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Showing Revision 18 created 10/03/2020 by Raissa Mendes.

  1. Riitta Ikonen: Conheça nosso amigo Bob.
  2. Nos conhecemos em uma noite de inverno
  3. na New York Indoor Gardening Society,
    uma associação de jardins internos.
  4. E um dos frequentadores
    era este cavalheiro carismático
  5. estudando as maravilhas
    das plantas carnívoras.
  6. Nós estávamos lá
  7. procurando colaboradores
    para um projeto artístico
  8. que analisava o pertencimento
    do homem moderno à natureza.
  9. Karoline Hjorth: Não resistimos
    e passamos um bilhete dizendo ao Bob
  10. que queríamos saber mais sobre ele.
  11. No dia seguinte, ele nos ligou
    e declarou animado:
  12. "Esta não é uma época da minha vida
    que eu queira passar na cama".
  13. E, na semana seguinte,
  14. estávamos todos na linha J do metrô
    para Forest Park, no Queens.
  15. RI: Bob trabalhou por décadas
  16. com fotografia de moda em Nova Iorque,
  17. e ele precisou ser substituído
    por três pessoas
  18. quando finalmente decidiu
    partir para novas aventuras.
  19. Bob concordou em colaborar conosco
  20. com a condição de não mexermos no estilo
  21. que ele levou décadas para aperfeiçoar.
  22. Então nós prometemos fazer isso,
  23. e só acrescentamos
    umas folhas de pinheiro.
  24. Talvez você esteja se perguntando
  25. por que estávamos no parque podando
    a boina de folhas de pinheiro do Bob
  26. para começo de conversa.
  27. Nos conhecemos alguns anos antes,
  28. quando eu pesquisava na internet,
  29. buscando um colaborador
    para um projeto artístico
  30. para analisar a relação
    do homem moderno com a natureza.
  31. Fiz o que pessoas fazem,
  32. fui ao Google e digitei três palavras:
  33. "Noruega",
  34. "avós" e "fotógrafo".
  35. E cliquei no primeiro resultado da busca,
  36. que era a Karoline Hjorth.
  37. (Risos)
  38. KH: Eu tinha acabado de lançar
    um livro sobre avós norueguesas.
  39. E, a princípio, nos juntamos
  40. para analisar como fenômenos naturais
    eram explicados da perspectiva humana.
  41. E começamos a pesquisar o folclore
  42. numa pequena cidade litorânea da Noruega.
  43. RI: Supusemos que, quanto mais velho
    fosse o entrevistado local,
  44. mais próximas estaríamos
    das pedras falantes dessas histórias.
  45. KH: Agnes, por exemplo, é a avó
    paraquedista mais velha da Noruega.
  46. O último salto dela foi aos 91 anos.
  47. E esse retrato é uma homenagem
    ao lendário vento norte
  48. muito destacado no folclore nórdico.
  49. Conhecemos outro personagem lendário,
    chamado Lyktemann,
  50. num pântano nos arredores de Oslo.
  51. A presença de Lyktemann como luzes
    misteriosas foi registrada por séculos
  52. em muitas culturas diferentes,
    sob muitos nomes diferentes,
  53. como João-galafoice, fogo-fátuo
  54. ou boitatá.
  55. A visão atual
  56. ou a explicação atual para essas luzes
  57. é que elas são o produto
    da ignição de metano.
  58. A visão mais audaciosa
  59. é que uma figura aparece
    quando a neblina baixa,
  60. e há viajantes desavisados
    que se perdem no caminho.
  61. RI: Ele é conhecido por ser
    uma figura bem maliciosa,
  62. nunca revelando a verdadeira natureza
    das suas intenções.
  63. KH: E como Bengt é especialista
    em astronavegação,
  64. um ex-capitão de submarino
  65. e previamente oficial imediato
    do veleiro Christian Radich,
  66. Bengt foi a personificação
    perfeita do Lyktemann.
  67. RI: Na nossa missão inicial
  68. de analisar o papel
    do folclore contemporâneo,
  69. fomos rapidamente desprezadas
  70. por estudar algo visto
    como histórias infantis para dormir.
