WEBVTT 00:00:00.000 --> 00:00:03.000 O que vos quero contar 00:00:03.000 --> 00:00:05.000 é o que podemos aprender com o estudo dos genomas 00:00:05.000 --> 00:00:07.000 de pessoas vivas 00:00:07.000 --> 00:00:09.000 e humanos extintos. 00:00:09.000 --> 00:00:11.000 Mas antes de o fazer, 00:00:11.000 --> 00:00:14.000 quero apenas lembrar-vos do que já vocês sabem: 00:00:14.000 --> 00:00:16.000 que os nossos genomas, o nosso material genético, 00:00:16.000 --> 00:00:19.000 são armazenados em quase todas as células do nosso corpo em cromossomas 00:00:19.000 --> 00:00:21.000 na forma de ADN, 00:00:21.000 --> 00:00:24.000 que é a famosa molécula de dupla hélice. 00:00:24.000 --> 00:00:26.000 E a informação genética 00:00:26.000 --> 00:00:28.000 está contida sob a forma de sequência 00:00:28.000 --> 00:00:30.000 de quatro bases 00:00:30.000 --> 00:00:33.000 abreviadas com as letras A, T, C e G. 00:00:33.000 --> 00:00:35.000 A informação está lá duas vezes - 00:00:35.000 --> 00:00:37.000 uma em cada uma das fitas - 00:00:37.000 --> 00:00:39.000 o que é importante, 00:00:39.000 --> 00:00:41.000 porque quando são formadas novas células, estas fitas separam-se, 00:00:41.000 --> 00:00:44.000 e novas fitas são sintetizadas usando as velhas como modelo, 00:00:44.000 --> 00:00:47.000 num processo quase perfeito. NOTE Paragraph 00:00:47.000 --> 00:00:49.000 Mas, claro, nada na natureza 00:00:49.000 --> 00:00:51.000 é totalmente perfeito, 00:00:51.000 --> 00:00:53.000 e por vezes é cometido um erro 00:00:53.000 --> 00:00:56.000 e é criada uma letra errada. 00:00:56.000 --> 00:00:58.000 Podemos ver o resultado 00:00:58.000 --> 00:01:00.000 de tais mutações 00:01:00.000 --> 00:01:02.000 quando comparamos sequências de ADN 00:01:02.000 --> 00:01:05.000 entre as pessoas que estão aqui na sala, por exemplo. 00:01:05.000 --> 00:01:08.000 Se compararmos o meu genoma aos vossos, 00:01:08.000 --> 00:01:12.000 aproximadamente cada 1200, 1300 letras 00:01:12.000 --> 00:01:14.000 irão variar entre nós. 00:01:14.000 --> 00:01:16.000 E estas mutações acumulam-se 00:01:16.000 --> 00:01:19.000 aproximadamente em função do tempo. 00:01:19.000 --> 00:01:22.000 Portanto se juntarmos aqui um chimpanzé, veremos mais diferenças. 00:01:22.000 --> 00:01:25.000 Cerca de uma em cada 100 letras 00:01:25.000 --> 00:01:27.000 vai divergir da letra de um chimpanzé. NOTE Paragraph 00:01:27.000 --> 00:01:29.000 E se estivermos interessados na história 00:01:29.000 --> 00:01:31.000 de um fragmento de ADN, ou de todo o genoma, 00:01:31.000 --> 00:01:34.000 podemos reconstruir a história do ADN 00:01:34.000 --> 00:01:36.000 com estas diferenças que observamos. 00:01:36.000 --> 00:01:40.000 Geralmente retratamos as nossas ideias sobre essa história 00:01:40.000 --> 00:01:42.000 sob a forma de árvores como esta. 00:01:42.000 --> 00:01:44.000 Neste caso, é muito simples. 00:01:44.000 --> 00:01:46.000 As duas sequências humanas de ADN 00:01:46.000 --> 00:01:49.000 vão ter a um antepassado comum bastante recente. 00:01:49.000 --> 00:01:53.000 Mais atrás existe um partilhado com chimpanzés. 