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← O canabidiol (CBD) pode ajudar os consumidores de opioides a libertarem-se dessa dependência?

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Showing Revision 6 created 10/28/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Nos últimos 20 anos
  2. morreram nos EUA
    mais de 800 000 pessoas
  3. por "overdose".
  4. Sim, mais do que todas as vidas perdidas
  5. em todas as guerras que este país travou.
  6. Na maioria dos casos,
    são devidas às drogas opioides.
  7. Infelizmente, enquanto
    estamos a ter esta conversa
  8. morre, pelo menos,
    uma pessoa, por "overdose"
  9. e nasce uma criança a sofrer
    de fortes crises de abstinência
  10. devido à exposição ao opioide
    que teve dentro do útero.
  11. Apenas recentemente algumas
    companhias farmacêuticas

  12. foram responsabilizadas
    pela crise dos opioides.
  13. Mas, em comparação
    com as suas receitas multimilionárias,
  14. as multas que estão a pagar
    são irrisórias.
  15. Então, vou fazer uma pergunta:
  16. Porque é que o vício e o estigma do vício
  17. fazem com que subvalorizemos
    vidas humanas?
  18. Ironicamente, é comum perguntarem-me
    exatamente o contrário:

  19. Porque é que devemos preocupar-nos
    com os "viciados"?
  20. Às vezes, até há pessoas
    que me criticam
  21. porque acreditam que quem sofre
    de perturbação pelo uso de uma substância
  22. é responsável por isso.
  23. Devem ser fracos,
  24. sem nenhum senso moral
  25. e, portanto, não merecem nenhuma ajuda.
  26. Mas se soubermos um pouco
    sobre a dependência de opioides,
  27. sabemos que essa população
    não se encaixa nesse estereótipo
  28. — na realidade, nenhum vício se encaixa.
  29. São mães, pais e avós.
  30. São professores e líderes de empresas,
  31. líderes de claques, atletas,
    enfermeiros e motoristas de autocarro.
  32. São os nossos irmãos e irmãs.
  33. Representam todas as fibras
    da nossa sociedade.
  34. Sim, cada pessoa viciou-se
    de uma forma diferente
  35. mas a principal causa desta epidemia
  36. é o exagero na prescrição
    de drogas opioides
  37. para tratamento de dores crónicas.
  38. É isso que torna diferente esta epidemia.
  39. Esta epidemia em particular
    é causada pela prescrição médica.
  40. Este ciclo começou quando as empresas
    farmacêuticas convenceram os médicos

  41. que os seus doentes
    não deviam sentir dores.
  42. Os fabricantes de opioides afirmavam
  43. que as suas drogas potentes
    não criariam dependência
  44. a não ser a certo tipo de pessoas,
  45. de certo tipo de comunidades.
  46. Essa informação errada,
  47. aliada aos conhecimentos
    limitados dos médicos
  48. e à ignorância generalizada
    sobre a dependência,
  49. foi o que gerou esta epidemia.
  50. Foi assim que chegámos aqui.
  51. Agora a questão é:

  52. como vamos tratar
    uma epidemia nacional de opioides?
  53. Durante uma epidemia,
  54. é comum reunirem-se
    o governo, os médicos e os cientistas.
  55. para ajudar os que são afetados.
  56. Desenvolvem-se estratégias de tratamento
    novas e não convencionais
  57. para rapidamente se resolver a situação.
  58. Não foi o que aconteceu
    com a epidemia de opioides.
  59. No entanto, este cenário está a mudar.
  60. Estamos a começar a ver
    atitudes mais fortes do governo.
  61. O Instituto Nacional de Saúde (NIH)
  62. lançou há pouco uma iniciativa
    chamada "HEAL"
  63. que significa "ajudar a acabar
    com a dependência a longo prazo",
  64. e que foi projetada
    para acelerar a investigação
  65. sobre a gestão da dor e da dependência,
  66. através do financiamento
    de novas estratégias de tratamento.
  67. A atual estratégia de tratamento
    para a dependência de opioides

  68. é o uso de outros opioides,
    como a metadona.
  69. Estes medicamentos têm sido usados
    nos últimos 50 anos.
  70. São considerados
    uma terapia de substituição,
  71. ou seja, combatem o fogo com o fogo.
  72. Têm salvado muitas vidas,
  73. mas não são usados
    por todos os que precisam.
  74. Porquê?
  75. Estes medicamentos
    também geram dependência,
  76. portanto, estão sujeitos a muitas
    regulamentações do governo.
  77. Centenas de milhares de pessoas
    precisam de ser monitoradas diariamente.
  78. Têm de encontrar
    uma clínica de opioides,
  79. geralmente longe de casa,

  80. tomar os remédios
    e depois tentar ir trabalhar.
  81. Obviamente, esta não é
  82. a melhor estratégia de tratamento
    para uma epidemia.
  83. E levanta questões óbvias.

