Portuguese 字幕

← A arma secreta contra pandemias

获得嵌入代码
26种语言

Showing Revision 11 created 08/01/2020 by Margarida Ferreira.

  1. David Biello:
    Agora, é minha honra e privilégio
  2. apresentar o Dr. Georges Benjamin,
  3. o dirigente executivo
    da Associação de Saúde Pública Americana,
  4. com uma longa e distinta carreira,
  5. tanto como médico,
    como profissional de saúde pública.
  6. Por favor, dêem as boas-vindas
    ao Dr. Georges Benjamin.
  7. Georges Benjamin: Olá, David, como está?

  8. DB: Estou bem, e o Dr. Benjamin?

  9. GB: Estou aqui.

  10. DB: Está a aguentar-se. Boa.

  11. GB: Vou-me aguentando.

  12. DB: Sabemos que o tema
    do momento é a reabertura, diria eu.

  13. Acabámos de ouvir essa possibilidade,
  14. mas claro, muitos países já reabriram,
    de uma forma ou doutra,
  15. e acredito que, a partir de hoje,
  16. todos os 50 estados nos EUA
    já reabriram, de uma forma ou doutra.
  17. Como fazemos isso de maneira inteligente,
    de maneira segura?
  18. GB: Sim, precisamos mesmo de reabrir
    com precaução e segurança,

  19. e isso significa que não podemos esquecer
    as medidas de saúde pública
  20. que foram responsáveis
    por achatarmos a curva.
  21. Falo de coisas como
  22. tapar o nariz e a boca
    quando tossimos ou espirramos,
  23. usar máscara, lavar as mãos,
  24. distanciarmo-nos dos outros
    fisicamente, tanto quanto possível.
  25. Pensarmos em tudo o que fazemos,
  26. antes de irmos trabalhar, de manhã,
  27. quando estamos no trabalho.
  28. E sermos cuidadosos
    como muitos de nós têm sido
  29. nos últimos dois meses,
  30. ao longo dos próximos três meses,
  31. porque esta coisa ainda não acabou.
  32. DB: Certo.

  33. Há a possibilidade de novas vagas,
    como o Uri Alon mencionou.
  34. Parece que é uma incumbência para todos
  35. aceitarmos que a saúde pública
    é uma espécie de segundo trabalho.
  36. Certo?
  37. GB: Sabe, tenho vindo a defender

  38. que, agora que toda a gente
    sabe o que é a saúde pública,
  39. toda a gente devia ver a saúde pública
    como a sua segunda profissão,
  40. quer esteja a recolher o lixo
    ou a trabalhar na mercearia,
  41. ou se for um motorista,
  42. ou se, como eu, estiver
    a trabalhar na saúde pública,
  43. um médico ou um enfermeiro,
  44. todos temos de usar a capa
    da saúde pública
  45. em tudo o que fazemos diariamente.
  46. DB: O que é que acha?

  47. Agora todos somos
    profissionais de saúde.
  48. Qual acha que será o novo normal
    que podemos esperar,
  49. assim que os países reabrirem?
  50. Como é que vai ser,
  51. ou como é que espera que seja,
    como profissional de saúde pública?
  52. GB: Se pudesse usar uma varinha mágica,

  53. afirmaria com toda a certeza
  54. que as pessoas vão fazer muito mais
    pela saúde pública,
  55. tais como lavar as mãos
  56. e pensar no que fazem para manter
    a segurança quando saem em público.
  57. Sabe, não foi há muito tempo
  58. que comprávamos um carro
    e não púnhamos o cinto.
  59. Hoje fazêmo-lo,
    e nem pensamos nisso.
  60. A maioria de nós não fuma,
  61. porque sabemos que é mau para a saúde.
  62. A maioria de nós olha para os dois lados
    antes de atravessar a rua.
  63. A maioria de nós
  64. faz arranjos em casa para evitar perigos.
  65. Por isso, à medida que avançamos,
  66. espero que as pessoas
    prestem muito mais atenção
  67. às coisas que podem fazer
    com que apanhemos infecções.
  68. Por isso, limpar as coisas,
    desinfectar as coisas.
  69. Sobretudo, não ir trabalhar
    se estivermos doentes.
  70. Espero que os empregadores
    cubram os custos das baixas médicas,
  71. para que todos possam ficar em casa.
  72. Sim, é um custo adicional,
  73. mas agora já descobrimos
  74. que o custo de não o fazermos
  75. são milhares e milhares
    de milhões de dólares.
  76. As baixas médicas remuneradas
    até saem baratas se considerarmos isso.
  77. DB: Sim, acho que aqui nos EUA
    estamos com inveja

  78. de todos os países que talvez tenham
  79. um sistema de saúde
    mais abrangente que o nosso.
  80. Concordaria que as máscaras
    são uma espécie de símbolo
  81. da adopção desta mentalidade
    de "saúde pública como segunda profissão?"
  82. GB: Bem, é engraçado.

