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← A diferença entre ser "não racista" e ser antirracista

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Showing Revision 50 created 09/16/2020 by Claudia Sander.

  1. Cloe Shasha: Bem-vindo, Ibram,
  2. e muito obrigada por juntar-se a nós.
  3. Ibram X. Kendi: Obrigado, Cloe e Whitney,

  4. e obrigado a todos
    por participarem desta conversa.
  5. Algumas semanas atrás,
  6. no mesmo dia em que soubemos
    da morte brutal de George Floyd,
  7. também soubemos que, no Central Park,
  8. uma mulher branca resolveu
    andar com seu cão solto,
  9. e foi advertida sobre isso
    por um homem negro.
  10. Em vez de colocar a guia no cão,
    ela decidiu ameaçar esse homem negro,
  11. chamar a polícia
  12. e alegar que sua vida
    estava sendo ameaçada.
  13. E, claro, quando soubemos disso
    através de um vídeo,
  14. muitos norte-americanos
    ficaram indignados,
  15. e essa mulher, Amy Cooper,
  16. acabou dizendo, em rede nacional,
  17. o que inúmeros outros norte-americanos
    dizem logo após cometer um ato racista:
  18. "Eu não sou racista".
  19. E eu digo inúmeros norte-americanos
  20. porque, quando pensamos
    em norte-americanos
  21. expressando ideias racistas,
  22. apoiando políticas racistas,
  23. na verdade estamos falando de pessoas
  24. que alegaram não serem racistas,
  25. porque todos alegam não serem racistas,
  26. sejam as Amy Coopers da vida,
  27. seja Donald Trump,
  28. que, logo após falar que Baltimore,
    com maioria da população negra,
  29. é uma bagunça infestada de ratos
    onde nenhum ser humano deseja morar,
  30. e de ser acusado de racista,
  31. disse: "Na verdade, sou a pessoa
    menos racista do mundo".
  32. A essência do racismo
    sempre foi a negação,
  33. e a expressão disso
  34. sempre foi: "Eu não sou racista".
  35. Então, o que tento fazer com meu trabalho

  36. é conseguir que os norte-americanos
    eliminem o conceito de "não racista"
  37. do seu vocabulário
  38. e percebam que ou estamos sendo racistas
  39. ou antirracistas.
  40. Ou estamos expressando ideias
    que sugerem que certos grupos raciais
  41. são melhores ou piores que outros,
  42. superiores ou inferiores a outros
  43. e estamos sendo racistas;
  44. ou sendo antirracistas,
  45. expressando noções
    de que grupos raciais são iguais,
  46. apesar de qualquer diferença
    cultural ou étnica.
  47. Ou estamos apoiando políticas que levam
    à desigualdade e à injustiça racial,
  48. como vimos em Louisville,
    onde Breonna Taylor foi assassinada,
  49. ou estamos apoiando e promovendo políticas
  50. que levam à igualdade
    e justiça para todos.
  51. Então acho que devemos ser muito claros

  52. se estamos expressando ideias racistas,
  53. se estamos apoiando políticas racistas,
  54. e admitir quando estivermos,
  55. porque ser antirracista é admitir
    quando expressamos uma ideia racista.
  56. É dizer: "Sabe,
  57. quando fiz aquilo no Central Park,
  58. sem dúvida eu estava sendo racista.
  59. Mas vou mudar,
  60. vou me esforçar pra ser antirracista".
  61. E ser racista
  62. é negar constantemente
  63. as desigualdades sociais
    que permeiam a sociedade norte-americana,
  64. é negar constantemente as ideias racistas
    que permeiam as mentes norte-americanas.
  65. Então quero construir
    uma sociedade justa e igualitária,
  66. e a única forma de conseguir
    ao menos começar esse processo
  67. é admitindo nosso racismo
  68. e começando a construir
    um mundo antirracista.
  69. Obrigado.
  70. CS: Muito obrigada por suas palavras.

  71. O seu livro "Como Ser Antirracista"
  72. se tornou um best-seller
    à luz do que tem acontecido,
  73. e você tem falado sobre
    como o antirracismo e o racismo
  74. são as duas únicas perspectivas
    possíveis e opostas sobre o racismo.
  75. Gostaria de saber
    se você pode falar um pouco mais
  76. sobre quais são os princípios
    básicos do antirracismo,
  77. para quem não está familiarizado com isso,
    em termos de como podem ser antirracistas.
  78. IXK: Claro.

  79. Como mencionei em minha palestra,
  80. a essência do racismo é a negação,
  81. e a essência do antirracismo
    é a confissão,
  82. é o reconhecimento
  83. de que crescer nesta sociedade
  84. significa, em algum ponto da nossa vida,
  85. internalizar ideias racistas
  86. que sugerem que certos grupos raciais
    são melhores ou piores que outros.
  87. E como acreditamos na hierarquia racial
  88. e como os norte-americanos
    têm sido ensinados sistematicamente
  89. que as pessoas negras são mais perigosas,
  90. que são mais propensas ao crime,
  91. quando vivemos em uma sociedade
    em que pessoas negras
  92. são 40% da população carcerária,
  93. isso parece normal.
  94. Quando vivemos em uma sociedade
  95. em uma cidade como Mineápolis,
  96. onde as pessoas negras,
    apesar de serem apenas 20% da população,
  97. perfazem mais de 60% das pessoas
    sujeitas a tiroteio policial,
  98. isso parece normal.
  99. Então, ser antirracista
  100. é acreditar que não há nada errado
  101. ou inferior sobre as pessoas negras
    ou outro grupo racial.
  102. Não há nada perigoso
  103. em relação às pessoas negras
    ou a qualquer outro grupo racial.
  104. Então, quando vemos essas disparidades
    raciais ao nosso redor,
  105. vemos elas como anormais,
  106. e começamos a nos dar conta:
    quais políticas estão por trás
  107. de tantas pessoas negras
    sendo mortas pela polícia?
  108. Quais políticas estão
    por trás de tantos latinos
  109. sendo desproporcionalmente
    infectados por COVID-19?
  110. Como posso participar da luta
  111. para derrubar essas políticas
  112. e substituí-las
    por políticas antirracistas?
  113. Whitney Pennington Rodgers:
    Parece que você faz uma distinção