00:01:53.000 --> 00:01:56.000 E uma vez que estas mutações 00:01:56.000 --> 00:01:58.000 acontecem aproximadamente em função do tempo, 00:01:58.000 --> 00:02:00.000 podemos transformar estas diferenças 00:02:00.000 --> 00:02:02.000 em estimativas temporais, 00:02:02.000 --> 00:02:04.000 em que estes dois humanos, tipicamente, 00:02:04.000 --> 00:02:08.000 terão partilhado um antepassado comum há cerca de um milhão de anos, 00:02:08.000 --> 00:02:10.000 e com os chimpanzés 00:02:10.000 --> 00:02:13.000 será na ordem dos cinco milhões de anos. NOTE Paragraph 00:02:13.000 --> 00:02:15.000 O que aconteceu nos últimos anos 00:02:15.000 --> 00:02:17.000 é que surgiram tecnologias 00:02:17.000 --> 00:02:21.000 que nos permitem ver muitos fragmentos de ADN muito rapidamente. 00:02:21.000 --> 00:02:23.000 Então podemos agora, numa questão de horas, 00:02:23.000 --> 00:02:26.000 determinar um genoma humano inteiro. 00:02:26.000 --> 00:02:29.000 Cada um de nós, claro, contém dois genomas humanos - 00:02:29.000 --> 00:02:32.000 um das nossas mães e um dos nossos pais. 00:02:32.000 --> 00:02:36.000 E cada um tem cerca de três mil milhões de letras destas. 00:02:36.000 --> 00:02:38.000 E veremos que os meus dois genomas, 00:02:38.000 --> 00:02:40.000 ou um deles que queiramos usar, 00:02:40.000 --> 00:02:43.000 terá por volta de três milhões de diferenças, 00:02:43.000 --> 00:02:45.000 nessa ordem. 00:02:45.000 --> 00:02:47.000 A seguir podemos também começar 00:02:47.000 --> 00:02:49.000 a dizer como essas diferenças genéticas 00:02:49.000 --> 00:02:51.000 se distribuem pelo mundo. 00:02:51.000 --> 00:02:53.000 Se o fizermos, 00:02:53.000 --> 00:02:57.000 encontraremos uma certa quantidade de variação genética em África. 00:02:57.000 --> 00:03:00.000 Se olharmos para fora de África, 00:03:00.000 --> 00:03:03.000 encontramos menor variação genética. 00:03:03.000 --> 00:03:05.000 Isto é surpreendente, claro, 00:03:05.000 --> 00:03:08.000 porque cerca de seis a oito vezes menos pessoas 00:03:08.000 --> 00:03:11.000 vivem dentro do que fora de África. 00:03:11.000 --> 00:03:14.000 E no entanto as pessoas de África 00:03:14.000 --> 00:03:17.000 tem maior variação genética. NOTE Paragraph 00:03:17.000 --> 00:03:19.000 Além disso, quase todas as variantes genéticas 00:03:19.000 --> 00:03:21.000 que encontramos fora de África 00:03:21.000 --> 00:03:23.000 têm sequências de ADN mais estreitamente relacionadas 00:03:23.000 --> 00:03:25.000 do que as observadas dentro de África. 00:03:25.000 --> 00:03:27.000 Mas se olharmos para África, 00:03:27.000 --> 00:03:30.000 existe uma componente da variação genética 00:03:30.000 --> 00:03:33.000 que não tem familiares próximos fora. 00:03:33.000 --> 00:03:36.000 O modelo que explica isto 00:03:36.000 --> 00:03:39.000 diz que parte da variação africana, mas não toda, 00:03:39.000 --> 00:03:43.000 saiu a colonizar o resto do mundo. 00:03:43.000 --> 00:03:47.000 E, juntamente com os métodos de datação destas diferenças genéticas, 00:03:47.000 --> 00:03:49.000 isto levou à percepção 00:03:49.000 --> 00:03:51.000 que os humanos modernos - 00:03:51.000 --> 00:03:54.000 humanos essencialmente indistinguíveis de nós - 00:03:54.000 --> 00:03:57.000 evoluíram em África bastante recentemente, 00:03:57.000 --> 00:04:01.000 há cerca de 100 a 200 mil anos. 00:04:01.000 --> 00:04:05.000 E depois, há cerca de 100 a 50 mil anos, 00:04:05.000 --> 00:04:07.000 saíram de África 00:04:07.000 --> 00:04:09.000 e foram colonizar o resto do mundo. NOTE Paragraph 00:04:09.000 --> 00:04:11.000 Então o que costumo dizer 00:04:11.000 --> 00:04:13.000 é que, numa perspectiva genómica, 00:04:13.000 --> 00:04:15.000 somos todos africanos. 