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Eu me afastei da dor... dançando com fogo

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    Quando eu tinha seis anos,
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    nossa casa pegou fogo,
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    e minha mãe morreu.
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    Era uma noite fria
    de fevereiro em Michigan.
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    Como a chaminé havia sido consertada,
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    tínhamos acendido uma lareira
    para nos aquecer.
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    Minha irmã mais nova e eu
    estávamos com nosso cachorro,
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    pintando com uma caixa nova
    de lápis de cor,
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    quando mamãe disse
    que era hora de dormir.
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    Planejávamos ir ao norte naquela noite,
    para um fim de semana de motoneve e trenó,
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    mas já estava escuro, e nevava lá fora.
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    Então decidimos partir na manhã seguinte.
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    Subimos, escovamos os dentes,
    fomos pra cama.
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    O quarto de minha irmã
    ficava próximo à escada;
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    o meu, no final do corredor.
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    Nossos pais nos puseram na cama
    e deram boa noite.
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    Depois deixaram a porta entreaberta
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    e a luz do corredor acesa, como sempre.
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    No meio da noite, acordei transpirando,
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    confusa, por não conseguir ver
    a luz do corredor.
  • 0:53 - 0:55
    Comecei a gritar por meus pais
  • 0:55 - 0:58
    até que finalmente ouvi uma frase
    que nunca vou esquecer:
  • 0:58 - 1:00
    "Dave, é um incêndio!"
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    Mais tarde, descobrimos
    que o fogo que acendemos
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    havia queimado por uma rachadura
    não consertada da chaminé,
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    provocando uma explosão na lareira
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    e deflagrando o incêndio na sala.
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    Lembro-me de minha mãe
    correndo para o quarto de minha irmã,
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    procurando desesperadamente por ela
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    e a encontrando no chão.
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    Rastejei até ela
    apoiada nas mãos e nos joelhos,
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    tentando não inalar a fumaça.
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    Lembro-me de estar
    ao lado do quarto de minha irmã,
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    tentando acender a luz do corredor,
  • 1:29 - 1:30
    mas ela já estava acesa.
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    Eu não conseguia ver
    porque a fumaça era muito densa.
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    Lembro-me de sentir na pele
    o calor do fogo
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    e ouvir o som dele
    enquanto subia as escadas.
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    Meu pai correu até a janela
    de meu quarto para tentar escapar,
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    mas era inverno, e ela estava congelada.
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    Por fim, ele quebrou a janela e a abriu.
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    Ficou com os braços e as mãos
    cobertos de vidros e cortes.
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    Pegou minha irmã e eu,
    nos colocou na janela
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    e pediu para gritarmos por socorro.
  • 2:03 - 2:04
    Como não viu minha mãe,
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    pensou em voltar para o incêndio
    para encontrá-la,
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    mas depois de ver minha irmã e eu
    abraçadas no telhado
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    e perceber que nenhuma de nós
    conseguiria se salvar,
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    ele ficou conosco
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    e chamou por ela pela janela.
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    Alguns minutos depois,
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    um homem que dirigia pela rua
    viu a fumaça e o incêndio,
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    foi até nosso gramado,
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    subiu no capô do carro
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    e pediu para pularmos nos braços dele.
  • 2:30 - 2:32
    Nunca o tínhamos visto
  • 2:32 - 2:35
    e, embora ele tenha nos salvado,
    nunca mais voltamos a vê-lo.
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    Fomos levadas para a casa de um vizinho,
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    enquanto papai continuava no telhado
    esperando por minha mãe,
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    com os braços e as mãos
    estendidos pela janela
  • 2:43 - 2:44
    e para o fogo,
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    chamando o nome dela sem parar.
  • 2:49 - 2:50
    Ele disse depois
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    que, quando os bombeiros chegaram,
    eles o carregaram escada abaixo
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    quando uma das janelas se estilhaçou
    e explodiu em chamas.
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    Os bombeiros demoraram mais
    para encontrar minha mãe.
  • 3:00 - 3:03
    Ela estava o tempo todo
    no chão de meu quarto,
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    presa por uma cômoda
    que havia caído na perna dela.
