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Showing Revision 76 created 09/04/2020 by Raissa Mendes.

  1. Há 20 anos, minha vida tomou
    uma direção completamente inesperada.
  2. Eu estava sentada, assistindo televisão
    com meu então filho de quatro anos.
  3. E ele disse que precisava
    me contar uma coisa.
  4. Eu falei: "Claro, o que é?"
  5. Ele se virou pra mim e disse:
  6. "Mamãe, Deus cometeu um erro;
    eu devia ser uma menina".
  7. Fiquei apavorada,
  8. mas isso acabava por explicar tanta coisa,
  9. tanta coisa.
  10. Mas, como no jogo "Monopoly",
    pulei direto do medo para a negação
  11. e disse ao Jack que tudo bem ser
    menino e gostar de coisas de menina,
  12. mas que isso não fazia dele uma menina.
  13. E ele olhou pra mim, baixou os olhos
  14. e não disse mais nada naquele dia.
  15. Então, hoje eu queria mostrar o processo
  16. que ocorreu nos últimos 24 anos
    da minha vida e da minha criança,
  17. e tentar explicar nossa jornada.
  18. Assim, de Jack para Jackie.

  19. Como é que este bebê de 3,6 quilos...
  20. a propósito, ela odeia esta foto,
  21. pois diz que ela está parecida
    com um membro do Village People...
  22. (Risos)
  23. se transformou nesta jovem de 24 anos?
  24. Ela gosta desta foto,
    pois se acha sexy nela.
  25. Bem, Jack foi meu primeiro filho.
  26. Achei que sabia o que esperar,
    mas realmente comecei a notar
  27. que, tão logo começou
    a andar e a se expressar,
  28. ele gravitava ao redor de coisas
  29. vistas sob o estereótipo de "femininas".
  30. Mas aquilo não me incomodava;
    não me perturbava nem um pouco.
  31. Sempre achei que as crianças
    deviam brincar com o que quisessem,
  32. mesmo que não fosse a regra.
  33. E, quando tive de voltar ao trabalho
    e deixar Jack na creche,
  34. suas roupas favoritas eram o tutu
    e a fantasia da Branca de Neve.
  35. Pra mim, estava tudo bem.
  36. Mas não para o pai.
  37. O pai de Jack sofria, e me culpava.
  38. Ele achava que, por permitir
  39. que Jack brincasse
    com Polly Pocket e My Little Pony,
  40. eu estava encorajando esse comportamento.
  41. E eu não concordava,
    o que causava tensões.
  42. Eu havia chegado à conclusão,
  43. nos seus primeiros dois anos de vida,
  44. que eu tinha um menininho
    muito sensível e afeminado
  45. que provavelmente era gay.
  46. Mas o pai de Jack não aprovava
    aquele comportamento afeminado,

  47. e isso criou tanta tensão
    que acabamos na terapia de casal.
  48. Fomos pra terapia,
  49. e o que nos disseram é que, como pais,
    tínhamos de entrar num acordo,
  50. não importava qual fosse,
    mas tínhamos de entrar num acordo.
  51. Naquela altura, Tim aparentemente decidiu
    que era eu que tinha de concordar com ele,
  52. e assim todos os "brinquedos de menina"
    ou "brinquedos afeminados", coisas assim,
  53. foram tirados dele e guardados,
  54. e Jack foi informado
    de que aquilo não era apropriado.
  55. De repente, um menininho feliz e confiante
  56. ficou quieto, retraído, dengoso e choroso.
  57. Não gostei nada daquilo e não achei certo.
  58. Mas o que me fez fincar o pé
  59. foi quando, umas semanas depois,
    minha mãe me ligou e disse:
  60. "O que está acontecendo com Jack?"
  61. Perguntei: "Como assim?"
  62. Ela falou: "Eu liguei uns dias atrás
  63. pra perguntar o que ele queria de Natal,
  64. e ele levou o telefone
    pra fora da sala e falou:
  65. 'Uma Barbie Rapunzel,
    mas, por favor, escondido,
  66. porque se o papai e a mamãe souberem,
    não vão me deixar brincar'".
  67. Aí percebi que eu estava envergonhando
    minha criança e sua escolha de brinquedos,
  68. então o embargo dos brinquedos parou.
  69. Mas fui consultar minha médica,
  70. pois estava perdida
    e não sabia o que fazer.
  71. E ela franziu a testa e falou:
  72. "Puxa! Que interessante!",
  73. o que não ajudou muito,
    pois eu queria algum tipo de orientação.
  74. E, assim, ela não foi a primeira,
    e certamente não seria a última,
  75. a me dizer que "era uma fase",
  76. bem longa, naquela altura, né?
  77. E que sairia dela.
  78. Mas ela não saiu.
  79. E ela continuava a repetir:
  80. "Sou menina, sou menina,
    sou uma menina de verdade".
  81. Aos seis anos, ela perguntou
    se podia fazer uma cirurgia