00:04:15.000 --> 00:04:18.000 Ou vivemos em África nos dias de hoje, 00:04:18.000 --> 00:04:20.000 ou num exílio muito recente. 00:04:20.000 --> 00:04:22.000 Outra consequência 00:04:22.000 --> 00:04:25.000 desta origem recente dos humanos modernos 00:04:25.000 --> 00:04:27.000 é que as variantes genéticas 00:04:27.000 --> 00:04:29.000 estão de um modo geral distribuídas amplamente pelo mundo, 00:04:29.000 --> 00:04:31.000 por muitos lugares, 00:04:31.000 --> 00:04:34.000 e tendem a variar como gradientes, 00:04:34.000 --> 00:04:38.000 pelo menos numa perspectiva geral. 00:04:38.000 --> 00:04:40.000 E uma vez que há muitas variantes genéticas, 00:04:40.000 --> 00:04:43.000 e têm diferentes gradientes, 00:04:43.000 --> 00:04:46.000 isto significa que se determinarmos uma sequência de ADN - 00:04:46.000 --> 00:04:49.000 um genoma de um indivíduo - 00:04:49.000 --> 00:04:51.000 podemos estimar de forma bastante exacta 00:04:51.000 --> 00:04:53.000 de onde vem essa pessoa, 00:04:53.000 --> 00:04:55.000 desde que os seus pais ou avós 00:04:55.000 --> 00:04:58.000 não se tenham deslocado muito. NOTE Paragraph 00:04:58.000 --> 00:05:00.000 Mas será que isto quer dizer, 00:05:00.000 --> 00:05:02.000 como muitos tendem a pensar, 00:05:02.000 --> 00:05:05.000 que existem enormes diferenças genéticas entre grupos de pessoas - 00:05:05.000 --> 00:05:07.000 de diferentes continentes, por exemplo? 00:05:07.000 --> 00:05:10.000 Bem, podemos também começar a perguntar-nos isso. 00:05:10.000 --> 00:05:13.000 Existe, por exemplo, um projecto em curso 00:05:13.000 --> 00:05:15.000 para sequenciar mil indivíduos - 00:05:15.000 --> 00:05:18.000 os seus genomas - de diferentes partes do mundo. 00:05:18.000 --> 00:05:21.000 Já mapearam 185 africanos 00:05:21.000 --> 00:05:24.000 de duas populações de África. 00:05:24.000 --> 00:05:27.000 Sequenciaram aproximadamente o mesmo número de pessoas 00:05:27.000 --> 00:05:30.000 na Europa e na China. 00:05:30.000 --> 00:05:33.000 E podemos começar a dizer quanta variação encontramos, 00:05:33.000 --> 00:05:36.000 quantas letras variam 00:05:36.000 --> 00:05:39.000 em pelo menos uma dessas sequências individuais. 00:05:39.000 --> 00:05:43.000 E é muito: 38 milhões de posições variáveis. NOTE Paragraph 00:05:43.000 --> 00:05:46.000 Mas podemos perguntar: será que há muitas diferenças absolutas 00:05:46.000 --> 00:05:48.000 entre africanos e não-africanos? 00:05:48.000 --> 00:05:50.000 Talvez a maior diferença 00:05:50.000 --> 00:05:52.000 que muitos de nós pudéssemos imaginar. 00:05:52.000 --> 00:05:54.000 E por diferença absoluta 00:05:54.000 --> 00:05:56.000 quero dizer uma diferença 00:05:56.000 --> 00:05:59.000 em que, onde as pessoas em África, numa certa posição, 00:05:59.000 --> 00:06:02.000 100 por cento dos indivíduos, têm uma letra, 00:06:02.000 --> 00:06:06.000 toda a gente fora de África tem outra letra. 00:06:06.000 --> 00:06:09.000 E a resposta para isso entre todos esses milhões de diferenças 00:06:09.000 --> 00:06:12.000 é que essa tal certa posição não existe. 00:06:14.000 --> 00:06:16.000 Isto pode ser surpreendente. 00:06:16.000 --> 00:06:19.000 Talvez um único indivíduo esteja mal classificado, ou qualquer coisa. 