Portuguese subtitrări

← A diferença entre "não ser racista" e ser antirracista

Obține codul încorporat
22 Languages

Showing Revision 22 created 08/29/2020 by Isabel Vaz Belchior.

  1. Cloe Shasha: Bem-vindo, Ibram,
  2. e muito obrigada por se juntar a nós.
  3. Ibram X. Kendi: Obrigado, Cloe, e Whitney,

  4. e obrigado a todos por
    participarem desta conversa.
  5. Há algumas semanas,
  6. neste mesmo dia, nós soubemos
    da morte brutal de George Floyd.
  7. Também soubemos
    que uma mulher branca, no Central Park,
  8. que não quis pôr a coleira no cão,
  9. ao ser solicitada a colocá-la,
    por um homem negro.
  10. em vez disso,
    decidiu ameaçar esse negro,
  11. em vez disso,
    decidiu chamar a polícia,
  12. e alegar que estava a ser ameaçada.
  13. E claro, quando assistimos
    a isso, em vídeo,
  14. muitos de nós, norte-americanos,
    ficámos indignados.
  15. Esta mulher, Amy Cooper,
  16. foi à rede nacional de televisão
  17. para dizer, como inúmeros
    norte-americanos já disseram,
  18. logo após protagonizarem
    um ato racista:
  19. "Eu não sou racista."
  20. E digo inúmeros americanos,
  21. porque quando, de facto, pensamos
    na história dos norte-americanos
  22. que expõem as suas ideias racistas,
  23. que apoiam políticas racistas,
  24. estamos, de facto, a falar
    na história de um povo
  25. que alega não ser racista,
  26. porque toda a gente alega não ser racista
  27. — quer estejamos a falar
    das Amy Cooper do mundo,
  28. ou de Donald Trump,
  29. que, logo depois de dizer que a região
    de maioria negra em Baltimore
  30. é uma zona de ratos e roedores na qual
    nenhum ser humano gostaria de viver,
  31. e foi apontado como racista,
  32. respondeu: "Na verdade,
    eu sou a pessoa menos racista do mundo."
  33. Realmente o pulsar do racismo em si
  34. sempre foi de negação,
  35. e o som dessa pulsação sempre foi:
  36. "Eu não sou racista."
  37. Então, o objetivo do meu trabalho

  38. é fazer com que os norte-americanos
    eliminem do seu vocabulário
  39. o conceito de "não racista"
  40. e percebam que ou estamos
    a ser duplamente racistas
  41. ou somos antirracistas.
  42. Expressamos ideias que sugerem
    que certos grupos raciais
  43. são melhores ou piores do que outros,
  44. ou superiores ou inferiores a outros.
  45. Ou estamos a ser racistas,
  46. ou a ser antirracistas.
  47. Estamos a expor o conceito
    de que os grupos raciais são iguais,
  48. a despeito das diferenças culturais
    e até mesmo étnicas.
  49. Estamos a apoiar políticas
  50. que levam à desigualdade
    racial e a injustiças,

  51. como vimos em Louisville,
    onde Breonna Taylor foi assassinada,
  52. ou estamos a apoiar e a pressionar
  53. políticas de justiça
    e igualdade para todos.
  54. Então, penso que devemos
    ser bastante claros

  55. sobre se estamos a expressar
    ideias racistas,
  56. sobre se estamos a apoiar
    políticas racistas,
  57. e reconhecer quando o fazemos,
  58. porque ser antirracista
  59. é reconhecer quando expressamos
    uma ideia racista, é dizer:
  60. "Querem saber?
  61. "Quando estava a fazer aquilo
    no Central Park,
  62. "eu estava, de facto, a ser racista.
  63. "Mas vou mudar.
  64. "Vou esforçar-me por ser antirracista."
  65. E ser racista
  66. é negar constantemente
  67. as desigualdades sociais que permeiam
    a sociedade norte-americana,
  68. é negar constantemente as ideias racistas
    que permeiam as mentes norte-americanas.
  69. Por isso, quero construir
    uma sociedade justa e igualitária
  70. e a única forma de nivelarmos isso
    começa com este processo
  71. de reconhecer o nosso racismo
  72. e começar a construir
    um mundo antirracista.
  73. Obrigado.
  74. CS: Muito obrigada por essas palavras.

  75. O Ibram sabe que o seu livro
    "How to Be an Antiracist,"
  76. tornou-se um "bestseller"
    à luz do que tem acontecido,
  77. e o Ibram fala um pouco
  78. sobre a forma como o racismo
    e o antirracismo
  79. são as únicas posições opostas
    a partilharem uma visão sobre o racismo.
  80. Gostaria de saber se nos
    poderia falar um pouco mais
  81. sobre quais são os princípios
    básicos do antirracismo
  82. para esclarecer o tema para os que
    não identificam as suas atitudes
  83. como antirracistas.
  84. IXK: Claro. Eu mencionei
    na minha palestra

  85. que a força motriz do racismo é a negação,
  86. e a genuína força motriz
    do antirracismo é a confissão,
  87. é o reconhecimento de que,
    para amadurecermos nesta sociedade,
  88. literalmente,
  89. precisamos de interiorizar,
    a certa altura da nossa vida,
  90. provavelmente ideias racistas,
  91. ideias que sugerem que certas raças
    são melhores ou piores do que outras.
  92. E porque acreditamos
    na hierarquia racial,
  93. porque os norte-americanos foram
    sistematicamente ensinados
  94. que as pessoas negras
    são mais perigosas,
  95. que as pessoas negras são mais
    propensas à criminalidade,
  96. quando vivemos numa sociedade
    na qual os negros
  97. são 40% da população nacional
    encarcerada,
  98. isto parece normal às pessoas.
  99. Quando vivemos numa sociedade,
  100. numa cidade como Minneapolis,
  101. onde os negros correspondem
    a 20% da população,
  102. porém mais de 60% são sujeitos
    a tiros da polícia,
  103. isto parece normal.
  104. Então, ser antirracista
  105. é acreditar que não há nada errado
  106. ou inferior em relação aos negros
    ou qualquer outra raça.
  107. Não há nada perigoso
  108. em relação aos negros
    ou qualquer outra raça.
  109. Quando vemos estas disparidades
    raciais à nossa volta,
  110. vemo-las como anormais,
  111. e começamos a pensar:
  112. Que políticas é que estarão
  113. por detrás de tantos negros
    serem mortos pela polícia?
  114. Que políticas estarão por detrás
    do facto de tantos latinos
  115. estarem a ser desproporcionalmente
    infetados pelo COVID?
  116. Como posso fazer parte de uma luta
  117. para invalidar políticas e substituí-las
    por políticas antirracistas?
  118. Whitney Pennington Rodgers:
    Então parece que você, de facto,