  83. Os nossos colegas da Ásia
    já usavam máscara,
  84. usavam máscaras como forma de cultura
    há muitos, muitos anos.
  85. E nós sempre gozámos
    um pouco com isso.
  86. Quando eu ia ao estrangeiro,
  87. achava sempre ridículo
    quando via pessoas a usar máscaras.
  88. E claro, quando isto começou,
  89. promovemos o uso de máscaras
    apenas para os infectados
  90. e claro, para os trabalhadores de saúde,
  91. que achámos que estavam
    num contexto de risco.
  92. Mas acho que usar máscaras
  93. vai passar a fazer parte da nossa cultura.
  94. Já vimos que provavelmente
    não fará parte da nossa cultura de praia,
  95. apesar de neste momento dever ser.
  96. Mas acho mesmo que vamos ver
    cada vez mais pessoas a usar máscara
  97. numa série de cenários.
  98. E acho que faz sentido.
  99. DB: Sim, usamos máscara para mostrar
    que nos preocupamos com os outros.

  100. E que temos este espírito
    de saúde pública.
  101. Por falar na Ásia,
  102. quem é que se portou bem?
  103. Olhando para todo o mundo,
    já anda nisto há algum tempo
  104. e tem comunicado com os seus colegas,
  105. quem é que se portou bem
  106. e o que é que podemos aprender
    com esses bons exemplos?
  107. GB: De muitas formas,
    a Coreia do Sul é o exemplo a seguir.

  108. E já agora, na verdade,
  109. a China acabou por se sair bastante bem.
  110. Mas o segredo de todos esses países
  111. que têm uma taxa de mortalidade
    inferior à nossa,
  112. é que fizeram muitos testes muito cedo,
  113. fizeram rastreio de contacto
    e isolamento e quarentena,
  114. o que, já agora, é a base
    da prática da saúde pública.
  115. Fizeram-no cedo, fizeram-no intensamente,
  116. e, a propósito, apesar
    de estarem a reabrir a sociedade,
  117. e como começaram a ter
    alguns surtos esporádicos,
  118. regressam a estas práticas básicas
    de saúde pública:
  119. testes, isolamento, rastreio de contacto
  120. e transparência para o público
    sempre que podem,
  121. porque é importante que o público
    compreenda quantos casos há,
  122. onde está a doença,
  123. para ganharmos a cooperação do público.
  124. DB: Portanto, testes,
    rastreio de contacto e isolamento.

  125. Não me parece astrofísica,
    para usar uma imagem gasta.
  126. Porque é que tem sido difícil
    a sua implementação nalguns países?
  127. O que é que nos está a impedir?
  128. Serão os registos médicos electrónicos,
  129. será máquinas sofisticadas,
  130. ou talvez seja apenas ultra-confiança,
  131. baseada nos sucessos
    da saúde pública dos últimos 100 anos?
  132. GB: Nós somos uma sociedade
    de comprimidos.

  133. Achamos que há um comprimido para tudo.
  134. Se não houver um comprimido,
  135. podemos fazer uma cirurgia
    e resolver o problema.
  136. A prevenção funciona.
  137. E nós investimos muito pouco na prevenção.
  138. Nós investimos muito pouco
  139. num sistema de saúde pública
    robusto e forte.
  140. Se atentarmos no facto
    de que hoje, nos EUA,
  141. podemos saber facilmente
  142. o que é que sai da prateleira
    de uma mercearia,
  143. a Amazon sabe tudo o que há
    para saber sobre nós,
  144. mas o nosso médico
    não tem as mesmas ferramentas.
  145. Às três da manhã,
  146. ainda é muito difícil
    obter um electrocardiograma,
  147. ou o nosso histórico médico,
    ou a lista das nossas alergias
  148. se não pudermos dizer ao nosso médico
    o que é que temos.
  149. Simplesmente não investimos
    em sistemas robustos.
  150. Uma das coisas mais interessantes
    desta pandemia
  151. é que criou um contexto
  152. em que estamos dependentes
    da telemedicina,
  153. que já existe há anos,
  154. mas não nos interessava muito.
  155. Mas agora, provavelmente,
    será o novo normal.
  156. DB: Mas também parece...