00:06:19.000 --> 00:06:21.000 Então podemos relaxar um pouco o critério 00:06:21.000 --> 00:06:23.000 e dizer: quantas posições encontramos 00:06:23.000 --> 00:06:25.000 em que 95 por cento das pessoas em África têm 00:06:25.000 --> 00:06:27.000 uma variante, 00:06:27.000 --> 00:06:29.000 95 por cento outra variante? 00:06:29.000 --> 00:06:31.000 E esse número é 12. NOTE Paragraph 00:06:31.000 --> 00:06:33.000 Isto é muito surpreendente. 00:06:33.000 --> 00:06:35.000 Significa que quando olhamos para as pessoas 00:06:35.000 --> 00:06:38.000 e vemos uma pessoa de África 00:06:38.000 --> 00:06:41.000 e outra da Europa ou da Ásia, 00:06:41.000 --> 00:06:45.000 não podemos, para uma única posição no genoma, com 100 por cento de exactidão 00:06:45.000 --> 00:06:47.000 prever o mapa genético dessa pessoa. 00:06:47.000 --> 00:06:49.000 E apenas para 12 posições 00:06:49.000 --> 00:06:53.000 podemos esperar ter 95 por cento de precisão. 00:06:53.000 --> 00:06:55.000 Isto pode ser surpreendente 00:06:55.000 --> 00:06:57.000 porque podemos, claro, olhar para estas pessoas 00:06:57.000 --> 00:07:01.000 e dizer com facilidade de onde eles ou os seus antepassados vieram. 00:07:01.000 --> 00:07:03.000 O que isto significa agora 00:07:03.000 --> 00:07:05.000 é que aqueles traços que observamos 00:07:05.000 --> 00:07:07.000 e tão prontamente vemos - 00:07:07.000 --> 00:07:10.000 traços faciais, cor da pele, estrutura capilar - 00:07:10.000 --> 00:07:14.000 não são determinados por genes únicos com grandes impactos, 00:07:14.000 --> 00:07:17.000 mas sim por muitas diferentes variantes genéticas 00:07:17.000 --> 00:07:19.000 que parecem variar em frequência 00:07:19.000 --> 00:07:21.000 em diferentes partes do mundo. NOTE Paragraph 00:07:21.000 --> 00:07:24.000 Há outra coisa sobre estes traços 00:07:24.000 --> 00:07:27.000 que tão facilmente observamos uns nos outros 00:07:27.000 --> 00:07:29.000 que penso que importa considerar: 00:07:29.000 --> 00:07:32.000 é que, de forma bastante literal, 00:07:32.000 --> 00:07:35.000 estão à superfície dos nossos corpos. 00:07:35.000 --> 00:07:37.000 Eles são o que acabámos de dizer - 00:07:37.000 --> 00:07:40.000 traços faciais, estrutura do cabelo, cor da pele. 00:07:40.000 --> 00:07:42.000 Há também um número de características 00:07:42.000 --> 00:07:44.000 como essas que variam entre continentes 00:07:44.000 --> 00:07:48.000 e que têm que ver com o modo como metabolizamos a comida que ingerimos, 00:07:48.000 --> 00:07:50.000 ou que têm que ver 00:07:50.000 --> 00:07:53.000 com o modo com que os nossos sistemas imunitários lidam com micróbios 00:07:53.000 --> 00:07:55.000 que tentam invadir os nossos corpos. 00:07:55.000 --> 00:07:57.000 Mas tudo isso são partes do nosso corpo 00:07:57.000 --> 00:08:00.000 que interagem directamente com o nosso ambiente, 00:08:00.000 --> 00:08:04.000 em confronto directo, digamos. 00:08:04.000 --> 00:08:06.000 É fácil imaginar 00:08:06.000 --> 00:08:08.000 a rapidez particular com que essas partes do corpo 00:08:08.000 --> 00:08:11.000 foram influenciadas por selecção pelo ambiente 00:08:11.000 --> 00:08:13.000 e alteraram frequências de genes 00:08:13.000 --> 00:08:15.000 nelas envolvidas. 