  119. faz uma distinção entre
    os não racistas e os antirracistas.
  120. Você poderá falar um pouco mais
    sobre isto em pormenor?
  121. Qual a diferença entre os dois?
  122. IXK: Do modo mais simples,

  123. um não racista é um racista em negação,
  124. e um antirracista é alguém
  125. capaz de reconhecer
    quando está a ser racista,
  126. que é capaz de reconhecer
  127. as desigualdades e os
    problemas raciais da nossa sociedade,
  128. que é capaz de desafiar
    essas desigualdades raciais
  129. contestando políticas.
  130. Digo isso porque, de facto, esclavagistas
    e traficantes de escravos
  131. acreditavam que as suas ideias
    não eram racistas nestes termos.
  132. Eles diriam coisas como:
  133. "Os negros são os descendentes
    amaldiçoados de Ham
  134. "e serão amaldiçoados como
    escravos eternamente."
  135. Isto não significa: "Não sou racista."
  136. Significa: "A Lei Divina."
  137. Eles diriam coisas como, você sabe:
  138. "Com base na ciência, na etnologia,
  139. "ou na história natural,
  140. "os negros, por natureza,
  141. "estão predispostos
    à escravidão e servidão.
  142. "Esta é a lei natural. Não sou racista.
  143. "Na verdade, estou a cumprir um papel
    que por natureza devo cumprir."
  144. Assim, esta construção de não ser racista
    e de negar o racismo
  145. vem de lá de trás,
    das origens deste país.
  146. CS: Sim.

  147. E porque é que acha
    que ainda tem sido tão difícil
  148. para algumas pessoas aceitarem
    que a neutralidade não é suficiente
  149. quando se trata de racismo?
  150. IXK: Acho que é porque dá
    muito trabalho ser antirracista.

  151. Tem que se ser muito vulnerável, certo?
  152. Você tem que ser capaz de admitir
    que está errado.
  153. Você tem de ser capaz de reconhecer
  154. que, se tem mais posses,
    se é branco, por exemplo,
  155. e se possui mais,
  156. não é porque é superior.
  157. Você tem de reconhecer que,
    sim, trabalhou duro,
  158. em capacidade máxima,
    na sua vida,
  159. mas que também teve algumas vantagens
  160. que lhe abriram oportunidades
  161. que outras pessoas não tiveram.
  162. É preciso reconhecer essas coisas,
  163. e é muito difícil
  164. ser autocrítico publicamente,
    e até particularmente, .
  165. Acho que este também é o caso,

  166. e deveria ter iniciado desta forma,
  167. de como as pessoas definem
    a palavra "racista."
  168. Algumas pessoas
    tendem a definir "racista"
  169. como uma categoria fixa,
  170. como uma identidade.
  171. Isto é essencial para definir
    um indivíduo.
  172. Alguém se torna racista.
  173. E desta forma...
  174. Desta forma também se associa o racista
    a uma pessoa ruim, cruel.
  175. Associa-se o racista a um integrante
    do Ku Klux Klan.
  176. E eles dizem: "Não sou do Ku Klux Klan,
  177. "não sou uma má pessoa
  178. "e tenho feito o bem na vida.
  179. "Tenho feito o bem às pessoas de cor.
  180. "Por isso, não posso ser racista.
  181. "Não sou. Não é minha identidade."
  182. Na verdade, não é assim que devemos
    definir a palavra racista.
  183. Racista é um termo descritivo.
  184. Descreve o que uma pessoa
    diz ou faz em determinado momento,
  185. ou seja, quando alguém, em algum momento,
  186. expressa um conceito racista,
  187. naquele momento está a ser racista
    ao dizer que os negros são preguiçosos.
  188. Se, no momento seguinte,
  189. está a apreciar a cultura
    dos povos nativos,
  190. está a ser antirracista.
  191. WPR: Passaremos para algumas perguntas

  192. da nossa comunidade, em breve,
  193. mas eu acredito que, quando muitos
    entendem o conceito apresentado,
  194. a ideia de antirracismo,
  195. há este sentimento
    de que isto se refere apenas
  196. à comunidade branca.
  197. Assim, poderia falar mais sobre
    como a comunidade negra
  198. e não branca e outras minorias étnicas
  199. podem tomar parte e refletir
    sobre a ideia de antirracismo?
  200. IXK: Claro.

  201. Então, se os norte-americanos brancos
    normalmente afirmam: "Não sou racista,"
  202. as pessoas de cor
    normalmente dizem:
  203. "Não posso ser racista,
  204. "porque sou uma pessoa de cor."
  205. Então, algumas pessoas de cor
    dizem que não podem ser racistas
  206. porque não detêm poder para isso.
  207. Portanto, em primeiro lugar,
  208. o que tenho tentado fazer
    no meu trabalho é ir contra a ideia
  209. de que pessoas de cor não detêm o poder.
  210. Não há nada mais desencorajador
  211. para dizer ou pensar,
    como uma pessoa de cor,
  212. do que dizer que não se tem poder.
  213. As pessoas de cor há muito usam
    o poder mais fundamental
  214. que um ser humano pode ter,
  215. que é o poder de resistir às políticas,
  216. o poder de resistir às políticas racistas,
  217. o poder de resistir à sociedade racista.
  218. Mas, se forem uma pessoa de cor,
  219. e acreditarem que as pessoas
    que vêm para cá
  220. das Honduras ou de El Salvador
  221. estão a invadir o país,
  222. e acreditarem que os imigrantes latinos
  223. são animais e violadores,
  224. então vocês, certamente,
    sejam negros, asiáticos ou nativos,
  225. não farão parte da luta
  226. em defesa dos imigrantes latinos,
  227. para reconhecer que eles
    têm muito a oferecer a este país
  228. assim como qualquer outro grupo.
  229. Vocês verão essas pessoas
    como "ameaças ao vosso emprego,"
  230. e, dessa forma, apoiarão
    a retórica racista,
  231. apoiarão as políticas racistas,
  232. apesar de, provavelmente,
    isso ser prejudicial a vocês mesmos,
  233. por outras palavras, será nocivo,
  234. se vocês forem negros, imigrantes
    do Haiti ou da Nigéria,
  235. se forem asiáticos ou
    imigrantes vindos da Índia.
  236. Então, é de grande importância
    até para pessoas de cor
  237. compreender que elas têm
    o poder de resistir,
  238. e quando as pessoas de cor
  239. consideram outras pessoas de cor
    como sendo o problema,
  240. não vão ver o racismo
    como o problema.
  241. E qualquer um que não veja
    o racismo como o problema,
  242. não está a ser antirracista.
  243. CS: O Ibram mencionou isto no início,