  71. Até dizer a palavra "folclore"
    já deixava as pessoas confusas.
  72. KH: E não era só o sotaque.
  73. (Risos)
  74. RI: Até tivemos um ceramista local
    de oitava geração afirmando
  75. que pessoas dessa região
  76. foram responsáveis por algumas
    das melhores invenções do país,
  77. e elas não tinham tempo de procurar
    chifre em cabeça de cavalo.
  78. Essa rejeição foi exatamente
    o que precisávamos
  79. para continuarmos
    bisbilhotando sobre o tema.
  80. (Risos)
  81. KH: Continuamos a entrevistar pessoas
  82. sobre seu relacionamento com o ambiente
  83. e começamos a questionar
  84. o que estava acontecendo
    com a imaginação delas.
  85. Nossa relação com a natureza pode mesmo
    ser explicada tão pragmaticamente,
  86. tão tediosamente,
  87. que uma pedra é só uma boa e velha pedra,
  88. e um lago é um lugar molhado qualquer,
  89. completamente dissociado de nós?
  90. Os ambientes podem mesmo ser explicados
    num grau tão enfadonho de racionalidade?
  91. RI: O nome do nosso projeto,
    "Eyes as Big as Plates",
  92. é derivado de um conto popular.
  93. E tem um com um cachorro
    que vive embaixo da ponte,
  94. e outra versão na qual é um troll
    na mesma situação.
  95. E essa abordagem atenta
    e potencialmente arriscada
  96. de ver o mundo ao redor
  97. se tornou um símbolo da curiosidade
    que guia nossas interações.
  98. KH: O acaso é nosso gerente de projetos.
  99. E idealmente encontramos
    colaboradores pelo mero acaso.
  100. Na outra raia da piscina,
  101. no ensaio do coral,
  102. num restaurante oriental
  103. ou em um porto senegalês,
  104. como queira.
  105. Cada imagem começa com uma conversa,
  106. como uma entrevista casual.
  107. RI: E nunca chamamos
    os colaboradores de "modelos",
  108. porque há três autores para cada imagem,
  109. todos igualmente indispensáveis
    à realização do seu retrato.
  110. Não há limite de idade,
  111. absolutamente qualquer um
    que tenha vivido uma vida interessante
  112. é qualificado para participar.
  113. KH: Este é Boubou.
  114. O genro dele estava nesse porto
  115. quando chegamos procurando por locações.
  116. E depois de uma visita inesperada
    e muitas compras no mercado de peixes,
  117. Boubou e sua família se meteram
    em uma maré baixa conosco.
  118. RI: Uma escultura de vestir
    nasce da conversa
  119. com cada colaborador
  120. e é feita de materiais
    encontrados nos arredores.
  121. Cerca de um terço da terra arável
    do Senegal é dedicada ao painço,
  122. um material que causa
    uma coceira incrível ao ser usado,
  123. nutriente e resistente
    com profundas raízes culturais.
  124. Esta é Mane,
  125. uma das bisavós da vila Ndos,
  126. um furacão de vigor e energia.
  127. E ela aplaudiu nosso convite
  128. para retratá-la em sua plantação favorita
  129. na qual ela trabalha todos os dias.
  130. KH: É importante
    a participação ser voluntária.
  131. (Risos)
  132. Se você tem dúvidas no começo,
  133. definitivamente irá se arrepender
  134. quando Riita estiver enfiando
    macroalgas frias e molhadas no seu nariz.
  135. (Risos)
  136. Usar uma câmera analógica
    significa que o processo pode ser lento
  137. e fisicamente desafiador.
  138. A pessoa em frente à câmera
  139. pode ficar ajoelhada
    por três horas no granizo,
  140. ser bombardeada por mosquitos
  141. ou, até mesmo, pode ser alérgica
  142. à flora local com a qual
    acabou de ser coberta
  143. RI: E muitas outras coisas.
  144. (Risos)
  145. E então, é claro, temos os elementos.
  146. Imprevisibilidade
    é uma das principais forças
  147. que mantém o processo interessante.