  114. entre não ser racista e ser antirracista.
  115. Você poderia detalhar isso um pouco mais?
  116. Qual a diferença entre os dois?
  117. IXK: De maneira bem simples,

  118. um não racista é um racista em negação,
  119. e um antirracista é alguém
  120. que tenta admitir
    as ocasiões em que é racista,
  121. e que tenta reconhecer
  122. os problemas e desigualdades raciais
    da nossa sociedade,
  123. e que tenta desafiar
    essas desigualdades raciais
  124. desafiando a política.
  125. Digo isso porque literalmente
    senhores e traficantes de escravizados
  126. achavam que as ideias deles
    não eram racistas.
  127. Eles diziam coisas como:
  128. "Os negros são os descendentes
    amaldiçoados de Ham,
  129. e estão condenados
    à escravidão para sempre".
  130. Isso não é: "Não sou racista".
  131. Isso é: "É a lei de Deus".
  132. Diziam coisas como:
  133. "Baseado na ciência, baseado na etnologia,
  134. baseado na história natural,
  135. a natureza dos negros
  136. os predispõe à escravidão e à servidão.
  137. Essa é a lei da natureza. Não sou racista.
  138. Na verdade estou fazendo
    o que a natureza diz que devo fazer".
  139. Essa construção de não ser racista
    e de negar o racismo de alguém
  140. vem desde as origens deste pais.
  141. CS: Sim.

  142. E por que você acha que tem sido
    tão difícil para algumas pessoas
  143. aceitarem que a neutralidade
    não é suficiente
  144. quando falamos de racismo?
  145. IXK: Acho que porque dá
    muito trabalho ser antirracista.

  146. Você tem que estar muito vulnerável.
  147. Tem de querer admitir que estava errado.
  148. Tem de querer admitir
    que, se você tem mais,
  149. se você é branco, por exemplo, e tem mais,
  150. pode não ser porque você é mais.
  151. Você tem de admitir que, sim,
    possivelmente, você trabalhou duro,
  152. mas você também teve certas vantagens
  153. que lhe deram oportunidades
  154. que outras pessoas não têm.
  155. Você precisa admitir essas coisas,
  156. e é muito difícil para as pessoas
    serem publicamente,
  157. ou mesmo particularmente, autocríticas.
  158. Acho que isso também tem relação,

  159. e eu deveria ter começado por isso,
  160. pelo modo como as pessoas
    definem "racista".
  161. As pessoas tendem a definir "racista"
  162. como uma categoria fixa,
  163. como uma identidade.
  164. Como sendo a essência de uma pessoa.
  165. Uma pessoa se torna um racista.
  166. E assim...
  167. E também associam o racista
    a uma pessoa má.
  168. Associam o racista
    a alguém da Ku Klux Klan.
  169. E dizem: "Eu não sou da Ku Klux Klan,
  170. não sou uma pessoa má,
  171. fiz coisas boas na vida.
  172. Fiz coisas boas para pessoas negras.
  173. Então não sou racista.
  174. Não sou isso, essa não é
    minha identidade".
  175. Mas não é assim que devemos
    definir uma pessoa racista.
  176. "Racista" é um termo descritivo.
  177. Ele descreve o que uma pessoa
    diz ou fala em determinado momento.
  178. Quando alguém, em dado momento,
  179. expressa uma ideia racista,
  180. por exemplo, dizendo que negros
    são preguiçosos, está sendo racista.
  181. Se no instante a seguir
  182. estiver apreciando
    a cultura de povos nativos,
  183. estará sendo antirracista.
  184. WPR: Em breve teremos
    algumas perguntas da nossa comunidade,

  185. mas acho que muitas pessoas,
    ao ouvirem sua ideia sobre antirracismo,
  186. têm o sentimento de que isso é algo
    que só diz respeito à comunidade branca.
  187. Você pode falar um pouco
    sobre como a comunidade negra
  188. e outras comunidades não brancas,
    de minorias étnicas,
  189. podem participar e pensar
    sobre essa ideia de antirracismo?
  190. IXK: Claro.

  191. Se norte-americanos brancos
    usualmente dizem: "Não sou racista",
  192. as pessoas não brancas usualmente dizem:
  193. "Eu não posso ser racista,
  194. porque não sou branco".
  195. Portanto alguns não brancos
    dizem que não podem ser racistas
  196. porque eles não têm poder.
  197. Então, primeiramente,
  198. com meu trabalho tento combater a ideia
  199. de que pessoas não brancas não têm poder.
  200. Não há nada mais desempoderador
  201. do que dizer ou pensar,
    como pessoa não branca,
  202. que você não tem poder.
  203. Há tempo as pessoas não brancas
    utilizam o poder mais básico
  204. que todo ser humano tem,
  205. que é o poder de resistir
    a políticas racistas
  206. e o poder de resistir
    a uma sociedade racista.
  207. Mas se você é uma pessoa não branca
  208. e acredita
  209. que as pessoas que vêm
    de Honduras e El Salvador
  210. estão invadindo este país,
  211. se acredita que os imigrantes latinos
  212. são animais e estupradores,
  213. então, se você for negro ou asiático,
  214. certamente você não vai participar da luta
  215. para defender os imigrantes latinos,
  216. para reconhecer que os imigrantes latinos
    têm tanto para dar a este país
  217. quanto qualquer outro grupo,
  218. você vai ver essas pessoas
    como "tirando seu emprego",
  219. e, portanto, você vai apoiar
    a retórica racista,
  220. vai apoiar políticas racistas,
  221. mesmo que provavelmente
    isso te prejudique,
  222. ou seja, que isso prejudique
  223. imigrantes do Haiti e da Nigéria,
    se você for negro,
  224. e imigrantes vindos da Índia,
    se você for asiático.
  225. Então acho muito importante
    que mesmo as pessoas não brancas
  226. percebam que têm poder de resistir.
  227. Quando pessoas não brancas veem
    outras pessoas não brancas como problema,
  228. elas não veem o racismo como problema.
  229. E qualquer um que não vê
    o racismo como problema
  230. não está sendo antirracista.
  231. CS: Você falou um pouco
    sobre isso em sua fala inicial,

