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← Três perguntas para nos questionarmos sobre a cidadania dos EUA

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Showing Revision 9 created 12/06/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Quatro anos depois
    de chegar aos EUA,
  2. tal como qualquer miúdo de 16 anos,
  3. fui tirar a minha carta de condução.
  4. Depois de mostrar os papéis de imigração
    e o meu cartão verde à funcionária,
  5. ela disse-me que eram falsos.
  6. "Não volte aqui outra vez", disse ela.
  7. Foi assim que descobri
    que estava ilegal nos EUA.

  8. E ainda aqui estou ilegalmente.

  9. Sou jornalista e cineasta.

  10. Acredito em histórias.
  11. E o que aprendi
  12. é que a maioria das pessoas
    não sabem nada quanto a imigração
  13. tal como não sabem nada sobre si mesmas:
  14. as velhas histórias da migração
    dos seus antepassados
  15. e os procedimentos
    por que tiveram de passar
  16. antes de existirem
    os cartões verdes e as barreiras,
  17. nem o que modelou
    a sua perceção de cidadania.
  18. Eu nasci nas Filipinas.

  19. Aos 12 anos, a minha mãe
    mandou-me vir viver com os pais dela,
  20. os meus avós,
  21. ou, como dizemos em Tagalog,
    o "lolo" e a "lola".
  22. O nome de "lolo" era Teofilo.
  23. Quando emigrou legalmente para os EUA
    e passou a ser um cidadão naturalizado,
  24. mudou o nome Teofilo para Ted,
  25. aludindo a Ted Danson,
    do programa da TV "Cheers".
  26. Não se pode ser mais americano que isto.
  27. A música preferida do meu "lolo"
    era a "My Way" do Frank Sinatra
  28. e, quando teve de imaginar
    como havia de trazer para os EUA

  29. o seu único neto, eu,
  30. decidiu fazê-lo à sua maneira.
  31. De acordo com o "lolo'', não havia
    uma forma fácil ou simples de me trazer,
  32. então o ''lolo'' poupou 4500 dólares
  33. — o que é muito dinheiro
    para um segurança
  34. que não ganhava mais
    de oito dólares por hora —
  35. para pagar um cartão verde falso
  36. e a um traficante para me trazer
    para os EUA.
  37. E foi assim que eu cá cheguei.
  38. Não sei dizer quantas vezes
    as pessoas me dizem

  39. que os seus antepassados vieram
    para os EUA da ''maneira certa''
  40. ao que eu lhes recordo
  41. que a definição americana
    da ''maneira certa''
  42. tem mudado desde que atracou
    o primeiro barco de colonos.
  43. A América, tal como a conhecemos,
    é mais do que um pedaço de terra,

  44. particularmente porque a terra
    que hoje forma os EUA
  45. pertencia a outras pessoas
    noutros países.
  46. A América, tal como a conhecemos
    é mais que uma nação de imigrantes.
  47. Há dois grupos na América
    que não são imigrantes:
  48. Os nativos americanos,
    que eram indígenas desta terra
  49. e que foram mortos
    em ações de genocídio
  50. e os africanos que foram raptados,
    metidos em barcos e escravizados
  51. para construir este país.
  52. A América é, acima de tudo, uma ideia
  53. contudo incompleta e imperfeita,
  54. que só existe porque os primeiros
    colonos chegaram aqui livremente
  55. sem preocupações de cidadania.
  56. Então, de onde é que vocês vieram?

  57. Como chegaram aqui?
  58. Quem pagou?
  59. Por todos os EUA,
    perante diversas audiências
  60. — conservadores e progressistas,
    estudantes do secundário
  61. e cidadãos seniores —
  62. eu tenho feito estas perguntas.
  63. Como pessoa de cor, perguntam-me
    sempre de onde sou:
  64. ''De onde és?''
  65. Então eu também pergunto
    aos brancos de onde eles são.
  66. Depois de perguntar a um estudante
    na Universidade da Georgia

  67. de onde ele era, ele disse:
  68. ''Eu sou americano.''
  69. ''Eu sei'', disse, '' mas de onde vens?''
  70. ''Sou branco'', respondeu-me.
  71. ''Mas branco não é um país,'' disse eu.
  72. ''De onde vêm os teus antepassados?''
  73. Quando ele me respondeu,
    encolhendo os ombros, eu disse:
  74. ''Bem, de onde vieste?''
  75. "Como chegaste aqui?
    Quem pagou?"
  76. Ele não conseguiu responder.
  77. Eu não sei se se consegue falar
    sobre a América enquanto América

  78. sem responder a estas
    três perguntas fundamentais.
  79. A imigração é a linha da vida americana,
  80. como este país se foi repovoando
    durante séculos,
  81. dos colonos e revolucionários
    que povoaram as 13 colónias iniciais
  82. aos milhões de imigrantes,
    predominantemente da Europa
  83. que incansavelmente
    colonizaram esta terra.
  84. Apesar de os nativos americanos
    já estarem aqui
  85. e de terem as suas tribos identificadas
    e ideias sobre cidadania,
  86. eles só foram considerados
    cidadãos americanos
  87. pela Lei da Cidadania Índia, de 1924.
  88. A Lei dos Direitos Civis, de 1964,
    pelo qual os negros americanos lutaram
  89. inspirou em 1965
    a Lei da Imigração e Nacionalidade
  90. que acabou com o sistema americano
    de segregação, baseado na raça,
  91. que durara 40 anos.
  92. Eu podia continuar indefinidamente