00:08:15.000 --> 00:08:18.000 Mas se olharmos para outras partes do nosso corpo 00:08:18.000 --> 00:08:20.000 que não interagem directamente com o ambiente - 00:08:20.000 --> 00:08:23.000 os nossos rins, o fígado, o coração - 00:08:23.000 --> 00:08:25.000 não há como dizer, 00:08:25.000 --> 00:08:27.000 apenas olhando para estes órgãos, 00:08:27.000 --> 00:08:30.000 de que parte do mundo vêm. NOTE Paragraph 00:08:31.000 --> 00:08:33.000 Há outra coisa interessante 00:08:33.000 --> 00:08:36.000 que vem desta descoberta 00:08:36.000 --> 00:08:40.000 que os humanos têm uma origem comum recente em África: 00:08:40.000 --> 00:08:43.000 é que quando esses humanos surgiram, 00:08:43.000 --> 00:08:45.000 há cerca de cem mil anos, 00:08:45.000 --> 00:08:47.000 não estavam sozinhos no planeta. 00:08:47.000 --> 00:08:50.000 Existiam outros tipos de humanos a rondar - 00:08:50.000 --> 00:08:53.000 talvez os mais famosos destes sejam os Neandertais - 00:08:53.000 --> 00:08:55.000 este género robusto de ser humano, 00:08:55.000 --> 00:08:57.000 comparado aqui à esquerda 00:08:57.000 --> 00:09:01.000 com um esqueleto de humano moderno à direita - 00:09:01.000 --> 00:09:04.000 que existiam na Ásia Ocidental e Europa 00:09:04.000 --> 00:09:06.000 há várias centenas de milhares de anos. 00:09:06.000 --> 00:09:08.000 Então uma pergunta interessante é: 00:09:08.000 --> 00:09:10.000 o que aconteceu quando nos encontrámos? 00:09:10.000 --> 00:09:12.000 O que aconteceu aos Neandertais? NOTE Paragraph 00:09:12.000 --> 00:09:14.000 E para começar a responder a essas perguntas, 00:09:14.000 --> 00:09:18.000 o meu grupo de investigação - há mais de 25 anos - 00:09:18.000 --> 00:09:20.000 trabalha em métodos de extracção de ADN 00:09:20.000 --> 00:09:22.000 de vestígios de Neandertais 00:09:22.000 --> 00:09:24.000 e animais extintos 00:09:24.000 --> 00:09:27.000 que têm dezenas de milhares de anos. 00:09:27.000 --> 00:09:30.000 Isto implica uma série de questões técnicas 00:09:30.000 --> 00:09:32.000 sobre como extrair o ADN, 00:09:32.000 --> 00:09:35.000 como transformá-lo de modo a que o possamos sequenciar. 00:09:35.000 --> 00:09:37.000 Temos de trabalhar muito cuidadosamente 00:09:37.000 --> 00:09:40.000 para evitar contaminação de experiências 00:09:40.000 --> 00:09:43.000 com o nosso próprio ADN. 00:09:43.000 --> 00:09:46.000 E isto, em conjunto com aqueles métodos 00:09:46.000 --> 00:09:50.000 que permitem o sequenciamento muito rápido de numerosas moléculas de ADN, 00:09:50.000 --> 00:09:52.000 permitiu-nos o ano passado 00:09:52.000 --> 00:09:55.000 apresentar a primeira versão do genoma Neandertal, 00:09:55.000 --> 00:09:57.000 de modo que qualquer um de vós 00:09:57.000 --> 00:09:59.000 pode agora consultar na internet o genoma Neandertal, 00:09:59.000 --> 00:10:02.000 ou pelo menos os 55 por cento 00:10:02.000 --> 00:10:05.000 que conseguimos reconstruir até agora. 00:10:05.000 --> 00:10:07.000 E podem começar a compará-lo aos genomas 00:10:07.000 --> 00:10:10.000 de pessoas que estão vivas hoje. NOTE Paragraph 00:10:10.000 --> 00:10:12.000 E uma pergunta 00:10:12.000 --> 00:10:14.000 que podem querer fazer 00:10:14.000 --> 00:10:16.000 é: o que aconteceu quando nos encontrámos? 00:10:16.000 --> 00:10:18.000 Misturámo-nos ou não? 00:10:18.000 --> 00:10:20.000 E para fazer essa pergunta 00:10:20.000 --> 00:10:23.000 devemos olhar para o Neandertal que vem do sul da Europa 00:10:23.000 --> 00:10:25.000 e compará-lo aos genomas 00:10:25.000 --> 00:10:27.000 de pessoas que estão hoje vivas. 