  244. mas tem estado a falar sobre
    como o racismo é a razão
  245. para que as comunidades negras e de cor
  246. sejam sistematicamente
    desfavorecidas nos EUA,
  247. o que levou a muito mais mortes
    por COVID-19 nestas comunidades.
  248. No entanto, os "media" frequentemente
    culpam as pessoas de cor
  249. pela sua vulnerabilidade à doença.
  250. Por isso, gostaria de saber,
    na mesma linha,
  251. qual é a relação entre o antirracismo
  252. e uma potencial mudança sistémica?
  253. IXK: Eu acho que é uma relação direta.

  254. porque quando se é...
  255. Quando alguém acredita
    e absorveu ideias racistas
  256. não vai sequer achar
    que a mudança seja necessária,
  257. porque vai acreditar
    que a desigualdade racial é normal.
  258. Ou não vai acreditar
    na possibilidade de mudança.
  259. Por outras palavras,
    vai acreditar que a razão
  260. por que os negros estão a ser mortos
    pela polícia, em índices tão altos
  261. ou a razão por que os latinos
    estão a ser infetados em índices elevados
  262. é porque há algo de errado com eles,
  263. e nada pode ser mudado.
  264. Então, vocês nem começarão
    a perceber a necessidade
  265. de uma mudança estrutural do sistema,
  266. e muito menos fazer parte da luta
    pela mudança estrutural do sistema.
  267. Então, para ser antirracista,
    mais uma vez,
  268. é preciso reconhecer
  269. que há apenas duas causas
    para a desigualdade racial:
  270. que há algo errado com as pessoas,
  271. ou que há algo errado
    com o poder e as políticas.
  272. E se vocês concluírem que não há nada
    de errado com nenhum grupo social,
  273. e digo grupos...
  274. não digo indivíduos.
  275. Há certamente algumas pessoas negras
  276. que não levaram o coronavírus a sério,
  277. o que é uma das razões
    por que foram infetadas.
  278. Porém, há pessoas brancas
    que não levaram o coronavírus a sério.
  279. Nunca ninguém provou
    que os estudos mostram
  280. que os negros são mais aptos
    a levar o coronavírus a sério
  281. do que os brancos.
  282. Não estamos a falar de indivíduos,
  283. e certamente não devemos
    individualizar os grupos.
  284. Certamente não devemos analisar
    o comportamento individual
  285. de um único latino ou negro,
  286. e dizer que eles representam um grupo.
  287. Este é um conceito racista em si mesmo.
  288. Estou a falar de grupos,
  289. e se acreditamos que os grupos são iguais,
  290. então a única outra alternativa,
  291. a única explicação para persistir
    com a desigualdade e injustiça,
  292. é poder e políticas.
  293. Assim, usar o nosso tempo a transformar
    e a desafiar o poder e as políticas
  294. é usá-lo de modo antirracista.
  295. WPR: Temos algumas perguntas do público.

  296. A primeira vem de um membro
    da comunidade que pergunta:
  297. "Quando falamos de
    privilégio branco,
  298. "falamos também sobre o privilégio
    de não termos as conversas difíceis.
  299. "Você sente que isto
    está a começar a mudar?"
  300. IXK: Eu espero que sim,

  301. porque acho
  302. que os norte-americanos brancos
  303. também precisam de reconhecer,
    ao mesmo tempo,
  304. os seus privilégios,
  305. os privilégios que acumularam
  306. em resultado de sua cor branca,
  307. e a única forma por que
    poderão fazer isso
  308. é iniciando e tendo estas conversas.
  309. Porém, eles também devem reconhecer
    que têm mais posses,
  310. os norte-americanos brancos
    possuem mais,
  311. devido às políticas racistas,
  312. mas a pergunta que eu acho
    que eles deveriam fazer,
  313. particularmente quando
    estão a conversar entre eles, é:
  314. "Se tivéssemos uma sociedade
    mais igualitária,
  315. "nós possuiríamos mais?"
  316. Porque o que pergunto
  317. é se os norte-americanos brancos
    possuem mais por causa do racismo,
  318. mas há outros grupos
    noutras democracias ocidentais
  319. que têm mais do que
    os norte-americanos brancos,
  320. e começamos a perguntar-nos:
  321. Porque é que as pessoas de outros países
    têm assistência à saúde gratuita?
  322. Porque é que têm
    licença de maternidade remunerada?
  323. Porque é que eles têm
    uma ampla rede de segurança social?
  324. Porque é que eles têm e nós não?
  325. E uma das grandes respostas
  326. ao porquê de não termos
    isso aqui, é o racismo.
  327. Uma das principais respostas
  328. para o facto de Donald Trump
    ser o presidente dos EUA
  329. é o racismo.
  330. Então, não estou a pedir
  331. que os norte-americanos brancos
    sejam altruístas,
  332. para se tornarem antirracistas.
  333. Estamos, de facto, a pedir às pessoas
  334. que sejam inteligentes
    no seu próprio interesse.
  335. Os quatro milhões, ou cinco milhões
    de brancos pobres em 1860,

  336. cuja pobreza era o resultado direto
  337. da riqueza de alguns milhares
    de famílias donas de escravos,
  338. no intuito de desafiar a escravidão,
  339. não estávamos a pedir
    que fossem altruístas.
  340. Não, na verdade,
  341. precisávamos que fizessem
    o que fosse no seu próprio interesse.
  342. As dezenas de milhões
    de norte-americanos, brancos,
  343. que perderam os seus empregos
  344. em resultado desta pandemia,
  345. não estamos a pedir que sejam altruístas.
  346. Pedimos que reconheçam que,
    se tivéssemos um governo diferente,
  347. com diferentes prioridades,
  348. eles estariam muito melhor agora.
  349. Desculpem, não me façam começar.
  350. CS: Não, até agradecemos. Obrigada.

