mais brancas,
    elas comeriam primeiro.
  • 19:49 - 19:53
    Sabia que é assim com os pintinhos,
    mas com as cabras...
  • 19:53 - 19:57
    É uma questão de linhagem,
    de qualidade.
  • 19:57 - 20:00
    Não sei.
    As suas devem ser diferentes.
  • 20:00 - 20:05
    As ruivas primeiro.
    São elas que quase sempre vencem.
  • 20:05 - 20:09
    Cortam os chifres delas
    porque brigam entre si...
  • 20:09 - 20:13
    e podem se machucar.
  • 20:13 - 20:21
    Essas de chifre cortado
    são as mais briguentas.
  • 20:21 - 20:24
    Tem uma velha ali que
    quase não pode se mexer.
  • 20:24 - 20:28
    Vou dar comida a ela.
  • 20:28 - 20:30
    Tome!
  • 20:30 - 20:32
    Você trabalhou bem.
  • 20:32 - 20:39
    Não venha me chatear.
  • 20:39 - 20:41
    Dou menos àquelas que estão atrás.
  • 20:41 - 20:45
    É a lei do mais forte.
  • 20:45 - 20:51
    -Não podemos contrariá-las.
    -Mas hoje estou aqui.
  • 20:51 - 20:55
    Tive que separar aquela,
    porque fazia estragos.
  • 20:55 - 21:00
    Ela é realmente malvada.
  • 21:00 - 21:02
    Sério?
  • 21:02 - 21:04
    É aquela?
  • 21:04 - 21:21
    Viu como ela é forte?
  • 21:21 - 21:24
    -Como se chama?
    -Chama-se Diane.
  • 21:24 - 21:28
    Diane!
  • 21:28 - 21:30
    Está zangada.
    Não quer conversar com ninguém.
  • 21:30 - 21:32
    Vem cá.
  • 21:32 - 21:35
    O outono se confunde
    com as árvores.
  • 21:35 - 21:38
    Você é linda.
    Vem cá.
  • 21:38 - 21:41
    -Nada feito.
    -Vou vê-la.
  • 21:41 - 21:43
    Tem medo dos cavalos?
  • 21:43 - 21:45
    -Não se preocupe.
    -Se fosse você, eu...
  • 21:45 - 21:47
    Faça o que quiser, mas...
  • 21:47 - 21:54
    Ela é boazinha, mas...
  • 21:54 - 22:02
    Você perturbou a intimidade dela.
    Cuidado.
  • 22:02 - 22:07
    Não, está bem.
    Ei, carneiros!
  • 22:07 - 22:08
    Tudo bem?
  • 22:08 - 22:14
    -Entende de cavalos?
    -Gosto dos cavalos.
  • 22:14 - 22:20
    Ela sente... está vendo?
  • 22:20 - 22:23
    Vou apresentar você
    aos meus vizinhos.
  • 22:23 - 22:29
    Olá!
  • 22:29 - 22:31
    Sr. Rousseau.
  • 22:31 - 22:32
    -Bom dia.
    -Bom dia.
  • 22:32 - 22:34
    -Mirabelle.
    -Muito prazer.
  • 22:34 - 22:37
    Sra. Rousseau.
  • 22:37 - 22:40
    Ela é de Paris.
    Gostaria de conhecer o campo.
  • 22:40 - 22:41
    Somos as pessoas indicadas.
  • 22:41 - 22:45
    O que podemos mostrar a ela?
  • 22:45 - 22:47
    -Estou vendo morangos.
    -Sempre florescem.
  • 22:47 - 22:50
    -São lindos!
    -Eles estão passados.
  • 22:50 - 22:53
    -Demoraram muito para crescer.
    -É mesmo?
  • 22:53 - 22:55
    Sim, porque o inverno
    foi muito rigoroso.
  • 22:55 - 23:01
    Tivemos geadas.
    Caiu neve por aí. A umidade!
  • 23:01 - 23:03
    A umidade!
  • 23:03 - 23:08
    -O que é isso? Não é uma roseira?
    -Eram roseiras em flor.
  • 23:08 - 23:13
    -Seus morangos são soberbos!
    -Prontos para serem colhidos, hein?
  • 23:13 - 23:14
    -Posso comer um?
    -Pode, se está com vontade.
  • 23:14 - 23:23
    Com licença.
  • 23:23 - 23:26
    São muito gostosos.
  • 23:26 - 23:28
    Tome, Reinette.
  • 23:28 - 23:31
    Vou comer um.
  • 23:31 - 23:34
    Estão maduros.
  • 23:34 - 23:39
    E isso aí é couve-de-verão.
  • 23:39 - 23:41
    -Aqueles... os roxos?
    -Estão no meio dos alhos-porros...
  • 23:41 - 23:44
    os primeiros que comemos.
  • 23:44 - 23:46
    São chamados
    ''alhos-porros de verão''.
  • 23:46 - 23:48
    -Por que ''de verão''?
    -Porque...
  • 23:48 - 23:52
    são os primeiros
    e porque se comem logo.
  • 23:52 - 23:57
    Dentro de um mês,
    não prestarão mais.
  • 23:57 - 24:01
    -Suas saladas são muito grandes.
    -Chicória...
  • 24:01 - 24:03
    Salada para ser cozida.
  • 24:03 - 24:06
    E ali?
    Que coisas altas são aquelas?
  • 24:06 - 24:10
    -Com as florzinhas brancas.
    -Ali? São batatas...
  • 24:10 - 24:16
    -Não, talvez feijões.
    -Vamos até lá?
  • 24:16 - 24:21
    -Feijões, talvez.
    -Eu não entendo disso.
  • 24:21 - 24:24
    As flores são muito lindas.
  • 24:24 - 24:28
    E tudo isso, o que é?
    Vai me explicar?
  • 24:28 - 24:32
    Ali tem rabanetes, pepinos,
    mais rabanetes e endívias.
  • 24:32 - 24:35
    Como crescem as endívias?
  • 24:35 - 24:39
    -O que se come é a raiz, não?
    -São raízes que colhemos...
  • 24:39 - 24:43
    e que enterramos
    durante todo o inverno.
  • 24:43 - 24:48
    -Deixam enterradas todo o inverno?
    -Até crescer uma polpa branca.
  • 24:48 - 24:50
    É o que chamamos de endívia.
  • 24:50 - 24:52
    Entendi. E as folhas?
  • 24:52 - 24:58
    Quase não tem.
    Nós as damos aos coelhos.
  • 24:58 - 25:01
    Vou condecorar o senhor.
  • 25:01 - 25:07
    Ponho no seu bolso
    e a flor na lapela.
  • 25:07 - 25:11
    Cor de rosa e azul.
    Bonito, não?
  • 25:11 - 25:15
    -Onde andam as vacas durante o dia?
    -Elas vão ao parque.
  • 25:15 - 25:20
    Fizemos uma senda que
    as leva diretamente para lá.
  • 25:20 - 25:22
    -É por ali?
    -É, pela senda.
  • 25:22 - 25:25
    Para vê-las,
    é preciso pegar essa senda?
  • 25:25 - 25:29
    Pode passar pelo outro lado.
    É a mesma coisa.
  • 25:29 - 25:32
    Construímos um galpão onde
    elas se abrigam quando chove.
  • 25:32 - 25:34
    O tempo está ruim hoje.
    Acha que vai chover?
  • 25:34 - 25:37
    Não, não...
  • 25:37 - 25:39
    Aquilo é...
    não, não é nada.
  • 25:39 - 25:42
    -Acho que vai chover.
    -Não.
  • 25:42 - 25:43
    -Não?
    -Não.
  • 25:43 - 25:46
    Vou buscar minha capa de chuva.
    Nunca se sabe.
  • 25:46 - 25:49
    Sabe como é...
  • 25:49 - 26:17
    -Melhor prevenir que remediar!
    -Ninguém pode prever.
  • 26:17 - 26:20
    Essas margaridas são lindas!
  • 26:20 - 26:24
    -Podemos pegar algumas?
    -Se quiser, mas não toleram vasos.
  • 26:24 - 26:27
    Está começando a chover.
  • 26:27 - 26:29
    Tem um capuz?
  • 26:29 - 26:33
    Não. Adoro chuva.
    É bom para os cabelos.
  • 26:33 - 27:22
    Continuamos, não?
  • 27:22 - 27:24
    É chato ter esse tempo logo hoje.
  • 27:24 - 27:32
    Não faz mal. Terei conhecido
    o campo de todas as maneiras.
  • 27:32 - 27:36
    -Passou no vestibular?
    -Passei. Ano passado.
  • 27:36 - 27:39
    Nunca fui à escola.
  • 27:39 - 27:42
    Existem cursos por correspondência.
  • 27:42 - 27:47
    Sei. Eu gostaria...
    Fazia cenas para não ir à escola.
  • 27:47 - 27:52
    Realmente.
    Eu odiava aqueles horários.
  • 27:52 - 27:54
    Toda hora davam
    uma matéria nova.
  • 27:54 - 27:58
    -Eu sei. Passei por isso.
    -Achava tão estúpido.