  • 3:07 - 3:09
    Achamos que ela tinha voltado
    para procurar nosso cachorro,
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    mas, quando os bombeiros
    a encontraram, já era tarde demais.
  • 3:13 - 3:15
    Ela morreu a caminho do hospital.
  • 3:17 - 3:19
    Papai estava em estado crítico,
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    com inalação de fumaça, queimaduras
    e cortes em um terço do corpo.
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    Passou quase um mês no hospital.
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    Não pôde ir ao enterro da mamãe
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    e passou por várias cirurgias
    dolorosas de enxerto de pele.
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    Minha irmã e eu ficamos
    com um vizinho do outro lado da rua,
  • 3:35 - 3:39
    mas passávamos horas sentadas
    em frente à janela da sala dele,
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    olhando para os restos
    de nossa casa queimada.
  • 3:42 - 3:43
    Após alguns dias,
  • 3:43 - 3:47
    ficou evidente que precisaríamos ficar
    com outros amigos da família.
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    Os anos seguintes foram difíceis.
  • 3:51 - 3:53
    Como pai viúvo de duas meninas,
  • 3:53 - 3:55
    papai fez o possível para nos criar
  • 3:55 - 3:59
    enquanto todos nós sofríamos
    e nos recuperávamos.
  • 4:00 - 4:03
    Começamos a viver uma nova realidade.
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    Papai comprou uma casa nova
    na mesma rua, sem lareira,
  • 4:06 - 4:08
    e voltou a se casar.
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    Minha irmã e eu nos destacamos na escola.
  • 4:10 - 4:11
    Eu era líder de torcida;
  • 4:11 - 4:14
    ela praticava equitação e tocava na banda.
  • 4:14 - 4:18
    Mas nada conseguia impedir os pesadelos
    angustiantes que me atormentavam.
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    Eu sonhava com fogo,
  • 4:21 - 4:24
    que estava presa em um incêndio sem saída.
  • 4:24 - 4:29
    Eu me lembro e consigo sentir até agora
    o pânico absoluto e a pressão no peito.
  • 4:29 - 4:34
    Ou pior ainda eram os sonhos
    em que eu presenciava o incêndio de fora,
  • 4:34 - 4:36
    tentando salvar as pessoas lá dentro.
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    Eu acordava ofegante,
  • 4:40 - 4:43
    com lágrimas escorrendo
    pelo rosto e em prantos.
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    Quando eu tinha 15 anos,
  • 4:49 - 4:53
    um amigo meu, artista muito talentoso,
    pintou dois quadros abstratos para mim.
  • 4:53 - 4:55
    Um era em preto e branco
  • 4:55 - 4:58
    e mostrava uma menina assustada
    encolhida no canto de uma sala,
  • 4:58 - 5:00
    com sombras ao redor dela.
  • 5:00 - 5:03
    O outro era um arco-íris reluzente.
  • 5:03 - 5:05
    A menina estava no centro da imagem,
  • 5:05 - 5:06
    de braços abertos e estendidos,
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    claramente cheia de alegria e felicidade.
  • 5:10 - 5:11
    Ele conhecia meu passado,
  • 5:11 - 5:14
    sabia que eu estava em conflito e confusa,
  • 5:14 - 5:16
    mas também tinha visto meu potencial
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    e queria me mostrar o que ele tinha visto.
  • 5:19 - 5:22
    Anos mais tarde,
    entendi que aqueles dois quadros
  • 5:22 - 5:25
    mostravam dois caminhos
    totalmente diferentes diante de mim:
  • 5:25 - 5:27
    uma vida de medo
  • 5:27 - 5:29
    ou a promessa e o potencial
    de recuperação.
  • 5:30 - 5:33
    Sempre me sentia atraída
    pelo quadro mais brilhante e colorido,
  • 5:33 - 5:35
    mas não sabia bem
    o que significava para mim
  • 5:35 - 5:38
    ou como transformar
    minha mentalidade atual
  • 5:38 - 5:40
    naquele tipo de alegria e felicidade.
  • 5:40 - 5:43
    Por fora, continuei com a vida.
  • 5:43 - 5:45
    Concluí o ensino médio
    e entrei na faculdade.