  351. E em adição a isso,
  352. obviamente os protestos e este movimento
    levaram a alguns progressos:
  353. à remoção de monumentos confederados,
  354. ao compromisso da Câmara de Minneapolis
  355. em acabar com o departamento
    da polícia, etc.
  356. Mas o que é que o Ibraim considera ser
    a maior prioridade das forças policiais
  357. caso esta luta pela justiça continue?
  358. Há outros meios de aprender
    com os outros países?
  359. IXK: Na verdade, eu não acho
    que haja, necessariamente,

  360. um tipo de política prioritária única.
  361. Quero dizer, se preciso mesmo responder,
  362. provavelmente diria que há duas,
    que são:
  363. assistência médica gratuita
    de alta qualidade para todos.
  364. E, quando digo alta qualidade,
  365. não estou a falar apenas
    do "Medicare For All".
  366. Falo de um cenário paralelo
  367. em que o sudoeste rural da Geórgia,
  368. onde as pessoas são
    predominantemente negras
  369. e há um dos mais altos índices
    de mortes no país, de COVID
  370. nessas regiões no sudoeste da Georgia,
  371. deveriam ter acesso à assistência médica
  372. da mesma boa qualidade que
    as pessoas em Atlanta e Nova Iorque têm,
  373. e, ao mesmo tempo,
  374. uma assistência gratuita.
  375. Este ano há muitos americanos
    que não estão a morrer apenas de COVID
  376. mas também de doenças
    do coração e de cancro,
  377. que são as causas número um de mortes
    de americanos antes da COVID
  378. e a maioria deles é
    desproporcionalmente negra.
  379. Por isso eu diria que,

  380. em segundo lugar, reparação.
  381. Muitos americanos alegam
  382. que acreditam em igualdade racial,
  383. que querem abraçar a igualdade racial.
  384. Muitos americanos reconhecem o quão
    crítica está a situação económica
  385. para cada pessoa neste país,
    neste sistema económico.
  386. Mas ao mesmo tempo muitos rejeitam
    ou não apoiam as reparações.
  387. Assim, temos uma situação
  388. em que os americanos brancos
  389. têm, na última vez em que verifiquei,
  390. um rendimento médio 10 vezes maior
    que o dos americanos negros.
  391. E, de acordo com um estudo recente,
  392. em 2053
  393. — eu diria, entre agora e 2053 —
  394. prevê-se um aumento
    do rendimento médio dos brancos
  395. — isto antes da atual recessão —
  396. e o rendimento médio dos negros
  397. supostamente cairá para zero dólares,
  398. e isto, com base na atual recessão,
    poderá estender-se por uma década.
  399. Assim, não temos apenas
    uma desigualdade racial de rendimentos,
  400. temos uma desigualdade de rendimentos
    que vai aumentando.
  401. Então, pergunto aos americanos

  402. que alegam estarem empenhados
    na igualdade racial
  403. e que também reconhecem a importância
    da sustentação económica
  404. e estão cientes de que a riqueza é herdada
  405. de que a maior parte da riqueza é herdada,
  406. e quando se pensa em herança,
  407. pensa-se no passado
    e nas políticas passadas
  408. que muitos americanos consideram racistas,
  409. seja a escravatura
    ou até dificultando práticas,
  410. como começaríamos a diminuir
  411. esta crescente desigualdade
    de rendimentos entre raças
  412. sem um expressivo programa
    como as reparações?
  413. WPR: Mais ou menos ligada
    à ideia de disparidade de recursos
  414. e a desigualdade de rendimentos no país,

  415. temos uma pergunta de Dana Perls,
  416. "Qual a sua sugestão
    para as organizações liberais brancas
  417. "efetivamente enfrentarem
    o racismo no local de trabalho,
  418. "especialmente em locais onde as pessoas
    se silenciam diante do racismo
  419. "ou fazem declarações simbólicas
    sem analisarem internamente?"
  420. IXK: Claro.
  421. Eu vou fazer umas sugestões.

  422. Uma: Já há algumas décadas,
  423. todos os locais de trabalho
  424. têm-se comprometido publicamente
    com a diversidade.
  425. Habitualmente, possuem
    declarações de diversidade.
  426. Eu, basicamente, rasgaria
    essas declarações de diversidade
  427. e escreveria uma nova declaração,
  428. uma declaração comprometida
    com o antirracismo.
  429. Nessa declaração seria
    claramente definido o conceito racista
  430. o que é o conceito antirracista,
  431. o que é uma política racista
    e uma política antirracista.
  432. E isso indicaria um local
    de trabalho comprometido
  433. com uma cultura de ideias antirracistas
  434. com uma cultura numa instituição
    com base em políticas antirracistas.
  435. Assim, todos podem avaliar
    as ideias de toda a gente
  436. e as políticas desse local de trabalho
    com base nesse documento.
  437. E eu acredito que assim começaria
    o processo de transformação.
  438. E acho também ser muito importante
  439. que os locais de trabalho
    não só diversifiquem a sua equipa
  440. mas diversifiquem também
    a administração de topo.
  441. Acho que isso também é
    absolutamente indispensável.
  442. CS: Temos mais umas perguntas do público.
  443. Temos uma de Melissa Mahoney
    que pergunta:

  444. "Donald Trump parece tentar
    fazer do 'Black Lives Matter'
  445. "uma questão partidária,
  446. "por exemplo, ridicularizando Mitt Romney
  447. "por participar num protesto pacífico.
  448. "Como separar esta questão
    para a tornar apartidária?"
  449. IXK: Bom, acho que dizer
    que a vida dos negros
  450. é uma declaração dos Democratas,

