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← O que acontece quando a biologia se transforma em tecnologia?

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Showing Revision 7 created 08/12/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Uma mala cheia de fezes
    mudou a minha vida.
  2. Há dez anos eu era
    aluna de pós-graduação
  3. e era jurada numa competição universitária
    de engenharia genética.
  4. Foi lá que conheci a artista e "designer"
    britânica Alexandra Daisy Ginsberg.
  5. Ela estava a usar a camisa polo
    branca e bordada
  6. da equipa da Universidade de Cambridge
  7. e tinha uma mala prateada,
  8. como as que vemos nos filmes,
    presas ao pulso com uma algema.

  9. Com um gesto, chamou-me de parte
  10. e perguntou-me se eu queria ver uma coisa.
  11. Com um olhar sorrateiro,
    abriu a mala
  12. e lá dentro estavam seis gloriosos
    e multicoloridos cocós.
  13. Explicou-me que a equipa de Cambridge

  14. tinha passado o verão
    a modificar a bactéria E. coli
  15. para esta conseguir detetar
    coisas diferentes no ambiente
  16. e produzir um arco-íris
    de diversas cores como resposta.
  17. Arsénio na água potável?
  18. Essa estirpe ficava verde.
  19. Ela e o seu colaborador,
    o "designer" James King,
  20. trabalharam com os alunos
    e imaginaram os possíveis cenários
  21. de como utilizar essas bactérias.
  22. Que tal se pudéssemos usá-las
  23. como uma bebida probiótica
    e controladora de saúde ao mesmo tempo?
  24. Beberíamos as bactérias,
    que se alojariam no intestino,
  25. observando o que se passa
    e como resposta
  26. seriam capazes de produzir
    dejetos coloridos.
  27. Incrível!
  28. A equipa da Cambridge ganhou a competição

  29. "International Genetically
    Engineered Machine"
  30. ou iGEM.
  31. Para mim, aqueles cocós
    foram um ponto de viragem.
  32. Sou bióloga sintética,

  33. uma profissão estranha
    para a maioria das pessoas.
  34. Parece mesmo um paradoxo.
  35. Como é que algo natural como a biologia
    pode ser sintética?
  36. Como é que algo artificial
    pode estar vivo?
  37. Os biólogos sintéticos fazem ligações
  38. entre o que é natural e o tecnológico.
  39. Todos os anos, alunos da iGEM
    de todo o mundo
  40. passam o verão a tentar transformar
    a biologia em tecnologia.

  41. Ensinam bactérias a jogar sudoku,
  42. fazem seda colorida de aranha,
  43. fazem betão que se auto-repara
  44. fazem impressoras de tecidos
    e bactérias que comem plástico.
  45. Mas, nessa altura,

  46. eu estava mais preocupada
    com um paradoxo diferente.
  47. A simples engenharia genética.
  48. O comediante Simon Munnery
    uma vez escreveu
  49. que a engenharia genética
    é um insulto à verdadeira engenharia.
  50. E que a engenharia genética
    é como atirar cimento e aço num rio
  51. e se alguém conseguir atravessar,
    chamam-lhe uma ponte.
  52. Por isso os biólogos sintéticos
    estavam preocupados
  53. que a engenharia genética
    fosse mais arte do que ciência.
  54. Queriam que a engenharia genética
    fosse vista como uma área séria
  55. onde podíamos programar células
    e escrever ADN
  56. da mesma forma que engenheiros
    escrevem "software" para computadores.
  57. Esse dia, há 10 anos,
    fez-me chegar onde estou.

  58. Hoje, sou a diretora criativa
  59. numa empresa de biologia sintética
    chamada Ginkgo Bioworks.
  60. "Diretora criativa"
    é um título estranho
  61. numa empresa de biotecnologia
    onde se tenta programar a vida
  62. tal como se programam computadores.
  63. Mas no dia em que conheci a Daisy
  64. aprendi algo sobre engenharia.
  65. Aprendi que engenharia
    não é só equações,
  66. aço e circuitos.
  67. Tem a ver com pessoas.
  68. É algo que as pessoas fazem
    e que nos afeta.
  69. Por isso, no meu trabalho,

