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← A educação como fator (trans)formador | Maria Clara Araújo | TEDxUFPE

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Showing Revision 24 created 03/30/2016 by Raissa Mendes.

  1. Não liguem de eu estar nervosa, tá?
  2. Eu estou um pouco "Daisy",
    meio desestruturada.
  3. (Risos)
  4. Então, as coisas podem não funcionar
    da forma como eu previ.
  5. Então, né...
  6. Eu tive sorte de ter ouvido o que era ser
    mulher trans aos meus 15 anos,
  7. quando uma de minhas ídolas,
    a modelo Lea T,
  8. falou, na sua primeira entrevista
    a um programa brasileiro,
  9. sobre suas experiências de vida
  10. e, embora Lea estivesse falando
    sobre a vida dela,
  11. eu, daqui de Recife, consegui estabelecer
    uma relação de compreensão
  12. e de identificação
    com o que ela estava falando.
  13. Lea, nessa entrevista,
    falava que ser uma pessoa trans
  14. - no nosso caso, ser uma mulher trans -
  15. era colocar as sandálias contrárias
  16. e andar com aquelas
    sandálias todos os dias.
  17. E eu me identifiquei com aquilo e eu fiz:
    "É isso o que eu sou".
  18. Eu fiquei visível, digamos assim,
  19. após a minha aprovação aqui
    na Universidade Federal de Pernambuco,
  20. quando eu escrevi um manifesto.
  21. O manifesto é ilustrado com a minha mãe,
    raspando a minha sobrancelha.
  22. Não liguem de eu começar
    a chorar nessa parte
  23. em que estou falando da minha mãe,
    porque eu sou pisciana,
  24. então as coisas acontecem
    de uma forma meio emocional.
  25. Minha mãe inclusive está aqui.
    Ai, não posso chorar.
  26. Eu queria dizer a ela
    que eu a amo muito, tá?
  27. E foi reconhecido um valor muito político,
    contido nesse manifesto,
  28. que se chamava
    "Meu Manifesto pela Igualdade".
  29. sobre ser travesti e ter sido aprovada
    em uma universidade federal.
  30. Embora eu seja uma mulher visível,
  31. embora eu tenha conseguido estabelecer
    uma relação próxima com a nossa reitoria
  32. e ter conseguido o nome social
    de travestis e pessoas trans,
  33. enquanto regulamentação,
  34. essa minha posição ainda é um contraste
  35. quando colocada de frente
    com as vidas de outras pessoas trans.
  36. Pessoas trans estão em uma posição
    de abjeção na nossa sociedade.
  37. Nós não convivemos com pessoas trans.
  38. Nós não conversamos com pessoas trans.
  39. Elas não estão no nosso círculo
    de família, de amigos,
  40. e, por conta disso, não há uma circulação
    de informação sobre pessoas trans,
  41. suficiente pra que faça
    com que tenhamos essa consciência
  42. que eu tive ao assistir à Lea
    e que [me permitiu] me construir.
  43. Isso infelizmente resulta
    em transições hormonais tardias,
  44. porque, infelizmente, só quando
    a pessoa tem acesso à informação
  45. é que ela descobre,
  46. é que ela tem conhecimento,
    digamos assim, do que ela é.
  47. E, dentro desse processo
    de me assumir um ano depois
  48. enquanto mulher trans, aos 16 anos,
  49. eu me vi bastante insegura.
  50. Eu me vi bastante insegura,
    porque eu percebi
  51. que a identidade da mulher trans
  52. está atrelada a aspectos
    ruins, digamos assim.
  53. E, nesse processo de eu estar insegura
    e eu querer que algo me desse um apoio,
  54. sem dúvidas, eu achei isso
    no transfeminismo.
  55. O transfeminismo
    é uma corrente do feminismo,
  56. entendendo que o feminismo é múltiplo.
  57. São "os feminismos", entende?
  58. E o transfeminismo vem justamente
    dar voz e escutar as pessoas trans,
  59. porque nós não escutamos pessoas trans,
    nos não falamos sobre pessoas trans.
  60. E, nesse processo de eu ter quem me escute
  61. e eu poder produzir algo
    falando sobre a minha vida,
  62. sem dúvidas, eu estou trabalhando
    dentro do que eu acredito
  63. como uma boa representatividade trans.
  64. E qual é a importância de trabalharmos
    com uma boa representatividade trans?
  65. Se você liga a televisão
  66. e você vê uma reportagem
    sobre uma pessoa trans,
  67. você só vai ver certos aspectos
    que não [inaudível]:
  68. o aspecto da prostituição,
    o aspecto da criminalidade
  69. e o aspecto das mortes.
  70. Se você buscar no Google
    a palavra "travesti",
  71. só irá ter notícias de morte.
  72. E, quando eu falo
    sobre representatividade...
  73. O som está ruim...
  74. Quando eu falo sobre...
  75. Então... e quando eu falo
    sobre representatividade...
  76. "Fazendo a Britney"...
  77. (Risos)
  78. Quando eu falo sobre representatividade,
    eu estou justamente falando
  79. sobre humanizar a minha condição
    de vida em frente de todos vocês.
  80. E trabalhar uma boa representatividade
  81. é ter, por exemplo, uma notícia
    de uma mulher trans ou travesti brasileira
  82. tendo sido aprovada
    em uma universidade federal,
  83. lugar em que vocês precisam
    ter consciência de que nós não estamos.
