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← Como se recuperar do esgotamento do ativismo

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Showing Revision 13 created 06/13/2019 by Maricene Crus.

  1. No verão de 2017,
  2. uma mulher foi assassinada
    pelo parceiro dela em Sofia.
  3. A mulher, vamos chamá-la de "V",
  4. foi espancada por mais de 50 minutos
  5. antes de morrer.
  6. Na manhã seguinte,
  7. os vizinhos contaram à imprensa
    que ouviram os gritos dela,
  8. mas eles não intervieram.
  9. Vejam, na Bulgária,
    e em muitas outras sociedades,
  10. violência doméstica é tipicamente vista
    como um assunto particular.
  11. Vizinhos, porém, reagem rapidamente
    a qualquer outro tipo de ruído.
  12. Queríamos expor e atacar a absurdez disso.

  13. Então, projetamos um experimento.
  14. Alugamos o apartamento
    logo abaixo do dela por uma noite.
  15. E às 10 da noite,
  16. Maksim, o artista do nosso grupo,
  17. sentou-se à bateria que tínhamos
    montado na sala de estar
  18. e começou a tocar.
  19. Dez segundos.
  20. Trinta segundos.
  21. Cinquenta segundos.
  22. Um minuto.
  23. Uma luz se acende no corredor.
  24. Um minuto e 20 segundos.
  25. Um homem estava em pé à porta,
    hesitante em tocar a campainha.
  26. Um minuto e 52 segundos.
  27. A campainha tocou,
  28. um toque que poderia ter salvado uma vida.
  29. "Beat" é o nosso projeto
    que explora o silêncio sinistro

  30. da violência doméstica que nos cerca.
  31. Nós filmamos o experimento
    e, instantaneamente, ele viralizou.
  32. Nossa campanha amplificou
    as vozes das sobreviventes
  33. que compartilharam
    histórias semelhantes on-line.
  34. Equipamos vizinhos
    com conselhos específicos
  35. e muitos se comprometeram a agir.
  36. Em um país onde a cada duas semanas
  37. o chão silenciosamente acolhe
    o corpo de uma mulher
  38. assassinada por um parceiro ou um parente,
  39. nós fizemos barulho
  40. e fomos ouvidos.
  41. Eu sou ativista

  42. e apaixonada por inovação
    em direitos humanos.
  43. Lidero uma organização global pra soluções
    criativas socialmente engajadas.
  44. No meu trabalho, penso em como fazer
    com que as pessoas se importem e ajam.
  45. Estou aqui pra dizer que ações criativas
    podem salvar o mundo,
  46. ações criativas e brincadeiras.
  47. Sei que é estranho falar sobre brincar
    e direitos humanos na mesma frase,
  48. mas aqui está por que é importante.
  49. Nós, cada vez mais, tememos
    que não podemos vencer isso.
  50. Campanhas parecem enfadonhas,
  51. mensagens são debeladas,
  52. pessoas são destruídas.
  53. Inúmeros estudos, incluindo um recente
    publicado pela Universidade Columbia,
  54. mostram que o esgotamento e a depressão
    estão bem difundidos entre os ativistas.
  55. Anos atrás, eu mesma me sentia esgotada.
  56. Em um mundo de infinitas escolhas,
    me senti na minha última parada.
  57. Então, o que dissolve o medo,
    a melancolia ou a tristeza?

  58. Brincadeira.
  59. Neste mesmo palco, o psiquiatra
    e pesquisador de jogos Dr. Stuart Brown
  60. disse que nada acende o cérebro
    mais do que uma brincadeira,
  61. e que o oposto da brincadeira
    não é trabalho,
  62. é a depressão.
  63. Para sair do meu próprio esgotamento,
  64. então, decidi transformar meu ativismo
    no que chamo hoje de "brincar-tivismo".
  65. (Risos)