  82. para virar uma menina.
  83. E foi difícil demais para mim,
    como mãe, assistir à sua devastação
  84. quando respondi que ela teria
    de esperar até ficar adulta
  85. antes que isso pudesse acontecer.
  86. Aquilo me mostrou que eu tinha
    de fazer alguma coisa,
  87. e que não podia continuar a ignorar
    e fingir que isso não estava acontecendo.
  88. Então, fui pesquisar na internet
  89. e coloquei: "Meu filho
    quer ser uma menina".
  90. E vieram diversos sites,
  91. mas acho que o décimo da lista era
    um site chamado "Mermaids", sereias.
  92. Então, cliquei nele,
    e tinha um número de telefone.
  93. Acabei dando um telefonema
    fundamental pra mim,
  94. e conversando com Lynn,
  95. que era membro fundadora da instituição.
  96. Acho que chorei a conversa inteira,
  97. porque foi um alívio grande demais
    finalmente falar com alguém
  98. que entendia o que eu estava passando
  99. e que apontava semelhanças
    entre suas crianças e a minha.
  100. Isso me deu esperança.
  101. Aos sete anos, Jackie
    foi indicada para Tavistock,

  102. que é uma clínica pública que ajuda
    crianças e jovens com disforia de gênero,
  103. e recebeu um diagnóstico
    de disforia de gênero.
  104. Sério? Que surpresa!
  105. No entanto, aos oito anos, infelizmente,
    o pai dela e eu nos separamos.

  106. Mas isso acabou me dando
    muito mais liberdade
  107. para deixar Jackie se expressar.
  108. A Tavistock disse que ajudava permitir
    que ela usasse roupas de menina em casa,
  109. mas que ela precisava permanecer
    como menino fora de casa,
  110. e tudo bem.
  111. Eu me lembro da nossa primeira ida
    ao shopping pra comprar roupas.
  112. Entramos numa loja,
  113. e eu falei: "Ali é a seção
    de roupas de menina.
  114. Você pode escolher algumas,
    o que você quiser.
  115. E o olhar dela foi indescritível.
  116. Ela ficou feliz demais.
  117. E lá foi ela,
  118. e voltou uns dois minutos depois
  119. com dois vestidos;
    não conseguia se decidir.
  120. E ficou segurando os vestidos, radiante,
  121. e falava assim:
  122. "Qual deles? De qual você
    gosta mais, deste ou deste?",
  123. e fazia uma volta.
  124. E eu cá comigo:
  125. "Meu Deus, se alguém
    estiver me vendo agora,
  126. vai pensar: 'A mãe desse menininho
    com vestidos, o que ela está fazendo?'''
  127. E olhei novamente
    pra minha criança na minha frente,
  128. olhei bem para o rosto dela e pensei:
  129. "Quer saber? Não me importo
    com o que os outros vão pensar.
  130. A pessoa mais importante pra mim
    está bem aqui na minha frente".
  131. E, aos dez anos, saímos de férias.

