Como o Chris referiu,
eu estudo o cérebro humano,
as funções e a estrutura
do cérebro humano.
E quero que pensem um minuto
no significado disto.
Temos esta massa gelatinosa
— uma massa gelatinosa de 1,4 kg
que podemos segurar na palma da mão,
e que consegue contemplar
a vastidão do espaço interstelar.
Consegue contemplar
o significado do infinito
e consegue contemplar-se a si própria
contemplando o significado do infinito.
É esta qualidade recursiva peculiar
a que chamamos autoconsciência,
que, a meu ver, é o Santo Graal
da neurociência, da neurologia,
e esperamos, um dia,
compreender como acontece.
Então, como estudamos
este órgão misterioso?
Quer dizer, temos 100 000 milhões
de células nervosas,
pequenos nadas de protoplasma,
interagindo entre si.
Desta atividade emerge
todo um leque de faculdades
a que chamamos natureza humana
e consciência humana.
Como é que isto acontece?
Há muitas abordagens para aceder
às funções do cérebro humano.
Uma abordagem, a que nós mais utilizamos,
é observar pacientes com danos permanentes
numa pequena região do cérebro,
resultantes de uma alteração genética
nessa região do cérebro.
O que aqui acontece
não é uma redução geral
de todas as capacidades mentais,
como que um embrutecimento
da faculdade cognitiva.
O que aqui acontece, é a perda
altamente seletiva de uma função,
mantendo-se intactas as outras funções,
o que nos dá alguma confiança
para afirmarmos
que aquela parte do cérebro está envolvida
no desenvolvimento daquela função.
Então podem localizar
a função na estrutura,
e depois descobrir
o que o circuito está a fazer
para gerar essa função em particular.
É isto que tentamos fazer.
Vou dar-vos alguns exemplos marcantes,
três exemplos, de seis minutos cada,
ao longo desta palestra.
O primeiro é uma syndrome extraordinária,
chamada Síndrome de Capgras.
Se olharem para este primeiro diapositivo,
aqueles são os lobos temporais,
frontais e parietais,
os lobos que constituem o cérebro.
E se repararem, escondida dentro
da superfície interna dos lobos temporais
— não conseguem vê-la aqui —
está uma pequena estrutura
chamada circunvolução fusiforme.
Chama-se-lhe a área do rosto, no cérebro,
porque, quando está danificada,
deixamos de reconhecer o rosto das pessoas.
Conseguimos reconhecê-las pela voz
e dizer: "Ah sim, é o Joe",
mas não conseguimos olhar
para o rosto delas e saber quem é.
Nem conseguimos reconhecer-nos
a nós mesmos ao espelho.
Sabemos que somos nós porque
piscamos o olho e o reflexo também pisca,
e sabemos que é um espelho,
mas não nos reconhecemos a nós mesmos.
É sabido que este síndrome é causado
por danos na circunvolução fusiforme.
Mas há outro síndrome raro, tão raro
que poucos médicos ouviram falar dele,
mesmo os neurologistas.
É o chamado Delírio de Carpgras.
Ocorre quando um paciente,
completamente normal,
sofre uma lesão na cabeça, sai do coma,
completamente normal,
olha para a mãe e diz:
"Esta mulher é idêntica à minha mãe,
mas é uma impostora
"é outra mulher
que finge ser a minha mãe."
Porque é que isto acontece?
Porque é que uma pessoa inteligente,
perfeitamente lúcida
em tudo o resto,
quando olha para a mãe,
manifesta um delírio
e diz que não é a mãe dele?
A interpretação mais comum disto,
que encontramo nos manuais de psiquiatria,
é uma visão freudiana,
que diz que estes sujeitos
— também se aplica às mulheres
mas falarei apenas dos homens —
quando eram bebés,
tinham uma forte atração sexual
pela mãe.
É o chamado Complexo de Édipo de Freud.