  • 27:58 - 28:00
    O que vai fazer agora?
  • 28:00 - 28:04
    Ano que vem, vou me preparar
    para Belas Artes. Eu desenho...
  • 28:04 - 28:08
    Sei quando erro,
    mas não sei por quê.
  • 28:08 - 28:12
    A técnica me ajudaria muito.
  • 28:12 - 28:14
    Nesse caso,
    faço concessões à escola.
  • 28:14 - 28:19
    Senão... não é possível.
  • 28:19 - 28:25
    É verdade. A técnica é necessária.
    E onde você vai morar?
  • 28:25 - 28:29
    Tenho primos em Sartrouville.
  • 28:29 - 28:33
    -Sartrouville é muito longe.
    -Não. Fica a 20 minutos de Paris.
  • 28:33 - 28:37
    Demora. Ao menos uma hora
    por dia no trem.
  • 28:37 - 28:39
    Gosto de viajar de trem.
  • 28:39 - 28:47
    Vou gostar de estar com eles.
    São muito gentis.
  • 28:47 - 28:52
    Eu moro com uma moça que
    vai embora em setembro.
  • 28:52 - 29:02
    Se quiser, pode vir morar comigo.
    Assim você estará em Paris.
  • 29:02 - 29:06
    Você é quem decide.
  • 29:06 - 29:11
    Sou muito independente.
  • 29:11 - 29:16
    -Você teria o seu quarto.
    -Poderei decorá-lo como eu quiser?
  • 29:16 - 29:22
    Claro, já que dividiremos
    as despesas. Meio a meio.
  • 29:22 - 29:28
    Não vejo nenhum problema.
    Poderá trazer quem você quiser...
  • 29:28 - 29:33
    fazer o que bem entender.
  • 29:33 - 29:41
    Tenho um amigo que não
    mora comigo. Ele vem me ver.
  • 29:41 - 29:44
    Você tem namorado?
  • 29:44 - 29:45
    Isso é o segredo da
    minha vida particular.
  • 29:45 - 30:10
    E, se é particular, não posso dizer,
    senão não seria mais.
  • 30:10 - 30:15
    -Você dança bem.
    -Não sei dançar.
  • 30:15 - 30:17
    Não se nota.
  • 30:17 - 30:20
    Saber dançar é inato.
  • 30:20 - 30:24
    -Eu nunca aprendi.
    -Eu nem tentei.
  • 30:24 - 30:46
    Nunca entrei numa boate.
  • 30:46 - 30:50
    Quem disse que você
    não sabe dançar?
  • 30:50 - 30:51
    Viajei muito.
  • 30:51 - 30:55
    Estive no México...
  • 30:55 - 31:02
    na Tunísia, na Grécia,
    nas Antilhas.
  • 31:02 - 31:07
    Vamos voltar para
    não perder a hora azul.
  • 31:07 - 31:12
    Devemos viver no presente.
    Isto é, como uma parisiense.
  • 31:12 - 31:15
    E uma parisiense sabe dançar.
  • 31:15 - 31:19
    -Vamos perder a hora azul.
    -Você faz questão?
  • 31:19 - 31:22
    Não sei.
    É mais para agradar você.
  • 31:22 - 34:38
    Quer me agradar?
    Vamos dançar até meia-noite.
  • 34:38 - 36:15
    O GARÇOM
  • 36:15 - 36:19
    -Já vai embora?
    -Vou. Estou atrasada.
  • 36:19 - 36:22
    -A que horas sai do curso?
    -Às 15 h.
  • 36:22 - 36:26
    Podemos marcar um encontro...
    em Montparnasse.
  • 36:26 - 36:30
    Venha me buscar
    na saída do curso.
  • 36:30 - 36:35
    Prefiro marcar num bar. Conheço um.
    Chama-se Egalité, ou algo parecido.
  • 36:35 - 36:40
    -Qual é o endereço?
    -É perto da torre Montparnasse...
  • 36:40 - 36:47
    ...Rue de la Gaieté. Conhece?
    -Não, mas eu acho.
  • 36:47 - 36:51
    -Que número?
    -Não sei. É um bar.
  • 36:51 - 36:54
    Tem uma praça
    com uma estação de metrô.
  • 36:54 - 36:55
    -Que metrô eu pego?
    -Não sei...
  • 36:55 - 36:57
    mas não vai precisar se for a pé.
  • 36:57 - 37:03
    Você sai da
    Rue de la Grande Chaumière...
  • 37:03 - 37:05
    atravessa um bulevar...
  • 37:05 - 37:09
    até chegar a outro bulevar.
    É uma rua pequena entre os dois.
  • 37:09 - 37:15
    Numa praça com a estação de metrô.
    Fica bem em frente.
  • 37:15 - 37:20
    Está bem. Rue de la Gaieté.
    Se eu não achar, eu pergunto.
  • 37:20 - 37:51
    -É muito simples. Até logo.
    -Até logo.
  • 37:51 - 37:54
    PINTURA - ACADEMIA - ESCULTURA
  • 37:54 - 38:45
    ACADEMIA GRANDE CHAUMIÈRE
  • 38:45 - 38:48
    Desculpe, senhor.
    Rue de la Gaieté, por favor?
  • 38:48 - 38:52
    Estou vindo de lá.
    À esquerda, é a avenida do Maine.
  • 38:52 - 38:55
    -Do Maine?
    -Uma avenida com árvores.
  • 38:55 - 39:00
    A Rue de la Gaieté começa
    lá onde não tem árvores.
  • 39:00 - 39:04
    Continue à direita, à esquerda,
    de novo à esquerda...
  • 39:04 - 39:07
    duas vezes à esquerda e pronto.
  • 39:07 - 39:08
    -Entendeu?
    -Entendi.
  • 39:08 - 39:11
    -Procura alguma rua, senhorita?
    -A Rue de la Gaieté.
  • 39:11 - 39:16
    -É pertinho. É por ali.
    -A Rue de la Gaieté?
  • 39:16 - 39:19
    Vire à direita, contorne o cemitério,
    de novo à direita...
  • 39:19 - 39:22
    Acho que é à esquerda,
    se passar pela Maine.
  • 39:22 - 39:26
    -É mais rápido.
    -Claro, se quiser fazer um desvio.
  • 39:26 - 39:32
    Que desvio? A Maine é à esquerda.
    A Rue de la Gaieté também.
  • 39:32 - 39:34
    É muito mais rápido por ali.
  • 39:34 - 39:39
    As janelas daquela rua dão para o
    cemitério. Um amigo meu morava lá.
  • 39:39 - 39:43
    Seu amigo que se dane! E é
    de mau gosto mandar atravessar...
  • 39:43 - 39:47
    um cemitério para achar
    uma rua que é ali.
  • 39:47 - 39:51
    Todos os caminhos levam a Roma,
    mas não precisa cruzar o cemitério.
  • 39:51 - 39:54
    Não mandei cruzar; só contornar.
  • 39:54 - 40:01
    Lamento, mas parece
    mais simples que...
  • 40:01 - 40:02
    Será que é aqui?
  • 40:02 - 40:06
    -Não na largura, no comprimento.
    -Tanto faz. O cemitério é quadrado.
  • 40:06 - 40:09
    -Não exatamente.
    -O senhor mora no bairro?
  • 40:09 - 40:13
    -Não, e o senhor?
    -Não, mas conheço Montparnasse.
  • 40:13 - 40:15
    Senhores!
  • 40:15 - 40:17
    Senhores!
  • 40:17 - 40:43
    Não sabem de nada!
  • 40:43 - 40:46
    -Aqui está.
    -Obrigada.
  • 40:46 - 40:50
    -Pague agora, por favor.
    -Claro. Quanto é?
  • 40:50 - 40:54
    Está aí. Não sabe ler?
  • 40:54 - 40:57
    Quatro francos e trinta.
    É isso?
  • 40:57 - 41:01
    Sim, é isso.
  • 41:01 - 41:05
    Tome.
  • 41:05 - 41:09
    Está brincando?
    200 francos para pagar 4,30!
  • 41:09 - 41:12
    -Lamento. Não tenho trocado, senhor.
    -Eu também não.
  • 41:12 - 41:16
    O cliente nunca tem troco.
    Por que eu deveria ter troco?
  • 41:16 - 41:19
    -Procure!
    -Já procurei. Não tenho.
  • 41:19 - 41:24
    Você deve ter 4,30!
  • 41:24 - 41:29
    1 ,30... 1 ,40... 1 ,50... 1 ,60...
  • 41:29 - 41:32
    Só tem 1 ,60.
    Ninguém sai com 1 ,60 no bolso.
  • 41:32 - 41:34
    Tenho 200 francos.
  • 41:34 - 41:37
    Quem não tem dinheiro
    não entra em bar.
  • 41:37 - 41:41
    Mas eu tenho dinheiro, senhor.
  • 41:41 - 41:44
    Estou esperando uma amiga.
    Talvez ela tenha trocado.
  • 41:44 - 41:50
    É o que você está dizendo.
    É o golpe da amiga, eu conheço.
