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← Como estou a desvendar os segredos de textos antigos

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Showing Revision 6 created 05/14/2016 by Margarida Ferreira.

  1. Em 26 de janeiro de 2013
  2. um grupo de militantes da al-Qaeda
    entrou na antiga cidade de Tombuctu
  3. na margem sul do Deserto do Sara
  4. Largaram fogo a uma biblioteca medieval
    de 30 000 manuscritos
  5. escritos em árabe
    e em várias línguas africanas
  6. que abrangiam temas desde astronomia
    a geografia, de história a medicina,
  7. incluindo um livro com registos
  8. talvez do primeiro tratamento
    da disfunção erétil masculina.
  9. Desconhecida do Ocidente,
  10. esta era a sabedoria reunida
    de todo um continente,
  11. a voz de África, numa época
    em que se pensava
  12. que África não tinha qualquer voz.
  13. O autarca de Bamako
    que assistiu ao incidente
  14. chamou a esta queima de manuscritos
  15. "um crime contra
    o Património Cultural Mundial".
  16. E tinha toda a razão.
  17. Ou melhor, teria, se não fosse o facto
    de estar a mentir.

  18. Na verdade, pouco antes,
    eruditos africanos tinham reunido
  19. um conjunto aleatório de livros antigos
  20. e tinham-nos deixado
    para os terroristas queimarem.
  21. Hoje, a coleção está escondida em Bamako,
    a capital do Mali,
  22. a criar bolor na forte humidade.
  23. O que foi salvo através duma artimanha
  24. está de novo em risco de se perder,
  25. desta vez por causa do clima.
  26. Mas África, e os recantos
    mais remotos do mundo

  27. não são os únicos locais,
    nem sequer os principais locais
  28. em que os manuscritos que podiam
    mudar a História da cultura mundial
  29. estão em perigo.
  30. Há vários anos, realizei um inquérito
    em bibliotecas europeias de investigação
  31. e descobri que,
    no mínimo dos mínimos,
  32. há 60 000 manuscritos,
  33. anteriores a 1500,
  34. que estão ilegíveis por causa
    dos estragos da água,
  35. do amarelecimento, do bolor
    e dos reagentes químicos.
  36. O número real é provavelmente o dobro
  37. e isso sem contar
  38. com os manuscritos do Renascimento
    e os manuscritos modernos
  39. e bens do património cultural
    como mapas.
  40. E se houvesse uma tecnologia

  41. que conseguisse recuperar essas obras
    perdidas e desconhecidas?
  42. Imaginem, a nível mundial,
    que tesouro de centenas de milhares
  43. de textos até hoje desconhecidos
  44. poderiam transformar radicalmente
    o nosso conhecimento do passado.
  45. Imaginem que clássicos desconhecidos
    iríamos descobrir
  46. que podiam reescrever os cânones
    da literatura, da história,
  47. da filosofia, da música
  48. ou, mais provocadoramente,
  49. podiam reescrever
    as nossas identidades culturais,
  50. lançando novas pontes
    entre pessoas e cultura.
  51. Estas são as perguntas
    que me transformaram
  52. de um especialista em Idade Média,
    um leitor de textos,
  53. num cientista de textos.
  54. "Leitor", que palavra insuficiente esta.

  55. Para mim, invoca imagens de passividade,
  56. de alguém sentado calmamente numa poltrona
  57. à espera que o conhecimento
    venha ter com ele
  58. num bonito pacote.
  59. Como seria muito melhor
    ser participante no passado,
  60. um aventureiro num país por descobrir
  61. à procura do texto escondido.
  62. Enquanto académico,
    eu era um simples leitor.
  63. Lia e ensinava os mesmos clássicos
  64. que as pessoas liam e ensinavam
    há centenas de anos
  65. — Virgílio, Ovídio, Chaucer, Petrarca —
  66. e em cada artigo académico que publicava
  67. acrescentava ao conhecimento humano
    camadas de perspicácia cada vez menores.
  68. O que eu queria ser
  69. era um arqueólogo do passado,
  70. um descobridor da literatura,
  71. um Indiana Jones sem o chicote
  72. ou mesmo com o chicote.
  73. (Risos)

  74. Queria-o não só para mim
    queria-o também para os meus alunos.
  75. Por isso, há seis anos,
    mudei a direção da minha carreira.