00:10:27.000 --> 00:10:29.000 Então tentamos 00:10:29.000 --> 00:10:31.000 fazer isso com pares de indivíduos, 00:10:31.000 --> 00:10:33.000 a começar com dois africanos, 00:10:33.000 --> 00:10:35.000 olhamos para os dois genomas africanos, 00:10:35.000 --> 00:10:38.000 encontramos partes em que diferem um do outro, 00:10:38.000 --> 00:10:41.000 e em cada caso perguntamos: como é um Neandertal? 00:10:41.000 --> 00:10:44.000 Corresponde a um africano ou ao outro? 00:10:44.000 --> 00:10:47.000 Seria de esperar que fosse indiferente, 00:10:47.000 --> 00:10:49.000 porque os Neandertais nunca estiveram em África. 00:10:49.000 --> 00:10:52.000 Deveriam ser iguais, não haveria motivo para que se assemelhassem 00:10:52.000 --> 00:10:55.000 mais a um africano do que a outro. 00:10:55.000 --> 00:10:57.000 E é de facto o que acontece. 00:10:57.000 --> 00:10:59.000 Estatisticamente falando, não existe diferença 00:10:59.000 --> 00:11:03.000 na frequência com que o Neandertal coincide com um africano ou o outro. 00:11:03.000 --> 00:11:05.000 Mas já é diferente 00:11:05.000 --> 00:11:09.000 se olharmos para um indivíduo europeu e um africano. 00:11:09.000 --> 00:11:12.000 Aí, com bastante mais frequência, 00:11:12.000 --> 00:11:14.000 um Neandertal assemelha-se a um europeu 00:11:14.000 --> 00:11:16.000 e não a um africano. 00:11:16.000 --> 00:11:19.000 O mesmo acontece se observarmos um indivíduo chinês 00:11:19.000 --> 00:11:21.000 face a um africano, 00:11:21.000 --> 00:11:25.000 o Neandertal vai coincidir mais frequentemente com o indivíduo chinês. 00:11:25.000 --> 00:11:27.000 Isto também pode ser surpreendente 00:11:27.000 --> 00:11:29.000 porque os Neandertais nunca estiveram na China. NOTE Paragraph 00:11:29.000 --> 00:11:33.000 O modelo que propusemos para explicar isto 00:11:33.000 --> 00:11:35.000 diz que quando os humanos modernos saíram de África 00:11:35.000 --> 00:11:38.000 há uns 100 mil anos, 00:11:38.000 --> 00:11:40.000 encontraram Neandertais. 00:11:40.000 --> 00:11:43.000 Presumivelmente, primeiro no Médio Oriente, 00:11:43.000 --> 00:11:45.000 onde viviam Neandertais. 00:11:45.000 --> 00:11:47.000 Se nessa ocasião se misturaram entre si, 00:11:47.000 --> 00:11:49.000 então esses humanos modernos, 00:11:49.000 --> 00:11:51.000 que se tornaram nos antepassados 00:11:51.000 --> 00:11:53.000 de toda a gente fora de África, 00:11:53.000 --> 00:11:56.000 transportaram no seu genoma esta componente Neandertal 00:11:56.000 --> 00:11:58.000 para o resto do mundo. 00:11:58.000 --> 00:12:01.000 Assim, as pessoas que vivem hoje fora de África 00:12:01.000 --> 00:12:04.000 têm cerca de 2,5 por cento de ADN 00:12:04.000 --> 00:12:06.000 de Neandertais. NOTE Paragraph 00:12:06.000 --> 00:12:09.000 Portanto uma vez que temos hoje o genoma Neandertal 00:12:09.000 --> 00:12:11.000 à mão como ponto de referência 00:12:11.000 --> 00:12:13.000 e temos a tecnologia 00:12:13.000 --> 00:12:15.000 para olharmos para vestígios remotos 00:12:15.000 --> 00:12:17.000 e extraírmos o seu ADN, 00:12:17.000 --> 00:12:21.000 podemos começar a aplicá-los noutras partes do mundo. 