  148. Por exemplo, na Islândia,
  149. estávamos a todo vapor,
    fotografando por duas semanas,
  150. sem saber que a câmera
    não estava funcionando direito.
  151. Uh, né?
  152. KH: E, como usamos câmeras analógicas
  153. com rolos de filmes reais,
  154. a empolgação com as sessões
    de fotos continua
  155. até pegarmos os negativos no laboratório.
  156. RI: Felizmente, Edda, retratada aqui,
  157. foi um das poucas captadas
    em filme na Islândia.
  158. Retratada aqui em meio a uma fumegante
    e borbulhante fonte termal
  159. entre duas placas tectônicas.
  160. Supostamente, existem
    passarinhos de fontes termais
  161. que mergulham nas bolhas,
  162. e, de acordo com a lenda,
  163. eles representam as almas dos mortos.
  164. Temos a honra
  165. de trabalhar com algumas das pessoas
    mais resistentes, corajosas e legais,
  166. e apreciar completamente
  167. como alguns desses trabalhos e retratos
    destroem estereótipos sobre idade,
  168. gênero e nacionalidade.
  169. KH: Para nós, muito do mundo ocidental
    é desnecessariamente confuso
  170. no que diz respeito à utilidade
  171. dessa demografia totalmente rock'n'roll.
  172. (Risos)
  173. RI: Atitude, experiência de vida e energia
    são algumas das principais características
  174. que encontramos entre todos
    os nossos colaboradores,
  175. assim como uma curiosidade formidável
    por novas experiências.
  176. KH: Percebemos que as figuras
    solitárias em nossas imagens
  177. são cada vez mais vistas
    como representações da Era da Solidão,
  178. conhecida como Eremoceno.
  179. RI: Estamos tentando incentivar
  180. uma nova forma de participar
    e se comunicar com o ambiente.
  181. KH: Há o pressuposto
  182. de que humanos criaram
    uma nova era geológica,
  183. e precisamos aprender
    qual o nosso papel nela.
  184. RI: Trabalharemos com fazendeiros,
  185. cosmólogos, geoecólogos,
  186. etnomusicólogos e biólogos marinhos
  187. para ver como a arte pode mudar
    o modo como pensamos, agimos e vivemos.
  188. KH: Não está claro quem ou o que
    é o protagonista do nosso trabalho,
  189. se é a figura humana
    ou a natureza ao redor dela,
  190. e gostamos disso.
  191. Com 10 anos e 15 países no projeto,
  192. não temos certeza de como, se,
    ou quando esse projeto vai terminar.
  193. Prometemos continuar
    enquanto for divertido,
  194. e continuaremos fazendo novas imagens
    e mais livros que explorem...
  195. KH: ... como equilibrar a vida
    em meio aos efeitos da crise climática.
  196. O escritor Roy Scranton belamente resumiu
  197. como nosso projeto pode ser abordado.
  198. "Precisamos aprender a ver,
  199. não apenas com os olhos ocidentais,
  200. mas com olhos islâmicos
    e olhos esquimós,
  201. não apenas com olhos humanos,
    mas com olhos do tentilhão de ouro texano,
  202. olhos de salmão prateado
  203. e olhos de ursos polares,
  204. e nem mesmo só com os olhos,
  205. mas com o selvagem
    e inarticulado ser das nuvens e mares
  206. e mares e pedras e árvores e estrelas."
  207. RI: Talvez, se começássemos a nos ver
    através dos olhos do salmão prateado,
  208. poderíamos nos sincronizar melhor
    com companheiros da flora, fauna e funga.
  209. Fazer isso requer imaginação e empatia.
  210. E curiosidade está na raiz de ambas.
  211. KH: Como um dos primeiros colaboradores
    nossos, Halvar disse quase 10 anos atrás:
  212. "Se você deixa de ser curioso,
  213. é como se estivesse morto".
  214. RI e KH: Obrigada.
  215. (Risos)
  216. (Aplausos) (Risos)