  76. Na época, estava a trabalhar
    em "Les Esches d’Amour",
  77. o último grande poema importante
    da Idade Média europeia
  78. que nunca fora publicado.
  79. Nunca fora publicado
    porque só existia um manuscrito
  80. que ficara tão danificado
    durante o bombardeamento de Dresden,
  81. na II Guerra Mundial,
  82. que gerações de estudiosos
    tinham-no declarado perdido.
  83. Durante cinco anos, trabalhei
    com uma lâmpada ultravioleta
  84. a tentar recuperar restos da escrita
  85. e tinha ido quase tão longe
    quanto a tecnologia da época
  86. me podia levar.
  87. Por isso, fiz o que muita gente faz:

  88. fui para a Internet.
  89. Aí, aprendi como estavam a usar
    as imagens multiespectrais
  90. para recuperar dois tratados perdidos
  91. do famoso matemático grego Arquimedes
  92. dum palimpsesto do século XIII.
  93. Um palimpsesto é um manuscrito
    que foi apagado e escrito por cima.
  94. Assim, de repente,

  95. decidi escrever ao cientista
    de imagiologia
  96. líder do projeto
    do Palimpsesto de Arquimedes,
  97. o Professor Roger Easton,
  98. com um plano e um pedido.
  99. Para minha surpresa,
    ele respondeu-me.
  100. Com a sua ajuda, consegui
    um subsídio do governo dos EUA
  101. para construir um laboratório
    de imagiologia espectral transportável.
  102. Com esse laboratório, transformei
    uma confusão carbonizada e desbotada
  103. num novo clássico medieval.
  104. Como é que funciona
    a imagiologia multiespectral?

  105. A ideia por detrás
    da imagiologia multiespectral
  106. é uma coisa que quem quer que conheça
    os óculos de visão noturna infravermelhos
  107. apreciará imediatamente:
  108. o que podemos ver
    no espetro visível da luz
  109. é apenas uma pequena fração
    do que lá existe.
  110. O mesmo acontece com a escrita invisível.
  111. O nosso sistema usa
    12 comprimentos de ondas de luz
  112. entre o ultravioleta e o infravermelho
  113. que são projetados sobre o manuscrito
  114. a partir de bancos de LEDs
  115. e outra fonte de luz multiespectral
  116. que sobe nas folhas individuais
    do manuscrito.
  117. Deste modo, aparecem até 35 imagens
    por sequência por folha
  118. usando uma câmara digital de alta potência
  119. equipada com uma lente de quartzo.
  120. Há cerca de cinco no mundo.
  121. Depois de captarmos estas imagens,
  122. alimentamo-las com algoritmos estatísticos
  123. para as reforçar e clarificar,
  124. usando um "software" que foi concebido
    inicialmente para imagens de satélite
  125. e usado por pessoas
    como cientistas geoespaciais
  126. e pela CIA.
  127. Os resultados podem ser espetaculares.

  128. Talvez já tenham ouvido falar
    do que se fez
  129. com os Pergaminhos do Mar Morto
  130. que estão a gelatinizar lentamente.
  131. Usando infravermelhos, até pudemos ler
    os cantos mais escuros
  132. dos Pergaminhos do Mar Morto.
  133. Mas podem não saber
  134. de outros textos bíblicos
    que correm o risco de se perder.
  135. Aqui, por exemplo,
    temos uma folha de um manuscrito

  136. que será talvez a Bíblia cristã
    mais valiosa do mundo.
  137. O Codex Vercellensis é a tradução
    mais antiga dos Evangelhos para latim.
  138. Data da primeira metade do século IV.
  139. Isto é o melhor que conseguimos
  140. para a Bíblia na época
    da fundação da Cristandade
  141. no tempo do Imperador Constantino,
  142. e também na época do Concílio de Niceia,
  143. quando estava a ser acordado
    o credo básico da Cristandade.
  144. Infelizmente, este manuscrito
    está terrivelmente danificado
  145. e está assim porque, durante séculos,
  146. foi usado e manipulado
  147. para cerimónias de juramentos na igreja.
  148. Com efeito, aquela mancha lilás
    que veem no canto superior esquerdo
  149. é Aspergillus, um fungo
  150. proveniente de mãos sujas
  151. duma pessoa com tuberculose.
  152. A nossa imagiologia permitiu-me
    fazer a primeira transcrição
  153. deste manuscrito, em 250 anos.
  154. Mas ter um laboratório que pode ir
    ao encontro das coleções onde necessário

  155. é apenas uma parte da solução.
  156. A tecnologia é dispendiosa e muito rara,
  157. as técnicas de imagiologia e do
    processamento de imagens são esotéricas.
  158. Isso significa que as recuperações
    em grande escala
  159. estão fora do alcance
    da maior parte dos investigadores,
  160. são só para instituições abastadas.
  161. Foi por isso que fundei o Projeto Lázaro,
  162. uma iniciativa sem fins lucrativos
  163. para levar a imagiologia multiespectral
    a investigadores individuais
  164. e a pequenas instituições
    com um custo pequeno ou mesmo nenhum.
  165. Durante os últimos cinco anos
  166. a nossa equipa de cientistas
    de imagiologia, estudiosos e estudantes
  167. viajou a sete países diferentes
  168. e recuperou alguns dos manuscritos
    danificados mais valiosos do mundo,
  169. incluindo o Livro Vercelli,
    que é o livro de inglês mais antigo,
  170. o Livro Negro de Carmarthen,
    o livro mais antigo dos galeses,
  171. e alguns dos Evangelhos primitivos
    mais valiosos
  172. situados onde é hoje
    a antiga Geórgia soviética.
  173. Portanto, a imagiologia espectral
    pode recuperar textos perdidos.