  84. Por exemplo: Porque é que o tratamento
    de perturbações de dependência
  85. é diferente de qualquer
    outra perturbação médica?
  86. Na maioria das perturbações médicas,
    é prescrito um medicamento,
  87. que não gera dependência,
    e se encontra nas farmácias.
  88. Porque é que os médicos têm
    opções limitadas de tratamento
  89. para pacientes com perturbações
    por uso de drogas?
  90. Nunca ninguém diz
  91. que dois ou três tratamentos
    são suficientes para um cancro,
  92. principalmente quando não é uma cura.
  93. Isto leva-nos ao problema
    dos 200 mil milhões de dólares.

  94. Usar o fogo contra o fogo
    é uma estratégia razoável,
  95. mas que tal usarmos
    uma forma diferente de fogo,
  96. uma forma mais segura de fogo?
  97. Que tal desenvolver uma forma
    de tratamento que não crie dependência
  98. derivada de outra droga?
  99. Esta tem sido a minha batalha
  100. para desenvolver um tratamento
    para a dependência de opioides,
  101. e isto levou-me numa direção
    bastante surpreendente.
  102. O meu percurso começou
    com o estudo da canábis,

  103. a droga a que muita gente
    chama marijuana.
  104. Para perceber
  105. como a canábis está relacionada
    com o combate à epidemia de opioides,
  106. precisamos primeiro de conhecer
    um pouco a ciência e a política
  107. por detrás desta droga.
  108. A canábis é uma planta complexa.

  109. Na realidade, possui
    mais de 140 canabinoides,
  110. que são químicos ativos da planta
  111. que se ligam aos recetores
    canabinoides no nosso corpo.
  112. O poderoso canabinoide psicoativo
    que dá a recompensa — a "pedrada" —
  113. é o THC, a que os cientistas chamam
    tetrahidrocanabinol.
  114. Muito simples, não é?
  115. Mas a política é muito mais complicada.

  116. As atitudes em relação à canábis
  117. e a quantidade de THC
    considerada segura para consumo
  118. têm mudado drasticamente
    ao logo dos anos.
  119. Na realidade, este país tem
    uma relação de altos e baixos
  120. com a droga.
  121. A canábis tanto é demonizada
    como glorificada.
  122. Do lado negativo,
  123. a DEA — a Agência Antidrogas dos EUA —

  124. considerou a canábis
    uma droga de Classificação 1,
  125. o que significa que a canábis
    é considerada uma droga
  126. com o mais alto potencial de dependência
  127. e sem nenhum valor medicinal.
  128. Aliás, a Classificação 1 gerou
    uma detenção maciça e tendenciosa
  129. pelo uso de canábis,
  130. particularmente entre
    jovens negros e de cor.
  131. No entanto, as coisas estão a mudar.
  132. O pêndulo está a mover-se
    na direção oposta.
  133. Hoje, a canábis é legal para uso medicinal
    ou uso recreativo na maioria dos estados.
  134. Está em andamento um projeto de lei
    no Congresso americano
  135. para retirá-la da listagem
    de drogas classificadas.
  136. Também temos assistido ao aumento
    da investigação sobre a canábis.

  137. A maior parte das investigações,
    incluindo algumas minhas,
  138. foca-se no THC.
  139. De facto, a investigação em animais
    tem mostrado uma relação negativa
  140. entre o THC e a dependência de opioides.
  141. Contudo, como já disse,
  142. a planta da canábis
    tem mais de 100 canabinoides.
  143. Por isso, não estudámos apenas o THC.
  144. Ao examinarmos outro canabinoide,
  145. o canabidiol — o CBD —
  146. ficámos surpreendidos
    ao encontrar características relevantes
  147. na suavização dos sintomas relacionados
    com a dependência de opioides.
  148. Aí, o meu interesse virou-se para o CBD.
  149. Então, o que é este CBD
    que saiu da obscuridade

  150. há apenas uns anos
  151. para todos os locais da sociedade
  152. — no nosso café da manhã,
  153. na água do almoço
  154. e na cerveja ao jantar?
  155. O CBD provém da planta canábis,
  156. mas, ao contrário do THC
    que dá aquela "pedrada",
  157. o CBD não tem propriedades viciantes.
  158. Ainda estamos a tentar compreender
    como funciona o CBD,
  159. mas sabemos que o CBD
    altera quimicamente partes do cérebro
  160. que regulam as emoções e a ansiedade.
  161. Curiosamente, o CBD
    dado às nossas cobaias