  451. é, ao mesmo tempo, declarar
  452. que os Republicanos não valorizam
    a vida dos negros.
  453. Se é isto o que Donald Trump
    essencialmente diz,
  454. se ele declara que há um problema
  455. com as manifestações
    em defesa da vida dos negros,
  456. então, qual é a solução?
  457. A solução é "não haver manifestações".
    Qual é a alternativa?
  458. A alternativa é não haver manifestações
    pelas vidas dos negros.
  459. A alternativa é não se importar
    quando negros morrem por agressão policial
  460. ou com o COVID.
  461. Então, para mim, a forma de tornar
    isto numa questão não partidária
  462. é combater ou questionar nesse sentido,
  463. e obviamente os Republicanos vão alegar
  464. que não é isso que dizem,
  465. mas é algo muito simples:
  466. ou acreditamos que
    a vida dos negros é importante
  467. ou não,
  468. e se acreditamos que
    as vidas dos negros são importantes
  469. porque acreditamos
    nos direitos humanos,
  470. então acreditamos no direito humano
    de todas as pessoas viverem, negras ou não
  471. e não ter que temer a violência policial
  472. e não ter que temer o Estado
  473. e não ter que temer
  474. que um protesto pacífico seja enfraquecido
  475. por causa de um político
    que quer fazer campanha.
  476. Assim, estabelecer-se-á
    uma política que mostre isso
  477. ou não.
  478. WPR: Então quero fazer uma pergunta
  479. sobre o que as pessoas pensam
    sobre o antirracismo

  480. e como podem, de facto,
    mostrar isso nas suas vidas.
  481. Eu calculo que muitas pessoas
    ouvem isto e pensam:
  482. "Eu preciso de ser muito cuidadoso
  483. "quanto à forma
    como as minhas ações e palavras

  484. "são interpretadas.
  485. "Como é interpretada
    a intenção daquilo que eu digo."
  486. Isso pode ser cansativo,
  487. e acho que isto está ligado
    até mesmo à ideia de políticas.
  488. Então, estou curiosa.
  489. Há um enorme elemento de ponderação
  490. que acompanha
    o exercício de ser antirracista.
  491. Qual é a sua reação e resposta
    aos que se sentem preocupados
  492. com o cansaço mental
    de ter constantemente de pensar
  493. se as suas ações
    podem ou não ferir alguém?
  494. IXK: Acho que parte da preocupação
    que as pessoas têm sobre o cansaço mental
  495. é a ideia

  496. de que elas não querem cometer um erro
  497. e acho que ser antirracista
  498. é cometer erros e reconhecer
    quando cometemos erros.
  499. Para nós, é essencial ter
    estas definições bem claras,
  500. assim podemos avaliar as nossas palavras,
  501. avaliar as nossas ações,
  502. e quando cometermos um erro,
    assumirmos e dizermos:
  503. "Sabem que mais?
    Este foi um conceito racista."
  504. "Sabem uma coisa? Eu estava a apoiar
    uma política racista, mas vou mudar."
  505. Outra coisa que acho importante
    que nós percebamos
  506. é que, de muitas formas,
  507. estamos viciados.
  508. E quando digo nós,
    indivíduos e certamente o país,
  509. estamos viciados no racismo.
  510. Essa é uma das razões
  511. por que há tantas pessoas em negação.
  512. As pessoas, geralmente,
    negam os seus vícios.
  513. Porém, quando percebemos
    que temos este vício,
  514. todos os que estavam viciados
  515. — quando conversamos
    com amigos ou familiares
  516. que estão a ultrapassar
    um vício de abuso de drogas,
  517. eles não vão dizer
  518. que estão completamente curados,
  519. que não vão pensar nisso
    com frequência.
  520. Alguém que esteja a ultrapassar
    o alcoolismo vai dizer:
  521. "Este é um processo diário,
  522. "vivido diariamente, em cada momento.
  523. "E sim, é difícil
  524. "conter-me
  525. "para não regressar ao meu vício,
  526. "mas, ao mesmo tempo, é libertador,
    é uma libertação,
  527. "porque não vou continuar a
    mergulhar naquele vício.
  528. "Então, percebo que não vou
    continuar a ferir as pessoas
  529. "por causa do meu vício."
  530. E isto é fundamental.
  531. Perdemos muito tempo a pensar
    em como nos sentimos
  532. e pouco tempo a pensar em como
    as nossas ações e ideias afetam os outros.
  533. Acho que isto é algo que
    o vídeo do George Floyd
  534. força os americanos a fazer:
  535. ver verdadeiramente,
    e ouvir especialmente
  536. como uma pessoa se sente
  537. ao ver o resultado do seu racismo.
  538. CS: Tenho outra pergunta da audiência.
  539. Esta pergunta:

  540. "Pode falar sobre
    o ponto de interseção
  541. "entre o ativismo do antirracismo,
    do feminismo e dos direitos dos 'gays'?
  542. "Como é que o ativismo do antirracismo
    se relaciona e afeta o ativismo
  543. "destes outros direitos humanos?"
  544. IXK: Claro.
  545. Eu defino uma ideia racista

  546. como qualquer ideia que sugira
    que um grupo racial é superior
  547. ou inferior a outro, seja como for.
  548. E eu uso o termo "grupo racial"
  549. em oposição a "raça"
  550. porque todas as raças são um conjunto
    de grupos de diversos setores e raças.
  551. Assim, temos mulheres negras
    e homens negros
  552. temos negros heterossexuais
    e negros "gays",
  553. tal como temos mulheres latinas
    e mulheres brancas e homens asiáticos.
  554. O que é essencial compreender
  555. é que não há só ideias racistas
  556. que visaram os negros, por exemplo.
  557. Há ideias racistas que foram evoluindo
  558. e visaram as mulheres negras,
  559. que visaram as lésbicas negras,
  560. que visaram as mulheres
    transexuais negras.
  561. Muitas vezes estas ideias racistas
    que visam grupos interligados,
  562. interligam-se com outras formas
    de intolerância
  563. que também visam esses grupos.
  564. Para dar um exemplo sobre mulheres negras,
  565. um dos conceitos racistas mais antigos
    sobre as mulheres negras
  566. é a ideia de que elas são
    mulheres inferiores
  567. ou que nem sequer são mulheres,
  568. e que são inferiores às mulheres brancas,
  569. que são o pináculo da feminilidade.
  570. Esta ideia está interligada
  571. com a ideia machista
  572. que sugere que as mulheres são fracas,
  573. que, quanto mais fraca for uma pessoa,
    — uma mulher —, mais mulher ela é,
  574. e quanto mais forte ela for,
    mais masculina é.
  575. Estas duas ideias estão interligadas
  576. e degradam constantemente
    as mulheres negras
  577. tal como a ideia da mulher negra
    forte e masculina
  578. que é inferior à mulher frágil e branca.
  579. Assim, o único meio de compreender
    estes conceitos
  580. da mulher branca frágil e superfeminina
  581. e da mulher negra forte e masculinizada
  582. é compreendendo as ideias sexistas,
  583. é rejeitando as ideias sexistas,
  584. e, muito brevemente, digo o mesmo
  585. quanto à interrelação
    entre racismo e homofobia,
  586. em que os "gays" negros
    têm sido sujeitados à ideia
  587. de que são mais hiper sexuais
  588. devido à ideia de que os "gays"
  589. são mais hiper sexuais
    do que os heterossexuais.
  590. Assim, os "gays" negros têm sido rotulados
  591. como mais hiper sexuais
    do que os "gays" brancos
  592. e do que os negros heterossexuais.
  593. E não podemos de facto ver isso,
    entender isso e rejeitar isso
  594. se não rejeitarmos e entendermos
    e questionarmos também a homofobia.
  595. WPR: E sobre este mesmo problema,
  596. temos outra pergunta de Maryam Mohit:

  597. "Como vê a interação entre a cultura
    do boicote e o antirracismo?
  598. "Por exemplo, quando alguém foi
    extremamente racista no passado
  599. "e isso se torna conhecido?"
  600. Como é que responde a isto?
  601. IXK: Uau.
  602. Eu acho que isso é muitíssimo complexo.

  603. Obviamente, eu encorajo as pessoas
  604. a transformarem-se,
  605. a mudar, a reconhecer as situações
    em que foram racistas,
  606. e, obviamente, enquanto comunidade,
  607. temos de oferecer às pessoas
    a possibilidade de fazer isso.
  608. Quando alguém reconhece que foi racista,
  609. não podemos obviamente boicotá-la.
  610. Mas também acho
  611. que há pessoas
  612. que fazem coisas muito graves
  613. e há pessoas que são muito reticentes
  614. em reconhecer a gravidade do que fizeram
  615. em determinado momento.
  616. Não se trata apenas
    de um ato abominável, terrível,
  617. mas, além disso,
  618. recusam-se a reconhecer
    esse ato abominável e terrível.
  619. Neste caso, percebo a vontade
    das pessoas em boicotá-los,
  620. e acho que tem de haver,
  621. por outro lado,
  622. tem de haver algum tipo de consequências,
  623. consequências públicas,
    consequências culturais,
  624. para as pessoas que agem de forma racista,
  625. em especial em casos extremamente graves.
  626. E muitas pessoas decidem
  627. que vão boicotá-las.
  628. Não estou necessariamente a criticá-las
  629. mas, de facto, acredito que devemos
    tentar encontrar um meio de discernir
  630. entre os que se recusam a transformarem-se
  631. e os que cometem um erro
    e o reconhecem,

  632. e estão de facto empenhados
    em transformarem-se.
  633. CS: Sim, quero dizer,
  634. um dos receios expressos
    por muitos ativistas

  635. é que a energia por detrás
    do "Black Lives Matter"
  636. tem de ser mantida
  637. para que aconteça a mudança no racismo.
  638. Acho que isso também
    se aplica ao que o Ibram disse.
  639. E imagino, estou curiosa,
    qual é a sua opinião
  640. sobre quando os protestos
    começarem a esmorecer
  641. e as campanhas de doação
    se dissiparem nos bastidores.
  642. Como é que garantimos que este debate
  643. sobre o antirracismo
    permaneça primordial?
  644. IXK: Claro.
  645. Em "How to Be an Antiracist,"

  646. num dos capítulos finais,
  647. há um capítulo chamado "Fracasso."
  648. Falo sobre aquilo a que chamo
    defesa dos sentimentos,
  649. que é o mal-estar sobre
    o que está a acontecer,
  650. sobre o que aconteceu a George Floyd
  651. ou o que aconteceu a Ahmaud Arbery
    ou o que aconteceu a Breonna Taylor.
  652. Sentem-se mal com este país
    e com o rumo que o país está a tomar.
  653. Então a forma como procuram
    sentir-se melhores
  654. é participar em manifestações.
  655. A forma como procuram sentir-se melhores
  656. é fazendo doações a certas organizações.
  657. A forma como procuram sentir-se melhores
  658. é lendo um livro.
  659. Então, se é isto o que muitos americanos
    estão a fazer,
  660. assim que se sentirem melhores,
  661. por outras palavras, assim que
    uma pessoa se sinta melhor
  662. pela sua participação
    em clubes do livro ou em manifestações
  663. ou em campanhas de doação,
  664. então nada irá mudar,
    com exceção dos seus sentimentos.
  665. Portanto, precisamos de superar
    os nossos sentimentos.
  666. Isto não quer dizer que as pessoas
    não se devam sentir mal,

  667. mas devemos usar os sentimentos,
  668. como nos sentimos mal
    com o que está a acontecer,
  669. para aplicar, para pôr em prática,
  670. o poder antirracista e as políticas.
  671. Por outras palavras,
    os nossos sentimentos devem guiar-nos.
  672. Mas não devem ser a finalidade.
  673. Isto não devia ser sobre
    sentirmo-nos melhor.
  674. Isto devia ser sobre mudar o país,
  675. e precisamos de manter os olhos abertos
    para transformar este país,
  676. caso contrário,
  677. assim que as pessoas
    se sintam melhores após tudo isto,
  678. voltaremos à mesma situação
    ao ficarmos horrorizados com outro vídeo,
  679. e voltarmos a sentir-nos mal,
  680. e o ciclo continuará.
  681. WPR: Acho que, quando pensamos
  682. que tipos de mudanças queremos implementar

  683. e como podemos fazer o sistema
    trabalhar melhor,
  684. fazer com que os nossos governos
    trabalhem melhor,
  685. fazer com que a nossa polícia
    trabalhe melhor,
  686. haverá modelos noutros países?
  687. Obviamente a história
    dos EUA é específica
  688. em relação à reflexão
    sobre a raça e a opressão.
  689. Mas quando olhamos para outras
    nações e outras culturas,
  690. haverá outros modelos
    que podem ser vistos como exemplos
  691. que poderíamos implementar aqui?
  692. IXK: Bom, há muitos.
  693. Há países onde a polícia não usa armas.

