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← Quatro perguntas que você sempre deve fazer ao seu médico

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Showing Revision 11 created 09/23/2019 by Claudia Sander.

  1. Sou neurocirurgião
  2. e vim dizer que pessoas como eu
    precisam da sua ajuda.
  3. Já digo como.
  4. Mas, primeiro, vou contar
    sobre uma paciente minha.
  5. Era uma mulher de cerca de 50 anos.
  6. De modo geral, ela estava em boa forma,
  7. mas tinha entrado e saído
    do hospital algumas vezes
  8. para um tratamento restaurador
    de câncer no seio.
  9. Agora ela tinha um prolapso
    num disco cervical
  10. causando uma dor que irradiava
  11. para seu braço direito.
  12. Olhando a ressonância magnética
    dela antes da consulta,
  13. resolvi sugerir uma cirurgia.
  14. Cirurgias no pescoço, como essa,
    são padronizadas e muito rápidas.
  15. Mas têm algum risco.
  16. Fazemos uma incisão bem aqui,
  17. e dissecamos cuidadosamente,
    passando pela traqueia,
  18. pelo esôfago,
  19. e tentamos não cortar a artéria carótida.
  20. (Risos)
  21. Então aproximamos o microscópio
  22. e cuidadosamente removemos
    o disco e o prolapso no canal do nervo,
  23. sem danificar a medula e a raiz do nervo,
  24. que ficam poucos milímetros abaixo.
  25. O pior cenário é danificar a medula,
  26. o que pode causar paralisia
    do pescoço para baixo.
  27. Ao explicar isso para a paciente,
    ela ficou em silêncio.
  28. Depois de uns segundos,
  29. ela proferiu algumas palavras
    decisivas para mim e para ela.
  30. "Doutor, isso é realmente necessário?"
  31. (Risos)
  32. E sabem o que eu percebi,
    naquele exato momento?
  33. Não era.
  34. Na verdade, quando recebo
    pacientes como essa mulher,
  35. costumo aconselhar a não operar.
  36. Então, o que me levou a sugerir
    a cirurgia dessa vez?
  37. Veja bem,
  38. esse prolapso era tão delicado,
  39. que eu praticamente me via
    retirando-o do canal do nervo
  40. antes de ela entrar no consultório.
  41. Tenho que admitir, eu queria operá-la.
  42. Eu adoraria operá-la.
  43. Afinal de contas, operar é a parte
    mais divertida do meu trabalho.
  44. (Risos)
  45. Acho que você se identifica
    com essa sensação.
  46. Meu vizinho arquiteto diz que ama
    simplesmente sentar e desenhar
  47. e projetar casas.
  48. Ele prefere fazer isso o dia todo
  49. do que falar com o cliente
    que está pagando pela casa
  50. e que pode até colocar
    restrições sobre o que fazer.
  51. Mas, como todo arquiteto,
  52. todo cirurgião precisa olhar
    o paciente nos olhos
  53. e, junto com ele,
  54. decidir o que é melhor
    para a pessoa que vai ser operada.
  55. E isso pode parecer fácil.
  56. Mas vamos olhar algumas estatísticas.
  57. As amígdalas são dois caroços
    atrás da garganta.
  58. Elas podem ser removidas cirurgicamente,
  59. e isso se chama tonsilectomia.
  60. O gráfico mostra a taxa
    de tonsilectomias na Noruega,
  61. em diferentes regiões.
  62. O que pode impressionar você
    é que há duas vezes mais chances
  63. de que seu filho - porque esse gráfico
    é sobre cirurgias em crianças -
  64. retire as amígdalas
    em Finnmark do que em Trondheim.
  65. As indicações são as mesmas,
    nas duas regiões.
  66. Não deveria haver diferença, mas há.
  67. Aqui temos outro gráfico.
  68. O menisco ajuda a estabilizar o joelho
  69. e pode ser rompido
    ou lesionado gravemente,
  70. normalmente durante esportes
    como o futebol.
  71. Aqui vemos a taxa de cirurgia
    para esse problema.