  232. mas você falou sobre como o racismo
  233. é a razão pela qual comunidades negras
    e comunidades não brancas
  234. são sistematicamente prejudicadas
    nos Estados Unidos,
  235. o que levou a tantas mortes
    por COVID-19 nessas comunidades.
  236. E, ainda assim, a mídia sempre culpa
    as pessoas não brancas
  237. por sua vulnerabilidade à doença.
  238. Por isso gostaria de saber
  239. qual a relação entre o antirracismo
  240. e o potencial para mudança sistêmica?
  241. IXK: Acho que é uma relação direta,

  242. porque quando você é...
  243. quando você acredita
    e consome ideias racistas,
  244. você nem ao menos vai acreditar
    que a mudança é necessária,
  245. porque vai acreditar
    que a desigualdade racial é normal.
  246. Ou não vai acreditar
    que a mudança é possível.
  247. Em outras palavras, vai acreditar
  248. que a razão pela qual pessoas negras
    são mortas pela polícia em taxas tão altas
  249. ou a razão pela qual pessoas latinas
    são infectadas a taxas tão altas
  250. é porque há algo errado com elas,
    e nada pode ser feito.
  251. Então você nem ao menos
    vai ver a necessidade
  252. de mudanças estruturais e sistêmicas,
  253. muito menos ser parte da luta
    por mudanças estruturais e sistêmicas,
  254. Então, ser antirracista, de novo,
  255. é reconhecer
  256. que só há duas causas
    para a desigualdade racial:
  257. ou há algo errado com as pessoas,
  258. ou há algo errado
    com o poder e a política.
  259. E se percebe que não há nada de errado
    com nenhum grupo de pessoas,
  260. e sigo falando em grupos,
  261. não falo em indivíduos...
  262. Claro que há indivíduos negros
  263. que não levam o coronavírus a sério,
  264. que é uma das razões
    pelas quais eles são infectados.
  265. Mas há pessoas brancas
    que não levam o coronavírus a sério.
  266. Ninguém jamais provou,
    e na verdade estudos mostram
  267. que as pessoas negras são mais propensas
    a levar o coronavírus a sério
  268. do que as pessoas brancas.
  269. Não estamos falando de indivíduos,
  270. e certamente não devemos
    individualizar grupos.
  271. Certamente não devemos olhar
    o comportamento individual
  272. de uma pessoa latina ou negra,
  273. e dizer que ela representa o grupo.
  274. Essa, por si só, é uma ideia racista.
  275. Então falo de grupos
  276. e, se você acredita
    que os grupos são iguais,
  277. então a única alternativa,
  278. a única explicação para a persistência
    da desigualdade e da injustiça
  279. é o poder e a política.
  280. Então, passar tempo transformando
    e desafiando o poder e a política
  281. é passar tempo sendo antirracista.
  282. WPR: Temos algumas perguntas do público.

  283. A primeira delas é
    de um membro da comunidade
  284. que pergunta: "Quando falamos
    sobre o privilégio branco,
  285. também falamos sobre o privilégio
    de não ter conversas difíceis.
  286. Você acha que isso começa a mudar?"
  287. IXK: Espero que sim,

  288. porque acho
  289. que norte-americanos brancos, também,
  290. precisam simultaneamente reconhecer
  291. seus privilégios,
  292. os privilégios que eles têm acumulado
  293. como resultado de sua branquitude,
  294. e a única forma de fazer isso
  295. é começando e tendo essas conversas.
  296. Mas eles também teriam de reconhecer
  297. que, sim, eles têm mais,
  298. os norte-americanos brancos têm mais,
  299. devido às políticas racistas,
  300. mas o que os norte-americanos
    brancos deveriam se perguntar,
  301. especialmente quando eles têm
    essas conversas entre si, é:
  302. se tivéssemos uma sociedade
    mais igualitária,
  303. nós teríamos mais?
  304. O que pergunto é:
  305. os norte-americanos brancos
    têm mais por causa do racismo,
  306. mas há outros grupos de pessoas,
    em outras democracias ocidentais,
  307. que têm mais do que
    os norte-americanos brancos,
  308. e aí você começa a se perguntar:
  309. por que as pessoas em outros países
    têm atendimento à saúde de graça?
  310. Por que elas têm licença-maternidade
    e licença-paternidade?
  311. Por que elas têm
    uma rede de segurança massiva?
  312. Por que nós não temos?
  313. E uma das principais respostas
  314. para não termos isso é o racismo.
  315. Uma das principais respostas à pergunta:
  316. por que Donald Trump
    é presidente dos Estados Unidos
  317. é o racismo.
  318. Então não peço que os norte-americanos
    brancos sejam altruístas
  319. para serem antirracistas.
  320. Na verdade pedimos às pessoas
  321. que tenham interesse próprio inteligente.
  322. Esses 4 ou 5 milhões
    de brancos pobres em 1860

  323. cuja pobreza era resultado direto
  324. da riqueza de alguns milhares
    de famílias brancas escravistas,
  325. para desafiar a escravidão,
  326. não dissemos que vocês
    tinham de ser altruístas.
  327. Não, na verdade precisamos que você faça
    o que é de seu próprio interesse.
  328. Esses 10 milhões de norte-americanos
    brancos que perderam o emprego
  329. em função da pandemia,
  330. não estamos pedindo que sejam altruístas.
  331. Pedimos que se deem conta de que,
    se tivéssemos outro tipo de governo,
  332. com outras prioridades,
  333. eles estariam bem melhores agora.
  334. Desculpem, não me façam começar.
  335. CS: Não, nós agradecemos. Obrigada.

