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← Por que culpamos indivíduos por crises econômicas?

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Showing Revision 30 created 10/15/2020 by Raissa Mendes.

  1. Era um dia frio e ensolarado de março.
  2. Eu caminhava pela rua em Riga.
  3. O inverno, aos poucos, chegava ao fim.
  4. Ainda havia um pouco de neve pelo chão,
    mas a calçada já estava limpa e seca.
  5. Quem já morou em Riga
  6. conhece o alívio que sentimos
    quando chegam os sinais da primavera
  7. e não precisamos mais nos arrastar
    por aquele misto de neve e lama nas ruas.
  8. Lá estava eu, curtindo meu passeio,
  9. quando notei uma inscrição
    na calçada em minha frente,
  10. um grafite.
  11. Letras brancas pintadas
    em blocos cinza-escuros.
  12. Elas diziam:
  13. "Onde está sua responsabilidade?"
  14. A pergunta me fez parar no caminho.

  15. Enquanto eu refletia
    sobre o significado dela,
  16. percebi que estava na frente
  17. do departamento
    de assistência social de Riga.
  18. Aparentemente, o autor
    daquele grafite, seja lá quem fosse,
  19. fazia aquela pergunta às pessoas
    que iam buscar assistência.
  20. Naquele inverno, eu estava pesquisando

  21. sobre as consequências
    da crise financeira na Letônia.
  22. Durante a crise financeira
    mundial de 2008,
  23. a Letônia, uma economia pequena e aberta,
    foi atingida com força.
  24. Para equilibrar as contas,
  25. o governo letão escolheu uma estratégia
    de desvalorização interna da moeda.
  26. Basicamente, isso significava
    redução drástica de gastos públicos,
  27. corte de salários de servidores públicos,
  28. redução de serviços públicos,
  29. corte de benefícios para desempregados
    e outros tipos de assistência
  30. e aumento de impostos.
  31. Minha mãe havia trabalhado
    como professora de história a vida toda.

  32. A política de austeridade causou
    um corte de 30% do salário dela
  33. repentinamente.
  34. Havia muita gente
    em uma situação parecida ou pior.
  35. Os custos da crise foram colocados
    nos ombros do povo.
  36. Como consequência
    da crise e da austeridade,

  37. a economia da Letônia
    encolheu 25% em dois anos.
  38. Só a Grécia sofreu uma contração econômica
    em uma escala comparável.
  39. No entanto, enquanto os gregos
    protestavam há meses nas ruas de Atenas
  40. de forma contínua e muitas vezes violenta,
  41. tudo estava quieto em Riga.
  42. Economistas importantes debatiam
    nas colunas do "New York Times"
  43. sobre esse experimento curioso e extremo
  44. que era o regime de austeridade na Letônia
  45. e observavam perplexos
    como a sociedade letã aguentava isso.
  46. Eu estudava em Londres naquela época

  47. e me lembro do movimento
    "Occupy" que houve lá
  48. e de como ele se espalhava pelas cidades,
  49. de Madri para Nova York, para Londres...
  50. Os 99% contra o 1%.
  51. Vocês conhecem a história.
  52. Mas, quando cheguei a Riga,
    não havia sinais do Occupy aqui.
  53. Os letões simplesmente
    toleravam a situação.
  54. "Engoliam o sapo",
    como diz a expressão local.
  55. Em minha pesquisa de doutorado,

  56. estudei como a relação
    entre o Estado e os cidadãos
  57. estava mudando na Letônia
    na era pós-soviética
  58. e escolhi a agência do trabalhador
    como local de pesquisa.
  59. Quando cheguei lá, no outono de 2011,
  60. percebi que eu testemunhava
    em primeira mão
  61. o desenrolar dos efeitos da crise
  62. e como as pessoas mais afetadas,
    que perderam o emprego,
  63. reagiam a isso.
  64. Comecei a entrevistar pessoas
    que conheci na agência.

  65. Elas estavam registradas
    como candidatas a emprego
  66. e esperavam ajuda do Estado.
  67. Porém, como eu descobriria em breve,
    essa ajuda era algo bem particular.
  68. Havia um certo apoio monetário,
  69. mas a assistência vinha principalmente
    em forma de vários programas sociais.
  70. Um dos maiores programas se chamava:
  71. "Atividades para estimular
    a competitividade".
  72. Era basicamente uma série de seminários
  73. dos quais os desempregados
    eram incentivados a participar.
  74. Comecei a participar
    dos seminários com eles.
  75. E alguns paradoxos me surpreenderam.
  76. Imaginem:

  77. estávamos no meio da crise,
  78. a economia da Letônia
    estava se contraindo,
  79. quase ninguém contratava,
  80. e lá estávamos nós
    naquela pequena sala de aula,
  81. um grupo de 15 pessoas,
  82. listando nossas forças
    e fraquezas pessoais
  83. e nossos conflitos internos,
  84. que, conforme nos diziam, impediam
    nosso sucesso no mercado de trabalho.
  85. Enquanto o maior banco local
    era socorrido,