  72. E vemos que a taxa de cirurgias
    em Møre og Romsdal
  73. é cinco vezes maior do que em Stavanger.
  74. Cinco vezes.
  75. Como é possível?
  76. Os jogadores de futebol de Møre og Romsdal
  77. são mais violentos
    do que no resto do país?
  78. (Risos)
  79. Provavelmente não.
  80. Adicionei mais algumas informações agora.
  81. Agora vemos os procedimentos executados
  82. em hospitais públicos em azul,
  83. e em verde os executados
    em clínicas particulares.
  84. Há muita atividade
    nas clínicas particulares
  85. em Møre og Romsdal, não?
  86. O que isso indica?
  87. Uma possível motivação econômica
    para tratar os pacientes.
  88. E há mais.
  89. Pesquisas recentes comparam
    o efeito do tratamento
  90. com fisioterapia regular
    e com cirurgia do joelho,
  91. e não há diferença.
  92. Isso significa que a maior parte
    dos procedimentos executados
  93. no gráfico que vimos há pouco
  94. poderia ter sido evitada,
    mesmo em Stavanger.
  95. Então, o que estou querendo dizer?
  96. Mesmo que a maioria das indicações
    de tratamento no mundo
  97. sejam padronizadas,
  98. existe muita variação desnecessária
    nas decisões de tratamento,
  99. especialmente no Ocidente.
  100. Algumas pessoas não estão recebendo
    o tratamento de que precisam,
  101. mas um número ainda maior
  102. está recebendo tratamentos excessivos.
  103. "Doutor, isso é realmente necessário?"
  104. Só ouvi essa pergunta
    uma vez em toda minha carreira.
  105. Meus colegas dizem que nunca ouviram
    essas palavras de um paciente.
  106. E olhando pelo outro lado,
  107. quantas vezes vocês pensaram
    que iriam ouvir um "não" de seu medico
  108. se fizessem uma pergunta como essa?
  109. Pesquisadores investigaram isso,
  110. e chegaram à mesma taxa de nãos
    em todos os lugares pesquisados.
  111. E essa taxa é de 30%.
  112. Isso significa que,
    de três em cada dez vezes,
  113. o médico prescreve ou sugere algo
  114. completamente desnecessário.
  115. E sabe qual razão eles alegam para isso?
  116. Pressão do paciente.
  117. Em outras palavras, você.
  118. Você quer que algo seja feito.
  119. Um amigo me pediu um conselho médico.
  120. É um desportista,
  121. esquia muito no inverno,
  122. corre no verão.
  123. Ele começou a sentir muita dor
    nas costas cada vez que corria,
  124. tanta dor que precisou parar de correr.
  125. Fiz um exame, fiz algumas perguntas,
  126. e descobri que ele provavelmente
    tinha um desgaste num disco
  127. na parte inferior da coluna.
  128. Sempre que o disco era exigido, doía.
  129. Ele já tinha começado
    a nadar, em vez de correr,
  130. não havia nada a fazer,
  131. então eu disse a ele: "Você precisa ser
    mais seletivo em seus treinos.
  132. Algumas atividades são boas para você,
  133. outras não".
  134. A resposta dele foi:
  135. "Quero uma ressonância das costas".
  136. "Por que você quer uma ressonância?"
  137. "Posso fazer de graça, pelo convênio".
  138. "Vamos lá", eu disse,
    afinal ele também era meu amigo.
  139. "Esse não é o verdadeiro motivo."
  140. "Bem, acho que vai ser bom saber
    o quão ruim estão as coisas aí atrás."
  141. "Quando você começou a interpretar
    ressonâncias magnéticas?", eu perguntei.
  142. (Risos)
  143. "Acredite em mim.
  144. Você não precisa disso."
  145. "Bem", ele disse,
  146. e depois de um tempo, prosseguiu:
    "Pode ser câncer."
  147. (Risos)
  148. Ele conseguiu a ressonância, claro.
  149. Através do convênio, foi a um colega meu,
  150. que falou para ele
    sobre o disco desgastado,
  151. que não havia nada a fazer,
  152. e que ele deveria continuar nadando
    e parar com as corridas.