Não digo que acredite nisto,
mas esta é a visão padrão freudiana.
À medida que crescem,
o córtex devenvolve-se,
e inibe estes ímpetos sexuais latentes
direcionados para a mãe.
Graças a Deus, ou ficariam todos
sexualmente excitados ao verem a mãe.
Depois acontece que levam
uma pancada na cabeça
que danifica o córtex,
permitindo que esses ímpetos sexuais
latentes se manifestem, vigorosamente,
e, de repente e sem explicação,
sentem-se sexualmente
atraídos pela mãe e pensam:
"Oh meu Deus, se esta é a minha mãe,
"como posso sentir-me atraído por ela?
"É uma outra mulher. É uma impostora."
É a única interpretação que faz sentido
para o cérebro danificado.
Para mim, este argumento
nunca fez muito sentido.
É muito astuto, de resto,
como todos os argumentos freudianos...
(Risos)
... mas não faz muito sentido
porque já vi o mesmo delírio,
num paciente que tinha o mesmo delírio
com a sua cadela de estimação.
Disse-me: "Doutor, esta não é a Fifi,
é exatamente igual à Fifi,
"mas é outra cadela qualquer".
Agora tentem aplicar
a explicação freudiana neste caso.
(Risos)
Começarão a falar da bestialidade latente
em todos os seres humanos,
ou algo do género,
o que é, obviamente, absurdo.
O que é que realmente se passa?
Para explicar este distúrbio singular,
olhamos para a estrutura e funções
das vias visuais normais no cérebro.
Normalmente, os sinais visuais
entram pelos olhos,
e vão até às áreas visuais no cérebro.
Há 30 áreas na parte de trás do cérebro
que se ocupam apenas da visão.
Depois de todo um processamento,
a mensagem chega a uma pequena estrutura
chamada circunvolução fusiforme,
onde são percecionados os rostos.
Há lá neurónios sensíveis aos rostos.
Podemos chamar-lhe a área
dos rostos do cérebro.
Falei disso há pouco.
Quando essa área está danificada,
perdemos a capacidade de ver rostos.
Mas a partir dessa área,
a mensagem segue em cascata
para uma estrutura chamada amígdala,
no sistema límbico,
o centro da emoção do cérebro,
e essa estrutura, a amígdala,
determina o significado emocional
daquilo para que estamos a olhar.
É uma presa? É um predador?
É um parceiro?
Ou é algo absolutamente trivial,
como um retalho de algodão,
ou um pedaco de giz, ou um
— não quero apontar para ali mas —
ou um sapato, ou algo do género,
que podem ignorar por completo.
Se a amígdala for excitada
— e isto é importante —
a mensagem segue em cascata
para o sistema nervoso autónomo.
O coração começa a bater mais rapidamente,
começamos a transpirar para dissipar
o calor que vamos produzir
derivado da atividade muscular.
Isso é bom, porque podemos colocar
dois elétrodos na palma da mão
e medir a diferença na resistência elétrica
da pele produzida pela transpiração.
Posso concluir, quando olham
para qualquer coisa,
se estão emocionados
ou se estão excitados ou não.
Já lá chegarei.
A minha ideia é, quando o sujeito
olha para um objeto,
quando olha seja para que objecto for,
isso é transmitido às áreas visuais
e é processado na circunvolução fusiforme,
e é identificado como uma ervilheira,
ou uma mesa,
ou mesmo a sua mãe.
Depois a mensagem segue
em cascata para a amígdala,
e em seguida vai
para o sistema nervoso autónomo.
Mas talvez neste sujeito, a ligação
entre a amígdala e o sistema límbico
— o núcleo da emoção do cérebro —
esteja cortada pelo acidente.
Como o giro fusiforme está intacto,
o sujeito ainda consegue
reconhecer a sua mãe e diz:
"Ah sim, é idêntica à minha mãe".