  • 41:50 - 41:54
    Já vi esse filme. É só eu virar
    as costas que você se manda.
  • 41:54 - 41:58
    Estou sozinho para atender
    o salão e o terraço.
  • 41:58 - 42:02
    Quando viro as costas,
    os clientes podem fugir.
  • 42:02 - 42:06
    Mas não fogem porque
    fico de olho aberto.
  • 42:06 - 42:11
    Mas nem sempre é fácil.
    Uma moça aplicou o golpe outro dia.
  • 42:11 - 42:12
    Ela se parecia com você.
  • 42:12 - 42:14
    Não era eu.
    É a primeira vez que venho aqui.
  • 42:14 - 42:18
    Não disse que era,
    mas a semelhança é surpreendente.
  • 42:18 - 42:20
    E eu sou bom fisionomista.
  • 42:20 - 42:24
    O golpe da amiga passa uma vez,
    mas não passa duas. Cuidado.
  • 42:24 - 42:25
    Já disse que não era eu.
  • 42:25 - 42:30
    Por que eu acreditaria?
    Se foi você ou não, cuidado!
  • 42:30 - 42:38
    -Já vou.
    -Ele é doido!
  • 42:38 - 42:49
    Noventa e cinco.
  • 42:49 - 42:51
    -Aqui está.
    -Obrigado.
  • 42:51 - 42:56
    Obrigado. Até logo.
  • 42:56 - 42:58
    Para eles, você tem troco.
  • 42:58 - 43:00
    Tenho para os velhos clientes...
  • 43:00 - 43:05
    não para as pessoas que ficam
    duas horas na frente de um café.
  • 43:05 - 43:09
    -Cheguei há 5 minutos!
    -Mas ia ficar. Posso garantir.
  • 43:09 - 43:13
    Não vá embora sem pagar.
    Espero o dia todo se for preciso.
  • 43:13 - 43:48
    E não fuja.
    Estou de olho.
  • 43:48 - 43:53
    -Já lhe disse que espero uma amiga.
    -Se espera ou não espera, não sei.
  • 43:53 - 43:56
    Mas não vai monopolizar
    as cadeiras o dia todo.
  • 43:56 - 44:01
    -Há muitas mesas vazias.
    -Estão vazias, mas só hoje.
  • 44:01 - 44:05
    E gente que só vem tomar café
    não é cliente.
  • 44:05 - 44:07
    Não confia em mim?
  • 44:07 - 44:10
    Confiar!
    Se eu confiasse em todo mundo...
  • 44:10 - 44:14
    Porque no golpe da amiga
    já caí uma vez.
  • 44:14 - 44:18
    Agora estou de olho.
    Estou de olho!
  • 44:18 - 44:20
    E os senhores, o que vão querer?
  • 44:20 - 44:25
    Para mim, um chocolate quente
    com creme chantilly.
  • 44:25 - 44:28
    Um café?
  • 44:28 - 44:33
    Oi.
  • 44:33 - 44:37
    Um momento!
    Deixe essa cadeira onde está.
  • 44:37 - 44:39
    Eu quero me sentar.
  • 44:39 - 44:43
    Fui eu quem a pôs ali.
    É proibido tocar nela.
  • 44:43 - 44:48
    Vai me impedir de sentar
    no terraço do seu bar?
  • 44:48 - 44:52
    Você é a tal amiga!
  • 44:52 - 44:54
    De quem? Dela?
    Sou, e daí?
  • 44:54 - 44:57
    Ele pensou que você não viria
    e tirou a cadeira.
  • 44:57 - 45:00
    Mas eu vim.
    Então, quero a cadeira. Obrigada.
  • 45:00 - 45:05
    Pegue, pegue!
  • 45:05 - 45:08
    -O que vai querer?
    -Um café.
  • 45:08 - 45:09
    -Mais um!
    -Como?
  • 45:09 - 45:18
    -Vou servir seu café.
    -É o que espero.
  • 45:18 - 45:20
    Se não quiser, vamos a outro bar.
  • 45:20 - 45:22
    -Há 1 0 mil bares em Paris.
    -Pode ficar!
  • 45:22 - 45:25
    -Se visse a sua cara!
    -Fique, mas pague primeiro.
  • 45:25 - 45:29
    -Ainda não tomamos nada.
    -Você, não... ela.
  • 45:29 - 45:33
    -Pague e vamos embora.
    -Tem 4,30? Não tenho troco.
  • 45:33 - 45:36
    Só tenho uma nota de 500.
    Dê o troco a ela!
  • 45:36 - 45:40
    Ela vem com 200; você, 500.
    Acham que tenho cara de palhaço?
  • 45:40 - 45:43
    Como assim?
    Vocês não têm uma caixa?
  • 45:43 - 45:46
    Não tenho troco.
  • 45:46 - 45:49
    -Vamos embora. Problema seu.
    -Primeiro, vão pagar.
  • 45:49 - 45:52
    Quem diz que não queremos pagar?
  • 45:52 - 45:56
    Aqui, o cliente tem que ter trocado.
  • 45:56 - 46:01
    Isso é uma novidade.
    Sou estudante de Direito.
  • 46:01 - 46:04
    O cliente deve ''possuir'' o troco,
    como você está dizendo...
  • 46:04 - 46:09
    nos ônibus e no metrô,
    não nos bares.
  • 46:09 - 46:12
    -Escute aqui, moça...
    -Fale comigo educadamente, ouviu?
  • 46:12 - 46:18
    Você pode ir,
    mas ela fica até pagar.
  • 46:18 - 46:20
    E tenho o dia todo.
  • 46:20 - 46:24
    Não pense em fugir, senão...
  • 46:24 - 46:27
    Esse cara é completamente maluco!
  • 46:27 - 46:33
    -Vamos embora. Chega.
    -Não tem mesmo 4,30?
  • 46:33 - 46:34
    Não tenho 4,30.
    Ele está ocupado.
  • 46:34 - 46:36
    -Vamos.
    -Espere...
  • 46:36 - 46:54
    Vem. Rápido!
  • 46:54 - 46:57
    Eu sabia. Eu jurava que
    essas duas não iam pagar.
  • 46:57 - 47:02
    E eu estava de olho!
    Estava de olho.
  • 47:02 - 47:22
    4,30 é pouco, eu sei.
    Mas dá raiva.
  • 47:22 - 47:23
    Até mais tarde.
  • 47:23 - 47:25
    Não me acorde quando voltar,
    por favor.
  • 47:25 - 47:28
    Volto antes da meia-noite.
  • 47:28 - 47:33
    Amanhã, vou àquele bar
    pagar o que devo.
  • 47:33 - 47:38
    Você está louca!
    4,30 francos!
  • 47:38 - 47:39
    Não é uma questão de dinheiro.
  • 47:39 - 47:44
    O que me irrita é que eu fiz
    o que ele disse que eu ia fazer.
  • 47:44 - 47:46
    Sei.
  • 47:46 - 47:49
    Sempre me meto em enrascadas
    desse tipo.
  • 47:49 - 47:51
    Não entendo.
    Devo ter cara de trouxa.
  • 47:51 - 47:56
    Pensam que eu faço molecagem.
    Não entendo.
  • 47:56 - 48:00
    Outro dia, no dentista,
    tinha marcado para as 11 h.
  • 48:00 - 48:06
    Chego às 11 h. Entro no consultório.
    Digo ''bom dia''. Ninguém responde.
  • 48:06 - 48:09
    E espero... 5... 1 0 minutos...
  • 48:09 - 48:11
    nada.
  • 48:11 - 48:15
    Chamo a assistente e pergunto:
    ''Como é? Não vão me chamar?''
  • 48:15 - 48:19
    Ela me diz: ''Não, senhorita.
    Não marcou para hoje.''
  • 48:19 - 48:23
    Olho minha agenda.
    Vejo 11 h.
  • 48:23 - 48:28
    Digo: ''Se eu anotei o dia
    e a hora na minha agenda...''
  • 48:28 - 48:32
    Todo o mundo riu,
    achando que eu estava mentindo...
  • 48:32 - 48:36
    criando essa confusão
    para ser atendida.
  • 48:36 - 48:42
    Ela me diz: ''Se tivesse marcado,
    teria o papelzinho...
  • 48:42 - 48:45
    que o doutor sempre dá
    aos pacientes. Você o tem?''
  • 48:45 - 48:49
    Eu disse: ''De fato, ele me deu,
    mas como receio perder tudo...
  • 48:49 - 48:51
    transcrevo tudo na minha agenda.''
  • 48:51 - 48:55
    ''Não é possível.'' Com raiva,
    pego a minha bolsa, que é enorme...
  • 48:55 - 48:58
    remexo nela, e o que vejo?
    O papelzinho.
  • 48:58 - 49:02
    Eu mostro para ela e digo:
    ''E isso, fui eu que escrevi?''
  • 49:02 - 49:06
    Todos ficaram com uma cara!
    Mas ninguém acreditou em mim.
  • 49:06 - 49:10
    Tiveram que reconhecer
    que eu não havia mentido.
  • 49:10 - 49:33
    Quero mostrar àquele garçom
    que não estava mentindo ontem!
