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O poder profundo de uma desculpa autêntica

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    Durante os últimos anos,
    temos vindo a denunciar os homens.
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    Tinha de ser feito.
  • 0:09 - 0:10
    (Aplausos)
  • 0:10 - 0:16
    Mas ultimamente, tenho pensado
    que temos de fazer algo mais difícil.
  • 0:17 - 0:20
    Precisamos, como diz
    o meu amigo Tony Porter,
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    de encontrar a forma
    de convocar os homens.
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    O meu pai começou a abusar
    sexualmente de mim,
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    quando eu tinha cinco anos.
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    Ele entrava no meu quarto
    a meio da noite.
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    Parecia estar em transe.
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    Os abusos continuaram até eu ter 10 anos.
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    Quando eu tentei resistir-lhe,
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    quando finalmente conseguia dizer não,
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    ele começou a bater-me.
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    Chamou-me estúpida.
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    Disse que eu era mentirosa.
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    O abuso sexual terminou nos meus 10 anos,
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    mas, na verdade, nunca terminou.
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    Mudou quem eu era.
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    Estava cheia de ansiedade, de culpa
    e de vergonha, todo o tempo,
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    e não sabia porquê.
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    Odiava o meu corpo, odiava-me a mim mesma.
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    Adoecia com frequência.
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    Não conseguia pensar,
    não me lembrava das coisas.
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    Sentia-me atraída para homens
    e mulheres perigosas
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    a quem permitia — aliás convidava —
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    que me tratassem mal,
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    porque esse foi o amor
    que o meu pai me ensinou.
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    Esperei toda a minha vida
    pelas desculpas do meu pai.
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    Mas ele nunca pediu.
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    Nunca o faria.
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    Então, com os recentes escândalos
    de homens famosos,
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    à medida que iam sendo denunciados,
    uns atrás dos outros,
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    percebi uma coisa:
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    Nunca tinha ouvido nenhum homem,
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    culpado de violação
    ou de violência física
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    pedir desculpa publicamente à sua vítima.
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    Comecei a pensar:
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    Como seria um autêntico e
    profundo pedido de desculpas?
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    Então, algo estranho começou a acontecer.
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    Comecei a escrever,
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    e a voz do meu pai começou
    a aparecer através de mim.
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    Começou por dizer-me
    o que tinha feito e porquê.
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    Começou por pedir desculpa.
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    O meu pai morreu há quase 31 anos,
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    mesmo assim, neste pedido de desculpas,
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    que eu tive de escrever, em nome dele,
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    eu descobri o poder
    de um pedido de desculpas
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    e como esse pode ser o caminho
    para seguir em frente
  • 2:39 - 2:42
    na crise que agora enfrentamos
  • 2:42 - 2:45
    com os homens e todas
    as mulheres que eles violentam.
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    Um pedido de desculpas
    é um compromisso sagrado.
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    Requer uma total honestidade.
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    Exige profunda reflexão e tempo.
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    Não pode ser apressado.
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    Percebi que um pedido de desculpas
    tem quatro passos.
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    Se me permitem, gostaria de os explicar.
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    Primeiro temos de dizer,
    com detalhe, o que fizemos.
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    A descrição não pode ser vaga.
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    "Desculpa se te magoei"
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    ou "Desculpa se abusei de ti sexualmente"
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    não chega.
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    Temos de dizer o que realmente aconteceu.
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    "Fui ao teu quarto a meio da noite,
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    "e puxei-te as cuecas para baixo."
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    "Menosprezei-te porque tinha
    ciúmes de ti
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    "e queria que te sentisses inferior."
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    A libertação está nos detalhes.
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    Um pedido de desculpas é uma lembrança.
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    Liga o passado ao presente.
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    Diz que o que aconteceu,
    aconteceu mesmo.
  • 3:44 - 3:49
    O segundo passo é termos
    de perguntar porquê.
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    As sobreviventes são
    assombradas pelo porquê.
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    "Porquê? Porque é que o meu pai quis
    abusar sexualmente da filha mais velha?
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    "Porque é que agarrava na minha
    cabeça esmagando-a na parede?"
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    No caso do meu pai,
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    ele foi um filho que nasceu
    muito depois dos outros filhos.
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    Foi um acidente que se tornou
    num "milagre."
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    Foi adorado e tratado