00:12:21.000 --> 00:12:24.000 Primeiro fizemos isso no sul da Sibéria, 00:12:24.000 --> 00:12:26.000 nos Montes Altai, 00:12:26.000 --> 00:12:28.000 num lugar chamado Denisova, 00:12:28.000 --> 00:12:30.000 uma caverna nesta montanha, 00:12:30.000 --> 00:12:33.000 onde os arquéologos encontraram em 2008 00:12:33.000 --> 00:12:35.000 um pequeno pedaço de osso - 00:12:35.000 --> 00:12:37.000 isto é uma cópia dele - 00:12:37.000 --> 00:12:41.000 e aperceberam-se que fazia parte da última falange 00:12:41.000 --> 00:12:44.000 de um dedo mínimo humano. 00:12:44.000 --> 00:12:46.000 E estava tão bem preservado 00:12:46.000 --> 00:12:49.000 que pudemos determinar o ADN daquele indivíduo, 00:12:49.000 --> 00:12:51.000 até em maior grau 00:12:51.000 --> 00:12:53.000 do que para os Neandertais, 00:12:53.000 --> 00:12:55.000 e começámos a compará-lo ao genoma Neandertal 00:12:55.000 --> 00:12:58.000 e às pessoas de hoje em dia. 00:12:58.000 --> 00:13:00.000 E descobrimos que este indivíduo 00:13:00.000 --> 00:13:03.000 partilhava nas suas sequências de ADN uma origem comum 00:13:03.000 --> 00:13:07.000 com Neandertais há cerca de 640 mil anos. 00:13:07.000 --> 00:13:10.000 E mais atrás ainda, há 800 mil anos 00:13:10.000 --> 00:13:12.000 existe uma origem comum 00:13:12.000 --> 00:13:14.000 com os humanos dos dias de hoje. NOTE Paragraph 00:13:14.000 --> 00:13:16.000 Portanto este indivíduo vem de uma população 00:13:16.000 --> 00:13:19.000 que partilha uma origem com Neandertais, 00:13:19.000 --> 00:13:22.000 mas muito antes e depois tem uma longa história independente. 00:13:22.000 --> 00:13:24.000 Chamamos a este grupo de humanos, 00:13:24.000 --> 00:13:26.000 que descrevemos então pela primeira vez 00:13:26.000 --> 00:13:28.000 a partir deste pequeno pedacinho de osso, 00:13:28.000 --> 00:13:30.000 Hominídeos de Denisova, 00:13:30.000 --> 00:13:33.000 a partir do local onde foram identificados. 00:13:33.000 --> 00:13:36.000 Podemos então perguntar para os Denisovanos 00:13:36.000 --> 00:13:38.000 o que perguntámos para os Neandertais: 00:13:38.000 --> 00:13:42.000 Será que se misturaram com antepassados das pessoas actuais? 00:13:42.000 --> 00:13:44.000 Se fizermos essa pergunta, 00:13:44.000 --> 00:13:46.000 e compararmos o genoma Denisovano 00:13:46.000 --> 00:13:48.000 com pessoas de todo o mundo, 00:13:48.000 --> 00:13:50.000 surpreendentemente descobrimos 00:13:50.000 --> 00:13:52.000 que não há vestígios de ADN Denisovano 00:13:52.000 --> 00:13:57.000 nem em pessoas que vivem remotamente perto da Sibéria de hoje. 00:13:57.000 --> 00:13:59.000 Mas encontramo-los sim na Papua Nova Guiné 00:13:59.000 --> 00:14:03.000 e em outras ilhas da Melanésia e do Pacífico. 00:14:03.000 --> 00:14:05.000 Isto quer presumivelmente dizer 00:14:05.000 --> 00:14:08.000 que estes Hominídeos de Denisova foram mais disseminados no passado, 00:14:08.000 --> 00:14:11.000 uma vez que não achamos que os antepassados dos melanésios 00:14:11.000 --> 00:14:13.000 tenham alguma vez estado na Sibéria. NOTE Paragraph 00:14:13.000 --> 00:14:15.000 Então ao estudar 00:14:15.000 --> 00:14:18.000 estes genomas de humanos extintos, 00:14:18.000 --> 00:14:21.000 começamos a aproximar-nos do aspecto que o mundo tinha 00:14:21.000 --> 00:14:24.000 quando os humanos modernos começaram a sair de África. 00:14:24.000 --> 00:14:27.000 No Ocidente, existiam Neandertais; 00:14:27.000 --> 00:14:29.000 no Oriente, Denisovanos - 00:14:29.000 --> 00:14:31.000 talvez outros tipos de humanos também 00:14:31.000 --> 00:14:33.000 que ainda não descrevemos. 