Mas como a ligação ao centro da emoção
está cortada, ele diz:
"Mas como é que, se é a minha mãe,
não sinto qualquer apego?"
— ou pavor, consoante o caso.
(Risos)
Talvez pense: "Como explico
esta falta de emoções inexplicável?
"Esta não pode ser a minha mãe.
"É alguma estranha
que finge ser a minha mãe".
Como se testa isto?
Se eu pegar em qualquer um de vocês
e o puser em frente de um ecrã,
e medir a resposta galvânica
da vossa pele,
e mostrar imagens no ecrã,
consigo medir a forma como transpiram
quando veem um objeto.
Se for uma mesa ou um guarda-chuva,
certamente não transpiram.
Se mostrar uma imagem de um leão,
de um tigre ou de uma mulher atraente,
começam a transpirar, não é?
E, acreditem, se vos mostrar
uma imagem da vossa mãe
— falo de pessoas normais —
começam a transpirar.
Nem sequer têm de ser judeus.
(Risos)
O que acontece se o mostrarem
a um paciente?
Pegamo num paciente
e mostramos-lhe imagens num ecrâ
e medimos a resposta galvânica da pele.
Mesas, cadeiras, tecido, nada acontece,
tal como nas pessoas normais,
mas quando lhe mostram
uma fotografia da mãe,
a resposta galvânica é nula.
Não existe reação emocional à mãe,
porque aquilo que liga as áreas visuais
aos centros emocionais está cortado.
A visão dele é normal
porque as áreas visuais são normais,
as emoções são normais
— ele ri, chora, etc. —
mas a ligação entre a visão e as emoções está cortada
e, em consequência, tem um delírio
de que a mãe é uma impostora.
É um bom exemplo
do tipo de coisas que fazemos,
pegamos num síndrome neuropsiquiátrico
bizarro e aparentemente incompreensível
e dizemos que a visão padrão
freudiana está errada,
que temos uma explicação precisa
baseada naquilo que sabemos
da anatomia neuronal do cérebro.
Já agora, se este paciente,
depois, se vai embora,
e a mãe lhe telefonar
de uma sala ao lado, ele diz:
"Olá, mãe, como estás? Onde estás?"
Não há delírio através do telefone.
Se ela se aproximar dele
dali a uma hora, ele pergunta:
"Quem és tu? És igualzinha à minha mãe".
A explicação é que existe uma via separada
que vai dos centros auditivos do cérebro
até aos centros emocionais,
e essa não foi cortada pelo acidente.
Isto explica o porquê de ele reconhecer
a mãe ao telefone, sem problema,
mas quando a vê pessoalmente,
diz que ela é uma impostora.
Muito bem, como estão organizados
todos estes circuitos complexos no cérebro?
É a natureza, os genes, ou é o ambiente?
Abordamos este problema
tendo em contra outra síndrome singular,
a dos membros fantasma.
Todos sabem
o que é um membro fantasma.
Quando um braço ou uma perna
é amputada, devido a gangrena,
ou se o perderem numa guerra,
por exemplo, a do Iraque
— que agora está a complicar-se —
continuarão a sentir vividamente
a presença do braço em falta.
Chama-se a isso o braço fantasma
ou a perna fantasma.
Na verdade, quase qualquer parte do corpo
pode originar um fantasma.
Acreditem ou não, até orgão internos.
Tive pacientes a quem retiraram o útero
— uma histeroctomia —
que têm um útero fantasma,
com dores menstruais inclusive,
na altura certa do mês.
No outro dia um aluno perguntou-me;
"Elas têm síndrome
pré-menstrual fantasma?"
Um assunto adequado para as perguntas
da ciência, mas não fomos por aí.
A próxima pergunta é:
O que se pode aprender
sobre membros fantasma
fazendo experiências?
Descobrimos que
cerca de metade dos pacientes
com membros fantasma
assegura conseguir mover o fantasma.
Dá palmadinhas nas costas,
pega no telefone quando este toca,
diz adeus.