  66. Quando brincamos, outros querem se juntar.

  67. Hoje, meu parquinho está
    cheio de artistas,
  68. técnicos e cientistas.
  69. Mesclamos disciplinas
    numa colaboração radical.
  70. Juntos, procuramos novos caminhos
    para capacitar o ativismo.
  71. Nossos resultados
    não precisam ser divertidos,
  72. mas o nosso processo é.
  73. Para nós, brincar é um ato de resistência.
  74. Por exemplo, Beat,
    o projeto que mencionei antes,
  75. é um conceito criado por um baterista
    e um engenheiro de software
  76. que não se conheciam
    dois dias antes de lançarem a ideia.
  77. Beat é o primeiro vencedor
    em nossa série de experimentos,
  78. nos quais juntamos artistas e tecnólogos
    atuando em questões de direitos humanos.
  79. Outros conceitos vencedores
    incluem uma padaria "pop-up",
  80. que ensina sobre notícias falsas usando
    cupcakes bonitos, mas de gosto horrível...
  81. (Risos)

  82. ou um jogo de tabuleiro
    que te coloca no lugar de um ditador,

  83. assim você entende o alcance
    de ferramentas e táticas de opressão.
  84. Fizemos nosso primeiro experimento
    só para testar a ideia,

  85. para ver onde ele falha
    e se podemos melhorá-lo.
  86. Hoje, gostamos tanto do formato
    que colocamos tudo on-line
  87. para que qualquer um possa usá-lo.
  88. Não há como contestar o valor
    da experimentação no ativismo.
  89. Nós só temos a ganhar,
    se não tivermos medo de perder.
  90. Quando brincamos, aprendemos.

  91. Um estudo recente publicado
    pela Universidade de Stanford
  92. sobre a ciência do que faz
    as pessoas se importarem
  93. reafirma o que temos ouvido há anos:
  94. opiniões mudam não por causa
    de mais informação,
  95. mas por experiências que provocam empatia.
  96. Então, aprendendo com ciência e arte,
  97. vimos que podemos falar sobre conflito
    armado global usando lâmpadas,
  98. ou abordar a desigualdade racial nos EUA
  99. através de cartões postais,
  100. ou enfrentar a falta de um único
    monumento de mulher em Sofia
  101. inundando a cidade com eles,
  102. e, com todos esses trabalhos,
  103. podemos desencadear o diálogo,
    a compreensão e a ação direta.
  104. Às vezes, quando falo em assumir riscos,

  105. tentar e falhar no contexto
    dos direitos humanos,
  106. me deparo com muita desaprovação.
  107. Uma desaprovação que diz:
    "Quanta irresponsabilidade!"
  108. ou "quanta insensibilidade!"
  109. As pessoas geralmente confundem
    brincadeira com negligência.
  110. E não é.
  111. Brincar não só aumenta nossos exércitos
    ou desperta ideias melhores.
  112. Em tempos de injustiça dolorosa,
  113. brincar traz a leveza que precisamos
    para podermos respirar.
  114. Quando brincamos, nós vivemos.
  115. Eu cresci numa época

  116. em que toda brincadeira era proibida.
  117. Vidas na minha família foram esmagadas
    por uma ditadura comunista.
  118. Para minha tia, meu avô, meu pai,
  119. sempre realizamos dois funerais:
  120. um para o corpo deles,
  121. mas, anos antes disso,
  122. um funeral para seus sonhos.
  123. Alguns dos meus maiores
    sonhos são pesadelos.
  124. Tenho um pesadelo que um dia
    todo o passado será esquecido,
  125. e de roupas novas irá escorrer
    o sangue dos erros do passado.
  126. Eu tenho um pesadelo
  127. que um dia os faróis da nossa
    humanidade irão desmoronar,
  128. corroídos por ondas ácidas de ódio.
  129. Mas, muito mais do que isso,

  130. eu tenho esperança.
  131. Em nossas lutas por justiça e liberdade,
  132. espero que possamos brincar
  133. e que vejamos a alegria
    e a beleza de brincarmos juntos.
  134. É assim que vencemos.
  135. Obrigada.

  136. (Aplausos)