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← O que os médicos deviam saber sobre identidade de género

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Zeige Revision 12 erzeugt am 09/02/2020 von Margarida Ferreira.

  1. Ao fim de uns seis meses
    da minha carreira como terapeuta,
  2. eu estava trabalhando numa clínica
    de reabilitação de drogas e álcool,
  3. e recebi uma chamada de uma enfermeira
    da unidade de desintoxicação.
  4. Ela me pediu para avaliar
    uma das novas pacientes
  5. que tinha chegado mais cedo naquele dia.
  6. Então fui àquela unidade
    e tive o prazer de conhecer Anne.
  7. Anne é uma mulher transexual,
    e quando começamos a conversar,
  8. ela começou a me contar
    o que a tinha levado ao tratamento,
  9. mas eu sentia o medo em sua voz
  10. e também via a preocupação nos seus olhos.
  11. Começou a dizer que não tinha medo
    de frequentar um centro de reabilitação
  12. e de ter de abandonar drogas e álcool.
  13. O medo dela era que os médicos
    que a tratariam
  14. não a tratassem como uma mulher.
  15. Contou-me o sofrimento permanente
    que tem suportado a vida toda

  16. de a tratarem como homem,
    sabendo que ela é uma mulher.
  17. O que ela queria dizer com isso
    é que, quando nascera,
  18. o médico apresentara-a aos pais
  19. e, com base nos genitais, dissera:
  20. "É um menino".
  21. Ela sempre soubera que não era um menino.
  22. Passaram-se muitos anos
    e os sentimentos que ela sentia
  23. de lidar com tudo isso, iam aumentando
  24. até que percebeu que tinha
    de contar tudo à família.
  25. Quando o fez, as coisas
    não correram muito bem.
  26. Os pais dela disseram:
    "Nem pensar. Você não é uma garota."
  27. "Não foi assim que te criámos.
    Não sabemos o que é que está pensando.
  28. "Desaparece!"
  29. Anne encontrou-se na rua,
    vivendo em abrigos para indigentes.
  30. Foi nessa altura que começou
    a consumir drogas e álcool
  31. para esquecer aquela dor
    que sentia por dentro.
  32. Falou-me da sua longa caminhada
    em hospitais e centros de reabilitação
  33. tentando manter-se sóbria.
  34. Quando se submetia a cuidados médicos,
  35. os profissionais de saúde não usavam
    os nomes e pronomes femininos corretos.
  36. Isso lhe causava muito sofrimento.
  37. Quando estava estudando para me
    tornar uma terapeuta,

  38. não me ensinaram a trabalhar
    com pacientes transexuais.
  39. Eu não fazia ideia de que seria com eles
    que viria a trabalhar.
  40. Mas o quanto mais trabalhava com Anne
    e outros pacientes como ela,
  41. mais via a minha missão evoluir
  42. para assegurar que a comunidade transexual
  43. teria os cuidados de saúde
    de que necessitava.
  44. Quanto mais eu observava isso,
    melhor via até que ponto este medo real
  45. da violência, da discriminação
    e da falta de aceitação
  46. fazia com que estes pacientes se virassem
    para o álcool e para as drogas
  47. Também ouvia histórias de terror
  48. de quando estes pacientes
    procuravam assistência médica
  49. e de como eram tratados,
  50. e como eram ignoradas
    muitas das suas necessidades médicas.
  51. Agora vou falar um pouco sobre a Leah.

  52. Tive o prazer de conhecer
    a Leah há uns anos.
  53. É uma mulher que tem
    uma esposa e uma filha.
  54. A Leah também foi considerada
    um garoto quando nasceu
  55. e desde muito cedo percebeu
    que não era um garoto,
  56. mas sim uma garota.
  57. Escondeu isso de todos que conhecia
  58. especialmente da sua mulher
    até aos 50 anos.
  59. Mas não conseguiu aguentar mais.

  60. Achou que não podia
    continuar a viver assim.
  61. Tinha de ser honesta.
  62. Estava cheia de medo
    de contar à sua mulher.
  63. E se a mulher lhe dissesse:
  64. "Isso é inaceitável. Eu quero o divórcio."
  65. Para sua surpresa, a mulher
    aceitou e disse-lhe:
  66. " Te amo, independentemente de quem seja.
  67. "Quero te ajudar em tudo o que puder."
  68. Então Leah falou com a mulher
  69. e tomou a decisão de realizar
    uma transição médica.
  70. Queria ser avaliada
    para a terapia de substituição hormonal,
  71. conhecida por TSH.