  • 5:45 - 5:47
    Enquanto, por dentro,
  • 5:47 - 5:50
    continuei a alternar
    entre pontos muito altos
  • 5:50 - 5:52
    e pontos muito baixos,
  • 5:52 - 5:55
    como uma bola de pingue-pongue
    entre aqueles dois quadros.
  • 5:56 - 6:00
    Em 2004, fiz uma viagem
    pela América Central com uma amiga.
  • 6:00 - 6:03
    Passamos nossa primeira semana
    na ilha de Roatán, na costa de Honduras.
  • 6:04 - 6:06
    Após alguns dias lá,
    minha amiga e eu descobrimos
  • 6:06 - 6:10
    que um de nossos novos amigos locais
    era dançarino do fogo.
  • 6:10 - 6:13
    Nenhuma de nós tinha visto
    a dança do fogo antes.
  • 6:13 - 6:15
    Certa noite, decidimos ver um espetáculo.
  • 6:17 - 6:20
    Assistimos fascinadas,
  • 6:20 - 6:24
    enquanto ele e dois amigos
    ateavam fogo em objetos
  • 6:24 - 6:25
    os jogavam para o alto
  • 6:25 - 6:27
    e os giravam ao redor do corpo.
  • 6:29 - 6:33
    Os movimentos deles
    eram planejados e controlados,
  • 6:33 - 6:36
    mas ainda assim graciosos
    e harmoniosos com a música.
  • 6:39 - 6:41
    Fiquei totalmente encantada.
  • 6:42 - 6:45
    No dia seguinte, ele se ofereceu
    para nos ensinar a dança do fogo,
  • 6:45 - 6:47
    sem fogo, é claro.
  • 6:47 - 6:49
    Ele nos mostrou a diferença
    entre um bastão de fogo,
  • 6:49 - 6:53
    que é uma longa vara de madeira
    ou alumínio com duas mechas de Kevlar,
  • 6:53 - 6:57
    e um "fire poi", que são mechas de Kevlar
    com correntes e alças.
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    Depois daquela primeira vez
    em que girei "poi",
  • 7:01 - 7:04
    percebi que era um passatempo
    que eu queria continuar aprendendo
  • 7:04 - 7:07
    na esperança de que, talvez um dia,
  • 7:07 - 7:11
    eu pudesse ter coragem o bastante
    para tentar aquilo com fogo.
  • 7:12 - 7:14
    Posso adivinhar o que as pessoas
    devem estar pensando:
  • 7:14 - 7:18
    como não fiquei apavorada
    e corri no sentido oposto?
  • 7:18 - 7:20
    Sinceramente, não sei.
  • 7:21 - 7:26
    Acho que talvez, por ser líder de torcida,
    fazer ginástica e tocar piano ainda jovem,
  • 7:26 - 7:29
    essas atividades eram
    muito estruturadas e reguladas,
  • 7:29 - 7:33
    enquanto esse tipo de arte
    parecia uma forma de meditação,
  • 7:33 - 7:34
    mas com foco no fogo,
  • 7:34 - 7:38
    que me assustava profundamente
    por toda a minha vida.
  • 7:39 - 7:40
    Depois daquele primeiro treino,
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    minha amiga e eu fizemos
    nossos próprios conjuntos de poi,
  • 7:43 - 7:46
    usando meias, cadarços e bolas de tênis.
  • 7:46 - 7:48
    Não ateamos fogo em cadarços e meias.
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    Só os usamos para praticar.
  • 7:50 - 7:52
    Mas, depois de voltar
    pra casa em Michigan,
  • 7:52 - 7:56
    decidimos comprar nossos próprios
    conjuntos de fire poi de verdade.
  • 7:56 - 7:57
    E, depois de alguns meses,
  • 7:57 - 8:00
    decidimos que estávamos prontas
    para atear fogo neles.
  • 8:01 - 8:03
    Nós nos enrolamos em camadas de algodão,
  • 8:03 - 8:05
    pegamos um extintor de incêndio,
  • 8:05 - 8:07
    molhamos uma toalha para segurança,
  • 8:07 - 8:08
    preparamos o combustível,
  • 8:08 - 8:12
    incentivamos uma a outra,
    nos cumprimentamos
  • 8:12 - 8:14
    e ateamos fogo naqueles poi.