  70. tento criar novos espaços para
    diferentes tipos de engenharia.
  71. Como podemos fazer perguntas melhores
  72. e ter conversas melhores
  73. acerca do que esperamos
    do futuro da tecnologia?
  74. Como podemos compreender
  75. as razões tecnológicas,
    políticas e sociais
  76. de tão grande divisão da sociedade
    provocada pelos OGM?
  77. Conseguiremos criar OGM
    de que as pessoas gostem?
  78. Conseguiremos usar a biologia para fazer
    tecnologia mais expansiva e regeneradora?
  79. Penso que isso começa por reconhecermos
    que, como biólogos sintéticos,

  80. também somos modelados por uma cultura
    que valoriza a "engenharia a sério"
  81. e não estas lamechices.
  82. Estamos tão concentrados
    em circuitos e computadores
  83. que às vezes esquecemo-nos
    da magia dentro de nós.
  84. Há muita tecnologia de caca por aí,
  85. mas esta foi a primeira vez
    que pensei em fezes como tecnologia.
  86. Percebi que a biologia sintética
    era fantástica
  87. não porque transformamos células
    em computadores,
  88. mas porque dá vida à tecnologia.
  89. Esta tecnologia é visceral
  90. e uma visão inesquecível
    do que o futuro pode ser.
  91. Mas também coloca
    uma questão importante:
  92. "É este o futuro que queremos?"
  93. Prometeram-nos um futuro cromado,
  94. mas e se o futuro for de carne?
  95. A ciência e a ficção científica

  96. lembram-nos que somos feitos
    do mesmo material que as estrelas.
  97. Também poderão lembrar-nos
    a maravilha e a peculiaridade
  98. de sermos feito de carne?
  99. A biologia somos nós.
  100. É o nosso corpo, é o que comemos.
  101. O que acontece quando a biologia
    se transforma em tecnologia?
  102. Estas imagens são perguntas
  103. e questionam aquilo que vemos
    como normal ou desejável.
  104. Também nos mostram
    que o futuro está cheio de escolhas
  105. e que podemos escolher algo diferente.
  106. Qual é o futuro do corpo, da beleza?
  107. Se mudarmos o corpo,
    teremos novos tipos de perceções?
  108. Será que novos tipos de perceções
    do mundo microbiano
  109. podem alterar
    a forma como comemos?
  110. O último capítulo da minha dissertação
    foi sobre o queijo que eu fiz

  111. usando bactérias que retirei
    de entre os dedos dos pés.
  112. Eu disse-vos que as fezes
    mudaram a minha vida.
  113. Trabalhei com Sissel Tolaas,
    artista e investigadora de odores,
  114. para explorar as maneiras como
    os nossos corpos e o queijo estão ligados
  115. através do cheiro e, portanto,
    através de micróbios.
  116. E criámos este queijo
  117. para desafiar a forma
    como pensamos nas bactérias
  118. que fazem parte da nossa vida
  119. e nas bactérias com que trabalhamos
    em laboratório.
  120. De facto, somos o que comemos.
  121. A interseção entre biologia e tecnologia

  122. é uma história que vai além
    da nossa realidade carnal.
  123. Se passarmos o nosso cérebro
    para um computador
  124. já não precisamos de defecar.
  125. E isso é habitualmente uma história
    que é considerada uma coisa boa, não é?
  126. Porque os computadores são limpos
    e a biologia é suja.
  127. Os computadores fazem sentido
    e são racionais,
  128. e a biologia é uma confusão imprevisível.
  129. Parece que é daí que vem a ideia
  130. de que a ciência e a tecnologia
    devem ser racionais,
  131. objetivas
  132. e puras,
  133. e que os seres humanos
    são uma confusão total.
  134. Mas tal como os biólogos sintéticos
    fazem ligações

  135. entre a Natureza e a tecnologia,
  136. os artistas, os "designers"
    e os cientistas sociais
  137. mostraram-me que as linhas que traçamos
    entre Natureza, tecnologia e sociedade
  138. são mais esbatidas do que pensamos.
  139. Desafiam-nos a repensar
    as nossas visões do futuro
  140. e as nossas fantasias
    acerca de controlar a Natureza.
  141. Mostram-nos como os nossos
    preconceitos, esperanças e valores
  142. estão enraizados
    na ciência e na tecnologia
  143. através das nossas perguntas e escolhas.
  144. Tornam visíveis as maneiras
    como a ciência e a tecnologia são humanas
  145. e, portanto, políticas.
  146. O que significa controlar a vida
  147. para os nossos próprios fins?
  148. Os artistas Oron Catts e Ionat Zurr