  157. Obviamente, esses países
    com sistemas de saúde robustos,
  158. como Taiwan, saíram-se bem,
  159. mas parece que até países
    que podíamos considerar
  160. que não têm um sistema de saúde robusto,
    como o Gana, em África,
  161. também se saíram bem.
  162. Qual é que tem sido
    o ingrediente secreto
  163. para estes países?
  164. GB: Anda passou pouco tempo
    desde que alguns estão expostos

  165. e esperemos que não venham
    a ter uma onda tardia,
  166. o que ainda é uma possibilidade,
  167. mas, no fim de contas,
  168. acho que, desde que tenham implementado
    práticas de saúde pública sólidas,
  169. todos os países que se saíram bem
  170. implementaram-nas.
  171. Mas nós somos um país enorme,
    um país complexo.
  172. E sim, falhámos nos testes
    logo de início.
  173. Mas não devemos repetir
    os nossos erros dos últimos três meses,
  174. porque ainda temos
    muitos meses pela frente.
  175. Agora sabemos o que fizemos de errado,
  176. e o meu incentivo é fazermos
    a coisa certa da próxima vez.
  177. DB: Isso parece sensato.

  178. GB: E a próxima vez é amanhã.

  179. DB: Certo.

  180. Já começou.
  181. Quer dizer, parece-me,
  182. se puder usar a metáfora,
  183. que alguns destes países
  184. já tinham os anticorpos no sistema deles
  185. porque tinham experiência talvez
    com o Ébola e o primeiro SARS.
  186. Será esta exposição prévia, importante
  187. para este tipo de crises de saúde pública?
  188. GB: Bom, este é um vírus muito diferente.

  189. E embora possa haver alguns indícios
  190. que a MERS e a SARS 1
  191. nos possam ter dado
    alguma protecção inicial,
  192. e há estudos iniciais
    a debruçarem-se sobre isso,
  193. essa não é a solução.
  194. Aqui, o ingrediente secreto
    são as sólidas práticas de saúde pública.
  195. Esse é o ingrediente secreto.
  196. Não devemos procurar outras coisas,
    um misticismo qualquer,
  197. ou alguém para nos vir salvar
    com um comprimido especial.
  198. Tudo isto resume-se
    a práticas de saúde pública sólidas
  199. porque, já agora,
  200. esta foi bastante má,
  201. mas não é a última.
  202. Temos de nos preparar
    para a próxima mesmo muito má.
  203. Nós achamos que esta foi má,
  204. imaginemos o que aconteceria
    se o Ébola se transmitisse pelo ar,
  205. ou a MERS se transmitisse pelo ar.
  206. Escolham um filme da TV.
  207. Embora esta tenha sido má,
  208. desta vez, ainda escapámos
    a uma mesmo, mesmo má.
  209. DB: Sim, a MERS não é brincadeira nenhuma,

  210. e devíamos estar gratos
    por não se espalhar mais facilmente,
  211. como a SARS-Covid.
  212. Mas isto é...
  213. Todas estas doenças são zoonóticas,
  214. ou seja, apareceram
    de animais que há por aí.
  215. Obviamente, a humanidade parece
    estar a intrometer-se na natureza
  216. de forma cada vez mais urgente,
  217. quer através da alteração climática,
    quer pelas florestas, o que seja.
  218. Este é o novo normal,
  219. ou seja, devemos esperar
    pandemias de vez em quando?
  220. GB: Bem, elas aparecem periodicamente.

  221. Esta não é a primeira pandemia, certo?
  222. Já tivemos muitas.
  223. Há 100 anos, a gripe pneumónica de 1918,

  224. a SARS foi uma infecção significativa,
  225. embora não tenha chegado
    a este ponto, a SARS 1.
  226. E tivemos a gripe das aves,
  227. que foi um desafio,
  228. e a gripe suína.
  229. Tivemos o Zika.
  230. Por isso não, temos tido muitos
    surtos de novas doenças.
  231. Estas doenças emergentes
    ocorrem com frequência,
  232. e de muitas formas,
  233. temos tido a sorte
  234. de ter conseguido identificá-las cedo
  235. e de as conter.
  236. Mas, agora, estamos num contexto
  237. em que as pessoas
    podem criar uma destas coisas.
  238. Esta não, pelo que sabemos,
    não foi criada por humanos.
  239. Provavelmente, não veio
    duma fuga dum laboratório.
  240. Mas sabemos que,
    quando eu andava na escola,
  241. para criar um vírus
    era preciso ser-se muito sofisticado.
  242. Hoje, isso não é o caso.
  243. E temos de nos proteger tanto
    das infecções que ocorrem naturalmente
  244. como daquelas criadas por seres humanos.
  245. DB: Para além disso, temos outros
    multiplicadores de ameaças,