  • 8:16 - 8:18
    Foi assustador.
  • 8:19 - 8:21
    Metade do cérebro surtava
  • 8:21 - 8:24
    e pensava: "Espere um pouco,
    talvez precisemos pensar a respeito.
  • 8:24 - 8:26
    É melhor pararmos".
  • 8:26 - 8:29
    O som do fogo, enquanto passava
    por minha cabeça,
  • 8:29 - 8:30
    era extremamente alto
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    e me fazia lembrar de minha infância.
  • 8:33 - 8:36
    Mas também era muito revigorante.
  • 8:38 - 8:41
    A outra metade do cérebro,
    a metade criativa, pensava:
  • 8:41 - 8:45
    "Não acredito! Sou dançarina do fogo".
  • 8:46 - 8:47
    Para quem faz essa dança,
  • 8:47 - 8:48
    há um nível de adrenalina
  • 8:48 - 8:51
    ou aquele ímpeto da dança do fogo.
  • 8:51 - 8:55
    Mas, como alguém cuja vida
    foi tão afetada pelo fogo,
  • 8:55 - 8:58
    também tive uma enorme sensação de poder
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    por conseguir controlar
    e manipular o fogo.
  • 9:02 - 9:06
    Tomei uma decisão consciente
    de me afastar de minha dor.
  • 9:06 - 9:08
    Não foi fácil.
  • 9:08 - 9:11
    Uma letra do Nirvana diz:
    "Sinto falta do conforto de estar triste",
  • 9:11 - 9:13
    e era exatamente isso.
  • 9:13 - 9:15
    Eu estava no controle de minha tristeza.
  • 9:15 - 9:18
    Eu sabia o que isso me traria
    e sabia o que esperar,
  • 9:18 - 9:20
    mas também sabia, no fundo, que, por fim,
  • 9:20 - 9:24
    eu teria que fazer o trabalho árduo
    de tentar me curar de meu passado.
  • 9:25 - 9:28
    Então continuei praticando.
  • 9:28 - 9:31
    Cortei um saco plástico em tiras,
  • 9:31 - 9:32
    o amarrei nas pontas do poi
  • 9:32 - 9:36
    e usei para reproduzir o som do fogo
    quando passava por minha cabeça.
  • 9:37 - 9:39
    E continuei ateando fogo no poi.
  • 9:40 - 9:42
    Em certo momento, algo mudou.
  • 9:42 - 9:47
    Minha perspectiva sobre a dança do fogo
    passou de algo que me deixava apreensiva
  • 9:47 - 9:50
    para algo que me trazia
    uma espécie de paz.
  • 9:52 - 9:53
    Sem perceber,
  • 9:53 - 9:56
    eu havia iniciado minha forma
    de terapia de exposição,
  • 9:56 - 9:58
    um tipo real de psicoterapia
  • 9:58 - 10:02
    em que nos expomos intencionalmente
    a coisas que nos traumatizaram
  • 10:02 - 10:04
    ou nos assustaram.
  • 10:04 - 10:07
    Eu me expus ao fogo dessa maneira única,
  • 10:07 - 10:10
    e isso transformou
    o que significava para mim.
  • 10:11 - 10:12
    Meus pesadelos diminuíram
  • 10:12 - 10:15
    e agora, anos mais tarde,
    cessaram quase completamente.
  • 10:16 - 10:20
    Comecei a dança do fogo não só para mim,
    mas em eventos e apresentações.
  • 10:20 - 10:24
    Fundei um grupo de dança com amigos
    enquanto morava em Dubai.
  • 10:24 - 10:28
    Criei uma bela arte com minha irmã
    que se tornou fotógrafa,
  • 10:28 - 10:30
    ensinei a crianças a dança
    em festas de aniversário,
  • 10:30 - 10:32
    fiz apresentações no palco e em festivais
  • 10:32 - 10:36
    e até ensinei a meus filhos
    o básico da dança.
  • 10:37 - 10:38
    Isso não significa
  • 10:38 - 10:41
    que o fogo, de modo geral,
    não me deixe apreensiva.