  336. Alinhado a isso,
  337. obviamente esses movimentos
    e protestos trouxeram progresso:
  338. a remoção de monumentos confederados,
  339. a petição à câmara de Mineápolis
  340. para desmantelar
    o departamento de polícia, etc.
  341. Mas, politicamente, o que você vê
    como maior prioridade política,
  342. se essa luta por justiça continuar?
  343. Há algo a aprender com outros países?
  344. IXK: Na verdade, não acho necessariamente

  345. que haja uma prioridade política única.
  346. Quero dizer, se me obrigassem a responder,
  347. eu provavelmente diria duas,
  348. que são:
  349. saúde de alta qualidade
    e gratuita para todos,
  350. e, quando digo de alta qualidade,
  351. não falo só de plano de saúde
    de baixo custo para todos,
  352. falo de um cenário simultâneo
  353. em que na região rural
    do sudoeste da Geórgia,
  354. onde as pessoas são
    predominantemente negras
  355. e há uma das mais altas taxas
    de mortalidade por COVID nos EUA,
  356. esses municípios no sudoeste da Geórgia
  357. teriam acesso à saúde
  358. com a mesma qualidade
    que as pessoas em Atlanta e Nova York,
  359. e então, simultaneamente,
  360. a atenção à saúde seria gratuita.
  361. Este ano, muitos norte-americanos
    estão morrendo, não só de COVID, claro,
  362. mas também de câncer e doenças cardíacas,
  363. que são as doenças que mais matam
    norte-americanos depois da COVID,
  364. e, de forma desproporcional, os negros.
  365. Então eu diria isso

  366. e, em segundo lugar, reparação.
  367. Muitos norte-americanos alegam
  368. que acreditam na igualdade racial,
  369. que querem a igualdade racial.
  370. Muitos norte-americanos reconhecem
    como a subsistência econômica é crítica
  371. para todos neste país,
    neste sistema econômico.
  372. Mas muitos norte-americanos rejeitam
    ou não apoiam as reparações.
  373. Então temos uma situação
  374. na qual os norte-americanos brancos,
  375. pelo que eu verifiquei,
  376. têm renda média dez vezes
    mais alta que a dos negros,
  377. e, de acordo com um estudo recente,
  378. de hoje a 2053
  379. a renda média dos brancos vai crescer -
  380. esse estudo é anterior à recessão atual -
  381. e a renda média dos negros
  382. vai cair para zero.
  383. E, com base na recessão atual,
    isso deve ocorrer dez anos antes.
  384. Então não só temos diferença
    de riqueza relacionada à raça,
  385. como isso está aumentado.
  386. E, para os norte-americanos

  387. que se dizem comprometidos
    com a igualdade racial,
  388. que reconhecem a importância
    da subsistência econômica
  389. e que também sabem
  390. que a maior parte da riqueza é herdada,
  391. e ao pensar em herança,
  392. pensamos no passado,
  393. e nas políticas do passado
  394. que muitos norte-americanos
    consideram racistas,
  395. seja a escravidão ou a segregação,
  396. como vamos pelo menos nos aproximar
  397. de reduzir a distância racial da riqueza
  398. sem um programa massivo
    como as reparações?
  399. WPR: Bem, um pouco conectada
    com a ideia de pensar

  400. sobre a disparidade e a desigualdade
    de riqueza neste país,
  401. temos uma pergunta de alguém
    da comunidade, Dana Perls:
  402. "Como você sugere
    que as organizações liberais brancas
  403. encaminhem efetivamente problemas
    de racismo no ambiente de trabalho,
  404. especialmente em ambientes em que
    as pessoas silenciam diante do racismo
  405. ou fazem declarações simbólicas
    sem olhar internamente?"
  406. IXK: Certo.

  407. Eu faria algumas sugestões.
  408. Uma, há várias décadas
  409. todos os locais de trabalho
    anunciam publicamente
  410. um compromisso com a diversidade.
  411. Tipicamente, eles têm declarações
    referentes à diversidade.
  412. Eu basicamente rasgaria essas declarações
  413. e escreveria uma nova,
  414. e seria uma declaração
    comprometida com o antirracismo.
  415. Nessa declaração, eu definiria claramente
    o que é uma ideia racista,
  416. o que é uma ideia antirracista,
  417. o que é uma política racista
    e o que é uma política antirracista.
  418. E, como local de trabalho,
    você declararia estar comprometido
  419. a ter uma cultura de ideias antirracistas
  420. e uma instituição feita
    de políticas antirracistas.
  421. Assim todos poderiam
    avaliar as ideias de todos
  422. e as políticas daquele local de trabalho,
    baseadas nesse documento.
  423. Acho que isso poderia iniciar
    o processo de transformação.
  424. Também acho muito importante
  425. que os locais de trabalho
    não só diversifiquem sua equipe,
  426. mas também a administração superior.
  427. E acho que isso também
    é absolutamente crítico.
  428. CS: Temos mais perguntas da audiência.