  • 49:33 - 49:37
    Com licença, senhor.
  • 49:37 - 49:39
    Procuro o garçom
    que estava aqui ontem.
  • 49:39 - 49:44
    O de ontem?
    Ele só trabalhou ontem. Por quê?
  • 49:44 - 49:47
    -Fiquei devendo 4,30 francos.
    -É mesmo?
  • 49:47 - 49:52
    -Posso deixar com o senhor?
    -Claro.
  • 49:52 - 49:57
    Não tem problema.
  • 49:57 - 50:01
    -Aí está.
    -Obrigado.
  • 50:01 - 50:03
    Até logo.
  • 50:03 - 50:12
    Imagine!
    Voltou só para isso!
  • 50:12 - 50:12
    O MENDIGO, A CLEPTOMANÍACA
    E A MALANDRA
  • 50:12 - 50:34
    O MENDIGO, A CLEPTOMANÍACA
    E A MALANDRA
  • 50:34 - 50:41
    -Tome.
    -Obrigado.
  • 50:41 - 50:43
    Por que não deu nada a ele?
  • 50:43 - 50:46
    Porque não fui com a cara dele.
  • 50:46 - 50:48
    Só dá às pessoas
    que acha simpáticas?
  • 50:48 - 50:52
    -Só, senão eu daria a todos eles.
    -Mas aquele precisava.
  • 50:52 - 50:56
    -Estava escrito ''para comer''.
    -Há 1 5 mil mendigos no metrô...
  • 50:56 - 51:03
    nas esquinas, que precisam comer,
    que querem dinheiro. 1 5 mil!
  • 51:03 - 51:08
    Vamos?
  • 51:08 - 51:11
    Não acho normal deixar
    pessoas morrerem de fome...
  • 51:11 - 51:15
    quando temos tudo fartamente
    no nosso prato.
  • 51:15 - 51:21
    Por que não vai para a África com
    os Médicos Sem Fronteiras?
  • 51:21 - 51:26
    O que está fazendo aqui,
    morando num apartamento?
  • 51:26 - 51:29
    Dar um ou dois francos
    não custa nada.
  • 51:29 - 51:32
    -Dê a todos, dê a todos!
    -Não.
  • 51:32 - 51:34
    Só àqueles que tocam música
    que eu não gosto?
  • 51:34 - 51:38
    Não dou, se
    está na cara que é armação.
  • 51:38 - 51:42
    Senão dou o mínimo,
    o que eu posso dar.
  • 51:42 - 51:44
    A todos os que estão nas ruas?
  • 51:44 - 51:49
    A todos aqueles que
    eu acho que precisam.
  • 51:49 - 54:00
    UNIVERSIDADE DE PARIS
    CENTRO P. MENDES FRANCE
  • 54:00 - 54:05
    Sr. Berrhier, por favor,
    dirija-se à porra da loja.
  • 54:05 - 55:32
    Aquela senhora com...
  • 55:32 - 55:34
    Sua sacola, por favor.
  • 55:34 - 55:36
    O que é isso?
    O que querem comigo?
  • 55:36 - 55:39
    Que nos autorize
    a revistar sua sacola.
  • 55:39 - 55:41
    Por que querem revistar
    minha sacola?
  • 55:41 - 55:44
    -Tinha uma segunda sacola.
    -Onde está?
  • 55:44 - 55:48
    Tenho certeza. Eu vi.
    Tenho certeza.
  • 55:48 - 57:19
    Reviste a sacola.
  • 57:19 - 57:22
    Você não ia jantar fora?
  • 57:22 - 57:29
    -Não. Quem lhe disse isso?
    -É que não comprei nada.
  • 57:29 - 57:31
    Não faz mal.
  • 57:31 - 57:44
    -Não comprou nada mesmo?
    -Pouca coisa.
  • 57:44 - 57:52
    -Você comprou uma sacola?
    -Trouxe limões. Nunca se sabe.
  • 57:52 - 57:58
    Não sei em que podemos pôr limões.
  • 57:58 - 58:04
    -Champanhe!
    -E uma mistura duvidosa.
  • 58:04 - 58:09
    Confit de pato!
  • 58:09 - 58:13
    E salmão!
  • 58:13 - 58:18
    Você se lembrou que
    era meu aniversário?
  • 58:18 - 58:21
    Obrigada. Na minha casa,
    passava despercebido.
  • 58:21 - 58:24
    Vamos ter uma verdadeira
    festa de aniversário.
  • 58:24 - 58:26
    Vou pôr isso num prato
    e vou esquentar.
  • 58:26 - 58:32
    Vamos pôr flores também.
    Certo?
  • 58:32 - 58:34
    -Posso pegar o seu ramalhete?
    -Pode.
  • 58:34 - 58:37
    Sabe, não é a mim
    que você deve isso.
  • 58:37 - 58:43
    -Como?
    -Não é a mim que deve isso.
  • 58:43 - 58:46
    A quem então?
  • 58:46 - 58:50
    -A uma linda jovem morena.
    -Eu a conheço?
  • 58:50 - 58:55
    Com grandes olhos verdes
    ou azuis, não vi bem.
  • 58:55 - 59:00
    Não será Agathe?
    Ela tem olhos negros, mas não...
  • 59:00 - 59:04
    Não é Agathe. Você não a conhece,
    e eu também não a conhecia.
  • 59:04 - 59:07
    -Ah, é?
    -Vou lhe contar.
  • 59:07 - 59:13
    Quando saí do curso,
    fui ao supermercado.
  • 59:13 - 59:18
    Na seção dos doces, vi uma moça.
    Uma moça alta, morena etc...
  • 59:18 - 59:21
    empurrando seu carrinho.
  • 59:21 - 59:27
    Vi também um cara e uma mulher...
  • 59:27 - 59:29
    que estavam olhando
    para aquela moça.
  • 59:29 - 59:34
    Fiquei curiosa.
    Segui a moça...
  • 59:34 - 59:40
    e notei que ela tinha uma
    sacola dentro do carrinho...
  • 59:40 - 59:44
    onde ela enfiou o salmão defumado.
  • 59:44 - 59:48
    Continuei a segui-la,
    e os dois também.
  • 59:48 - 59:52
    Vi logo que eram seguranças.
  • 59:52 - 59:56
    Estava vendo os seguranças
    que seguiam a moça...
  • 59:56 - 59:58
    que não sabia que
    estava sendo seguida.
  • 59:58 - 60:05
    Fui atrás dela. Ela foi enfiando
    champanhe, confit... na sacola.
  • 60:05 - 60:10
    Quando chegou ao caixa, entrou na
    fila para pagar por alguma ninharia.
  • 60:10 - 60:14
    Eu peguei a fila ao lado.
    A dela estava lá; a minha, aqui.
  • 60:14 - 60:19
    Vi os seguranças se esconderem
    atrás de uma coluna.
  • 60:19 - 60:22
    Eles não me viam.
  • 60:22 - 60:25
    Eles só esperavam que
    ela saísse com a sacola.
  • 60:25 - 60:29
    Ela pôs a sacola
    entre os dois caixas.
  • 60:29 - 60:34
    Aí, eu peguei a sacola e saí.
  • 60:34 - 60:38
    Não sei como foi depois.
    Viram que ela não tinha sacola.
  • 60:38 - 60:42
    Saí e fui me esconder
    atrás de um carro na rua.
  • 60:42 - 60:45
    Vi os três discutindo.
  • 60:45 - 60:50
    Finalmente, a moça foi embora.
    Eu quis devolver a sacola.
  • 60:50 - 60:53
    Infelizmente, passaram muitos carros.
  • 60:53 - 60:56
    Não consegui atravessar,
    e ela sumiu.
  • 60:56 - 61:02
    E aqui estou com salmão,
    champanhe e confit.
  • 61:02 - 61:05
    Nada mal, não?
  • 61:05 - 61:08
    Mas por que você pegou
    a sacola?
  • 61:08 - 61:11
    Porque não podia deixar que
    ela fosse apanhada em flagrante.
  • 61:11 - 61:15
    Deixasse os seguranças
    fazerem o trabalho deles!
  • 61:15 - 61:17
    -Deixar os fiscais?!
    -Evidente.
  • 61:17 - 61:23
    Mas por quê? Por que,
    se eu podia ajudar a moça?
  • 61:23 - 61:26
    Mas... isso não é ajudar!
  • 61:26 - 61:32
    É, sim, senão ela teria que pagar
    uma multa. Talvez fosse presa.
  • 61:32 - 61:36
    -Seria normal.
    -''Normal'' como?
  • 61:36 - 61:38
    Ela se arriscou. Sabia o que
    a esperava se fosse flagrada.
  • 61:38 - 61:40
    E daí?
  • 61:40 - 61:42
    Eu estava lá e me arrisquei
    para ajudá-la.
  • 61:42 - 61:45
    E podia muito bem
    ser presa também.
  • 61:45 - 61:47
    Não podia. Os seguranças
    não estavam me vigiando.
  • 61:47 - 61:50
    O problema não é esse!
  • 61:50 - 61:55
    -Você é ridícula!