  132. Passamos três semanas
    em que Jackie viveu como Jackie:
  133. pronomes femininos, nome de menina,
    roupas de menina o tempo todo.
  134. E aquilo me mostrou
  135. como minha criança ficou mais leve,
    mais feliz, muito mais animada,
  136. praticamente desde que levantava
    até a hora de dormir,
  137. e foi aí que percebi que forçá-la
    a viver como menino na escola
  138. era errado, porque eu estava
    passando a ela a mensagem
  139. de que querer e precisar ser
    e se expressar como menina
  140. era uma vergonha, algo a ser
    escondido, algo secreto.
  141. Assim, o último ano do fundamental I
    foi o melhor ano da vida dela na escola.
  142. Ela deixou o cabelo crescer,
    usou o uniforme de menina,
  143. e, na escola, eles notaram
    uma criança completamente diferente
  144. daquela do ano anterior.
  145. E as outras crianças foram incríveis!
  146. Lembro de uma professora me contar
  147. ter ouvido uma conversa
    entre duas das meninas,
  148. e uma dizendo pra outra:
  149. "Por que o Jack está de cabelo comprido
    e usando roupa de menina?"
  150. E a outra respondeu:
  151. "Ah, você não sabia? Ele tem o cérebro
    de menina num corpo de menino".
  152. (Risos)
  153. E a outra: "Ah... entendi".
  154. (Risos)
  155. E foi isso.
  156. Infelizmente, alguns dos pais
    não tinham a mente tão aberta,
  157. e tivemos de chamar a polícia
    quando uma mãe,
  158. ao buscar o filho quase da mesma idade
    da Jackie na escola,
  159. botava a cara pra fora do carro pra xingar
  160. minha filha de dez anos,
    que caminhava de volta pra casa.
  161. A essa altura, Tim tinha mudado.
  162. Ele tinha visto mais e mais
    que não se tratava de uma escolha,
  163. que aquilo simplesmente
    fazia parte da nossa filha,
  164. e ele agora apoiava... e,
    pra ser sincera, ele come na mão dela.
  165. Mas estávamos nos preparando
    para o ensino fundamental II,

  166. e a Tavistock estava nos dando
    apoio total e ajudando,
  167. mas, quando Jackie pôs
    o pé na escola, foi aniquilada.
  168. Completamente aniquilada.
  169. E, em duas semanas,
    ela tomou sua primeira overdose.
  170. Passei os três anos seguintes
    em alerta de suicídio.
  171. E, quando lembro,
  172. não sei como dei conta,
    mas também não sei como ela deu.
  173. Pra piorar, veio a puberdade.
  174. Aos 12 anos de idade, ela começou
    uma puberdade masculina,
  175. e foi horrível.
  176. Ela começou a se cortar.
  177. E ficamos completamente desesperados,
  178. e confrontados com o NHS daquele tempo,
    pois é diferente hoje em dia,
  179. que não prescrevia nenhum medicamento
    para pausar a puberdade,
  180. não importava o sofrimento
    da criança ao passar por esses estágios.
  181. Comecei a pesquisar de novo
    e encontrei um médico nos EUA
  182. que trabalhava com crianças
    com disforia de gênero,
  183. e que prescreveu medicação
    de bloqueio, totalmente reversível,
  184. para pausar a puberdade.
  185. Se pararmos a medicação,
    a puberdade volta,
  186. mas isso dá a jovens como minha filha
    tempo e espaço para viver e ser
  187. sem mudança no corpo.
  188. Sei que ele parece o Indiana Jones,
    mas é um médico de verdade.

  189. É o Dr. Norman Spack, e trabalha
    no hospital infantil de Boston,
  190. um especialista mundialmente reconhecido,
    que salvou a vida da minha filha.
  191. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso.
  192. No meio disso tudo,
    altos e baixos na escola,
  193. acabamos achando uma escola
    a 12 km de casa,
  194. onde ninguém a conhecia,
    a não ser como Jackie,
  195. e as coisas meio que acalmaram.
  196. Mas o efeito em sua educação
    e sua vida foi profundo.
  197. Em três anos, ela tinha
    tido sete overdoses,
  198. tudo relacionado
    a abusos e ataques transfóbicos.
  199. E uma de suas melhores amigas
  200. foi a mentora dos crimes
    de ódio da West Leeds,
  201. só para dar uma ideia
    do que Jackie teve de passar.
  202. Mas, aos 16 anos, minha filha se submeteu
    a uma cirurgia de redesignação sexual.
  203. E, agora, vou deixar
    que ela converse com vocês.