  153. Um tempo depois,
    encontrei-o de novo e ele disse:
  154. "Ao menos agora eu sei o que é".
  155. Mas deixe-me fazer uma pergunta.
  156. E se todos aqui com os mesmos sintomas
    fizessem uma ressonância magnética?
  157. E se todas as pessoas da Noruega
  158. fizessem uma ressonância magnética
    por causa de dor nas costas ocasional?
  159. A lista de espera da ressonância magnética
    iria quadruplicar, ou até mais.
  160. E vocês todos estariam
    tirando o lugar na fila
  161. de alguém que realmente tem câncer.
  162. Então um bom médico às vezes diz não,
  163. mas o paciente sensato
    também recusa, às vezes,
  164. uma oportunidade de receber
    um diagnóstico ou um tratamento.
  165. "Doutor, isso é realmente necessário?"
  166. Eu sei que essa pode ser
    uma pergunta difícil de fazer.
  167. De fato, 50 anos atrás,
  168. isso seria considerado até rude.
  169. (Risos)
  170. Se o médico decidisse o que fazer,
  171. era isso que você fazia.
  172. Uma colega minha,
    que hoje é clínica geral,
  173. foi mandada pra um sanatório
    de tuberculosos quando era criança;
  174. por seis meses.
  175. Foi um trauma terrível para ela.
  176. Mais tarde, quando adulta, ela descobriu
  177. que o teste de tuberculose dela
    sempre tinha dado negativo.
  178. O médico mandou-a para lá
    apenas por uma suspeita errada.
  179. Ninguém tinha ousado ou sequer considerado
    confrontá-lo sobre isso.
  180. Nem mesmo os pais dela.
  181. Hoje, o ministro da Saúde da Noruega
  182. fala sobre o serviço de saúde ao paciente.
  183. O paciente deveria receber
    conselhos do médico sobre o que fazer.
  184. Esse é um progresso enorme.
  185. Mas ele também coloca
    mais responsabilidade em você.
  186. Você precisa sentar com seu médico
  187. e começar a compartilhar
    as decisões sobre o que fazer.
  188. Então, da próxima vez em que estiver
    num consultório médico,
  189. quero que você pergunte:
  190. "Doutor, isso é realmente necessário?"
  191. E, no caso da minha paciente,
  192. a resposta seria não,
  193. mas uma cirurgia também se justificava.
  194. "Então, doutor, quais são
    os riscos dessa cirurgia?"
  195. Bem, 5% a 10% dos pacientes
    têm piora dos sintomas de dor.
  196. Um ou dois por cento dos pacientes
  197. têm infecção no corte,
    ou mesmo uma hemorragia
  198. que pode acabar em uma nova cirurgia.
  199. Meio por cento dos pacientes
    ficam com rouquidão permanente,
  200. e poucos, muito poucos,
  201. terão as funções dos braços
    ou mesmo das pernas reduzidas.
  202. "Doutor, há outras opções?"
  203. Sim, repouso e fisioterapia por um tempo
  204. podem deixá-la perfeitamente bem.
  205. "E o que acontece se eu não fizer nada?"
  206. Isso não é recomendado,
  207. mas, mesmo assim, há
    uma pequena chance de você ficar boa.
  208. Quatro perguntas.
  209. Perguntas simples.
  210. Considere-as como sendo
    novas ferramentas para nos ajudar.
  211. Isso é realmente necessário?
  212. Quais são os riscos?
  213. Há outras opções?
  214. E o que acontece se eu não fizer nada?
  215. Pergunte isso ao médico quando ele pedir
    uma ressonância magnética,
  216. quando ele prescrever antibióticos
  217. ou sugerir uma cirurgia.
  218. Sabemos pelas pesquisas
  219. que um em cada cinco de vocês, 20%,
  220. vai mudar de opinião sobre o que fazer.
  221. E ao fazer isso, não vai só tornar
    sua vida muito mais fácil,
  222. e provavelmente até melhor,
  223. mas todo o setor de saúde
  224. será beneficiado com sua decisão.
  225. Obrigado.
  226. (Aplausos)