    -Que aniversário ótimo!
  • 61:55 - 61:59
    Não quero seu salmão
    nem seu champanhe. Odeio bolhas.
  • 61:59 - 62:02
    Por quê? Porque não fui eu
    que comprei para você?
  • 62:02 - 62:04
    Não é isso.
    O que você fez é grave!
  • 62:04 - 62:07
    Não sei se tem consciência do
    que fez. Essa moça era adulta.
  • 62:07 - 62:12
    -Que idade podia ter?
    -Não sei. 24... 25 anos. E daí?
  • 62:12 - 62:15
    Para mim,
    ser adulto é ser responsável.
  • 62:15 - 62:20
    Sabe como isso se chama?
    Cleptomania. Cleptomania é vício!
  • 62:20 - 62:22
    A cleptomania é uma doença.
  • 62:22 - 62:26
    Você ajudou uma doente,
    uma viciada. Você se igualou a ela!
  • 62:26 - 62:29
    Isso é grave!
    Não quero seu salmão.
  • 62:29 - 62:31
    Não ajudarei uma viciada.
  • 62:31 - 62:37
    -Você fala como uma freira.
    -Não é isso.
  • 62:37 - 62:42
    É uma simples questão de lógica.
    Você pode ajudar os doentes...
  • 62:42 - 62:46
    ajudar aqueles que têm problemas
    sendo um espelho para eles...
  • 62:46 - 62:49
    convencendo-os de que erraram.
  • 62:49 - 62:51
    Você deveria ter feito isso
    com aquela moça...
  • 62:51 - 62:56
    dizendo-lhe que podia ser presa
    e levada para a cadeia.
  • 62:56 - 62:58
    Não concordo com você
    nem um pouco.
  • 62:58 - 63:03
    A solução, como você disse,
    é descobrir a origem do mal.
  • 63:03 - 63:07
    -A origem...
    -Talvez o que eu fiz a faça refletir...
  • 63:07 - 63:09
    Você acha?
    Ela vai roubar cada vez mais...
  • 63:09 - 63:12
    e pode pegar não um ano,
    mas 1 0 anos de cadeia!
  • 63:12 - 63:15
    Um ano de cadeia por um salmão!
  • 63:15 - 63:19
    E, com esse gosto por luxo que
    ela tem, não deve ser pobre.
  • 63:19 - 63:23
    Não entendo você.
    Sinto muito, mas não entendo.
  • 63:23 - 63:27
    De qualquer maneira,
    o problema não está no dinheiro.
  • 63:27 - 63:29
    O problema é que não se sabe
    por que ela rouba.
  • 63:29 - 63:31
    -Você sabe?
    -Também não sei...
  • 63:31 - 63:33
    e é a isso que quero chegar.
  • 63:33 - 63:38
    Não vamos acusar alguém
    sem conhecer os motivos.
  • 63:38 - 63:43
    Só quero saber por que você
    a ajudou. É isso o que interessa.
  • 63:43 - 63:46
    Por que a ajudei?!
    Meu pequeno problema pessoal...
  • 63:46 - 63:49
    é que, na vida, hoje em dia,
    não vejo acontecer nada.
  • 63:49 - 63:54
    Na nossa vidinha cotidiana.
    Quando se sai na rua, nada acontece.
  • 63:54 - 63:56
    Não se vê nada de engraçado.
  • 63:56 - 63:59
    Nada de engraçado!
    Quando você sai, não pára mais.
  • 63:59 - 64:03
    Tudo é engraçado!
    Pode acontecer qualquer coisa.
  • 64:03 - 64:06
    Quando saio de casa, vejo o sol,
    os pássaros. É só olhar!
  • 64:06 - 64:11
    Estou falando em aventuras,
    naquilo que você lê nos livros.
  • 64:11 - 64:15
    Eu queria sentir um calafrio,
    colocar-me no lugar dela.
  • 64:15 - 64:18
    Sentir um calafrio!
  • 64:18 - 64:23
    Queria fazer algo além de ir
    todos os dias a esse meu curso.
  • 64:23 - 64:26
    Vi aquela moça com um problema,
    e quis ajudá-la.
  • 64:26 - 64:28
    Pode achar esse seu calafrio
    de outro modo...
  • 64:28 - 64:32
    ajudando alguém que merece
    ser ajudado...
  • 64:32 - 64:38
    alguém que está doente,
    alguém que mereça ser ajudado.
  • 64:38 - 64:41
    Você quer é mandar os doentes
    para a cadeia.
  • 64:41 - 64:43
    Curá-los!
    Eu quero curá-los.
  • 64:43 - 64:46
    Acabou de dizer que
    não queria ajudá-los.
  • 64:46 - 64:49
    Entre ajudar e curar,
    há uma diferença.
  • 64:49 - 64:54
    Eu quero ajudar,
    impedi-los de reincidir.
  • 64:54 - 64:57
    Ano passado,
    fui à Escócia com uma amiga.
  • 64:57 - 65:02
    No aeroporto,
    tomamos um táxi para o centro.
  • 65:02 - 65:04
    Ficamos no táxi conversando...
  • 65:04 - 65:08
    quando percebi que o motorista
    não havia ligado o taxímetro.
  • 65:08 - 65:10
    Olhei bem...
    não estava ligado.
  • 65:10 - 65:16
    Acenei para ele.
    Bati no vidro que nos separava.
  • 65:16 - 65:22
    Ele fez uma cara! Muito esquisita.
    Não a cara de quem teria esquecido.
  • 65:22 - 65:28
    Finalmente, ele ligou o taxímetro
    enfurecido. Achei demais!
  • 65:28 - 65:33
    Ele queria fazer a gente pagar
    o que ele bem entendesse.
  • 65:33 - 65:37
    Pouco depois, chegamos ao centro.
  • 65:37 - 65:41
    Olhei o contador,
    vi quanto devia pagar...
  • 65:41 - 65:43
    e dei ao motorista
    exatamente o que indicava.
  • 65:43 - 65:48
    O motorista olhou para mim
    com aquela cara e viu logo...
  • 65:48 - 65:52
    que eu sabia o que ele pretendia.
  • 65:52 - 65:55
    Pegou o dinheiro
    e voltou para o táxi.
  • 65:55 - 65:56
    Tenho certeza de que
    ele não fará mais aquilo.
  • 65:56 - 66:02
    É isso o que importa.
    Pensar no seu próximo!
  • 66:02 - 66:04
    Eu ajudei alguém.
  • 66:04 - 66:06
    -Você acha?
    -Acho.
  • 66:06 - 66:10
    Ele não vai mais repetir aquele
    truque, porque não deu certo...
  • 66:10 - 66:12
    e se virou contra ele.
  • 66:12 - 66:15
    O mal que ele fez
    se virou contra ele.
  • 66:15 - 66:19
    Para ser um pouco mais honesta,
    se eu fosse você...
  • 66:19 - 66:22
    eu calculava, por alto,
    quanto eu lhe devia...
  • 66:22 - 66:26
    porque, se entendi bem,
    você só pagou metade da corrida.
  • 66:26 - 66:29
    O que importa é o objetivo.
  • 66:29 - 66:33
    O meu era impedir que ele
    fizesse aquilo de novo...
  • 66:33 - 66:35
    com outro passageiro.
    É isso o que interessa.
  • 66:35 - 66:40
    Você é a favor de castigar
    as pessoas. É uma justiceira.
  • 66:40 - 66:45
    Todos somos justiceiros.
    Você também é.
  • 66:45 - 66:49
    Aí não entendo mais nada.
    Há pouco, você falava de...
  • 66:49 - 66:51
    mandar as pessoas para a cadeia...
  • 66:51 - 66:55
    e você me censurou
    por ter feito o que fiz.
  • 66:55 - 66:58
    E agora me vem com
    suas mesquinharias.
  • 66:58 - 67:01
    Estamos voltando à carnificina geral,
    à Idade Média.
  • 67:01 - 67:07
    Mas você não fez justiça.
    Eu acredito em autodisciplina.
  • 67:07 - 67:09
    O que eu quero é
    que aquele motorista...
  • 67:09 - 67:14
    Sei, sei. Você acha que
    ele vai se autodisciplinar.
  • 67:14 - 67:15
    Acho.
    Ele não vai reincidir.
  • 67:15 - 67:19
    Se acredita na autodisciplina,
    você confia nele.
  • 67:19 - 67:27
    Basicamente.
    Senão não funciona.
  • 67:27 - 67:50
    PASSAGENS - SUBÚRBIO
  • 67:50 - 67:55
    Por favor, desculpe incomodar.
    Roubaram a minha bolsa.
  • 67:55 - 68:01
    Preciso voltar a Versalhes,
    para casa. Preciso de 6,7 0 francos.
  • 68:01 - 68:04
    Eu lhe dou, se tiver.
  • 68:04 - 68:08
    Pronto. Tome.
  • 68:08 - 69:31
    Muito obrigada.
  • 69:31 - 69:38
    Desculpe, senhorita.
    Por acaso não teria...?
  • 69:38 - 69:45
    Desculpe, senhor.