  162. que tinham um histórico
    de dependência de heroína,
  163. reduziu o comportamento deles
    na procura da heroína.
  164. Especificamente, o CBD reduziu a procura
    de heroína causada por estímulos externos
  165. que, anteriormente,
    estavam associados com a droga.
  166. Vou repetir.
  167. O CBD reduziu a procura de heroína
    em situações que normalmente seria usada.
  168. Isto é significativo,
  169. pois o desejo é, geralmente, motivado
    pela lembrança das situações
  170. previamente associadas ao uso da droga.
  171. E o desejo é uma questão diária
    de vida ou morte
  172. para pessoas com perturbação
    do uso de opioides.
  173. Simplificando,
  174. o desejo pode levar a recaídas
  175. e à morte por "overdose".
  176. Assim, reduzir o desejo
    é uma estratégia importante no tratamento.
  177. Conseguir resultados como estes
    nos testes em animais

  178. é o primeiro passo importante
    no processo da FDA
  179. para o desenvolvimento
    de novos medicamentos.
  180. O próximo passo:
  181. os testes em seres humanos.
  182. No primeiro teste em seres humanos,
  183. demonstrámos que o CBD é seguro,
  184. apesar de os indivíduos que o usaram,
    também terem consumido um opioide forte.
  185. A seguir, para determinar a eficácia,
  186. realizámos testes clínicos
  187. e tivemos de garantir que
    tanto os investigadores do estudo
  188. como os participantes do estudo
  189. não sabiam se estavam a receber
    o CBD ou uma substância placebo.
  190. Os resultados destes testes
    reproduziram as conclusões
  191. que tínhamos obtido
    nas experiências com animais.
  192. Agora sabemos que o CBD
    pode reduzir o desejo desencadeado

  193. por fatores externos
    em consumidores humanos de heroína.
  194. Mais ainda, os resultados demonstraram
  195. que o CBD reduziu a ansiedade
    associada ao uso da droga.
  196. Isto também é importante,
    pois a ansiedade é outro fator crítico
  197. que desencadeia o desejo.
  198. É importante notar que o CBD
    também reduziu o nível do cortisol,
  199. a hormona do "stress",
  200. que normalmente é alto
    em consumidores de drogas.
  201. Outra descoberta intrigante
  202. foi que o CBD continuou a diminuir
    o desejo e a ansiedade
  203. uma semana depois da última dose.
  204. Este aspeto de eficácia prolongada
    é muito benéfico
  205. para as pessoas
    que seguem qualquer medicação.
  206. Então, estão a acumular-se as provas.

  207. O CBD demonstra ser possível reduzir
  208. aspetos críticos
    da dependência de opioides,
  209. como o desejo e a ansiedade.
  210. Mas ainda não chegámos ao fim da linha
  211. quanto ao desenvolvimento
    de um medicamento.
  212. O padrão-ouro para a medicina
    que a FDA estabeleceu
  213. são extensos testes clínicos.
  214. Recentemente, tive a sorte
    e a rara oportunidade
  215. de realizar um grande teste clínico
    com o CBD
  216. em pessoas com perturbações
    de dependência de opioides.
  217. Este estudo deve continuar
    durante, pelo menos, mais dois anos.
  218. O CBD está hoje a ser investigado
    em numerosas situações médicas.
  219. Também, durante a última década,
  220. a nossa sociedade
    assistiu à explosão do uso do CBD.
  221. Está a ser utilizado em bebidas, comidas,
    produtos para a pele e bem-estar.
  222. Estão até a dar o CBD
    a animais de estimação.
  223. Será então o CBD a droga maravilhosa
    agora elogiada por tanta gente?

  224. Não.
  225. Tem potencial para benefícios medicinais?
  226. Tem.
  227. Mas a única forma de conseguirmos
    informações definitivas
  228. sobre a total segurança e eficácia do CBD
  229. é através de grandes estudos clínicos.
  230. Então, será possível

  231. podermos mudar as regras do jogo
  232. agarrando nesta planta tão familiar
  233. e desenvolvendo um medicamento
    aprovado pela FDA, que não vicie,
  234. para perturbações pelo uso de opioides?
  235. Absolutamente.
  236. É por isso que estamos
    a trabalhar tanto
  237. para desenvolver
    uma solução baseada no CBD.
  238. Para mim,

  239. os benefícios potenciais
    são óbvios e esmagadores.
  240. Significam ajudar a devolver
    pais e mães às suas famílias.
  241. Significam ter os filhos a formarem-se
    na escola ou faculdade.
  242. Mas, principalmente,
  243. significam ajudar a salvar muitas
    das centenas de milhares de vidas
  244. que, de outro modo,
    seriam perdidas para os opioides
  245. na próxima década.
  246. Obrigada.

  247. (Aplausos)