  174. Mais subtilmente ainda,
    pode recuperar uma segunda história
  175. por detrás de cada objeto,
  176. a história de como, quando e por quem
    foi criado um texto.
  177. Por vezes, o que o autor pensava
    na época em que o escreveu.
  178. Vejam, por exemplo, um esboço
    da Declaração da Independência
  179. escrito pelo punho de Thomas Jefferson,
  180. que alguns dos meus colegas
    recuperaram há uns anos
  181. na Biblioteca do Congresso.
  182. Os curadores tinham reparado
    que havia uma palavra
  183. que tinha sido riscada e escrita por cima.
  184. A palavra escrita por cima era "cidadãos".
  185. Talvez imaginem qual era a palavra
    que estava por baixo.
  186. "Súbditos".
  187. É esta, senhoras e senhores,
    a democracia americana,
  188. a evoluir sob a mão de Thomas Jefferson.
  189. Ou considerem o Mapa Martellus de 1491,

  190. que recuperámos
    na Biblioteca Beinecke de Yale.
  191. Era o mapa que Colombo
    provavelmente consultou
  192. antes de viajar para o Novo Mundo
  193. e que lhe deu a ideia do aspeto da Ásia
  194. e onde estava situado o Japão.
  195. O problema com este mapa
    é que a tinta e os pigmentos
  196. degradaram-se tanto com o tempo
  197. que este mapa enorme,
    com mais de 2 metros.
  198. fazia o mundo parecer
    um deserto gigantesco.
  199. Até hoje, tínhamos pouca ideia
  200. do que Colombo conhecia do mundo
  201. e de como eram representadas
    as culturas mundiais.
  202. A principal legenda do mapa
    estava totalmente ilegível à luz normal
  203. Os ultravioletas pouco ajudaram.
  204. Mas o multiespectral deu-nos tudo.
  205. Na Ásia, soubemos de monstros
    com orelhas tão compridas
  206. que podiam tapar todo o corpo da criatura.
  207. Em África, uma cobra
    que podia fazer o solo fumegar.
  208. Tal como a luz das estrelas,
    podemos invocar imagens
  209. da forma como o Universo
    era visto no passado distante.
  210. Assim, a luz multiespectral pode levar-nos
    aos primeiros momentos titubeantes
  211. da criação de um objeto.
  212. Através destas lentes, observamos os erros
    e as mudanças de ideias,
  213. as ingenuidades,
    os pensamentos sem censura,
  214. as imperfeições da imaginação humana
  215. que permitem que estes objetos esvaziados
    e os seus autores
  216. se tornem mais reais,
  217. que nos aproximam da História.
  218. E quanto ao futuro?

  219. Há tanta coisa do passado
  220. e tão pouca gente
    com competências para o salvar
  221. antes que esses objetos
    desapareçam para sempre
  222. É por isso que comecei a ensinar
    esta nova disciplina híbrida
  223. a que chamo "ciência textual".
  224. Ciência textual é o casamento
  225. das competências tradicionais
    dum estudioso literário
  226. — ler línguas antigas
    e antigas caligrafias,
  227. o conhecimento de como se fazem textos
  228. a fim de poder situá-los e datá-los —
  229. com novas técnicas
    como a ciência da imagiologia,
  230. a química de tintas e pigmentos,
  231. o reconhecimento ótico de caracteres
    com a ajuda de computadores.
  232. No ano passado, um estudante
    da minha turma, um caloiro,

  233. com conhecimentos de latim e grego,
  234. estava a processar
    a imagem de um palimpsesto
  235. que tínhamos fotografado
    numa famosa biblioteca de Roma.
  236. Enquanto trabalhava, começou a aparecer
    por detrás do texto, um escrito em grego.
  237. Juntaram-se todos à volta,
  238. e ele leu uma linha duma obra perdida
  239. do dramaturgo cómico grego Menandro.
  240. Foi a primeira vez
    em bem mais de mil anos
  241. que aquelas palavras
    foram pronunciadas em voz alta.
  242. Naquele momento,
    ele passou a ser um erudito.
  243. Senhoras e senhores,
    é este o futuro do passado.

  244. Muito obrigado.

  245. (Aplausos)