São sensações muito vívidas e fortes.
O paciente não está a delirar.
Ele sabe que o braço não está lá,
apesar disso, é uma experiência
sensorial muito forte para o paciente.
Mas em cerca de metade dos pacientes,
isso não acontece.
Dizem: "Mas doutor, o membro fantasma
está paralisado.
"Está preso num espasmo
e é extremamente doloroso.
"Se ao menos o conseguisse mexer,
talvez aliviasse a dor".
Mas porque ficaria paralisado
um membro fantasma?
Parece um contrassenso..
Quando analisámos os processos,
descobrimos que,
nestas pessoas
com membros fantasma paralisados,
o braço original estava paralisado
devido a lesões nervosas periféricas,
o nervo que alimentava
o braço estava cortado,
digamos que foi cortado
num acidente de mota.
O paciente teve um braço real,
que lhe doía,
preso ao peito com uma ligadura,
durante meses,
e depois, numa tentativa falhada
de o livrar da dor,
o cirurgião amputa-lhe o braço.
Depois cresce-lhe um braço fantasma
com as mesmas dores.
Este é um problema clínico grave.
Os doentes ficam deprimidos.
Alguns deles tentam o suicídio.
Como se trata esta síndrome?
Porque se fica com um membro
fantasma paralisado?
Quando olhei para o processo
descobri que eles tinham um braço real,
que os nervos que o alimentavam
tinham sido cortados,
e que o braço real tinha estado paralisado
e restringido numa ligadura
durante meses, antes da amputação,
e que aquela dor fora depois
transferida para o fantasma.
Porque é que isto acontece?
Quando o braço estava intacto,
mas paralisado,
o cérebro, a parte frontal do cérebro,
enviava ordens ao braço: "mexe-te"
mas recebia uma resposta visual
que dizia "não".
"Mexe-te". Não.
"Mexe-te". Não.
Isto é incorporado no circuito cerebral,
e chamamos-lhe paralisia aprendida.
O cérebro aprende, devido
à sua ligação associativa Hebbian,
que o simples comando para mexer o braço
cria a sensação de braço paralisado.
Depois, quando o braço é amputado,
esta paralisia aprendida transfere-se
para a imagem corporal e o fantasma.
Como ajudamos estes doentes?
Como se desaprende a paralisia aprendida,
para podermos livrá-los
daquele espasmo dolorosíssimo
no braço fantasma?
Pensámos: "E se enviarmos
o comando ao fantasma,
mas dando uma resposta visual
de que está a ser obedecida?"
Talvez consigamos aliviar
a dor fantasma, o espasmo fantasma.
Como se faz isto? Com realidade virtual.
Mas isso custa milhões de euros.
Então, encontrei uma maneira
de o fazer por três dólares,
mas não digam nada
às agências que me financiam.
(Risos)
Construímos aquilo a que chamo
uma "caixa de espelhos".
É uma caixa de cartão
com um espelho no meio.
e depois introduzimos lá o fantasma
— chegou Derek, o meu primeiro paciente.
Submeteu-se à amputação
do braço há 10 anos.
Sofreu uma avulsão braquial,
portanto os nervos foram cortados,
o braço ficou paralisado, durante um ano,
e depois foi-lhe amputado o braço.
Tinha um braço fantasma, dolorosíssimo
e não o conseguia mexer.
Era um braço fantasma paralisado.
Ele chegou, dei-lhe um espelho
daqueles, na caixa de espelhos.
O paciente pôe o braço fantasma esquerdo,
que está contraído e em espasmo,
no lado esquerdo do espelho,
e a mão normal no lado direito do espelho,
e simula a mesma postura,
a postura contraída,
e olha para o espelho, e o que é que vê?
Ele observa o fantasma a ressuscitar,
porque está a olhar para o reflexo
do braço normal no espelho,
e parece-lhe que o fantasma ressuscita.