  246. como a alteração climática,
  247. que fazem com que pandemias destas
    sejam ainda piores.
  248. GB: Eu disse que a alteração climática
    era a maior ameaça à sobrevivência

  249. antes desta pandemia.
  250. Mas isto está ao mesmo nível.
  251. Mas deixe-me dizer
  252. que o grande problema que temos hoje
  253. é que temos esta pandemia,
  254. que ainda não contivemos,
  255. enquanto estamos
    a entrar na estação dos furacões,
  256. e temos a alteração climática,
  257. que potencia a ferocidade
    dos furacões que temos tido.
  258. Por isso, vamos ter um verão interessante.
  259. DB: E aqui está o Chris
    com uma pergunta da nossa audiência.

  260. Chris Anderson: Muitas perguntas!

  261. As pessoas têm muito interesse
    no que estás a dizer, Georges.
  262. Vamos lá, aqui vai a primeira
    de Jim Young:
  263. "Como lidamos com as pessoas
    que não acreditam que isto é grave?"
  264. GB: Só temos de continuar
    a comunicar a verdade a todos.

  265. Uma das coisas acerca
    desta doença em particular
  266. é que não poupa ninguém.
  267. Não reconhece partidos políticos,
  268. não reconhece geografia,
  269. e tivemos muita gente,
    especialmente em comunidades rurais,
  270. que não estavam a entender,
    porque ainda não tinha lá chegado
  271. e não acreditavam que era real.
  272. Agora, muitas dessas comunidades
    estão a ser desfeitas por esta doença.
  273. Por isso, temos simplesmente de...
  274. É assim, não é apropriado dizer:
    "Eu bem avisei."
  275. É apropriado dizer:
    "Vejam, agora que estão a ver como é,
  276. "bem-vindos a bordo e ajudem-nos
    a resolver estes problemas."
  277. Mas isto é algo que vai estar por aí
    durante algum tempo.
  278. E se se tornar endémico,
  279. ou seja, se continuar a ocorrer
    mesmo a um nível menor,
  280. toda a gente vai ter esta experiência.
  281. CA: Obrigado.

  282. Aqui está uma pergunta
    de Robert Perkowitz.
  283. "Parece que temos ignorado
    e dedicado poucos fundos à saúde pública,
  284. "e estávamos mal preparados
    para este vírus."
  285. Vejam se a pergunta vai aparecer ali,
  286. acho que vai, por magia.
  287. "Quais deviam ser as prioridades agora
  288. "para nos prepararmos para a próxima
    crise de saúde pública?"
  289. GB: Bem, agora temos de nos certificar
    que temos os fundos,

  290. os recursos, a formação
    e a contratação sobre a mesa.
  291. E já agora, a nossa próxima crise
    de saúde pública
  292. não é daqui a 10 anos,
    não é daqui a 20 anos,
  293. é a potencial co-ocorrência da gripe,
  294. que sabemos que vai acontecer
    no próximo outono,
  295. porque vem todos os anos,
  296. com a continuação da COVID,
    ou com um pico da COVID.
  297. E vamos ter um processo de doença
  298. que aparenta ser mais ou menos o mesmo,
  299. e vamos ter de diferenciar
    a COVID da gripe.
  300. Nós já temos uma vacina para a gripe,
  301. mas ainda não temos para a COVID.
  302. Esperamos ter uma daqui
    a mais ou menos um ano.
  303. Mas isso ainda está para ser visto.
  304. DB: Tomem a injecção para a gripe.

