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← A Vida Corajosa de Ida B. Wells #MulheresComuns

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Showing Revision 5 created 08/13/2020 by Fernando Bufalari.

  1. Há algo de irresistível em
  2. histórias de superação,
  3. onde pessoas notáveis erguem-se
  4. de começos humildes
  5. para realizarem feitos incríveis
    contra todas as chances.
  6. Mas poucas histórias são tão
    dramáticas quanto
  7. a de Ida B. Wells.
  8. Nascida escravizada no Mississípi,
  9. em meio à Guerra Civil, ela
  10. se tornou uma repórter investigativa audaz
  11. e uma militante pelos direitos civis
  12. que seria chamada de
  13. "a voz mais alta e persistente
    pela verdade"
  14. em uma era de injustiça.
  15. Desde cedo, Wells suportou
  16. enormes fardos com coragem excepcional.
  17. Ela se tornou chefe da família
  18. aos 16 anos, quando seus pais
  19. subitamente morreram de febre amarela.
  20. Para sustentar seus cinco irmãos e irmãs
  21. ela parou de estudar e foi trabalhar
  22. como professora no interior do Mississípi.
  23. Aos 21 anos, Wells
  24. pegou um trem para Memphis
  25. e se sentou no vagão feminino da
    primeira classe,
  26. para então lhe dizerem que
    mulheres negras
  27. eram restritas à segunda classe.
  28. Ela não apenas mordeu o condutor
    que tentou
  29. tirá-la de seu lugar, como entrou
    com uma ação
  30. por discriminação contra a
    companhia ferroviária.
  31. Ela ganhou na 1ª instância
  32. e apesar da decisão ser depois revogada
  33. um artigo que ela escreveu sobre
    a experiência
  34. a ajudou a começar sua
    carreira jornalística.
  35. A vida de Wells mudou para sempre em 1892,
  36. quando seu amigo Thomas Moss
    foi morto
  37. por um grupo de brancos em Memphis
  38. com outros dois homens negros.
  39. Esse assassinato brutal inspirou Wells a
    se pronunciar
  40. contra os horrores do linchamento,
  41. um instrumento de terror cada vez
    mais
  42. comum contra os negros nas décadas
  43. após a Guerra Civil.
  44. Negros eram falsamente acusados de estupro
  45. para justificar seus assassinatos.
  46. Numa série de artigos
  47. e panfletos amplamente lidos,
  48. Wells argumentou que linchamento
    não tem nada
  49. a ver com a honra das mulheres
  50. e tudo a ver com proteger o poder dos
  51. sulistas brancos.
  52. Como outros líderes civis que
  53. seguiriam seus passos, incluindo
  54. líderes civis atuais,
  55. suas críticas eram fortes porque
  56. miravam não apenas nos
  57. delitos individuais, mas no
  58. racismo institucional não explorado
  59. e no poder por trás dele.
  60. Sua análise inovadora mudou o debate
  61. nacional sobre linchamentos
  62. e seu futuro mentor, Frederick Douglass,
  63. chamou seus textos sobre o
  64. assunto débeis em comparação.
  65. Wells era co-proprietária e editora
  66. de um jornal negro em Memphis.
  67. Depois que um de seus artigos
    contra linchamentos
  68. desagradou a comunidade branca,
  69. uma multidão enfurecida invadiu
    o prédio do
  70. jornal e o destruiu.
  71. Devido às ameaças de morte,
  72. Wells passou a carregar uma
    pistola na bolsa
  73. mas se recusou a abandonar sua
  74. campanha contra linchamentos.
  75. Ela dizia ser melhor morrer lutando
  76. contra a injustiça do que
  77. morrer como um cão ou rato
    pego numa armadilha.
  78. Depois disso, ela se mudou para Nova York
  79. onde passou a publicar reportagens
  80. investigativas para um público
    cada vez maior,
  81. incluindo panfletos com estatísticas sobre
  82. os linchamentos no Sul.
  83. Seus discursos anti-linchamento
  84. levaram-na à Grã-Bretanha,
  85. onde públicos brancos pareciam bem mais
  86. ultrajados que muitos
  87. americanos.
  88. Sua turnê de discursos inspirou
  89. condenações internacionais ao linchamento,
  90. particularmente de jornais e
    políticos britânicos
  91. e elevaram Wells à principal líder
  92. do movimento anti-linchamento da nação.
  93. Wells costumava se criticar por ser
  94. teimosa e exaltada, mas essas mesmas
  95. qualidades fizeram dela uma
    oradora impetuosa
  96. e lutadora implacável contra a injustiça.
  97. Ameaçada de morte pelos brancos do Sul
  98. e criticada por reformistas
    negros moderados,
  99. que a consideravam muito radical,
  100. Wells se recusou a abrir mão
    de seus ideais
  101. em troca de conforto, por conveniência,
  102. ou mesmo sua segurança.
  103. "Corrigem-se os erros acendendo a
  104. luz da verdade sobre eles"
  105. escreveu Wells, que nunca deixou de dizer
  106. verdades desagradáveis mesmo
    ao custo de amigos
  107. ou possíveis aliados.
  108. Mesmo cercada por hostilidade e ameaças
  109. de pessoas que queriam punir
  110. sua veemência em favor
  111. de sua raça ou gênero,
  112. ela se recusou a ser silenciada.
  113. Mesmo lutando pelos direitos
    das mulheres,
  114. Wells costumava se desapontar
    com as sufragistas brancas
  115. que viam na luta racial uma distração
  116. da luta contra o machismo.
  117. Algumas até apoiavam a segregação racial.
  118. Durante a famosa marcha sufragista
    de 1913,
  119. quando foi dito às mulheres negras que
    ficassem no fundo,
  120. Wells simplesmente esperou até que
    a marcha começasse
  121. e bravamente se juntou à delegação
    de seu estado.
  122. Similarmente, ela se frustrava com
    a parcela da
  123. comunidade negra que via o movimento
    das mulheres
  124. como desimportante para a luta
    contra o racismo.
  125. Presa entre as lutas de sua raça e de
    seu gênero,
  126. Wells frequentemente sentia que
    lutava sozinha.
  127. Apesar de ter vários pretendentes
  128. e lidar com enorme pressão
    social para casar-se,
  129. Wells permaneceu solteira ao longo
    de seus vinte anos.
  130. Pouco depois dos 30, ela finalmente
    encontrou um
  131. parceiro em Ferdinand Barnett,
  132. um advogado negro igualmente
    apaixonado por
  133. justiça social e um homem que apoiava sua
  134. carreira do começo ao fim.
  135. Eles se casaram e tiveram quatro filhos
  136. e ainda que Wells acabasse
    se demitindo
  137. do emprego integral como editora
    de jornal,
  138. ela continuou seu trabalho como reformista
  139. até a sua morte.
  140. Quando ela morreu em 1931, com 69 anos,
  141. Ida B. Wells havia mudado profundamente
    o jeito
  142. como olhamos para raça, gênero
  143. e violência nos EUA.
  144. De uma escravizada vista como propriedade,
  145. ela se transformou em alguém
  146. descrita como uma mulher que
  147. andava como se o mundo lhe pertencesse.