00:14:33.000 --> 00:14:36.000 Não sabemos bem quais eram as fronteiras entre estes povos, 00:14:36.000 --> 00:14:38.000 mas sabemos que no sul da Sibéria 00:14:38.000 --> 00:14:40.000 existiam tanto Neandertais como Denisovanos, 00:14:40.000 --> 00:14:43.000 pelo menos a determinada altura. 00:14:43.000 --> 00:14:46.000 Então surgiram os humanos modernos algures em África, 00:14:46.000 --> 00:14:49.000 saíram de África, provavelmente no Médio Oriente. 00:14:49.000 --> 00:14:52.000 Encontram Neandertais, misturam-se com eles, 00:14:52.000 --> 00:14:55.000 continuam a espalhar-se pelo mundo, 00:14:55.000 --> 00:14:58.000 e algures no Sudeste Asiático 00:14:58.000 --> 00:15:00.000 encontram Denisovanos e misturam-se com eles 00:15:00.000 --> 00:15:03.000 e continuam em direcção ao Pacífico. 00:15:03.000 --> 00:15:06.000 E então estas primeiras formas de humanos desaparecem, 00:15:06.000 --> 00:15:09.000 mas subsistem hoje ainda um pouco 00:15:09.000 --> 00:15:11.000 em alguns de nós - 00:15:11.000 --> 00:15:14.000 na medida em que os povos fora de África têm 2,5 por cento de ADN 00:15:14.000 --> 00:15:16.000 de Neandertal, 00:15:16.000 --> 00:15:18.000 e as pessoas da Melanésia 00:15:18.000 --> 00:15:21.000 têm aproximadamente mais 5 por cento 00:15:21.000 --> 00:15:24.000 de Denisovanos. NOTE Paragraph 00:15:24.000 --> 00:15:26.000 Quer isto dizer que existe apesar de tudo 00:15:26.000 --> 00:15:28.000 alguma diferença absoluta 00:15:28.000 --> 00:15:31.000 entre os povos fora e dentro de África, 00:15:31.000 --> 00:15:33.000 na medida em que os povos fora de África 00:15:33.000 --> 00:15:35.000 têm no seu genoma um antigo componente 00:15:35.000 --> 00:15:37.000 destes extintos hominídeos, 00:15:37.000 --> 00:15:39.000 enquanto os africanos não têm? 00:15:39.000 --> 00:15:42.000 Não creio que seja assim. 00:15:42.000 --> 00:15:44.000 Presumivelmente, os humanos modernos 00:15:44.000 --> 00:15:46.000 surgiram algures em África. 00:15:46.000 --> 00:15:49.000 Também se espalharam por África, claro, 00:15:49.000 --> 00:15:52.000 e existiam por lá formas anteriores de humanos. 00:15:52.000 --> 00:15:54.000 E uma vez que nos misturámos noutro sítio, 00:15:54.000 --> 00:15:56.000 estou certo que um dia, 00:15:56.000 --> 00:15:58.000 quando tenhamos talvez o genoma 00:15:58.000 --> 00:16:00.000 de algumas dessas formas anteriores de África, 00:16:00.000 --> 00:16:02.000 descobriremos que também eles se misturaram 00:16:02.000 --> 00:16:05.000 com os primeiros humanos modernos de África. NOTE Paragraph 00:16:06.000 --> 00:16:08.000 Portanto, em suma, 00:16:08.000 --> 00:16:10.000 o que aprendemos com o estudo dos genomas 00:16:10.000 --> 00:16:12.000 dos humanos actuais 00:16:12.000 --> 00:16:14.000 e dos humanos extintos? 00:16:14.000 --> 00:16:16.000 Aprendemos talvez muitas coisas, 00:16:16.000 --> 00:16:21.000 mas uma que penso que é digna de menção 00:16:21.000 --> 00:16:24.000 é a lição de que sempre nos misturámos. 00:16:24.000 --> 00:16:26.000 Misturámo-nos com estas antigas formas de humanos, 00:16:26.000 --> 00:16:28.000 onde quer que os tenhamos encontrado, 00:16:28.000 --> 00:16:32.000 e misturamo-nos uns com os outros desde então. NOTE Paragraph 00:16:32.000 --> 00:16:34.000 Obrigado pela vossa atenção. NOTE Paragraph 00:16:34.000 --> 00:16:40.000 (Aplausos)