    Não tem uns trocados?
  • 69:45 - 69:55
    Desculpe, senhora.
    Tem uns trocados?
  • 69:55 - 70:15
    Você tem 2... 1 franco?
  • 70:15 - 70:18
    -Desculpe, senhor. Tem trocado?
    -Não tenho dinheiro francês.
  • 70:18 - 70:22
    -Eu queria 2...
    -Não falo francês. Desculpe.
  • 70:22 - 70:26
    Desculpe.
  • 70:26 - 70:33
    Desculpe, senhor.
    Tem algum dinheiro trocado?
  • 70:33 - 70:35
    Fui roubada, levaram minha bolsa.
  • 70:35 - 70:38
    -Preciso de 6 francos.
    -Agora?
  • 70:38 - 70:41
    Quero ir a Versalhes.
    Preciso de 6,7 0 francos.
  • 70:41 - 70:43
    -Quanto quer?
    -6,7 0 francos.
  • 70:43 - 70:47
    -Vou ajudá-la.
    -É muita gentileza.
  • 70:47 - 70:54
    Isso me lembra alguma coisa.
    ''Versalhes''? ''6,7 0 francos''?
  • 70:54 - 70:56
    Ela acaba de me aplicar o golpe.
  • 70:56 - 70:59
    Você passa o dia pedindo
    dinheiro às pessoas?
  • 70:59 - 71:01
    -Não lhe dê atenção, senhora.
    -É uma nova profissão.
  • 71:01 - 71:05
    -Preciso do dinheiro.
    -É incrível!
  • 71:05 - 71:07
    -Vou lhe dar, porque...
    -Eu lhe agradeço.
  • 71:07 - 71:11
    -Se não tivesse chegado, eu ia dar...
    -Devia mudar de profissão.
  • 71:11 - 71:15
    -Você é policial?
    -Não, mas...
  • 71:15 - 71:16
    Então não se meta.
  • 71:16 - 71:20
    Eu me meto. Antes de tudo,
    devolva-me o meu dinheiro.
  • 71:20 - 71:23
    Sinto muito, mas...
  • 71:23 - 71:25
    O que você tem com isso?
    Não precisa de 6,7 0!
  • 71:25 - 71:30
    Não se trata de dinheiro.
    Você pede a todos na estação.
  • 71:30 - 71:31
    É um abuso de confiança.
    Odeio isso. Meu dinheiro!
  • 71:31 - 71:36
    -Não vou devolver.
    -Vai, sim. Devolva já.
  • 71:36 - 71:40
    -Não solto você até que devolva.
    -Não vai me soltar? Como?
  • 71:40 - 71:43
    -Não tem vergonha de fazer isso?
    -Não tenho, não.
  • 71:43 - 71:46
    Não tem consciência?
  • 71:46 - 71:51
    Se precisa de dinheiro, procure
    um trabalho, faça outra coisa.
  • 71:51 - 71:57
    Escute: deixe-me em paz.
    Não sabe se preciso do dinheiro.
  • 71:57 - 71:59
    O que está fazendo é desonesto.
  • 71:59 - 72:03
    -Por que não vai andando?
    -Lamento. Devolva o dinheiro.
  • 72:03 - 72:07
    Posso chamar alguém,
    mas você não sai daqui.
  • 72:07 - 72:10
    O que pode fazer contra mim?
    Por que usa esse tom comigo?
  • 72:10 - 72:13
    Mas você me roubou!
  • 72:13 - 72:17
    Não roubei.
    Pedi 6,7 0 francos e você me deu.
  • 72:17 - 72:20
    Fiz um favor,
    você fez uma cena.
  • 72:20 - 72:23
    É um abuso de confiança.
  • 72:23 - 72:27
    Estou assim,
    mas preciso de dinheiro.
  • 72:27 - 72:30
    Não tenho mais nada.
    Perdi meu apartamento, minha casa.
  • 72:30 - 72:34
    Estou só, preciso de dinheiro e...
  • 72:34 - 72:43
    -Por que você não disse isso?
    -Mas eu estou dizendo!
  • 72:43 - 72:47
    Sei lá.
    Procure uma assistente social.
  • 72:47 - 72:49
    Pode ficar com o dinheiro.
  • 72:49 - 72:53
    Mas pare!
    Não posso ver ninguém chorar.
  • 72:53 - 73:03
    Não adianta. Vou pegar meu trem.
    Fique com o seu dinheiro.
  • 73:03 - 73:07
    -Não ganhei muito e...
    -Fico com 1 franco para o telefone.
  • 73:07 - 73:15
    E vá levantar esse moral
    com um café. Até mais.
  • 73:15 - 73:40
    A VENDA DO QUADRO
  • 73:40 - 73:56
    Olá!
  • 73:56 - 74:00
    Você não pagou o aluguel.
  • 74:00 - 74:03
    Este mês, era sua vez.
  • 74:03 - 74:05
    Eu esperava um pequeno prazo.
  • 74:05 - 74:09
    Não é possível.
    Aqui não tem disso.
  • 74:09 - 74:15
    Não aconselho pagar atrasado.
    Só dá complicações.
  • 74:15 - 74:21
    -Acho que vou voltar para o campo.
    -O quê?
  • 74:21 - 74:26
    Não se pode viver em Paris
    sem dinheiro.
  • 74:26 - 74:30
    Sua avó não lhe deixou
    algum dinheiro?
  • 74:30 - 74:34
    Deixou, mas demora,
    com as formalidades.
  • 74:34 - 74:36
    E a sua mãe?
  • 74:36 - 74:41
    Já tem pouco para ela.
    Como poderia me ajudar?
  • 74:41 - 74:45
    Vou voltar para casa.
  • 74:45 - 74:49
    Você não está tão dura assim.
    Pode fazer algo.
  • 74:49 - 74:53
    Prometeram-me um emprego
    numa mercearia.
  • 74:53 - 74:58
    Mas acabou não dando certo.
  • 74:58 - 75:00
    Só me resta voltar para casa.
  • 75:00 - 75:04
    Pode achar alguma coisa melhor.
    Olhe para mim!
  • 75:04 - 75:07
    -Pode achar outro trabalho.
    -Qual?
  • 75:07 - 75:17
    Você não fala inglês,
    mas conhece espanhol. Dê aulas.
  • 75:17 - 75:20
    Você pode dar aulas de francês.
  • 75:20 - 75:22
    Não conheço a gramática.
  • 75:22 - 75:28
    -Não tem problema. É para crianças.
    -As crianças fazem mais perguntas.
  • 75:28 - 75:34
    Já dei aulas de italiano a uma
    criança. Eu não sabia nada.
  • 75:34 - 75:38
    Ele tinha um livro. Em cada página,
    havia a pronúncia, a tradução, tudo.
  • 75:38 - 75:43
    Fui eu quem aprendeu italiano.
    Pode fazer a mesma coisa.
  • 75:43 - 75:48
    Tudo o que aprendi, aprendi sozinha.
    Não sei ensinar.
  • 75:48 - 75:51
    Como quer que eu ensine
    alguma coisa?
  • 75:51 - 75:54
    -Não, eu...
    -Não quer fazer esforço.
  • 75:54 - 75:59
    Tenho uma idéia.
    Você conhece Gontran?
  • 75:59 - 76:01
    O cara que veio outro dia?
  • 76:01 - 76:04
    Ele conhece muita gente
    no meio da pintura.
  • 76:04 - 76:08
    Conhece o diretor de uma galeria que
    se interessa por jovens pintores.
  • 76:08 - 76:12
    Ele disse que este quadro
    talvez possa interessá-lo.
  • 76:12 - 76:14
    Viu?
  • 76:14 - 76:18
    Então é bom você ficar em Paris.
    Nada de pânico.
  • 76:18 - 76:19
    -Vou telefonar para ele.
    -Isso.
  • 76:19 - 76:38
    Pode dar certo.
  • 76:38 - 76:45
    Droga!
    É a secretária eletrônica.
  • 76:45 - 76:52
    Bom dia. Aqui é Reinette.
    É sobre a galeria.
  • 76:52 - 76:59
    Estou em casa esta noite.
    Até logo.
  • 76:59 - 77:04
    Acho que não sei fazer outra coisa,
    apenas pintar.
  • 77:04 - 77:05
    Com licença.
  • 77:05 - 77:09
    Quando não estou pintando,
    perco meu tempo.
  • 77:09 - 77:15
    Acho que nasci para pintar, mas
    talvez tenha dom para outra coisa.
  • 77:15 - 77:21
    Por exemplo, atividades manuais.
    Não devemos menosprezá-las.
  • 77:21 - 77:23
    Precisamos daquela gente
    que trabalha com as mãos...
  • 77:23 - 77:28
    tanto quanto dos professores,
    dos advogados.
  • 77:28 - 77:32
    Eu aprecio a pintura,
    porque ela dispensa a fala.
  • 77:32 - 77:35
    Eu não gosto de falar.
  • 77:35 - 77:38
    Entretanto,
    você fala muito sobre pintura.
  • 77:38 - 77:42
    Não pára de dar nomes,
    de achar explicações.