  86. e os custos disso eram colocados
    nos ombros da população,
  87. sentávamos em um círculo
  88. e aprendíamos a respirar fundo
    em momentos de estresse.
  89. (Respiração profunda)

  90. Enquanto imóveis financiados
    eram retomados por inadimplência

  91. e milhares de pessoas emigravam,
  92. nos mandavam sonhar grande
    e seguir nossos sonhos.
  93. Como socióloga,

  94. sei que políticas sociais são
    uma importante forma de comunicação
  95. entre o Estado e os cidadãos.
  96. A mensagem desse programa era,
    conforme as palavras de uma instrutora:
  97. "Simplesmente faça".
  98. Ela estava, é claro,
    citando o slogan da Nike.
  99. Então, simbolicamente,
    o Estado dizia aos desempregados
  100. que eles precisavam
    ser mais ativos, se esforçar mais,
  101. melhorar a si mesmos,
    superar seus conflitos internos,
  102. ser mais confiantes...
  103. e que, de alguma forma, estar desempregado
    era um fracasso pessoal deles.
  104. O sofrimento da crise
  105. era tratado como uma experiência
    de estresse individual
  106. que deveria ser tratada em nosso corpo
  107. por meio de respiração
    profunda e consciente.
  108. Esse tipo de programa social
    que enfatiza a responsabilidade individual

  109. tem se tornado cada vez
    mais comum pelo mundo.
  110. Isso faz parte da ascensão
  111. daquilo que o sociólogo Loïc Wacquant
    chama de "Estado centauro neoliberal".
  112. O centauro, como vocês devem lembrar,
  113. é uma criatura mitológica
    da cultura da Grécia Antiga,
  114. metade humano e metade fera.
  115. Ele tem a parte de cima de ser humano
    e a parte de baixo de cavalo.
  116. Então o Estado centauro
  117. é um Estado que olha com seu rosto humano
    para aqueles no topo da hierarquia social,
  118. enquanto passa por cima
    daqueles que estão embaixo,
  119. pisoteando-os.
  120. Os mais ricos e as grandes empresas
  121. podem desfrutar cortes de impostos
    e outras políticas de apoio,
  122. enquanto os desempregados e os pobres
  123. são obrigados a provarem-se
    dignos da ajuda do Estado,
  124. são disciplinados moralmente,
  125. são estigmatizados como irresponsáveis,
    passivos, preguiçosos
  126. e muitas vezes são criminalizados.
  127. Na Letônia, temos um modelo
    de Estado centauro

  128. firmado desde os anos 90.
  129. Um exemplo disso é a taxa única
    de imposto de renda,

  130. que tivemos até este ano
  131. e que tem beneficiado
    aqueles com as rendas mais altas,
  132. enquanto um quarto da população
    continua vivendo na pobreza.
  133. A crise e a austeridade
    pioraram a desigualdade social.
  134. Enquanto o capital dos bancos
    e dos ricos foi protegido,
  135. aqueles que mais perderam receberam
    aulas sobre responsabilidade individual.
  136. Conversando com as pessoas
    que conheci naqueles seminários,

  137. eu imaginava que elas estariam bravas
  138. e resistiriam às aulas
    de responsabilidade individual.
  139. Afinal, a crise não era culpa delas,
  140. mas estavam sofrendo
    o pior das consequências.
  141. Porém, conforme as pessoas
    me contavam suas histórias,
  142. eu era surpreendida repetidamente
  143. pelo poder da ideia de responsabilidade.
  144. Uma das pessoas que conheci foi Žanete.

  145. Ela trabalhou por 23 anos
    ensinando costura e outros ofícios
  146. na escola vocacional em Riga.
  147. Quando a crise bateu,
  148. a escola foi fechada
    como medida de austeridade.
  149. A reestruturação do sistema educacional
  150. fazia parte do plano
    de economizar o dinheiro público.
  151. Dez mil professores pelo país
    perderam o emprego,
  152. e Žanete foi uma delas.
  153. Eu sabia, pelo que ela me contou,
  154. que aquilo a havia colocado
    em uma situação desesperadora;
  155. ela era divorciada, sustentava
    dois filhos adolescentes sozinha.
  156. Porém, enquanto conversávamos,
  157. ela me disse que a crise
    era uma oportunidade.
  158. Ela falou: "Faço 50 anos este ano.
  159. Acho que a vida me deu uma chance
    de parar e olhar em volta,
  160. porque todos esses anos
    trabalhei sem parar,
  161. sem tempo para pausas.
  162. Agora parei
  163. e ganhei essa oportunidade
    de observar tudo
  164. e decidir o que quero
  165. e o que não quero.
  166. Todo esse tempo costurando e costurando
    me deixou meio exausta".
  167. Žanete foi despedida depois de 23 anos,

  168. mas não pensava em protestar.
  169. Não falava sobre os 99% contra o 1%.
  170. Ela estava se analisando
  171. e pensando pragmaticamente em abrir
    um pequeno negócio em seu quarto,
  172. fazendo bonecas de suvenir
    para vender a turistas.
  173. Conheci também Aivars na agência.