  429. Temos uma pergunta de Melissa Mahoney:
  430. "Donald Trump parece fazer
    do apoio ao Black Lives Matter
  431. uma questão partidária,
  432. por exemplo, debochando de Mitt Romney
  433. por participar de um protesto pacífico.
  434. Como separar isso,
    para que não seja algo partidário?"
  435. IXK: Bem, acho que dizer
    que a vida dos negros

  436. é uma bandeira dos democratas
  437. simultaneamente afirma
  438. que os republicanos
    não valorizam a vida dos negros.
  439. Se é isso, essencialmente,
    que Donald Trump diz,
  440. se ele declara
  441. que há um problema
    ao marchar pela vida dos negros,
  442. qual é a solução?
  443. A solução é não marchar.
    Qual é a alternativa?
  444. A alternativa é não marchar
    pela vida dos negros.
  445. A alternativa é não se importar
  446. quando os negros morrerem
    por violência policial ou por COVID.
  447. Então, para mim, a forma de tornamos
    isso uma questão não partidária
  448. é retaliando
  449. ou argumentando dessa forma,
  450. e obviamente os republicanos vão alegar
  451. que não estão dizendo isso,
  452. mas é algo simples:
  453. ou você acredita que vidas negras importam
  454. ou não.
  455. E se você acredita
    que vidas negras importam
  456. porque você acredita em direitos humanos,
  457. então você acredita no direito humano
    dos negros e de todas as pessoas de viver,
  458. de não ter medo da violência policial,
  459. de não ter medo do Estado
  460. e de não ter medo
    que um protesto pacífico enfraqueça
  461. porque algum político quer fazer campanha,
  462. então você vai instituir políticas
    que mostrem isso.
  463. Ou não.
  464. WPR: Quero perguntar

  465. como as pessoas podem
    pensar sobre o antirracismo
  466. e como podem realmente
    trazer isso para a vida delas.
  467. Imagino que muita gente
  468. ouve isso e pensa:
  469. preciso ser muito cuidadoso
  470. sobre como minhas ações e palavras
  471. são percebidas.
  472. Qual a intenção que se percebe
    no que eu falo,
  473. e isso pode ser exaustivo,
  474. e acho que isso se conecta
    inclusive com essa ideia de política.
  475. Então eu gostaria de saber.
  476. Há um grande elemento de preocupação
  477. que vem com esse trabalho
    de ser antirracista.
  478. Qual sua reação e resposta
    para quem se preocupa
  479. com a exaustão mental
    de ter que pensar constantemente
  480. sobre como suas ações
    podem ferir ou machucar aguém?
  481. IXK: Acho que parte da preocupação

  482. que as pessoas têm com a exaustão mental
  483. é essa ideia
  484. de nunca querer cometer um erro,
  485. e acho que ser antirracista
  486. é cometer erros
  487. e reconhecer quando isso acontecer.
  488. Para nós, o importante é ter
    essas definições bem claras,
  489. assim podemos avaliar nossas palavras,
  490. podemos avaliar nossos atos,
  491. e, ao cometer um erro,
    podemos apenas assumi-lo e dizer:
  492. "Sabe, essa foi uma ideia racista",
  493. "Sabe, eu estava apoiando
    uma política racista, mas vou mudar".
  494. Outra coisa que acho importante é perceber
  495. que, de várias formas,
  496. somos viciados,
  497. e digo nós individualmente
    e certamente o país como um todo
  498. é viciado em racismo,
  499. e essa é uma das razões
  500. pela qual tantas pessoas
    simplesmente negam.
  501. As pessoas normalmente negam seus vícios.
  502. Mas então, ao percebermos o vício,
  503. todos que tinham um vício,
  504. você fala com amigos e familiares
  505. que estão superando
    o vício de uso de drogas,
  506. eles não dizem simplesmente
    que estão curados,
  507. que não precisam
    pensar nisso regularmente.
  508. Alguém que esteja superando o alcoolismo
  509. diz: "Esse é um processo diário,
  510. e passo por ele a cada dia
  511. e a cada momento
  512. e sim, é difícil
  513. me conter
  514. de voltar ao meu vício,
  515. mas ao mesmo tempo é libertador,
  516. porque não preciso mais
    me afundar naquele vício.
  517. E não preciso mais magoar pessoas
  518. por causa do meu vício".
  519. E acho isso muito importante.
  520. Passamos muito tempo
    pensando sobre como nos sentimos
  521. e menos tempo pensando
  522. sobre como nossas ideias e ações
    fazem os outros se sentirem.
  523. E uma coisa que o vídeo do George Floyd
  524. forçou os norte-americanos a fazerem
  525. foi realmente ver e especialmente escutar
  526. como alguém se sente
  527. em função do racismo dos outros.
  528. CS: Temos outra pergunta da audiência.

  529. A pergunta é:
  530. "Você pode falar
    sobre a interseccionalidade
  531. entre o trabalho do antirracismo,
    do feminismo e dos direitos homossexuais?
  532. Como o antirracismo
    se relaciona e afeta o trabalho
  533. dessas outras questões
    de direitos humanos?"
  534. IXK: Certo.

  535. Eu defino uma ideia racista
  536. como qualquer ideia
    que sugere que um grupo racial
  537. é superior ou inferior a outro
    por qualquer motivo.
  538. E uso o termo grupo racial
  539. em oposição a raça
  540. porque toda raça é uma coleção
    de grupos racializados interseccionados,
  541. então temos mulheres negras
    e homens negros
  542. e temos heterossexuais negros
    e pessoas queer negras,
  543. assim como temos mulheres latinas
    e mulheres brancas e homens asiáticos,
  544. e o importante para nós é entender
  545. que não são só ideias racistas
  546. que atingem as pessoas negras.
  547. Há ideias racistas que se desenvolveram
  548. e atingiram mulheres negras,
  549. que atingiram lésbicas negras,
  550. que atingiram mulheres trans negras.
  551. E muitas vezes as ideias racistas
    que atingem esses grupos interseccionais
  552. cruzam com outras formas de preconceito
  553. que também atingem esses grupos.
  554. Para dar um exemplo sobre mulheres negras,
  555. uma das ideias racistas mais antigas
    sobre as mulheres negras
  556. era a ideia de que elas eram
    mulheres inferiores
  557. ou que nem mesmo eram mulheres,
  558. e que eram inferiores às mulheres brancas,
  559. que eram o topo da condição feminina.
  560. E essa ideia fez uma intersecção
  561. com a ideia sexista
  562. que sugere que as mulheres são fracas,
  563. que, quanto mais fraca é uma mulher,
    mais feminina ela é,
  564. e, quanto mais forte é uma mulher,
    mais masculina ela é.
  565. Essas duas ideias se cruzaram
  566. para degradar constantemente
    as mulheres negras
  567. com a ideia de mulher negra
    forte e masculina,
  568. inferior à mulher branca e fraca.
  569. A única forma de realmente
    entender essas construções
  570. de uma mulher branca e fraca superfeminina
  571. e uma mulher negra e forte hipermasculina
  572. é entender as ideias sexistas,
  573. é rejeitar as ideias sexistas,
  574. e, rapidamente, o mesmo acontece
  575. na intersecção entre racismo e homofobia,
  576. na qual pessoas negras queer
    estão sujeitas à ideia
  577. de serem mais hipersexuais
  578. porque há essa ideia de que pessoas queer
  579. serem mais hipersexuais
    que as heterossexuais.
  580. Então as pessoas negras queer
    têm sido rotuladas
  581. de serem mais hipersexuais
    do que pessoas brancas queer
  582. e do que pessoas negras heterossexuais.
  583. E você não consegue realmente
    ver e entender e rejeitar isso
  584. se não rejeitar e entender
    e desafiar também a homofobia.
  585. WPR: Nessa questão de desafiar,