"Vá", disse-lhe, "agora, agite o seu fantasma,
"os seus dedos reais, mexa os dedos reais
enquanto olha para o espelho".
Ele terá a impressão visual de que
o fantasma se está a mexer.
Isso é óbvio, mas o surpreendente
é que o paciente diz:
"Meu Deus! O meu fantasma
está a mexer-se novamente,
"e a dor, o espasmo, aliviou".
Recordem-se, o meu primeiro paciente...
(Aplausos)
Obrigado.
O meu primeiro paciente chegou,
olhou para o espelho, e eu disse:
"Olhe para o reflexo do seu fantasma."
Começou a rir baixinho, dizendo:
"Estou a ver o meu fantasma."
Mas ele não é parvo.
Ele sabe que não é real.
Ele sabe que é o reflexo de um espelho,
mas é uma experiência sensorial notável.
Disse-lhe: "Mexa a sua mão normal
e o seu fantasma."
E ele: "Não consigo mexer o fantasma.
É doloroso."
E eu: "Mexa a mão normal."
E ele: "Oh meu Deus! O meu fantasma
está a mexer-se! Não acredito!
"E a dor está a aliviar."
Depois disse-lhe: "Feche os olhos."
Ele fecha-os.
"Mexa a sua mão normal."
"Oh, está contraída de novo."
"OK, abra os olhos."
"Oh meu Deus, oh meu Deus,
está a mexer-se outra vez!"
Parecia uma criança numa loja de doces.
Bem, pensei eu, isto prova a minha teoria
sobre a paralisia aprendida
e do papel decisivo dos dados visuais,
mas não vou receber um prémio Nobel
por conseguir que alguém movimente
o seu membro fantasma.
(Risos)
É uma capacidade completamente inútil.
(Risos)
Depois comecei a pensar
noutros tipos de paralisia neurológica
como vemos num AVC, nas distonias focais,
talvez haja aqui uma componente aprendida
que possa ser ultrapassada
utilizando um simples espelho.
Então eu disse: "Derek"
— ele não pode andar por aí
com um espelho para aliviar a dor —
"Derek, leve-o para casa e pratique
durante uma ou duas semanas.
"Talvez, após um período de prática,
"consiga dispensar o espelho,
desaprender a paralisia
"e começar a movimentar
o seu braço paralisado,
"e aliviar a dor."
Ele concordou e levou-o para casa.
Eu disse-lhe: "São só três dólares.
Leve-o para casa."
Ele foi para casa, duas semanas
depois telefona-me e diz:
"Doutor, não vai acreditar nisto."
Eu respondi: "Em quê?"
E ele: "Desapareceu."
"O que é que desapareceu?"
Pensei que fosse a caixa de espelhos".
(Risos)
E ele: "Não, não, lembra-se do fantasma
que tive nos últimos 10 anos?
"Desapareceu."
E eu fiquei preocupado.
Meu Deus, alterei a imagem corporal
que este tipo tinha de si próprio,
o que dizer de cobaias humanas,
ética etc.?
"Derek, isso incomoda-o?"
E ele: "Não, nos últimos três dias
não tive braço fantasma,
"daí que não tive dores fantasma
no cotovelo, nem contrações,
"nem dores fantasma no antebraço,
todas essas dores desapareceram.
"O problema é que tenho
os dedos fantasma pendurados no ombro,
"e não os consigo enfiar na caixa."
(Risos)
"Consegue alterar-lhe o design
e pô-la na minha testa
"para eu conseguir eliminar
os dedos fantasma?"
Devia pensar que eu era
uma espécie de mágico.
Porque aconteceu isto?
O cérebro depara-se
com conflitos sensoriais tremendos.
Recebe mensagens visuais
que lhe dizem que o fantasma voltou.
mas não há receção adequada,
os sinais musculares dizem-lhe
que não há braço nenhum
mas o comando motor diz-lhe
que há braço.