  72. Marcou uma consulta com o médico dela.
  73. Chegou cedo no dia da consulta,
  74. preencheu toda a papelada,
  75. escreveu o nome dela corretamente
    e esperou pacientemente.
  76. Passado um tempo, a enfermeira a
    chamou para a sala de exames.
  77. Quando ela lá chegou,
    respirou fundo,
  78. e o médico e a enfermeira entraram.
  79. Ela estendeu a mão para o médico
    e disse: "Olá, eu sou a Leah. "
  80. O médico olhou para ela,
    não lhe apertou a mão e disse:
  81. "Porque é que está aqui?”
  82. Ela respirou fundo e disse:
  83. "Eu sou uma mulher transexual.
  84. "Soube disso por toda vida.
    Escondi isso de toda a gente.
  85. "Mas já não posso continuar assim.
  86. "A minha mulher é solidária comigo,
    podemos bancar o procedimento.
  87. "Tenho de fazer esta mudança.
  88. "Por favor, avalie-me para a terapia
    de substituição hormonal."
  89. O médico disse:
    "Não podemos fazer nada hoje.
  90. "Precisa de fazer um teste de HIV."
  91. Ela não podia acreditar naquilo.
  92. Ficou furiosa.
  93. Ficou irritada. Ficou decepcionada.
  94. Se o médico dela a tratara assim,
    como é que o resto do mundo a trataria?
  95. Primeiro, o médico
    nem sequer apertou a sua mão.
  96. E segundo, quando ele ouviu
    que ela era uma transexual,

  97. só se preocupou em conseguir
    um teste de VIH e acabar com a consulta.
  98. Nem sequer lhe fez outras perguntas.
  99. Eu posso perceber
    de onde a Leah vem,
  100. porque, durante os anos
    que trabalhei com a comunidade,
  101. ouço todos os dias mitos
    que não são verdade.
  102. Uns destes mitos é que
    todas as pessoas transexuais
  103. querem fazer a transição
    com medicação ou cirurgia;
  104. que os transexuais são doentes mentais,
    isso é um distúrbio;

  105. que essas pessoas
    não são homens nem mulheres.
  106. Tudo isso são mitos e mentiras.
  107. À medida que esta comunidade
    se vai expandindo e envelhecendo,
  108. é imperativo que todos os prestadores
    de serviços médicos tenham formação
  109. em como lhes prestar cuidados de saúde..
  110. Em 2015, um estudo foi realizado
  111. e se descobriu que 72%
    dos profissionais da área de saúde
  112. não se sentiam bem informados
  113. sobre as necessidades de cuidados de saúde
    para a comunidade LGBT.
  114. Há um fosso enorme
    no ensino e na formação.
  115. Hoje aqui, nesta palestra,

  116. quero propor uma nova forma de pensar
    para três grupos de pessoas:
  117. médicos, comunidade transexual
    e todos os restantes.
  118. Mas, antes de o fazer, quero
    referir uma série de definições
  119. que nos vão ajudar a abrir a cabeça
    um pouco mais sobre identidade de gênero.
  120. Espero que tenham papel e lápis,
    Preparem-se para tomar umas notas.

  121. Comecemos com a ideia
    de um sistema binário.
  122. E isso significa que,
  123. antes, pensávamos haver apenas dois sexos,
    masculino e feminino.
  124. De acordo? Binário? Certo?
  125. Mas acabámos por descobrir
    que isso não é verdade.
  126. A identidade de gênero é um espetro

  127. que põe o masculino numa ponta
  128. e o feminino aqui na outra ponta.
  129. Este espetro de identidades
  130. inclui identidades como
    a não conformidade de gênero,
  131. a afirmação de gênero,
  132. o gênero não binário,
  133. "dois-espíritos", "três-espíritos",
  134. assim como pessoas que são intersexuais.
  135. O termo "transexual" é um termo genérico
  136. que abrange todos estes
    diferentes tipos de identidade.
  137. Mas, para a palestra de hoje,
    quero que pensem num transexual
  138. como alguém a quem atribuem
    um sexo ao nascer
  139. que não corresponde ao que ela é
    enquanto pessoa
  140. e com aquilo que ela sente.
  141. Isto é muito diferente
    do sexo biológico.
  142. A identidade de gênero
    é o sentimento de nós mesmos.
  143. Pensem nisso como
    o que está entre as nossas orelhas:
  144. o sentimento de nós mesmos,
    de quem nós somos.
  145. É muito diferente
    de sexo biológico, não é?
  146. Hormônios, genitais, cromossomos:

  147. isso é o que existe entre as pernas.
  148. Agora vocês podem estar pensando: "Dra.
    Kristie, nunca questionei quem sou.
  149. "Sei que sou um homem,
    sei que sou uma mulher."
  150. Eu sei. Vocês sabem quem são.
  151. É como muitos indivíduos
    transexuais se sentem.
  152. Eles sabem quem são,
    com essa mesma convicção
  153. É importante saber que há
    muitos tipos diferentes de identidades

  154. e eu identifico-me
    como uma mulher cisgênero.
  155. Para todos vocês que gostam
    de saber do que é que falam,
  156. cis escreve-se "c-i-s".
  157. É o termo latino para
    "quem está do mesmo lado".
  158. Quando eu nasci,

  159. o médico mostrou-me
    aos meus pais e disse:
  160. "É uma menina."
  161. Isto, com base nos meus genitais.
  162. Apesar de eu ter nascido
    numa pequena cidade rural na Geórgia,
  163. como uma menina levada,
  164. nunca pus em dúvida que era uma garota.
  165. Sempre soube que era uma garota,
  166. independentemente do modo
    que era enquanto criança.
  167. Isto é muito diferente
    do que uma pessoa transexual.
  168. Trans é um termo latino
    para "do outro lado de"
  169. — pensem nas companhias
    de aviação transcontinentais,
  170. que atravessam, que estão do outro lado —
  171. alguém a quem se atribui um sexo
    quando do nascimento
  172. e se identificam
    do outro lado do espetro.

  173. Um homem transexual é alguém
    classificado como mulher ao nascer,
  174. mas que tem o sentimento
    de quem é, de como vive a sua vida,
  175. como um homem.
  176. E o oposto é, como já dissemos,
  177. uma mulher transexual, alguém
    que foi considerada homem, ao nascer,
  178. mas que vive a sua vida
    e tem o sentimento de ser uma mulher.
  179. Também é importante sublinhar aqui
  180. que nem todo mundo
    que tem uma identidade não binária
  181. se identifica com o termo "transexual".
  182. Para que ninguém se sinta confuso,
    vou esclarecer o que é a identidade sexual
  183. ou a orientação.
  184. Isso significa apenas
    por quem nos sentimos atraídos,
  185. física, emocional,
    sexual, espiritualmente.
  186. Não tem nada a ver
    com identidade de gênero.
  187. Para uma recapitulação rápida,
    antes de continuarmos,

  188. a identidade de gênero
    está entre as orelhas,
  189. o sexo biológico, pensem nisso
    entre as pernas
  190. e quanto à identidade sexual,
    por vezes usamos o coração,
  191. mas está aqui.
  192. Três espetros de identidade
    muito diferentes.
  193. O estudante de medicina padrão
  194. tem apenas cinco horas de estudos voltados
    para as necessidades da comunidade LGBT
  195. durante o curso de medicina.
  196. Isto, apesar de sabermos
    que há riscos de saúde especiais
  197. para esta comunidade.
  198. Há cerca de 10 milhões
    de norte-americanos adultos

  199. que se identificam como LGBT.
  200. A maioria dos médicos que trabalham com
    pacientes transexuais
  201. aprende da pior maneira possível.
  202. Isso significa que vão aprendendo
    à medida que praticam
  203. ou os pacientes acabam
    por gastar o seu tempo
  204. tentando ensinar o médico
    como tratar deles.
  205. Muitos médicos mostram desconforto em
    perguntar sobre identidade de gênero.
  206. Alguns acham que não é relevante
    para os cuidados médicos
  207. e outros não querem dizer coisas erradas.
  208. Muitos médicos que dizem
    coisas desadequadas
  209. ou dizem qualquer coisa negativa,
  210. podem não estar sendo maliciosos
    ou malévolos,
  211. podem nunca ter tido formação
    para tratar destas pessoas.
  212. Mas isso também já não pode
    ser aceite como uma norma.
  213. O que é que acontece a um homem transexual
  214. — para recapitular, uma pessoa
    considerada mulher ao nascer,
  215. mas que vive como um homem —
  216. o que acontece quando um homem transexual
    vai à sua consulta ginecológica anual?
  217. A forma como o médico tratar este paciente
  218. definirá todo o tom
    para o resto da consulta.