  93. mas a minha questão principal é esta:
  94. Quantos de nós,
  95. sejamos imigrantes
    do passado ou do presente,

  96. conhecem estas partes fundamentais
    da história americana?
  97. Quanto desta história entra no atual
    teste de cidadania americana?
  98. Alguma vez o viram?
  99. É sobretudo um teste oral,
  100. e os funcionários do governo fazem
    ao candidato entre 10 a 100 perguntas.
  101. Para passar, é preciso conseguir
    pelo menos seis respostas corretas.
  102. Olhei para o teste recentemente,

  103. e fiquei chocado
    com as perguntas feitas
  104. e o que constituíam respostas
    aceitáveis para o que era óbvio.
  105. Havia uma pergunta sobre
    a Estátua da Liberdade e onde ela está.
  106. Não há perguntas sobre a Ilha Ellis,
  107. sobre os EUA
    como uma nação de imigrantes
  108. e de inúmeras leis anti-imigrantes
    que foram aprovadas.
  109. Não há nada sobre a história
    nativo-americana.
  110. Há uma pergunta sobre
    o que Martin Luther King Jr. fez,
  111. mas há abundantes contextos
    inadequados e irresponsáveis
  112. sobre os afro-americanos.
  113. Um exemplo.

  114. Pergunta número 74
    na secção de História Americana:
  115. pede-se aos candidatos para ''nomearem
    um problema que levou à Guerra Civil.''
  116. Há três respostas aceitáveis:
  117. escravatura,
  118. direitos do Estado,
  119. razões económicas.
  120. A minha ''lola'' and o meu ''lolo''
    perceberam esta pergunta?

  121. Se perceberam esta pergunta,
  122. conheciam a história por detrás dela?
  123. E os meus tios e tias e primos
  124. e milhões de outros imigrantes
    que tiveram de fazer o teste
  125. para se tornarem americanos?
  126. O que é os imigrantes sabem
    sobre a América
  127. antes de chegarem aqui?
  128. A que tipo de cidadania
    nos candidatamos?
  129. É esse mesmo tipo de cidadania
    a que queremos pertencer?
  130. Pensando bem
    — eu tenho pensado muito nisto —
  131. o que é uma cidadania digna?
  132. Como posso pedi-la quando
    só cheguei aqui há 26 anos,
  133. quando os negros e os nativos
  134. que têm estado aqui nos EUA
    durante centenas de anos
  135. ainda estão à espera da cidadania deles?
  136. Um dos meus escritores favoritos
    é a escritora Toni Morrison.

  137. Em 1996, um ano antes de eu descobrir
    que estava no país ilegalmente,
  138. na minha turma do oitavo ano
    fui escolhido para ler
  139. ''The Bluest Eye'',
  140. o primeiro livro de Morisson.
  141. Instantaneamente, o livro desafiou-me
    a fazer as perguntas difíceis.
  142. Porque é que Pecola Breedlove,
  143. essa jovem rapariga negra
    no centro do livro,
  144. porque é que ela queria olhos azuis?
  145. Quem lhe disse para querer isso?
  146. Porque é que ela acreditou neles?
  147. Morrison disse que escrevera o livro
    para ilustrar o que acontece
  148. quando uma pessoa se rende ao que ela
    chamou ''o mestre da narrativa.''
  149. ''As definições,'' Morisson disse,
    ''pertencem aos definidores,
  150. "e não às coisas definidas.''
  151. Quando me apercebi que estava aqui ilegal,

  152. convenci-me de que,
  153. se eu não era cidadão legal
    por nascença ou por lei,
  154. qualquer outro tipo de cidadania
    era possível.
  155. Cidadania como participação:

  156. Eu envolvo-me.
  157. Envolvo-me com todo o tipo de americanos
  158. mesmo com americanos
    que não me querem cá.
  159. Cidadania como contribuição:

  160. Eu compenso a minha comunidade
    de todas as maneiras que posso.
  161. Como empresário sem documentos
    — e sim, isso existe —
  162. tenho empregado
    muitos cidadãos americanos.
  163. Cidadania como educação:

  164. Não podemos esperar pelos outros
    para nos instruirmos sobre o passado
  165. e como chegámos a este presente.
  166. Temos de nos instruir
    e aos nossos círculos.
  167. Cidadania como algo maior que eu próprio:

  168. Estamos, penso eu,
    individual e coletivamente,
  169. a reescrever a narrativa
    principal dos EUA.
  170. As pessoas que outrora foram definidas
    estão agora a definir.
  171. Estão a questionar o que é preciso
    ser questionado.
  172. A parte centrar desta redefinição
  173. é como definimos não só
    quem é americano
  174. mas o que constitui a cidadania.
  175. Que, para mim, é a nossa responsabilidade
    para com os outros.
  176. Então considerem
    a vossa narrativa pessoal

  177. e questionem-se:
  178. De onde vieram?
  179. Como chegaram aqui?
  180. Quem pagou?