  305. CA: Sim.

  306. Na verdade, o David Collins
    perguntou exactamente isso.
  307. "Qual é a probabilidade de uma vacina
    antes da próxima vaga?"
  308. GB: A vacina que desenvolvemos
    mais rapidamente foi para o sarampo,

  309. e levou quatro anos.
  310. Agora, há muitas coisas diferentes, não é?
  311. Começámos com uma vacina
    para a SARS 1.
  312. Fizemos muitos testes em animais,
  313. e alguns testes iniciais em humanos.
  314. Como sabem, acabámos de receber a notícia
  315. de que, pelo menos, parece funcionar
    em macacos, no macaco-rhesus,
  316. e há alguns indícios de que, talvez
    possa ser eficaz e segura
  317. num número de pessoas muito reduzido.
  318. Quando digo um número muito reduzido,
  319. é uma meia dúzia de pessoas.
  320. Por isso agora tem de passar
    para os testes da fase 2 e fase 3.
  321. O David levantou as duas mãos,
  322. Sim, sim, é um número de pessoas
    muito pequeno.
  323. O que nos diz é que
    ou essas pessoas tiveram muita sorte,
  324. ou funciona mesmo.
  325. E só vamos saber quando a pusermos
    nos braços de milhares de pessoas.
  326. CA: Aqui vai uma pergunta importante
    dum membro do TED.

  327. "Como ensinamos às pessoas
    o que significa a saúde pública?
  328. "Especialmente em contextos
  329. "de quem não acredita ser responsável
    perante 'o público'?"
  330. GB: Eu recordo às pessoas,

  331. que, quando a saúde pública
    faz o seu melhor trabalho,
  332. nada acontece.
  333. E claro, quando nada acontece,
    não lhe reconhecemos mérito.
  334. Por isso, a razão para todos neste país
  335. não terem de se levantar
    e ir ferver a própria água
  336. é por causa da saúde pública.
  337. A razão por que,
    se tivermos um acidente de carro,
  338. por exemplo, um choque de automóveis,
  339. e temos cintos de segurança,
    temos "airbags",
  340. e não morremos nesse choque de automóveis
  341. é por causa da saúde pública.
  342. A razão por que o ar
    é seguro para respirar,
  343. a comida é boa para comer,
  344. é devido à saúde pública.
  345. A razão por que as crianças
    não vestem roupa que se incendeie
  346. é porque temos roupa ignífuga.
  347. E isso é obrigatório.
  348. A razão para não tropeçarmos
    ao descer escadas
  349. é porque vimos como é
    que se constroem escadas
  350. de forma a que as pessoas
    não tropecem ao subir e descer.
  351. Essa é uma intervenção de saúde pública.
  352. Logo, o que nos rodeia,
  353. os medicamentos, essas coisas,
  354. vacinas, tudo é saúde pública,
  355. e é por isso que temos saúde pública,
  356. e talvez alguém não acredite
    que é importante,
  357. mas não podíamos viver sem ela.
  358. CA: Talvez um dia possamos todos,
    nos EUA, ambicionar um sistema de saúde

  359. com incentivos que conduzam
    à saúde pública.
  360. Seria mesmo bom.
  361. David, tenho de continuar
    com algumas destas perguntas, se possível,
  362. porque não param de chover.
  363. Aqui está uma da Jacqueline Ashby.
  364. Uma pergunta importante
    para todos os pais.
  365. "Quais são as recomendações
    para o regresso das crianças à escola?"
  366. GB: Sim, tenho tido dúvidas
    a esse respeito, tenho três netos.

  367. Felizmente, os meus netos são
    mais competentes nas tecnologias que eu,
  368. e agora estão a ter aulas à distância.
  369. Acho que vai ser um problema
  370. pensar em mandar as crianças
    para a escola.
  371. Temos de saber quão infecciosas
    é que as crianças são
  372. e se ficam bem quando são infectadas.
  373. Agora mesmo, parece que.
  374. excepto para um número muito pequeno
    de crianças que têm uma doença rara,
  375. elas toleram bastante bem esta doença.
  376. Mas a questão central é:
  377. quantos germes é que estas crianças
    vão trazer para casa
  378. para a avó e para o avô.
  379. Isso será importante.
  380. E tentar dizer a uma criança de oito anos
  381. para não interagir com os amigos
  382. é um enorme problema.
  383. Aliás, tentar dizer a um jovem de 17 anos
    para não interagir com os amigos
  384. vai ser um enorme problema.
  385. Logo, temos de educar
    devidamente estas crianças,
  386. temos de entender como equilibrar
    os horários delas.
  387. A ideia do Uri para os trabalhadores
  388. pode ser um conceito interessante
    para as escolas,
  389. porque a ideia é tentar reduzir
    o número de crianças na sala de aula.
  390. E se tivermos turmas mais pequenas,
    temos um ensino melhor, de qualquer forma.
  391. Mas então, temos de ter
    professores suficientes.
  392. Poderíamos então limitar os números.
  393. CA: Certo, última pergunta agora
    de Steven Petranek.