  219. Se o médico tratar aquele homem
    com os pronomes ou os nomes corretos,
  220. confere-lhe dignidade e respeito,
  221. o que muito provavelmente
    também será feito pelo resto do pessoal.
  222. Isto é um pouco aquilo
    que eu penso dos médicos.
  223. Agora passemos para
    a comunidade transexual.
  224. Estou falando do medo,
  225. e todos sabem quem é
    que tem esse medo, não é?
  226. É a comunidade transexual.
  227. Já contei para vocês a história da Anne

  228. e como ela tinha tanto medo
    de fazer um tratamento
  229. e não ser respeitada como mulher.
  230. Também falei de Leah que tinha medo
    de como o médico ia reagir
  231. e no momento em que ele
    não lhe apertou a mão
  232. e mandou fazer o teste de HIV,
    o medo dela confirmou-se.
  233. A comunidade transexual
    precisa de ter a possibilidade
  234. de exigir os cuidados de saúde
    de que precisa.
  235. Acabaram-se os dias de ficarem em silêncio
    e de aceitarem qualquer tratamento.
  236. Se não exigirem os cuidados
    de saúde de que precisam
  237. ninguém vai fazer isso por vocês.
  238. E quanto a todos os outros?
  239. Muitos de nós, talvez já na próxima semana
    ou dentro de meses,
  240. vão ter uma consulta no médico, não é?
  241. Digamos que vão à consulta do médico
  242. e quando ela acaba
  243. sentem-se pior do que quando entraram.

  244. O que sentiriam se o médico
    não desse importância
  245. e ignorasse as suas necessidades
  246. ou se vocês se sentissem julgados?
  247. É o que acontece a muitos dos
    1,4 milhões de adultos transexuais
  248. aqui nos EUA.
  249. isto se tiverem a sorte
    de arranjarem uma consulta.
  250. Vocês devem estar pensando:
  251. "Porque é que isso é importante para mim?
  252. "Eu não sou transexual, não conheço
    ninguém que seja transexual.
  253. "Porque é que devo me preocupar?"
  254. Pensem assim: Um transexual
    é um ser humano,
  255. tal como vocês e como eu.
  256. Tem direito a prestadores de cuidados
    de saúde competentes e com formação,

  257. tal como vocês e como eu.
  258. Portanto, pergunto
    — e peço que levantem a mão:
  259. Conhecem ou já encontraram um transexual,
    um inconformado com o seu gênero,
  260. um intersexual, um dois-espíritos,
    um três-espíritos?
  261. Obrigada. Encantador. Obrigado a todos.
  262. Todos aqueles que não levantaram a mão
  263. num futuro muito próximo
  264. terão a oportunidade de encontrar alguém

  265. que corresponde a uma
    destas identidades, posso garantir.
  266. Os números desta comunidade
    estão aumentando.
  267. Não porque seja moda
    ou uma coisa nova.

  268. É mais seguro assumir-se.
  269. Há mais consciência.
    Há mais visibilidade.
  270. Há mais segurança, por isso
    as pessoas falam do seu verdadeiro eu
  271. como nunca falaram.
  272. É por isso que é tão importante
    que o nosso sistema de saúde o reconheça
  273. e garanta que os médicos
    e os prestadores de cuidados
  274. têm formação para abordar estes pacientes
    com dignidade e respeito.
  275. tal como é de se esperar.
  276. Lembro-me de estar na aula
    de literatura do 11.º ano
  277. com um dos meus professores
    preferidos, Mr. McClain.
  278. Ele leu-nos esta citação de Heráclito
    que mantenho presente até hoje:
  279. Talvez já a conheçam.
  280. "A única coisa que é constante
    é que as coisas mudam."
  281. É conhecida, não é?
  282. Todos nós enfrentamos
    mudanças na nossa vida

  283. e, frequentemente, quando
    enfrentamos essas mudanças,
  284. temos de tomar
    algumas decisões difíceis.
  285. Ficamos presos ao nosso medo,
    e não evoluímos ?
  286. Ou enfrentamos esse medo com coragem,
  287. evoluímos, aproveitamos
    a oportunidade para melhorar?
  288. Todos vocês vão enfrentar coisas novas.
  289. O que é que vão fazer?
  290. Vão ficar cheios de medo,
  291. ou vão evoluir?
  292. Convido a todos, médicos,
    comunidade transexual,
  293. cada um de vocês, e eu,
  294. a enfrentarmos juntos esse medo
  295. à medida que entramos
    este bravo mundo novo.
  296. Obrigada.
  297. (Aplausos)