  586. temos outra pergunta da nossa comunidade,
    feita por Maryam Mohit:
  587. "Como você vê o antirracismo
    e a cultura do cancelamento interagindo.
  588. Por exemplo, quando alguém fez algo
    obviamente racista no passado
  589. e isso vem à tona?"
  590. Como reagir a isso?
  591. IXK: Uau.

  592. Acho isso muito, muito complexo.
  593. Obviamente eu encorajo as pessoas
  594. a se transformarem,
  595. a mudarem, a admitirem que eram racistas,
  596. então obviamente nós, como comunidade,
  597. devemos dar às pessoas
    a possibilidade de fazer isso.
  598. Quando alguém admite
    que estava sendo racista,
  599. claro que não podemos
    cancelá-lo imediatamente.
  600. Mas também acho
  601. que há pessoas
  602. que fazem coisas tão ofensivas
  603. e há pessoas tão relutantes em reconhecer
  604. como é ofensivo o que acabaram de fazer,
  605. que em determinado momento
    não é só o ato horrível e repulsivo,
  606. mas, acima disso,
  607. a recusa a ao menos admitir
    o ato horrível e repulsivo.
  608. Nesse caso, consigo entender
    que as pessoas queiram mesmo cancelá-las
  609. e, por outro lado, acho que é preciso
  610. ter algum tipo de consequência,
  611. consequência pública, cultural,
  612. para as pessoas que agem de forma racista,
  613. especialmente se for
    uma forma extremamente ofensiva.
  614. E muita gente decidiu
  615. simplesmente cancelar essas pessoas.
  616. E não vou criticá-las,
  617. mas acho que devemos encontrar
    uma forma de discernir
  618. aqueles que se recusam
  619. a se transformar
  620. e aqueles que cometeram um erro
    e reconhecem isso
  621. e estão verdadeiramente
    comprometidos em se transformar.
  622. CS: Sim, uma das preocupações
    que muitos ativistas estão expressando

  623. é que a energia por trás
    do movimento Black Lives Matter
  624. deve permanecer elevada
  625. para que a mudança antirracista
    realmente ocorra.
  626. Acho que isso também se aplica
    ao que você acaba de dizer.
  627. E gostaria de saber sua opinião
  628. sobre quando os protestos
    começarem a enfraquecer
  629. e as campanhas de arrecadação diminuírem,
  630. como podemos garantir que a conversa
  631. sobre antirracismo continue em pauta?
  632. IXK: Claro.

  633. Em "Como Ser Antirracista",
  634. num dos capítulos finais,
  635. chamado "Fracasso",
  636. falei sobre o que chamo
    de defesa do sentimento,
  637. que é a pessoa se sentir mal
    com o que está acontecendo,
  638. com o que aconteceu com George Floyd
  639. ou com o que aconteceu
    com Ahmaud Arbery ou Breonna Taylor.
  640. Elas se sentem mal com este país
    e para onde ele está indo.
  641. Então a forma de elas se sentirem melhor
  642. é irem a uma manifestação.
  643. A forma de se sentirem melhor
  644. é doando para uma organização específica.
  645. A forma de se sentirem melhor
  646. é lendo um livro.
  647. E se é isso
  648. que muitos norte-americanos estão fazendo,
  649. uma vez que eles se sintam melhor,
  650. ou seja, quando o indivíduo
    se sentir melhor
  651. através da participação
    em clubes de leitura, manifestações
  652. ou campanhas de doação,
  653. nada vai mudar, a não ser
    seu próprio sentimento.
  654. Então precisamos ir
    além de nossos sentimentos.

  655. E isso não é dizer que as pessoas
    não devem se sentir mal,
  656. mas devemos usar nossos sentimentos,
  657. o quão mal nos sentimos
    com o que está havendo,
  658. para colocar em prática
  659. políticas e poder antirracistas.
  660. Em outras palavras, nossos sentimentos
    devem nos fazer avançar.
  661. Eles não devem ser o ponto de chegada.
  662. Não tem a ver com nos sentirmos melhor.
  663. Tem a ver com transformar este país,
  664. e precisamos mirar
    a transformação deste país,
  665. porque, se não o fizermos,
  666. quando as pessoas se sentirem melhor
    depois que tudo isso tiver passado,
  667. voltaremos à mesma situação
    de ficarmos horrorizados por outro vídeo,
  668. e então nos sentirmos mal,
  669. e assim o ciclo só vai continuar.
  670. WPR: Sabe, acho que quando pensamos

  671. que tipo de mudanças
    podemos implementar
  672. e como podemos fazer
    o sistema funcionar melhor,
  673. fazer nossos governos funcionarem melhor,
    nossa polícia funcionar melhor,
  674. há modelos em outros países...
  675. Obviamente a história dos EUA é única
  676. em termos de pensamento
    sobre raça e opressão,
  677. mas, ao olhar outras nações e culturas,
  678. você vê outros modelos como exemplos
  679. que poderíamos implementar aqui?
  680. IXK: Há tantos.