  • 77:42 - 77:44
    Você descobre significações,
    fala sempre.
  • 77:44 - 77:48
    Talvez depois do impacto.
  • 77:48 - 77:53
    Porque... não é isso.
    Quando eu pinto, não raciocino.
  • 77:53 - 77:55
    Não procuro explicar nada.
  • 77:55 - 78:01
    Quando pinto, procuro ser uma
    porta aberta para minhas emoções...
  • 78:01 - 78:03
    para deixar falar meu coração.
  • 78:03 - 78:08
    O único meio de deixar
    meu coração falar é o silêncio.
  • 78:08 - 78:13
    É o único domínio onde...
  • 78:13 - 78:15
    a gente pode ser verdadeiro.
  • 78:15 - 78:20
    Porque as palavras são trapaceiras.
    São um código.
  • 78:20 - 78:24
    Quem aprecia minha pintura me ama...
  • 78:24 - 78:29
    porque é a emoção
    falando à emoção.
  • 78:29 - 78:31
    Comunicação direta!
  • 78:31 - 78:34
    É um coração falando
    com outro coração.
  • 78:34 - 78:37
    Quando alguém olha um quadro meu,
    não é preciso falar.
  • 78:37 - 78:40
    Mas, para que essa
    comunicação se faça...
  • 78:40 - 78:42
    é preciso silêncio.
  • 78:42 - 78:45
    Sim, silêncio.
    Você não acha?
  • 78:45 - 78:49
    -Acho.
    -Você está rindo.
  • 78:49 - 78:52
    Estou rindo porque você diz
    que não fala, mas como fala!
  • 78:52 - 78:58
    -Estou lhe explicando.
    -Não precisa. Eu já entendi.
  • 78:58 - 79:03
    Você continua explicando
    quando todos já entenderam.
  • 79:03 - 79:06
    Perdoe-me,
    mas quem não conhece você...
  • 79:06 - 79:09
    pode pensar que você acha
    que todos são uns imbecis.
  • 79:09 - 79:15
    Não é isso. É o contrário!
    É porque eu respeito a verdade.
  • 79:15 - 79:19
    Quero ser honesta
    com quem fala comigo.
  • 79:19 - 79:23
    Então, eu tenho que
    achar a expressão certa.
  • 79:23 - 79:26
    Tenha cuidado, porque isso irrita.
  • 79:26 - 79:31
    Quando era menina,
    meus pais tinham a mania de repetir.
  • 79:31 - 79:35
    -Claro, se você não obedecia.
    -Não era por isso.
  • 79:35 - 79:38
    Eu havia notado um cacoete
    na minha mãe.
  • 79:38 - 79:41
    Ela repetia sistematicamente tudo.
    Por exemplo:
  • 79:41 - 79:45
    ''Ponha seus sapatos brancos.
    Ponha seus sapatos brancos.''
  • 79:45 - 79:49
    Aliás, não era só a minha mãe.
    Quase todos os adultos.
  • 79:49 - 79:53
    Eu, que sou infantil... dizem...
    não tenho essa mania.
  • 79:53 - 79:58
    Não, não tenho essa mania.
  • 79:58 - 80:00
    Posso falar pelos cotovelos,
    mas não repito.
  • 80:00 - 80:05
    Procuro a palavra.
    Mas não repito. Não repito.
  • 80:05 - 80:07
    Está vendo?
  • 80:07 - 80:10
    Estou vendo o quê?
    O quê?
  • 80:10 - 80:14
    Você repetiu.
    Disse duas vezes: ''Não repito''.
  • 80:14 - 80:18
    Está de má-fé!
    É porque você não me respondia!
  • 80:18 - 80:21
    Já que falo demais,
    vou deixar você.
  • 80:21 - 80:24
    Posso muito bem ficar
    sem falar nenhuma palavra.
  • 80:24 - 80:30
    Quando era menina,
    fiquei muitos dias sem abrir a boca.
  • 80:30 - 80:36
    Ninguém reparou.
    Nem a minha mãe.
  • 80:36 - 80:40
    Mas, quando fui à Escócia,
    sem conhecer uma só palavra...
  • 80:40 - 80:50
    eu me virei sozinha. As pessoas
    falam demais. As pessoas...
  • 80:50 - 80:52
    Muito engraçado!
  • 80:52 - 80:56
    Aposto com você que amanhã
    não digo uma só palavra.
  • 80:56 - 80:59
    Se acha graça nisso...
  • 80:59 - 81:03
    Se falar, não respondo. Não vou
    passar o dia todo atrás de você.
  • 81:03 - 81:08
    Por que não?
    Amanhã você não tem curso.
  • 81:08 - 81:14
    Está bem. De qualquer modo, não
    vai se segurar mais de meia hora.
  • 81:14 - 81:17
    Mas lembre-se:
    nem uma palavra, nem um suspiro.
  • 81:17 - 81:20
    Fechado!
  • 81:20 - 81:26
    Promessa é promessa.
  • 81:26 - 81:30
    Alô?
  • 81:30 - 81:36
    Um momento.
    É para você.
  • 81:36 - 81:38
    Gontran!
  • 81:38 - 81:41
    Muito bem.
  • 81:41 - 81:46
    Amanhã?
    Não podemos marcar para outro dia?
  • 81:46 - 81:50
    Entendo.
  • 81:50 - 81:54
    Não, está muito bem.
  • 81:54 - 81:57
    Combinado para amanhã.
  • 81:57 - 81:59
    Obrigada.
  • 81:59 - 82:02
    Tchau.
  • 82:02 - 82:04
    -Era para ir à galeria?
    -Era.
  • 82:04 - 82:06
    Adiemos a aposta para outro dia.
  • 82:06 - 82:11
    Não. Quando digo
    uma coisa, eu faço.
  • 82:11 - 82:15
    É estúpido, vai se comprometer.
    Deixe-me falar por você então.
  • 82:15 - 82:20
    Não foi combinado assim.
    Vai me dar sorte.
  • 82:20 - 82:24
    -Não vejo como.
    -Eu me viro.
  • 82:24 - 82:47
    Você vai me seguir,
    mas não me conhece, certo?
  • 82:47 - 82:50
    Vai acontecer o contrário.
    Você vai ver.
  • 82:50 - 82:53
    Faça o que eu lhe disse.
    Não vacile...
  • 82:53 - 82:56
    e me agradecerá.
  • 82:56 - 82:59
    Por quê? Esperava...
  • 82:59 - 83:01
    um ''não''.
    Confie em mim.
  • 83:01 - 83:05
    Ligue no fim da semana.
    Ligue no fim da semana.
  • 83:05 - 83:10
    Não posso. Vou desligar.
    Tem gente entrando na galeria.
  • 83:10 - 83:13
    Ligo para você.
  • 83:13 - 83:17
    Até mais. Pense bem.
    Até mais.
  • 83:17 - 83:20
    -É você?
    -''Você'' quem?
  • 83:20 - 83:23
    -Não veio me mostrar seus quadros?
    -Não. Vim apenas dar uma olhada.
  • 83:23 - 83:27
    Eu espero uma jovem.
    Então, queira me desculpar.
  • 83:27 - 83:44
    -Não há de quê.
    -Fique à vontade, senhorita.
  • 83:44 - 83:45
    É você!
  • 83:45 - 83:48
    Bom dia, senhorita.
    Foi Gontran quem a mandou?
  • 83:48 - 83:52
    Suponho que é o quadro
    que está segurando.
  • 83:52 - 83:58
    Prefere que eu veja seu
    álbum primeiro, é isso?
  • 83:58 - 84:03
    Disse ''álbum'', não ''book''. Nada
    de anglicismos comigo. Venha.
  • 84:03 - 84:06
    ''Book'' é bom para as ''cover girls''.
  • 84:06 - 84:16
    Eu disse ''cover girls'' em vez de
    ''modelo'' ou ''manequim''. Deboche.
  • 84:16 - 84:21
    Interessante!
  • 84:21 - 84:24
    Nada mal.
  • 84:24 - 84:26
    Não é tão ingênuo assim.
  • 84:26 - 84:30
    Surpreendente para uma moça
    de sua idade.
  • 84:30 - 84:33
    Qual é a sua idade?
  • 84:33 - 84:36
    Mais de 1 5 anos, não?
  • 84:36 - 84:40
    Estou suspeitando que é
    mais velha do que parece.
  • 84:40 - 84:43
    Não me diga que tem 20 anos!
  • 84:43 - 84:48
    Dezenove? Dezoito?
    Dezessete?
  • 84:48 - 84:56
    Digamos que, a priori, são mais
    fantasias de homem maduro.
  • 84:56 - 84:59
    Deve achar minha reação retrógrada.
    Não precisa responder.
  • 84:59 - 85:02
    Você assume totalmente
    a sua problemática.
  • 85:02 - 85:06
    Vai me permitir ser um pouco
    mais crítico sobre a fatura.
  • 85:06 - 85:09
    Mais uma pergunta. Também
    não é obrigada a responder.
  • 85:09 - 85:14
    Seguiu cursos de desenho?
    Sei que o que conta é o resultado.