  • 10:41 - 10:44
    Posso praticar um movimento
    um milhão de vezes,
  • 10:44 - 10:45
    mas, quando experimento com fogo,
  • 10:45 - 10:49
    sinto aquele pânico conhecido
    e um aperto no peito.
  • 10:50 - 10:53
    Ainda fico apreensiva
    por morar em um sobrado
  • 10:53 - 10:55
    ou ter uma lareira.
  • 10:56 - 10:58
    Todas as noites antes de dormir,
  • 10:58 - 11:01
    deixo o caminho livre entre a porta
    do quarto de meus filhos,
  • 11:01 - 11:02
    a de nosso quarto
  • 11:02 - 11:03
    e todas as portas de saída,
  • 11:03 - 11:05
    caso precisemos sair rapidamente.
  • 11:05 - 11:10
    Demorei muito para aceitar a ideia
    de fechar a porta dos quartos à noite
  • 11:10 - 11:12
    para abrandar um incêndio,
  • 11:12 - 11:15
    porque sempre pensei que, se fechasse
    a porta do quarto de meus filhos,
  • 11:15 - 11:18
    eu talvez não conseguiria ouvi-los
    como minha mãe me ouviu.
  • 11:19 - 11:22
    E, claro, esta é minha história.
  • 11:22 - 11:24
    Não posso dizer que tenho a resposta
  • 11:24 - 11:26
    para alguém com um tipo
    diferente de trauma.
  • 11:26 - 11:28
    Se a situação fosse inversa,
  • 11:28 - 11:30
    e eu tivesse perdido um filho
    em um incêndio,
  • 11:30 - 11:33
    não sei se a dança do fogo
    seria a resposta,
  • 11:33 - 11:36
    ou se eu conseguiria sequer
    voltar a me aproximar do fogo.
  • 11:36 - 11:39
    Mas posso dizer, por experiência própria,
  • 11:39 - 11:42
    que, depois de passar por um trauma
    ou por dificuldades,
  • 11:42 - 11:45
    podemos escolher entre dois caminhos.
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    Um caminho nos levará a uma vida de medo
    e encolhimento na escuridão,
  • 11:49 - 11:52
    como aquele quadro em preto e branco
    que descrevi antes.
  • 11:52 - 11:54
    Podemos seguir com a vida,
    mas, ao mesmo tempo,
  • 11:54 - 11:57
    ainda estaremos ligados
    àquela tristeza que nos traz conforto.
  • 11:58 - 12:01
    O outro caminho, o afastamento da dor,
  • 12:01 - 12:03
    não vai mudar nem desfazer nada.
  • 12:04 - 12:05
    Vai ser difícil.
  • 12:05 - 12:07
    Vai ser sempre difícil,
  • 12:07 - 12:12
    com montanhas altas
    e vales profundos e escuros.
  • 12:13 - 12:16
    Mas esse caminho olha e segue em frente.
  • 12:17 - 12:19
    Quando aprendi a dança do fogo,
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    aprendi a harmonizar
    a parte traumática de minha vida
  • 12:22 - 12:25
    com a totalidade dela,
    enquanto ainda se desenrolava.
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    O fogo tornou-se mais do que trauma,
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    mas também beleza e arte,
  • 12:31 - 12:34
    tudo, de repente, assim como a vida,
  • 12:34 - 12:36
    trêmula, latente,
  • 12:36 - 12:39
    ardente e deslumbrante,
  • 12:40 - 12:45
    e, de alguma forma, no meio disso,
    ao encontrar uma maneira de dançar...
  • 12:45 - 12:46
    estou eu.
  • 12:46 - 12:48
    Obrigada.
Títol:
Eu me afastei da dor... dançando com fogo
Speaker:
Danielle Torley
Descripció:

Depois de perder a mãe num incêndio em casa quando tinha apenas seis anos, Danielle Torley viu dois caminhos diante dela: uma vida repleta de medo ou uma que prometia cura e recuperação. Nesta palestra inspiradora, ela descreve como transformou sua dor em beleza da forma mais inesperada: dançando com fogo.

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Video Language:
English
Team:
closed TED
Projecte:
TEDTalks
Duration:
13:02

Portuguese, Brazilian subtitles

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