  84. Entende?
  85. E nós não estamos convivendo
    com vocês de modo geral,
  86. e isso é algo que precisa ser humanizado,
    para que vocês tenham consciência
  87. de que aquelas pessoas podem
    conviver com vocês.
  88. E, quando eu falo que
    nós não estamos nesse espaço,
  89. é porque vocês precisam ter consciência
  90. de que o Brasil é o país que mais mata
    travestis e transexuais no mundo.
  91. Nós matamos, infelizmente,
    quatro vezes mais do que o México,
  92. que é o segundo colocado.
  93. Então, dentro do que eu acredito
    enquanto uma transfeminista,
  94. nós estamos falando aqui de uma cultura
  95. enraizada na nossa
    construção de indivíduos.
  96. Nós tratamos travestis por "ele".
  97. Quando uma amiga está muito maquiada,
  98. nós dizemos que ela está
    parecendo um "traveco",
  99. com um teor pejorativo,
  100. e isso é naturalizado;
    a gente fala e a gente não questiona.
  101. Entende?
  102. Todas essas ações,
    por menores que elas pareçam,
  103. elas dão ênfase, digamos assim,
    a esses percentuais.
  104. E, dentro dessa cultura,
    nos é condicionado um ciclo natural.
  105. Eu percebi esse ciclo natural
  106. quando eu me vi conversando
    com amigas, mulheres trans,
  107. e parecia que nossas experiências
    de vida eram compartilhadas.
  108. E que experiências de vida eram essas?
  109. Nós saímos da escola,
  110. porque a escola não representa
    um lugar de respeito e de acolhimento.
  111. Pelo contrário:
    nós apanhamos todos os dias;
  112. nós sofremos não só
    violências físicas, mas psicológicas,
  113. e, quando infelizmente
    procuramos a direção
  114. ou as professoras para resolver
    a situação, elas falam:
  115. "Mas está acontecendo isso
    porque você é desse jeito.
  116. Então, por que você não muda seu jeito
    pra isso parar de acontecer?"
  117. Então, há uma culpabilização da vítima.
  118. Não se tem um entendimento de que eu,
    enquanto a pessoa que está apanhando
  119. por ser reconhecida como travesti,
    aquilo é uma violência comigo.
  120. Essas meninas acabam saindo da escola,
    porque a escola não representa
  121. um lugar onde nós podemos
    ter uma boa sociabilidade.
  122. Não estando na escola,
  123. quando essas meninas verbalizam
    para os pais que saíram da escola,
  124. não há uma compreensão, uma compaixão,
  125. que eu acredito que é o que se deveria ter
    de pais para filhos e filhas,
  126. e essas famílias acabam colocando
    essas meninas pra fora de casa.
  127. E eu coloco essa questão da situação
    familiar como o ponto principal
  128. para nós sabermos qual vai ser
    o futuro daquela menina.
  129. Se hoje eu estou falando aqui pra vocês,
  130. se hoje eu estou nesta
    universidade estudando,
  131. é porque meus pais me aceitaram.
  132. E, sem escola, sem família,
    essas meninas vão procurar trabalho,
  133. mas quem dá trabalho
    pra travesti e transexual?
  134. Nas farmácias em que vocês são atendidos,
  135. alguma travesti já atendeu vocês?
  136. Não.
  137. Vocês já tiveram aula com alguma travesti?
  138. Não. Entende?
  139. Vocês já se viram de frente
    com alguma médica travesti num hospital?
  140. Não. Entende?
  141. Nós não estamos
    no mercado formal de trabalho
  142. e, infelizmente, parece que,
    a partir do momento
  143. em que eu me assumo como travesti
    ou transexual dentro da sociedade,
  144. automaticamente me é dado um carimbo
    que me designa pra prostituição.
  145. E, na prostituição,
    nós estamos vulneráveis
  146. e, por estarmos vulneráveis,
  147. a maioria de nós morremos.
  148. A nossa expectativa de vida
    é de 30 a 35 anos,
  149. enquanto a do resto
    da população brasileira é de 75,
  150. e isso é algo alarmante.
  151. Isso é algo que, no cotidiano,
    no nosso dia a dia,
  152. a gente acaba tentando transformar
    numa coisa engraçada.
  153. Uma amiga faz 30 anos,
    a gente fala: "Viraste vovó!"
  154. A gente tenta minimizar isso
    de certa forma,
  155. mas isso continua sendo
    algo triste, entende?
  156. E é nesse momento
    que vocês me perguntam:
  157. "Mas por que vocês estão jogando
    essa carga em cima de mim?"
  158. E é preciso que eu contextualize tudo isso
  159. para vocês entenderem
    o caminho que eu escolhi,
  160. que foi o caminho da educação.
  161. Eu vejo a educação, sem dúvidas,
    como um fator transformador.
  162. Eu vejo a educação como o que vai tirar
    essas meninas da rua.
  163. Eu vejo a educação
    como o que vai nos ensinar
  164. a não termos preconceito
    com outras pessoas,
  165. porque essas pessoas não estão
    dentro de um padrão hegemônico
  166. em que nós acreditamos
    que todos devam estar.
  167. Eu vejo a educação como o que vai criar
    mecanismos de apoio mútuo,
  168. e foi, sem dúvidas, isso que hoje me levou
  169. a estar trilhando o caminho
    em que eu acredito.
  170. Eu sou Maria Clara Araújo,
    eu tenho 19 anos,
  171. eu sou militante afrotransfeminista
  172. e eu sou estudante de pedagogia
    da Universidade Federal de Pernambuco.
  173. Muito obrigada.
  174. (Aplausos) (Vivas)