    como o menino de ouro.
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    Mas acontece que a adoração não é amor.
  • 4:22 - 4:24
    A adoração é o resultado
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    de alguém projetar em nós
    a sua necessidade de ser perfeito.
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    O meu pai teve de viver
    com esse ideal impossível
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    e assim nunca foi autorizado
    a ser ele mesmo.
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    Nunca foi autorizado a expressar ternura,
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    nem vulnerabilidade,
    curiosidade ou dúvida.
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    Nunca foi autorizado a chorar.
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    Foi forçado a enterrar todos
    esses sentimentos profundamente,
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    e eles acabaram por se metastatizar.
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    Esses sentimentos reprimidos
    resultaram no Homem Sombra
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    que ficou fora de controlo,
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    e descarregou o seu sofrimento
    em cima de mim.
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    O terceiro passo
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    é que temos de abrir o coração
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    e sentir o que a vítima sentiu
    quando estava a ser violentada.
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    Temos que deixar o coração partir-se.
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    Temos que sentir o horror e a traição
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    e os impactos a longo prazo
    da violência sobre a vítima.
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    Temos que confrontar o
    sofrimento que causámos.
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    E, claro, o quarto passo
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    é assumir a responsabilidade
    pelo que fizemos
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    e reparar o mal.
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    Então, porque é que alguém
    há de querer passar
  • 5:30 - 5:33
    por um processo
    tão desgastante e humilhante?
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    Porque é que há de querer abrir-se?
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    Porque é a única coisa que nos libertará.
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    É a única coisa que libertará
    a nossa vítima.
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    Não destruímos apenas a nossa vítima.
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    Destruímo-nos a nós mesmos.
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    Não há ninguém que exerça
    violência sobre outra pessoa
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    que não sofra dos efeitos sobre si mesma.
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    A violência cria uma escuridão,
    um espirito contagiante
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    e espalha-se ao longo de toda a vida.
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    Com a desculpa que escrevi
    aprendi alguma coisa
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    sobre uma forma distinta
    de olhar a realidade
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    para compreender o problema
    da violência masculina
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    a que eu e milhões de outras
    mulheres sobrevivemos.
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    Muitas vezes recorremos
    primeiro ao castigo.
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    É o nosso primeiro instinto
    mas, na realidade.
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    embora a punição algumas vezes
    seja eficaz,
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    por si só, não é suficiente.
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    O meu pai castigou-me.
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    Fiquei fechada e destroçada.
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    Acho que o castigo nos endurece,
    mas não nos ensina.
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    A humilhação não é revelação.
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    Temos de criar um processo
    que pode envolver um castigo
  • 6:50 - 6:53
    pelo qual abrimos uma saída
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    onde os homens possam ser diferentes.
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    Durante muitos anos, odiei o meu pai.
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    Queria-o morto. Queria-o na prisão.
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    Esta raiva manteve-me ligada
    à história do meu pai
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    O que eu queria realmente
    não era só que o meu pai parasse,
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    eu queria que ele mudasse.
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    Queria que ele pedisse desculpas.
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    Era isso que eu queria.
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    Não queremos a destruição dos homens,
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    não queremos que sejam só punidos.
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    Queremos que nos vejam
    como as vítimas
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    que eles magoaram,
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    queremos que se arrependam
    e que mudem.
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    Acredito que isto é possível.
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    Acredito que é o nosso caminho,
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    Precisamos que os homens
    se juntem a nós.
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    Precisamos que os homens sejam
    corajosos
  • 7:44 - 7:47
    e participem nesta transformação.
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    Passei a maior parte da minha vida
    a denunciar os homens,
  • 7:52 - 7:55
    e agora estou aqui,
  • 7:55 - 7:57
    neste momento,
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    a convocar-vos.
  • 8:01 - 8:02
    Obrigada.
  • 8:02 - 8:05
    (Aplausos)
  • 8:05 - 8:06
    Obrigada.
  • 8:06 - 8:07
    (Aplausos)
  • 8:07 - 8:09
    Obrigada, obrigada.
  • 8:09 - 8:10
    (Aplausos)
Title:
O poder profundo de uma desculpa autêntica
Speaker:
Eve Ensler
Description:

Uma desculpa genuína vai para além dos remorsos, diz a lendária dramaturga Eve Ensler. Nesta palestra franca e dolorosa, ela partilha como transformou a sua experiência de abuso em sabedoria sobre como os infratores podem proceder para realmente se arrependerem, e aponta um percurso de quatro etapas s seguir.
(Esta palestra tem conteúdo adulto)

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Video Language:
English
Team:
closed TED
Proiect:
TEDTalks
Duration:
08:23

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