  204. (Vídeo) (Música)
  205. Jackie: Nasci no corpo de um menino,
    mas tinha a mente e o cérebro de menina.
  206. Acho que eu tinha uns cinco anos
    quando falei pra minha mãe:
  207. "Deus cometeu um erro; eu não devia...
    este não sou eu. Está errado".
  208. Acho que foi aos sete anos
    que comecei a deixar o cabelo crescer,
  209. e comecei a vestir uniforme de menina.
  210. Na escola, as pessoas foram ótimas comigo,
    realmente me ajudaram muito,
  211. assim como muitos colegas.
  212. O problema eram alguns pais
    que não aceitavam bem.
  213. Quando eu saía da escola e ia pra casa,
  214. por duas ou três semanas consecutivas,
  215. uma mãe punha a cabeça pra fora
    da janela do carro e berrava, me xingando.
  216. Dava pra sentir o ódio.
  217. E então entrei no ensino médio,
    que foi um pesadelo.
  218. Minha história se espalhou rapidamente.
  219. No meu primeiro dia no ensino médio,
  220. eu estava na minha sala,
  221. e um menino que eu nunca tinha visto
    abriu a porta da sala,
  222. e falou: "Ah, aquela aberração
    está aqui? Aquela aberração".
  223. Cuspiram em mim, me bateram,
  224. e dói demais lembrar
    como as pessoas podem ser cruéis.
  225. Foi empoderador passar por tudo isso.

  226. Aí, fui convidada a participar
    do "Miss Inglaterra" e pensei:
  227. "Devo ser... atraente. Nossa!"
  228. Isso me deu o estímulo
    de que eu precisava.
  229. É parte da minha história,
    mas não é a história toda,
  230. porque, como eu disse,
    sou irmã, cantora, atriz, modelo,
  231. tudo isso, antes de ser
    uma "pessoa trans".
  232. Odeio isso; por que me rotular?
    Não posso ser uma mulher simplesmente?
  233. Todo mundo tem o direito
    de viver a vida como quiser
  234. e ser quem quiser, então
    por que seria diferente comigo?
  235. Tenho orgulho de tudo por que passei,
  236. e não mudaria nada disso agora.
  237. É parte do que sou. Está em meu DNA.
    Sou uma mulher, e sempre fui.
  238. (Fim da música) (Fim do vídeo)
  239. Susie Green: Não consigo assistir; tenho
    de desviar os olhos, pois ainda me afeta.
  240. Agora sou a CEO das Mermaids,

  241. dirijo a instituição humanitária
    que contactei tantos anos atrás.
  242. Isso dá um pouco da ideia da demanda,
    e como está crescendo,
  243. e o que estamos enfrentando
    em termos de jovens se assumindo.
  244. E o bom é que os pais
    agora estão ouvindo também.
  245. Mas dá pra ver a diferença.
  246. A sociedade talvez esteja aceitando mais,
  247. mas, ao mesmo tempo,
    crianças e jovens pelo país
  248. ainda são tratados como a Jackie foi.
  249. Esta é uma pesquisa de 2017 da Stonewall:
  250. 51% das crianças trans sofrem bullying.
  251. Uma em dez crianças
    recebe ameaça de morte.
  252. E 84% se automutilam
    em comparação com 10% da população.
  253. E 45% delas tentam o suicídio
    pelo menos uma vez.
  254. Ser transgênero não é
    ter uma doença mental,
  255. mas o preconceito, a discriminação
    e o ódio da sociedade
  256. levam à ansiedade e depressão.
  257. Bem, agora esta é a Jackie.

  258. E vocês podem ver...
    ela talvez seja meio diva também,
  259. não sei a quem está puxando...
  260. mas o mais importante é que ela é feliz.
  261. E não é isso o que importa?
  262. Muito obrigada.
  263. (Aplausos)