  394. Máscaras. Conselhos sobre máscaras.
  395. Bolas, desliguei isto, vamos lá.
  396. Os conselhos sobre máscaras
    parecem ter mudado.
  397. "Será que os americanos
    que vivem e trabalham em cidades
  398. "devem usar máscaras
  399. "para ajudar a reduzir
    as partículas de poluição no ar
  400. "que respiram todos os dias?"

  401. GB: Pode ajudar alguma coisa, com certeza.

  402. Mas devo dizer o que preferia
    que deixássemos de fazer:
  403. queimar combustíveis fósseis.
  404. E todas aquelas coisas terríveis
    que fazemos
  405. e que destroem o nosso clima.
  406. Toda a gente está a falar
  407. sobre o facto de que tivemos
    uma redução extraordinária do CO2
  408. porque não temos andado de carro.
  409. Tenho de dizer que esta é a melhor prova
  410. de que somos nós os responsáveis
    pela alteração climática.
  411. Todos os cépticos das mudanças climáticas
  412. que acham que elas
    não se devem aos seres humanos,
  413. acabámos de ter uma demonstração mundial
  414. do que as pessoas fazem
    para criar as alterações climáticas.
  415. Por isso, o que temos de fazer
  416. é parar e mudar
    para uma economia verde.
  417. CA: Muito obrigado.

  418. Vou intervir no fim
    com talvez mais uma ou duas.
  419. Muito obrigado.
  420. DB: Então, estamos a fazer campanha
    pelas máscaras.

  421. Mas também, uma das coisas
  422. que se tornou clara
    a partir de tudo isto
  423. é que a COVID-19 não nos torna iguais,
    como muitos tiveram esperança.
  424. Algumas comunidades
    estão a sofrer consequências muito piores
  425. significativamente piores, que outras.
  426. A que é que se deve isso?
  427. GB: Estamos a falar sobretudo

  428. das comunidades
    afro-americanas e latinas
  429. que parecem ter sido afectadas
    desproporcionalmente, quando infectadas.
  430. Isso deve-se principalmente à exposição,
  431. Essas populações têm trabalhos
    com maior contacto cara a cara.
  432. Ou seja, os motoristas,
  433. os empregados de mercearia,
  434. os trabalhadores permanente
    de instalações de cuidados de saúde,
  435. nos lares de acolhimento,
  436. em matadouros, na avicultura.
  437. É por isso que estão
    mais expostos à doença.
  438. Muita susceptibilidade.
  439. Muitas doenças crónicas.
  440. Sabemos que
    os afro-americanos, em particular,
  441. têm uma quantidade desproporcionada
    de diabetes, de problemas cardíacos,
  442. de problemas pulmonares,
  443. e devido a estes problemas crónicos,
  444. descobrimos bastante cedo que o vírus
  445. é mais prejudicial às populações
    que têm estas doenças.
  446. Esse é o grande problema aqui.
  447. É isso que está a causar
    essas diferenças
  448. e é um verdadeiro problema
  449. porque, de muitas formas,
  450. essas são muitas das pessoas
  451. que considerámos que eram
    trabalhadores essenciais
  452. e que têm de ir trabalhar.
  453. DB: Exactamente.

  454. Qual é, na sua opinião,
    a intervenção de saúde pública
  455. que pode proteger
    esses trabalhadores essenciais,
  456. se é que tem alguma ideia nessa área?
  457. GB: Com certeza que tenho.

  458. Começámos com uma estratégia
    de testes baseada em sintomas.
  459. E agora que temos testes suficientes,
  460. temos de garantir que as pessoas
    não são testadas só por razões clínicas,
  461. não são só as pessoas que têm sintomas.
  462. Temos de dar prioridade às pessoas
    que trabalham cara a cara,
  463. aos trabalhadores essenciais.
  464. Por isso, as pessoas que trabalham
    em lares, hospitais, etc.
  465. e também os motoristas, os seguranças,
  466. os empregados de mercearia.
  467. Eles têm de ser testados,
  468. e têm de ser testados periodicamente
  469. para os manter em segurança,
    a eles e às suas famílias
  470. e dar confiança a toda a gente
  471. de que não vão ficar infectados
  472. e de que não os vamos infectar.
  473. Quem trabalha em matadouros,
    por exemplo.
  474. Já vimos a verdadeira tragédia
  475. do que se passa nos matadouros,
  476. porque é um contexto em que
    os trabalhadores estão ombro a ombro.
  477. Há mais coisas que é preciso fazer
  478. para percebermos como manter
    a distância social na linha de montagem,
  479. isso é importante.
  480. Mas novamente, a ideia do Uri não é má
  481. e o país deve considerá-la,
  482. assim como muitas destas indústrias.
  483. DB: Sim, temos de nos certificar
    de que estes trabalhadores

  484. são tratados como essenciais,
    e não como trabalhadores de retaguarda.
  485. E claro, isto não se resume aos EUA.
  486. GB: Oh, certamente.