  694. Há países
  695. que têm maior população do que os EUA
  696. mas têm menos presos.
  697. Há países
  698. que tentam combater crimes de violência
  699. não com mais polícias e prisões
  700. mas com mais empregos e oportunidades,
  701. porque sabem e veem
    que as comunidades
  702. com os maiores níveis
    de crimes de violência
  703. tendem a ser as comunidades
    com os maiores níveis de pobreza
  704. e desemprego a longo prazo.
  705. Eu acredito que...
  706. E, obviamente,
  707. outros países oferecem consideráveis
    redes de segurança social às pessoas.
  708. Assim, as pessoas não cometem crimes
    devido à pobreza,
  709. as pessoas não cometem crimes
    devido ao desespero.
  710. Então, penso que é fundamental para nós
  711. em primeiro lugar
  712. refletir que, se não há nada de errado
    com as pessoas,
  713. então, como podemos reduzir
    a violência policial?
  714. O que fazer sobre a redução
    das desigualdades raciais na saúde?
  715. Que políticas podemos mudar?
    Quais foram as políticas que funcionaram?
  716. Este é o tipo de perguntas
    que devemos fazer,
  717. porque nunca houve nada de errado
    com as pessoas.
  718. CS: No seu texto "Atlantic"
  719. chamado "Who Gets To Be
    Afraid in America", o Ibram escreveu:

  720. "O que eu sou, um homem negro,
    não devia ser importante.
  721. "O que devia ser importante
    é quem eu sou."
  722. E sinto que é como se dissesse
  723. que, noutros lugares,
    talvez isso seja mais possível.
  724. Gostava de saber
    quando o Ibram imagina um país
  725. onde quem somos
    é o mais importante de tudo,
  726. como é que imagina isso?
  727. IXK: Bom, imagino isso,
    enquanto negro americano
  728. que as pessoas
    não me veem como perigoso

  729. e desse modo, tornam
    perigosa a minha existência.
  730. O que me permite passear por esse país
  731. e não pensar que as pessoas
    sentirão medo de mim
  732. por causa da cor da minha pele.
  733. Isso permite-me acreditar
  734. que não consegui o emprego porque
    podia ter sido melhor na entrevista,
  735. não por causa da cor da minha pele.
  736. Permite-me...
  737. um país onde há igualdade racial
  738. um país onde há justiça racial,
  739. um país onde há oportunidades iguais,
  740. um país onde as culturas
    afro-americana e nativa
  741. e a cultura dos americanos mexicanos
  742. e dos americanos coreanos,
    são todas igualmente respeitadas,
  743. em que ninguém é obrigado a assimilar
    a cultura dos brancos americanos.
  744. Não existe nenhum padrão
    de vestuário profissional.
  745. Não é obrigatório
    aprender a falar inglês
  746. para ser americano.
  747. Na verdade, teríamos não só
    igualdade e justiça para todos
  748. mas encontraríamos uma forma
  749. de valorizar as diferenças,
  750. de apreciar todas as diferenças
    humanas, étnicas e culturais
  751. que existem nos EUA.
  752. Isto é o que podia tornar
    este país extraordinário,
  753. em que nos tornássemos num país
  754. por onde poderíamos de facto viajar
  755. e conhecer culturas de todo o mundo
  756. e apreciar essas culturas
  757. e até mesmo entender
    a nossa própria cultura
  758. vendo o que outras fazem.
  759. Há tanta beleza aqui
    no meio de toda esta dor
  760. e apenas quero descascar
  761. e remover
  762. todas as camadas de políticas racistas
  763. para podermos curar-nos
  764. e ver a verdadeira beleza.
  765. WPR: Ibram, quando pensa nesse momento,
  766. até onde situa esse progresso

  767. em direção à verdadeira beleza?
  768. IXK: Pessoalmente,
  769. eu sempre vejo progresso
    e resistência nas manifestações

  770. e só pelo facto de as pessoas
    estarem a exigir,
  771. nas praças e nas câmaras municipais
  772. mudanças progressivas e sistémicas,
    sei que essa mudança chegou.
  773. Mas as pessoas estão a exigir
  774. e as pessoas estão a exigir
    nas cidades pequenas, nas grandes cidades
  775. e as pessoas estão a exigir
    em lugares que conhecemos
  776. e em lugares
    de que precisamos ouvir falar.
  777. As pessoas estão a exigir mudanças
    e estão fartas.
  778. Quero dizer, vivemos num momento
  779. em que enfrentamos uma pandemia viral,
  780. uma pandemia racial
    dentro de uma pandemia viral
  781. em que negros estão a ser infetados
    e a morrer desproporcionalmente.
  782. e uma pandemia económica
  783. com mais de 40 milhões de americanos
    que perderam o seu emprego,
  784. e certamente a pandemia
    da violência policial.
  785. As pessoas estão a manifestar-se
    contra a violência policial
  786. apenas para sofrerem
    essa violência nas manifestações.
  787. Quero dizer, as pessoas veem
    que há um problema fundamental,
  788. e um problema que pode ser resolvido.
  789. Há uma América que pode ser recriada,
  790. e as pessoas exigem isso,
  791. e este é sempre um começo.
  792. O começo é aquilo
    que estamos a viver agora.
  793. CS: Acho que a próxima pergunta
    do público
  794. segue este raciocínio, que é:

  795. "O que é que lhe dá esperança
    neste momento?'
  796. IXK: A resistência ao racismo
    sempre me deu esperanças,
  797. mesmo se, digamos,

  798. há seis meses vivêssemos um momento
    em que, quase todas as noites,
  799. em todo o país as pessoas estavam
    a manifestar-se contra o racismo,
  800. mas eu poderia olhar
    apenas para a história
  801. quando as pessoas estavam a resistir.
  802. Ou seja, a resistência
    sempre me traz esperança,
  803. porque é sempre resistência.
  804. Claro, isto é tempestuoso,
  805. mas o arco-íris está
    normalmente do outro lado.
  806. Mas também penso na esperança
    de forma filosófica,
  807. porque eu sei que, para
    as mudanças acontecerem,
  808. temos de acreditar nas mudanças.
  809. Um revolucionário não pode ser cínico.
  810. É impossível.
  811. Então, eu sei que preciso
    de acreditar na mudança
  812. para ela acontecer.
  813. WPR: Temos outra pergunta
  814. que menciona uma das questões
    de que já falou