Devido a este conflito,
o cérebro diz:
"que se lixe, não há fantasma,
não há braço"
E entra numa espécie de negação
— anula os sinais.
Quando o braço desaparece,
a vantagem é que a dor desaparece,
porque não podemos ter dores extracorporais
a flutuar pelo espaço.
É essa a vantagem.
Esta técnica foi aplicada
por outros grupos, em Helsínquia,
em dezenas de pacientes,
para provar a sua eficácia como tratamento
para os membros fantasma.
Fizeram-se testes
para a reabilitação de doentes de AVC.
Pensa-se nos AVC
como uma lesão das fibras,
onde nada há a fazer.
Mas acontece que alguma componente
da paralisia derivada do AVC
é também paralisia aprendida,
e talvez essa componente
possa ser ultrapassada usando espelhos.
Isto também foi sujeito
a ensaios clínicos,
ajudando muitos pacientes.
Vou avançar agora para a terceira parte
da minha palestra,
que é sobre um outro fenómeno curioso
chamado sinestesia.
Foi descoberto por Francis Galton
no século XIX.
Ele era primo de Charles Darwin.
Ele verificou que certas pessoas
na população,
completamente normais, apresentavam
a seguinte peculiaridade:
sempre que veem um número,
veem-no a cores.
O cinco é azul, o sete é amarelo,
o oito é verde-limão,
o nove é indigo.
Lembrem-se, estas pessoas
são totalmente normais noutros aspetos.
Ou o dó sustenido.
Às vezes os tons evocam cores.
O dó sustenido é azul,
o fá sustenido é verde,
outra nota pode ser amarela.
Porque acontece isto?
Isto chama-se sinestesia
— Galton chamou-lhe sinestesia,
uma mistura dos sentidos.
Em nós, todos os sentidos são distintos.
Estas pessoas misturam os sentidos.
Porquê?
Um dos dois aspetos deste problema
é absolutamente fascinante.
A sinestesia ocorre em famílias,
então Galton disse que tem
uma base hereditária, uma base genética.
Em segundo lugar, a sinestesia consiste
— e é aqui que toco no tema principal
desta palestra, que é a criatividade —
a sinestesia é oito vezes mais comum
entre artistas, poetas, escritores
e outras pessoas criativas
do que na população geral.
Porque será isto?
Vou responder a esta pergunta.
Nunca antes foi respondida.
Muito bem, o que é a sinestesia?
O que a causa?
Há muitas teorias.
Uma teoria diz que eles são doidos.
Não é bem uma teoria científica,
por isso esqueçamo-la.
Outra teoria diz que eles são adeptos
dos ácidos e da erva.
Pode haver alguma verdade nisto,
uma vez que é muito mais comum
aqui na Bay Area do que em São Diego.
(Risos)
Já a terceira teoria diz que...
perguntemo-nos a nós próprios
o que realmente se passa na sinestesia.
Descobrimos que a área das cores
e a área dos números
estão lado a lado no cérebro,
na circunvolução fusiforme.
Então dizemos que há
algumas ligações cruzadas
entre cores e números, no cérebro.
Sempre que olham para um número,
veem uma cor correspondente,
e é por isso que têm sinestesia.
Porque é que isto acontece?
Porque é que algumas pessoas
teriam ligações cruzadas?
Lembram-se que eu disse
que ocorre em famílias?
Isso dá-vos a pista.
Há um gene anómalo, uma mutação no gene,
que causa este cruzamento anormal.
Ao que parece, todos nós
nascemos com tudo ligado a tudo.
Cada região do cérebro está ligada
a todas as outras regiões,
e estas vão sendo modeladas para criar
a arquitectura modular característica
do cérebro adulto.
Se existir um gene
que cause esta modelagem,
e se esse gene sofrer uma mutação,
ocorre uma modelagem deficient
entre áreas adjacentes do cérebro.