  487. Vemos estas disparidades não só nos EUA,
  488. mas noutros países também.
  489. E têm muito a ver
    com a raça e a classe
  490. e o tipo de trabalho que se tem,
  491. as ocupações que se têm.
  492. E francamente,
  493. devíamos ter pensado nisso
    quando vimos as primeiras informações
  494. que mostraram isso na China,
  495. ou seja, que pessoas com doenças crónicas
    estavam em maior risco
  496. e tinham piores resultados na saúde.
  497. Devíamos ter sido
    muito mais rápidos na acção,
  498. porque, olhem o que aconteceu
    com cada doença nova
  499. que chegou ao país.
  500. DB: Parece que tudo isto vai ao encontro

  501. — não é um paradoxo —
  502. a saúde pública é o trabalho de todos,
  503. e temos de a adotar.
  504. Na sua perspectiva,
  505. como será uma infraestrutura
    de saúde pública robusta?
  506. Com que se parecerá?
  507. GB ; Bem, sempre que nos chega
    uma nova ameaça da saúde,

  508. temos de conseguir
    identificá-la rapidamente,
  509. contê-la,
  510. e, se pudermos, mitigá-la,
    e eliminá-la se possível,
  511. e impor todas as medidas de protecção
  512. que já tivemos antes.
  513. Isso implica ter funcionários suficientes,
  514. um órgão de saúde pública
    governamental competente,
  515. tal como temos para a polícia,
    para os bombeiros, para os correios.
  516. Implica que sejam bem pagos,
  517. implica que têm de ter
    os recursos necessários.
  518. Ainda temos despistadores de contactos
  519. que usam canetas e blocos
  520. e enviam coisas
    para uma folha de cálculo do Excel.
  521. Não, nós precisamos do mesmo tipo
    de tecnologia robusta
  522. que os trabalhadores de qualquer
    rede de retalho "online" usam,
  523. quer seja a Amazon, etc.
  524. Ainda andamos a ver informações
    com dois anos de atraso
  525. para tomar decisões que dependem delas.
  526. Precisamos de poder
    tomar decisões imediatas.
  527. A propósito, falando de Taiwan
    — referido há pouco —
  528. lembro-me de estar em Taiwan
  529. a assistir às informações a chegarem,
    em tempo real, sobre doenças infecciosas,
  530. num sistema de históricos médicos
    electrónico que eles têm.
  531. Nós podemos fazer o mesmo,
    a tecnologia existe.
  532. DB: Quem diria.

  533. Uau! Informações de saúde em tempo real,
  534. que diferença que isso faria.
  535. Acha que a tecnologia
    nos pode ajudar aqui,
  536. quer seja uma colaboração
    entre a Google e a Apple, o que seja?
  537. GB: A tecnologia pode ajudar-nos,

  538. mas não nos vai substituir.
  539. Não estamos nem perto do momento
    em que possamos relaxar
  540. e deixar o nosso avatar electrónico
    trabalhar por nós.
  541. Mas a tecnologia pode superar-nos.
  542. Pode-nos dar uma consciência da situação.
  543. Pode-nos dar informações em tempo real.
  544. Permite-nos enviar informações
    do ponto A para o ponto B
  545. para análise dos dados.
  546. Permite-nos pensar duas vezes.
  547. enquanto fazemos um modelo,
  548. os outros podem logo verificar os números.
  549. Portanto, pode acelerar a investigação.
  550. Mas temos de investir nisso,
  551. e temos de continuar,
  552. porque a parte má da tecnologia
    é ficar rapidamente obsoleta.
  553. DB: E parece que o Chris
    está de volta com mais perguntas.

  554. CA: Sim, parece que estamos
    próximos do fim,

  555. mas as perguntas continuam a chegar.
  556. Aqui está uma do Neelay Bhatt.
  557. "Que papel terão os parques,
    caminhos e espaços amplos
  558. "nos objectivos gerais
    da saúde pública?"
  559. GB: Bem, os espaços verdes
    são absolutamente essenciais,

  560. e podermos sair
    para andar e fazer exercício,
  561. ter passeios, para termos
    comunidades para peões,
  562. ciclovias, e parques para utilização
    de todas as idades.
  563. É bom para a nossa saúde mental,
    é bom para a nossa saúde física.
  564. E digo sempre a toda a gente
  565. que é um lugar magnífico para irmos
    quando alguém nos mói o juízo.
  566. CA: É mesmo.