  815. em relação à mudança estrutural
    que devemos provocar.
  816. De Maryam Mohit: "Em relação a pôr
    em prática as políticas transformadoras,
  817. "uma das coisas mais importantes
    será eleger as pessoas certas
  818. "que, a todos os níveis,
    podem provocar essas mudanças?"
  819. IXK: Bom, acho que isso
    faz parte da questão.
  820. Claro que acho que devemos eleger
    pessoas para cargos,

  821. desde os conselhos escolares
    a Presidente dos EUA,
  822. pessoas comprometidas
  823. em instituir políticas antirracistas
  824. que levem à igualdade e justiça.
  825. Acho que isto é fundamental,
  826. mas não acho
  827. que devemos pensar que esta é
    a única coisa em que nos devemos focar
  828. ou a única coisa que devemos fazer.
  829. E há instituições,
  830. há bairros,
  831. que precisam de mudanças,
  832. que, até certo ponto,
  833. estão fora da competência de um político
  834. oficialmente eleito.
  835. Há administradores, CEO e presidentes
  836. que detêm o poder de mudar políticas
  837. dentro das suas esferas,
    dentro das suas instituições,
  838. então, devemos focar-nos nisso.
  839. A última coisa que direi sobre votar
  840. é o que escrevi numa série de textos
    para "The Atlantic" no início deste ano
  841. cuja intenção era fazer os americanos
    pensarem sobre o que chamo
  842. "o outro votante oscilante".
  843. Não são os votantes tradicionais
  844. que oscilam entre
    Republicanos e Democratas
  845. e que são basicamente
    mais velhos e brancos.
  846. Falo sobre aqueles que oscilam
    entre votar nos Democratas
  847. e não votar de todo.
  848. Essas pessoas são geralmente mais jovens
  849. e geralmente pessoas de cor,
  850. mas sobretudo pessoas jovens de cor,
  851. sobretudo jovens negros
    e latino-americanos.
  852. Então, devemos ver essas pessoas,
  853. estes votantes jovens, negros, latinos
  854. que estão a tentar decidir se votam ou não
  855. da mesma forma que vemos
  856. aqueles que estão a tentar decidir votar
  857. entre Trump e Biden nas eleições gerais.
  858. Por outras palavras, considerar
    os dois como votantes oscilantes
  859. é vê-los de modo a pensar
    que precisamos de persuadi-los.
  860. Eles não são carneiros políticos.
  861. Não vamos apenas usá-los.
  862. Precisamos de encorajá-los e persuadi-los.
  863. Para estes votantes oscilantes,
  864. também precisamos
    de tornar o voto mais fácil.
  865. Geralmente, os jovens de cor
    são os que têm mais dificuldade em votar
  866. devido às políticas de repressão.
  867. CS: Obrigada, Ibram.
  868. Bom, estamos ao final desta entrevista,

  869. mas eu gostava de lhe pedir
  870. que lesse algo que escreveu
  871. há alguns dias, no Instagram.
  872. O Ibram escreveu uma bela legenda
  873. na foto da sua filha.
  874. E pergunto se o Ibram estaria
    disposto a partilhar
  875. e a dizer-nos rapidamente como podemos
    ter esta perspetiva na nossa vida.
  876. IXK: Claro.
  877. Eu publiquei uma foto da minha filha
    de quatro anos, Imani

  878. e na legenda escrevi:
  879. "Eu amo, e porque amo, resisto.
  880. "Tem havido muitas teorias
  881. "sobre o que alimenta as crescentes
    manifestações contra o racismo
  882. "em público e em privado.
  883. "Deixa-me oferecer-te outra: amor.
  884. "Nós amamos.
  885. "Conhecemos a vida dos que amamos,
  886. "especialmente os nossos negros queridos
  887. "que estão em perigo
  888. "sob a violência do racismo.
  889. "As pessoas perguntam-me sempre
    o que é que me alimenta.
  890. "A mesma coisa: amor.
  891. "O amor desta rapariguinha,
  892. "o amor de todas as crianças
    e dos adultos
  893. "que querem viver uma vida plena,
  894. "na plenitude da sua humanidade,
  895. "sem serem impedidos
    por políticas racistas,
  896. "sem serem rebaixados
    por ideias racistas,
  897. "sem serem aterrorizados
    pela violência racista.
  898. "Sejamos antirracistas.
  899. "Defendamos a vida.
  900. "Defendamos os direitos humanos
    de viver e viver em pleno,
  901. "porque amamos."
  902. E, Cloe, eu gostava de sublinhar
  903. que, no coração do antirracista,
  904. há amor,
  905. há amor pelo país,
  906. amor pela humanidade,
  907. amor pelos parentes,
    pela família e pelos amigos,
  908. e, certamente, amor por si mesmo.
  909. E eu considero que o amor é um verbo,
  910. considero que o amor é...
  911. ajudar os outros, e até a mim mesmo,
  912. a evoluir constantemente
    como forma melhor de mim mesmo,
  913. deles mesmos, que exprimem
    quem querem ser.
  914. Então, para amar este país e a humanidade
  915. precisamos de evoluir de forma construtiva
  916. para sermos uma versão
    melhor de nós mesmos.
  917. Não há forma de ser melhor,
  918. não há forma de construir
    uma humanidade melhor,
  919. enquanto ainda tivermos
    as algemas do racismo.
  920. WPR: Acho isto lindo.
  921. Agradeço tudo o que partilhou, Ibram.

  922. Ficou bastante claro que não será fácil
    consertar isto. Certo?
  923. Não há uma opção paliativa
    que faça isto desaparecer.
  924. É necessário trabalho de nossa parte.
  925. Agradeço a sua honestidade
  926. e a consideração que o trouxe aqui hoje.
  927. IXK: De nada.
  928. Obrigado por terem esta conversa comigo.

  929. CS: Muito obrigada, Ibram.
  930. Estamos muito agradecidas
    pela sua participação.

  931. IXK: Obrigado.