Se for entre números e cores,
ficam com sinestesia número-cor.
Se for entre notas e cores,
ficam com sinestesia nota-cor.
Até aqui, tudo bem.
E se esse gene for expresso
por todo o cérebro,
fazendo com que tudo esteja ligado
em cruzamento?
Pensem naquilo que artistas, escritores
e poetas têm em comum,
a capacidade de produzir
pensamento metafórico,
ligando ideias aparentemente desligadas,
como: "é o Este, e a Julieta é o Sol."
Não se diz que a Julieta é o Sol
— quererá isto dizer que ela é
uma bola de fogo incandescente?
Os esquizofrénicos fazem-no,
mas é uma história diferente.
As pessoas normais dizem
que ela é quente como o Sol,
que irradia como o Sol,
que alimenta como o Sol.
Descobriram logo as ligações.
Se assumirem que este cruzamento
em maior escala e os conceitos
estão presentes
em partes diferentes do cérebro,
isto irá originar uma maior propensão
para o pensamento metafórico
e a criatividade
nas pessoas com sinestesia.
E, daí, a incidência da sinestesia,
oito vezes mais comum
entre poetas, artistas e escritores.
É uma visão muito frenológica
da sinestesia.
A última demonstração
— dão-me mais um minuto?
(Aplausos)
Vou mostrar-vos que todos têm sinestesia,
mas que negam isso.
Isto é o que eu chamo alfabeto marciano,
tal e qual o nosso alfabeto.
A é A, B é B. C é C,
formas diferentes
para fonemas diferentes.
Aqui têm alfabelo marciano.
Um deles é o Kiki, o outro é o Buba.
Qual é o Kiki e qual é o Buba?
Levante o braço quem acha
que este é o Kiki e aquele é o Buba.
Bem, são um ou dois mutantes.
Levante o braço quem acha
que este é o Buba e aquele é o Kiki.
São 99%.
Mas, nenhum de vós é marciano.
Como o conseguiram?
É porque todos estão a fazer
um modelo cruzado — abstração sinestésica —
ou seja, dizem
que aquela inflexão aguda, Kiki,
no vosso córtex auditivo,
as células pilosas excitadas, Kiki,
mimetiza a inflexão visual
— inflexão repentina —
daquela forma pontiaguda.
Isto é muito importante,
porque o que vos está a dizer
é que o vosso cérebro
está a tentar perceber
— segundo parece —
uma parva ilusão primitiva.
Os fotões nos vossos olhos
estão a registar esta forma,
e as células pilosas nos ouvidos
estão a excitar o padrão auditivo,
e o cérebro é capaz de extrair
o denominador comum.
É uma forma primitiva de abstração.
Sabemos agora que isto acontece
na circunvolução fusiforme do cérebro,
porque quando aquele está danificado,
as pessoas perdem a capacidade
para diferenciar Buba e Kiki,
mas perdem também a capacidade
para compreender metáforas.
Se perguntarem a esssa pessoa :
"Qual é o significado de
" 'Nem tudo o que reluz é ouro' "?
O paciente diz: "Se é de metal e brilhante,
não quer dizer que seja ouro.
"Terá de se medir a sua massa específica".
Passa completamente ao lado
do significado metafórico.
Esta área é cerca de oito vezes maior
nos primatas superiores,
principalmente nos seres humanos,
e nos primatas inferiores.
Passa-se algo muito interessante
na circunvolução angular,
devido aos caminhos cruzados
entre a audição, a visão e o tacto,
e tornou-se enorme nos seres humanos
— e passa-se algo muito interessante.
E penso que é essa a base
de muitas capacidades humanas únicas
como a abstração,
a metáfora e a criatividade.
Estas questões que os filósofos
estudam há milénios,
nós cientistas podemos começar
a explorá-las mediante a imagiologia cerebral
e estudando pacientes
e fazendo as perguntas certas.
Obrigado.
(Aplausos)