  174. Ele tinha quase 50 anos
  175. e havia perdido o emprego
    em uma agência governamental
  176. na qual era supervisor de obras.
  177. Em uma de nossas reuniões,
    ele trouxe um livro que estava lendo,
  178. chamado "Vacinação contra o estresse
    ou aiquidô psicoenergético".
  179. Alguns de vocês talvez saibam
    que aiquidô é uma arte marcial.
  180. Então, aiquidô psicoenergético.
  181. Aivars me falou que, depois de meses
    lendo, pensando e refletindo,
  182. enquanto estava desempregado,
  183. ele entendeu que suas dificuldades
    eram, na verdade, sua culpa.
  184. Ele me disse:
  185. "Eu mesmo as criei.
  186. Eu estava em um estado psicológico
    que não era bom para mim.
  187. Quando uma pessoa tem medo
    de perder o emprego e o dinheiro,
  188. ela fica estressada, inquieta, receosa,
  189. e é isso que ela ganha".
  190. Pedi para ele explicar,

  191. e ele comparou seus pensamentos
    a cavalos correndo em todas as direções
  192. e disse: "Precisamos ser o pastor
    de nossos pensamentos.
  193. Para colocar as coisas
    em ordem no mundo físico,
  194. precisamos ser o pastor
    de nossos pensamentos,
  195. porque é por meio deles
    que tudo vai para seu lugar".
  196. Ele continuou: "Recentemente,
    ficou claro para mim
  197. que o mundo ao meu redor,
    as coisas que acontecem comigo
  198. e as pessoas que entram em minha vida,
    tudo depende diretamente de mim".
  199. Enquanto a Letônia passava
    por um experimento econômico extremo,
  200. Aivars dizia que sua forma de pensar
    é que precisava mudar.
  201. Ele se culpava pelo que estava passando.
  202. Assumir responsabilidade
    é uma coisa boa, não é?

  203. Isso tem um significado especial
    e é um assunto moralmente pesado
  204. em uma sociedade pós-soviética,
  205. na qual a dependência do Estado
  206. é vista como uma herança trágica
    do passado soviético.
  207. Mas, ouvindo Žanete, Aivars e outros,
  208. também pensei na crueldade desta pergunta:
  209. "Onde está sua responsabilidade?"
  210. Que pergunta punitiva.
  211. Ela servia como forma
    de culpar e pacificar
  212. as pessoas mais afetadas pela crise.
  213. Então, enquanto os gregos iam às ruas,
    os letões engoliam o sapo,
  214. e dezenas de milhares emigravam,
  215. o que é uma forma
    de assumir responsabilidade.
  216. A linguagem da responsabilidade individual
    se tornou uma forma de negação coletiva.

  217. Enquanto tivermos políticas sociais
  218. que tratem o desemprego
    como um fracasso individual
  219. e não tivermos recursos para programas
    que ensinem habilidades reais às pessoas
  220. e que gerem oportunidades,
  221. estaremos cegos à obrigação dos políticos.
  222. Enquanto estigmatizarmos os pobres
    como passivos ou preguiçosos,
  223. mas não dermos às pessoas
    meios reais de saírem da pobreza
  224. que não seja emigração,
  225. estaremos negando
    as reais causas da pobreza.
  226. Enquanto isso não muda,
  227. todos sofremos,
  228. porque cientistas sociais mostraram,
    por meio de dados estatísticos detalhados,
  229. que há mais pessoas com problemas
    de saúde mental e física
  230. em sociedades com níveis mais altos
    de desigualdade econômica.
  231. Então a desigualdade social é ruim
    não só para aqueles com menos recursos,
  232. mas para todos nós,
  233. porque viver em uma sociedade
    com alta desigualdade
  234. é viver em uma sociedade
    com baixa confiança social
  235. e ansiedade elevada.
  236. E é isso.

  237. Todos lemos autoajuda,
  238. tentamos mudar nossos hábitos
    e reprogramar o cérebro
  239. e meditamos.
  240. E isso ajuda, é claro, de uma certa forma.
  241. Livros de autoajuda nos ajudam
    a sermos mais positivos.
  242. Meditação pode nos ajudar a nos sentirmos
  243. mais conectados aos outros
    espiritualmente.
  244. Acho que precisamos
  245. é de consciência daquilo que nos conecta
    uns aos outros socialmente,
  246. porque a desigualdade social
    prejudica todos nós.
  247. Precisamos de políticas
    sociais mais solidárias,
  248. que visam menos à educação moral
  249. e mais à promoção
    de justiça social e igualdade.
  250. Obrigada.

  251. (Aplausos) (Vivas)