  149. têm um projeto chamado
    "Couro Sem Vítimas"
  150. em que criaram um pequeno casaco de couro
  151. com células de ratos.
  152. Este casaco está vivo?
  153. O que é preciso para que cresça
    e se mantenha assim?
  154. Será mesmo sem vítimas?
  155. E o que é que isso significa?
  156. As escolhas que fazemos

  157. e o que mostramos e escondemos
    nas nossas histórias de progresso,
  158. são muitas vezes escolhas políticas
    com consequências reais.
  159. Como irá a tecnologia genética
    alterar a forma como nos vemos
  160. e definimos os nossos corpos?
  161. A artista Heather Dewey-Hagborg
    criou estas caras

  162. com base em sequências de ADN
    que extraiu do lixo da rua,
  163. o que nos obriga a pensar
    em privacidade genética
  164. e em como o ADN nos pode, ou não, definir.
  165. Como iremos combater e lidar
    com as alterações climáticas?
  166. Iremos mudar a forma como fazemos tudo,
  167. utilizando materiais biológicos
    que podem crescer e degradar-se connosco?
  168. Iremos alterar o nosso próprio corpo?
  169. Ou até a Natureza?
  170. Ou iremos mudar o sistema
    que reforça esses limites
  171. entre ciência, sociedade,
    natureza e tecnologia?
  172. Relações que nos mantêm
    presos nestes padrões insustentáveis.
  173. A forma como respondemos a crises

  174. ao mesmo tempo naturais,
    sociais e técnicas,
  175. desde o coronavírus à alteração climática,
  176. é altamente política,
  177. e a ciência nunca acontece no vazio.
  178. Voltemos atrás no tempo,

  179. à chegada dos primeiros
    colonos europeus ao Havai.
  180. Provavelmente levaram gado
    e cientistas com eles.
  181. O gado percorreu os montes,
  182. atropelando e alterando
    os ecossistemas no seu caminho.
  183. Os cientistas catalogaram
    as espécies que lá encontraram,
  184. usando, por vezes, o último espécime
    antes de ficar extinto.
  185. Esta é a Maui hau kuahiwi
  186. ou Hibiscadelphus wilderianus
  187. denominada por Gerrit Wilder em 1910.
  188. Em 1912 já estava extinta.
  189. Encontrei este espécime
    no herbário da Universidade de Harvard

  190. onde está guardado junto de cinco milhões
    de outros espécimes de todo o mundo.
  191. Queria pegar num pedaço
    de ciência do passado
  192. ainda que ligado ao colonialismo
  193. e em todas as ideias
  194. da forma como Natureza, ciência
    e sociedade devem trabalhar juntos
  195. e fazer perguntas acerca
    do futuro da ciência.
  196. Em conjunto com uma equipa
    fantástica na Ginkgo

  197. e com outras na Universidade
    da Califórnia,
  198. conseguimos extrair um pouco de ADN
  199. de um pequeno pedaço desta planta
  200. e sequenciar o seu ADN.
  201. Depois voltámos a sintetizar
    uma possível versão
  202. dos genes que produzem
    o cheiro da planta.
  203. Ao inserirmos esses genes em levedura
  204. pudemos produzir
    pequenas quantidades desse cheiro
  205. e talvez conseguir cheirar
  206. um pouco duma coisa que já não existe.
  207. Noutro trabalho,
    com a Daisy e a Sissel Tolaas
  208. as minhas colaboradoras
    no projeto do queijo
  209. reconstruímos e fabricámos
    um novo cheiro para esta flor
  210. e criámos um lugar onde
    as pessoas podiam experimentá-lo
  211. e fazer parte desta história natural
    e deste futuro sintético.
  212. Há 10 anos, eu era uma bióloga sintética

  213. que achava que a engenharia genética
    era mais arte do que ciência
  214. e que as pessoas eram demasiado sujas
  215. e a biologia era muito complicada.
  216. Agora, uso engenharia genética como arte
  217. para explorar as diferentes formas
    em que estamos interligados
  218. e imaginar diferentes futuros possíveis.
  219. Um futuro de carne
  220. reconhece estas interligações
  221. e as realidades humanas da tecnologia.
  222. Mas também reconhece
    o incrível poder da biologia
  223. a sua resiliência e sustentabilidade
  224. a sua capacidade de curar,
    crescer e adaptar-se.
  225. Valores que são tão necessários
  226. para as visões dos futuros
    que podemos ter hoje.
  227. A tecnologia vai modelar esse futuro
  228. mas os seres humanos fazem a tecnologia.
  229. Como decidimos qual será esse futuro
  230. depende de todos nós.
  231. Obrigada.