  567. Temos aqui uma pergunta anónima.
  568. Quando possível, não fiquem anónimos,
  569. porque aqui somos todos amigos,
    no fim de contas.
  570. Provavelmente, é alguém... Enfim.
  571. Vamos ver, mas é uma boa pergunta.
  572. "Muitos estão desconfiados
    do que os peritos têm vindo a dizer.
  573. "Há alguma técnica eficaz
    para ajudar alguém muito desconfiado
  574. "a ser menos desconfiado
    e mais confiante?"
  575. GB: Dizer a verdade.

  576. Se fizerem um erro, reconheçam-no
    e corrijam-no logo.
  577. Sejam consistentes.
  578. Não digam coisas estúpidas.
  579. Isso acontece demasiadas vezes.
  580. Aliás, umas das coisas interessantes,
  581. já falámos disso na discussão
    das máscaras.
  582. A sabedoria tradicional dizia que
    as únicas pessoas que deviam usar máscara
  583. eram as que estavam infectadas
  584. ou que estavam num hospital
  585. onde haveria um alto risco
    de apanharem a doença.
  586. E depois dissemos que não,
  587. que era melhor todos usarem máscaras.
  588. Isso porque finalmente entendemos
  589. — e tornou-se muito mais credível —
  590. que, segundo a ciência,
    havia contágio assintomático.
  591. Mas não o comunicámos como deve ser.
  592. Dissémos: "Oh, não, não,
    mudámos de ideias,
  593. "todos podem usar máscaras",
  594. depois de dizermos para não as usarem.
  595. Depois não dedicámos tempo suficiente
    a explicar às pessoas porquê.
  596. Logo, perdemos a confiança.
  597. Precisamos de fazer melhor.
  598. E depois, os nossos líderes,
  599. quando têm um microfone à frente,
    têm de ter cuidado com o que dizem.
  600. Já agora, eu já cometi erros,
  601. Disse coisas na televisão
    que estavam erradas,
  602. porque eu estava errado.
  603. E esforcei-me muito
    para corrigir esses erros
  604. o mais rápido possível.
  605. Todos nós fazemos isso,
  606. mas temos de ser suficientemente fortes
  607. e ter uma personalidade forte
    para dizermos quando estamos errados
  608. e depois corrigi-lo.
  609. Porque, no fim de contas,
    assim que perdemos a confiança,
  610. perdemos tudo.
  611. CA: Bem, se me permite,

  612. a forma como está
    a comunicar connosco agora,
  613. para mim é uma forma de comunicação
  614. que gera confiança.
  615. Não sei que ingrediente secreto
    é que temos aqui,
  616. mas é muito motivador ouvi-lo falar.
  617. Muito obrigado por isso.
  618. David, tens mais algumas sugestões?
  619. GB: Cometi muitos erros.

  620. DB: Sim, não, mas foi mesmo
    um enorme prazer

  621. tê-lo connosco,
    agradecemos-te por isso.
  622. Apenas uma última pergunta, se puder.
  623. Já faz isto há algum tempo,
  624. o que é que lhe dá esperança
    para continuar?
  625. GB: Vou dizer uma coisa.

  626. Aquilo que me dá esperança
  627. é ver as pessoas cuidar
    dos seus amigos e familiares.
  628. Por exemplo, festas de aniversário
    em "drive-in".
  629. Vi isso hoje nas notícias.
  630. Pessoas que telefonam aos seus amigos.
  631. Fui contactado por pessoas
    com quem não falava há anos,
  632. que me ligaram só para dizer:
  633. "Não falamos há imenso tempo.
    Está tudo bem?"
  634. Por isso, continuem a fazer isso.
  635. E a confiança
    que temos tido uns nos outros,
  636. e o amor que temos mostrado,
    tem sido incrível.
  637. Isso dá-me esperança.
  638. DB: No fim, a humanidade vence.

  639. GB: Sim.

  640. DB: Bem, muito obrigado, Dr. Benjamin,

  641. por se juntar a nós
    e partilhar os seus conhecimentos.
  642. GB: Grato por estar aqui.

  643. CA: Obrigado.

  644. GB: Fiquem bem.

  645. E as vossas famílias também.
  646. DB: Obrigado e igualmente.