  681. Há países em que os policiais
    não usam armas.
  682. Há países
  683. que têm população maior que a dos EUA,
  684. mas menos presos.
  685. Há países
  686. que tentam combater crimes violentos
  687. não com mais policiais e prisões,
  688. mas com mais trabalho e oportunidades,
  689. porque eles sabem e veem
    que as comunidades
  690. com níveis mais altos de violência
  691. tendem a ser comunidades
    com altos níveis de pobreza
  692. e desemprego de longa duração.
  693. Acho que...
  694. Obviamente,
  695. outros países oferecem consideráveis
    redes de segurança social
  696. de forma que as pessoas não cometem
    crimes devido à pobreza,
  697. não cometem crimes devido ao desespero.
  698. Então acho que é fundamental para nós
  699. primeiramente
  700. pensar desta forma: certo,
    se não há nada errado com as pessoas,
  701. como podemos reduzir a violência policial?
  702. Como podemos reduzir
    a desigualdade racial na saúde?
  703. Quais políticas podemos mudar?
    Quais funcionaram?
  704. É esse tipo de pergunta
    que precisamos fazer,
  705. porque na verdade nunca houve
    nada de errado com as pessoas.
  706. CS: No seu artigo no "The Atlantic"

  707. chamado "Who Gets To Be
    Afraid in America", você escreveu:
  708. "O que eu sou, um homem negro,
    não deveria importar.
  709. Deveria importar quem sou".
  710. Sinto que é como se você dissesse
  711. que em outros lugares
    talvez isso seja mais possível,
  712. e gostaria de saber, quando você imagina
  713. um país no qual importa mais quem você é,
  714. como ele seria?
  715. IXK: Para mim, como negro norte-americano,

  716. as pessoas não me achariam perigoso,
  717. e assim minha existência
    não seria perigosa.
  718. Isso me permite andar pelo país
  719. sem achar que os outros têm medo de mim
  720. por causa da cor da minha pele.
  721. Isso me permite acreditar
  722. que não consegui um emprego
    porque não me saí bem na entrevista
  723. e não por causa da cor da minha pele.
  724. Isso me permite...
  725. Um país com equidade racial,
  726. com justiça racial,
  727. com oportunidades para todos,
  728. um país onde a cultura
    afro-americana, a cultura nativa,
  729. a cultura de mexicanos-americanos
  730. e de coreanos-americanos
    são igualmente valorizadas,
  731. onde não se pede que ninguém
    assimile a cultura branca norte-americana.
  732. Onde não há um padrão
    de vestimenta profissional.
  733. Onde não é obrigatório falar inglês
  734. para ser norte-americano.
  735. E não só teríamos verdadeiramente
    igualdade e justiça para todos,
  736. mas encontraríamos um jeito
  737. de valorizar a diferença,
  738. de valorizar toda a diferença
    cultural e étnica
  739. que há nos Estados Unidos.
  740. Isso tornaria este um país incrível,
  741. seríamos realmente um país
  742. onde poderíamos de fato viajar pelo país
  743. e conhecer culturas do mundo todo,
  744. valorizar essas culturas
  745. e até mesmo entender
    nossa própria cultura
  746. a partir do que os outros estão fazendo.
  747. Há tanta beleza no meio de toda essa dor,
  748. e só quero de alguma forma lapidar isso
  749. e remover
  750. todas as cicatrizes de políticas racistas
  751. de forma que as pessoas possam se curar
  752. e possamos ver a verdadeira beleza.
  753. WPR: Ibram, ao pensar neste momento,

  754. quanto precisamos avançar
  755. para conquistar essa verdadeira beleza?
  756. IXK: Bem,

  757. sempre vejo progresso
    e resistência nas manifestações.
  758. e só pelo fato de as pessoas
    estarem clamando nas praças
  759. e nas prefeituras
  760. por mudanças progressivas e sistêmicas,
    sei que a mudança está aqui,
  761. mas as pessoas clamam
  762. e clamam em pequenas e grandes cidades,
  763. clamam de lugares conhecidos
  764. e de lugares de que nunca ouvimos falar.
  765. As pessoas clamam por mudança
    e estão cansadas.
  766. Estamos vivendo um período
  767. em que enfrentamos uma pandemia viral,
  768. uma pandemia racial
    junto com a pandemia viral
  769. onde as pessoas não brancas são infectadas
    e morrem desproporcionalmente,
  770. e mesmo uma pandemia econômica
  771. em que mais de 40 milhões
    de norte-americanos perderam o emprego
  772. e certamente uma pandemia
    de violência policial,
  773. e então as pessoas se manifestam
    contra a violência policial
  774. só para sofrer violência policial
    nas manifestações.
  775. Quer dizer, as pessoas veem que há
    um problema fundamental aqui,
  776. e que é um problema
    que pode ser resolvido.
  777. Há um país que pode ser criado
  778. e as pessoas clamam por isso,
  779. e isso é sempre o começo.
  780. Começa pelo que estamos vivendo hoje.
  781. CS: Acho que a próxima pergunta
    da audiência vai bem nessa linha:

  782. "O que te dá esperança agora?"
  783. IXK: Com certeza a resistência ao racismo
    sempre me deu esperança,

  784. mesmo que
  785. seis meses atrás as pessoas não estivessem
    praticamente todas as noites
  786. por todo o país, se manifestando
    contra o racismo,
  787. mas eu podia olhar para a história
  788. e ver que as pessoas resistiam.
  789. Então a resistência
    sempre me dá esperança,
  790. porque sempre é resistência.
  791. E, claro, é tempestuosa,
  792. mas o arco-íris normalmente
    está do outro lado.
  793. Mas também recebo
    esperança filosoficamente,
  794. porque sei que, para gerar mudança,
  795. precisamos acreditar na mudança.
  796. Não tem como querer
    promover mudanças e ser cínico.
  797. É impossível.
  798. Eu sei que preciso acreditar na mudança
  799. para poder fazê-la acontecer.
  800. WPR: Temos outra pergunta

  801. que toca em pontos que você falou antes
  802. em termos da mudança estrutural
    que precisamos promover.
  803. De Maryam Mohit: "Para colocar em prática
    as políticas transformativas,
  804. o mais importante é votar
    nas pessoas certas
  805. e eleger para todos os níveis
  806. pessoas que possam fazer
    essas mudanças estruturais?"
  807. IXK: Acho que uma parte é isso.