  • 85:14 - 85:18
    Um perito perceberia logo
    que você é uma autodidata.
  • 85:18 - 85:21
    Por que não?
    A sua força está nisso.
  • 85:21 - 85:26
    Não é o que convencionalmente
    se chama uma arte naïf.
  • 85:26 - 85:31
    Nota-se que você
    tem sofrido influências.
  • 85:31 - 85:34
    Posso saber de quem?
    Essa pergunta deve irritá-la.
  • 85:34 - 85:37
    Na sua idade,
    é difícil admitir uma influência.
  • 85:37 - 85:40
    Mas eu poderia sugerir...
  • 85:40 - 85:45
    Magritte, não?
  • 85:45 - 85:48
    Não?
  • 85:48 - 85:52
    Dali?
  • 85:52 - 85:55
    Também não?
    Curioso!
  • 85:55 - 85:59
    Não me atreveria a citar
    Labysse, Deveau.
  • 85:59 - 86:02
    Não deve conhecê-los.
  • 86:02 - 86:04
    Todos a influenciaram!
  • 86:04 - 86:10
    Gosta de Magritte?
  • 86:10 - 86:15
    E de Dalí?
  • 86:15 - 86:20
    Isso é falar com franqueza.
    Bravo! Viva a falta de respeito!
  • 86:20 - 86:34
    Vejamos o seu quadro.
  • 86:34 - 86:37
    Cuidado.
  • 86:37 - 86:40
    Gosto muito.
  • 86:40 - 86:44
    Extraordinário. A foto
    traindo as cores. Gostei muito.
  • 86:44 - 86:47
    Porém é preciso reconhecer
    inconsistência na composição.
  • 86:47 - 86:50
    Vou me explicar.
    Não me interrompa, por favor.
  • 86:50 - 86:55
    Aí, temos uma grande praia, vazia.
    Ali, no fundo, à direita.
  • 86:55 - 86:58
    Isso cria um certo desequilíbrio.
  • 86:58 - 86:59
    Sei que vai me responder.
  • 86:59 - 87:04
    Que é para pôr em evidência
    o motivo central.
  • 87:04 - 87:07
    Não é isso? Motivo, aliás,
    perfeitamente centralizado.
  • 87:07 - 87:12
    Não diga que tudo isso não
    é diabolicamente planejado.
  • 87:12 - 87:14
    Não proteste.
    Eu a entendi.
  • 87:14 - 87:18
    Se não me engano, é esse
    quadro que quer me confiar.
  • 87:18 - 87:20
    Fico com ele com as
    condições habituais.
  • 87:20 - 87:25
    Quanto quer por ele?
    2 mil francos. É razoável.
  • 87:25 - 87:31
    A senhorita ficaria com 50º/o.
  • 87:31 - 87:36
    O que não lhe agradou?
    Não acha justo?
  • 87:36 - 87:43
    Posso exibi-lo,
    mas dificilmente acharei comprador.
  • 87:43 - 87:49
    Quer dinheiro? Agora?
    Você está louca!
  • 87:49 - 87:56
    Eu lhe dou 200 francos.
    Se isso pode ajudá-la...
  • 87:56 - 87:59
    2 mil francos.
    Estou sendo otimista.
  • 87:59 - 88:02
    Não sei se vou poder vendê-lo
    por 2 mil francos.
  • 88:02 - 88:07
    Que pedisse 1 .7 00, 1 .500...
    teria sido mais razoável.
  • 88:07 - 88:11
    Não me leve a mal,
    mas admitamos que é uma piada.
  • 88:11 - 88:14
    Uma piada até muito manjada.
  • 88:14 - 88:18
    Vou falar francamente:
    não lhe falta talento.
  • 88:18 - 88:20
    Mas, a rigor, isso não é pintura.
  • 88:20 - 88:23
    Se fosse bem pintado,
    daria uma boa foto.
  • 88:23 - 88:30
    Com um modelo,
    talvez um cartão-postal erótico.
  • 88:30 - 88:34
    Ela está chorando!
    Isso é apavorante.
  • 88:34 - 88:37
    Não chore, senhorita.
    Não chore.
  • 88:37 - 88:39
    Que azar o meu!
  • 88:39 - 88:42
    Não chore.
  • 88:42 - 88:46
    Talvez eu tenha exagerado.
    Gostei do seu quadro!
  • 88:46 - 88:50
    Ele tem valor.
    Mas nunca pago um quadro à vista.
  • 88:50 - 88:53
    Deixe-o comigo.
    Consigo vendê-lo bem!
  • 88:53 - 88:55
    Não se preocupe.
    Vai dar certo.
  • 88:55 - 88:56
    O que deu em você?
  • 88:56 - 89:00
    Fique!
    Esse cara me enfezou.
  • 89:00 - 89:02
    Ele a irritou?
  • 89:02 - 89:05
    O que foi que ele disse?
  • 89:05 - 89:07
    Não pode falar?
  • 89:07 - 89:10
    Você é muda?
  • 89:10 - 89:13
    -Entendi. Ela é muda.
    -O quê?
  • 89:13 - 89:16
    -Muda, muda! É claro!
    -Como assim, ''muda''?
  • 89:16 - 89:19
    O que está dizendo?
    Isso não existe.
  • 89:19 - 89:23
    Existe, sim, senhor.
    Há 350 mil surdos-mudos na França.
  • 89:23 - 89:26
    -Surdos-mudos. O que está dizendo?
    -Perfeitamente.
  • 89:26 - 89:30
    Ela não é surda.
    Ouviu bem o que eu lhe disse.
  • 89:30 - 89:32
    Talvez saiba ler nos lábios.
  • 89:32 - 89:37
    Se ela é mesmo surda e muda,
    tem sua própria linguagem.
  • 89:37 - 89:41
    -O senhor conhece essa linguagem?
    -Não.
  • 89:41 - 89:44
    Então seja lógico. Como queria
    que ela a usasse com o senhor?
  • 89:44 - 89:49
    Sei lá. Ela podia escrever,
    vir com um acompanhante.
  • 89:49 - 89:53
    Não sou um instituto para todos
    os incapacitados do planeta.
  • 89:53 - 89:59
    Cuidado com o que diz! Não fale
    assim perante uma pobrezinha surda.
  • 89:59 - 90:02
    -Ela não pode ouvir.
    -Ela deve ler os lábios.
  • 90:02 - 90:07
    Ela está de costas. E, surda
    ou não, estava me enchendo.
  • 90:07 - 90:10
    Sei o que ela quer.
    Ela quer 2 mil francos.
  • 90:10 - 90:12
    Ela me fez entender
    isso claramente.
  • 90:12 - 90:17
    E não quero dá-los. Eu mando aqui.
    Quando falo, todos se calam.
  • 90:17 - 90:23
    Então cale-se.
    Há horas que só se ouve o senhor.
  • 90:23 - 90:25
    Podia pelo menos
    deixá-la explicar-se!
  • 90:25 - 90:28
    Explicar como, se ela não fala?
  • 90:28 - 90:33
    Mais um motivo. O senhor
    se aproveitou da situação.
  • 90:33 - 90:38
    Explorou a enfermidade dela.
    É nojento, covarde e desonesto.
  • 90:38 - 90:41
    Eu a deixo se exprimir.
    Então, que fale!
  • 90:41 - 90:45
    Se fosse eu no lugar dela...
    o senhor sabia que era muda...
  • 90:45 - 90:48
    eu faria exatamente o que ela fez.
  • 90:48 - 90:50
    -O que está querendo dizer?
    -Não me impeça de falar.
  • 90:50 - 90:53
    Senão não digo mais nada.
  • 90:53 - 90:55
    -Não quis...
    -Não falo mais.
  • 90:55 - 91:01
    Quando vejo alguém que não
    pára de falar, me dá vontade de...
  • 91:01 - 91:05
    -Quero lhe lembrar uma coisa.
    -Falar me repugna, me dá nojo.
  • 91:05 - 91:08
    -Não acha repugnante falar?
    -Ouça...
  • 91:08 - 91:13
    Falar sobre a pintura,
    uma coisa sagrada...
  • 91:13 - 91:16
    que não pode ser
    profanada por palavras.
  • 91:16 - 91:20
    A única atitude a tomar diante
    de um quadro é o silêncio.
  • 91:20 - 91:23
    -É o silêncio!
    -Você... é incrível...
  • 91:23 - 93:10
    É o silêncio, senhor!
    O silêncio!
  • 93:10 - 93:42
    Com licença.
  • 93:42 - 93:44
    É interessante.
  • 93:44 -
    -Está à venda?
    -Quatro mil francos.
Title:
4 Adventures of Reinette and Mirabelle
Description:

The friendship of a moody urban lass and a simple, neurotic country girl frames their instructive interrelations in Eric Rohmer's slight, charming microproduction.

Directed by Eric Rohmer
Starring Joëlle Miquel, Jessica Forde

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Duration:
01:34:53
Amara Bot edited Portuguese subtitles for 4 Adventures of Reinette and Mirabelle
Amara Bot added a translation

Portuguese subtitles

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