  808. Certamente acho que devemos votar,
  809. de diretores de escola
    ao presidente dos Estados Unidos,
  810. em pessoas comprometidas
  811. com instituir políticas antirracistas
  812. que levem à igualdade e justiça.
  813. E acho que isso é muito importante,
  814. mas não acho
  815. que devemos pensar que essa é
    a única coisa que devemos focar
  816. ou a única coisa que devemos fazer.
  817. E há instituições,
  818. há bairros
  819. que precisam ser transformados,
  820. que em certa medida
  821. estão fora da competência de um legislador
  822. oficialmente eleito.
  823. Há administradores, CEOs e presidentes
  824. com poder de transformar políticas
  825. em suas esferas e instituições,
  826. então devemos focar isso.
  827. A última coisa que vou dizer sobre votar
  828. é que escrevi uma série de artigos
    para o "The Atlantic" no início deste ano
  829. que buscam fazer os norte-americanos
    pensarem no que chamo
  830. "o outro eleitor oscilante".
  831. Não o tradicional eleitor que oscila
    entre republicanos e democratas,
  832. que são principalmente velhos brancos.
  833. Falo sobre os que oscilam
    entre votar nos democratas
  834. e não votar.
  835. E esses eleitores são
    tipicamente mais jovens
  836. e tipicamente não brancos,
  837. mas são especialmente jovens não brancos,
  838. especialmente jovens negros e latinos.
  839. Devemos ver essas pessoas,
  840. esses jovens eleitores negros e latinos
  841. que estão decidindo se votam ou não
  842. da mesma forma que vemos
  843. as pessoas que estão decidindo se votam
  844. em Trump ou Biden nas eleições gerais.
  845. Em outras palavras, vê-los também
    como eleitores oscilantes
  846. é vê-los de forma a dizer:
    precisamos persuadir essas pessoas.
  847. Elas não são gado político.
  848. Não vamos simplesmente desconsiderá-las.
  849. Precisamos encorajá-las e persuadi-las,
  850. e também precisamos facilitar a votação
  851. para esses outros eleitores oscilantes,
  852. e geralmente é difícil
    para esses jovens não brancos votarem
  853. por causa das políticas
    de supressão de eleitores.
  854. CS: Obrigada, Ibram.

  855. Bem, estamos chegando
    ao fim desta entrevista,
  856. mas eu adoraria
  857. que você lesse algo que escreveu
  858. alguns dias atrás no Instagram.
  859. Você fez um post lindo
  860. com uma foto de sua filha,
  861. e me pergunto se você gostaria
    de compartilhá-lo conosco
  862. e dizer brevemente como cada um de nós
    pode trazer essa perspectiva
  863. para a própria vida.
  864. IXK: Sim, claro.

  865. Eu postei uma foto da Imani,
    minha filha de quatro anos,
  866. e escrevi:
  867. "Eu amo. E, por amar, eu resisto.
  868. Tem havido muitas teorias
  869. sobre o que está impulsionando o aumento
    das manifestações contra o racismo
  870. no âmbito público e privado.
  871. Vou oferecer outra: o amor.
  872. Nós amamos.
  873. Sabemos que a vida de quem amamos,
  874. especialmente dos negros que amamos,
  875. está em perigo
  876. pela violência do racismo.
  877. O tempo todo me perguntam
    o que me impulsiona.
  878. É a mesma coisa: o amor.
  879. O amor desta garotinha.
  880. O amor de todos, grandes e pequenos,
  881. que quero que tenham uma vida plena
  882. na plenitude de sua humanidade,
  883. não barrados por políticas racistas,
  884. nem degradados por ideias racistas,
  885. nem aterrorizados pela violência racista.
  886. Sejamos antirracistas.
  887. Vamos defender a vida.
  888. Vamos defender nosso direito humano
    de viver, e viver plenamente,
  889. porque amamos".
  890. E Cloe, só quero enfatizar
  891. que o cerne de ser antirracista
  892. é o amor,
  893. é amar seu país,
  894. amar sua humanidade,
  895. amar seus familiares e amigos
  896. e certamente amar a si mesmo.
  897. E o amor pra mim é um verbo.
  898. Para mim o amor
  899. é ajudar os outros e até eu mesmo
  900. a me tornar constantemente
    uma versão melhor de mim mesmo,
  901. deles mesmos, de quem eles querem ser.
  902. Então amar este país e amar a humanidade
  903. é impulsionar a humanidade
    de maneira construtiva
  904. a ser uma versão melhor de si mesma.
  905. E não podemos ser uma versão melhor,
  906. não podemos construir
    uma humanidade melhor,
  907. enquanto estivermos presos pelo racismo.
  908. WPR: Isso é lindo.

  909. Obrigada por tudo que compartilhou, Ibram.
  910. Sinto que ficou bem claro
    que não é algo fácil, certo?
  911. Não há um paliativo que faça isso sumir,
  912. isso exige trabalho de todos nós,
  913. e realmente agradeço pela honestidade
  914. e consideração que você nos trouxe hoje.
  915. IXK: Por nada. Muito obrigado
    por terem essa conversa comigo.

  916. CS: Muito obrigada, Ibram.

  917. Estamos muito gratas por sua participação.
  918. IXK: Obrigado.