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← Uma nova superarma na luta contra o cancro

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Showing Revision 8 created 08/11/2016 by Isabel Vaz Belchior.

  1. O cancro afeta-nos a todos nós,
  2. especialmente aqueles
    que voltam vezes sem conta,
  3. os altamente invasivos
    e os que resistem às drogas,
  4. os que desafiam o tratamento médico,
  5. mesmo quando os tratamos
    com as melhores drogas que temos.
  6. A engenharia a nível molecular,
  7. que funciona à mais pequena das escalas,
  8. pode proporcionar
    novas formas entusiasmantes
  9. de lutar contra as formas
    mais agressivas do cancro.
  10. O cancro é uma doença muito inteligente.

  11. Há algumas formas de cancro
  12. que, felizmente, já aprendemos
    a tratar relativamente bem
  13. com cirurgias e drogas
    conhecidas e estabilizadas.
  14. Mas há outras formas de cancro
  15. que não reagem a essas abordagens
  16. e o tumor sobrevive ou reaparece,
  17. mesmo depois dum massacre de drogas.
  18. Podemos pensar nestas formas
    muito agressivas de cancro

  19. como uma espécie de supervilões
    dum história de banda desenhada.
  20. São espertos, são adaptáveis
  21. e são muito bons em manterem-se vivos.
  22. Tal como a maior parte
    dos supervilões dos nossos dias,
  23. os seus superpoderes
    provêm duma mutação genética.
  24. Os genes que são modificados
    no interior das células deste tumor
  25. podem permitir e codificar novos modos
    inimagináveis de sobrevivência,
  26. permitindo que a célula cancerosa viva,
  27. apesar dos melhores tratamentos
    de quimioterapia.
  28. Por exemplo, há um artifício
    em que um gene permite que uma célula,

  29. quando a droga se aproxima da célula,
  30. expulse a droga
  31. antes que a droga cause qualquer efeito.
  32. Imaginem — a célula cospe a droga.
  33. Este é apenas um exemplo
    das muitas artimanhas genéticas
  34. na manga do nosso supervilão, o cancro.
  35. Tudo isto devido a genes mutantes.
  36. Portanto, temos um supervilão
    com superpoderes incríveis.

  37. Precisamos de um modo de ataque
    novo e poderoso.
  38. Na realidade, podemos desligar um gene.
  39. A chave é um conjunto de moléculas
    conhecidas por siRNA.
  40. Os siRNA são sequências curtas
    de código genético
  41. que guiam uma célula para bloquear
    um determinado gene.
  42. Cada molécula de siRNA
    pode desligar um gene específico
  43. no interior da célula.
  44. Durante muitos anos
    depois desta descoberta,
  45. os cientistas ficaram muito entusiasmados
  46. em saber como aplicar na medicina
    estes bloqueadores de genes.
  47. Mas há um problema.

  48. Os siRNA funcionam bem
    no interior da célula.
  49. Mas, se forem expostos às enzimas
  50. que residem na corrente sanguínea
    ou nos tecidos,
  51. degradam-se em poucos segundos.
  52. Têm que ser embrulhados, protegidos,
    durante toda a viagem pelo corpo
  53. no seu percurso até ao destino final
    no interior da célula cancerosa.
  54. A nossa estratégia é esta.

  55. Primeiro, aplicamos uma dose de siRNA,
    o gene bloqueador, à célula cancerosa
  56. e silenciamos os genes sobreviventes.
  57. Depois, saturamo-la com uma droga química.
  58. Mas como é que fazemos isso?
  59. Usando a engenharia molecular,
  60. podemos conceber uma superarma
  61. que pode viajar pela corrente sanguínea.
  62. Tem que ser suficientemente pequena
    para entrar na corrente sanguínea,
  63. tem que ser suficientemente pequena
    para penetrar no tecido do tumor,
  64. e tem que ser suficientemente pequena
    para penetrar na célula cancerosa.
  65. Para fazer este trabalho bem feito,
  66. tem que ter o tamanho de cerca
    de um centésimo dum cabelo humano.
  67. Vejamos mais de perto
    como construímos esta nanopartícula.

  68. Primeiro, comecemos
    com o núcleo da nanopartícula.
  69. É uma diminuta cápsula que contém
    a droga da quimioterapia.
  70. É o veneno que vai acabar
    com a vida da célula do tumor.
  71. Envolvemos este núcleo
  72. com uma camada muito delgada,
    de nanómetros, de siRNA.
  73. É o bloqueador do gene.
  74. Como o siRNA tem uma forte carga negativa,
  75. podemos protegê-lo
  76. com uma boa camada protetora
    de um polímero com carga positiva.
  77. As duas molécula com cargas opostas
    ficam coladas,
  78. através da atração de cargas opostas
  79. o que nos fornece uma camada protetora
  80. que impede que o siRNA
    se degrade na corrente sanguínea.
  81. Está quase pronto.
  82. (Risos)

  83. Mas ainda há um grande obstáculo
    em que temos que pensar.

  84. Com efeito, provavelmente
    é o maior obstáculo de todos.
  85. Como é que posicionamos esta superarma?
  86. Ou seja, uma arma eficaz
    precisa de ser direcionada,
  87. temos que dirigir a superarma
    para as células malignas
  88. que residem no tumor.
  89. Mas o nosso corpo tem um sistema
    imuno-defensivo natural:

  90. células que residem na corrente sanguínea
  91. e detetam coisas que não lhe pertencem,
  92. para as destruírem ou eliminarem.
  93. Sabem uma coisa? A nossa nanopartícula
    é considerada um objeto estranho.
  94. Temos que insinuar a nanopartícula
    por entre o sistema de defesa do tumor.
  95. Temos que fazê-la passar
    por esse mecanismo
  96. que tenta libertar-se do objeto estranho,
  97. mascarando-a.
  98. Portanto, acrescentamos
    mais uma camada de carga negativa

  99. em volta da nanopartícula,
  100. o que tem dois objetivos.
  101. Primeiro, esta camada exterior
    é um dos polissacarídeos
  102. de carga natural, altamente hidratado,
    que residem no nosso corpo.
  103. Cria uma nuvem de moléculas de água
    em volta da nanopartícula
  104. que lhe dá um efeito
    de capa de invisibilidade.
  105. Esta capa de invisibilidade
    permite que a nanopartícula
  106. viaje através da corrente sanguínea
  107. o tempo e a distância necessárias
    para chegar ao tumor
  108. sem ser eliminada pelo corpo.
  109. Segundo, esta camada contém moléculas

  110. que se ligam especificamente
    à célula do tumor.
  111. Uma vez ligadas, a célula cancerosa
    agarra na nanopartícula
  112. e ficamos com a nanopartícula
    no interior da célula cancerosa
  113. pronta a instalar-se.

  114. Ótimo! Também me sinto assim. Vamos lá!

  115. (Aplausos)

  116. O siRNA instala-se primeiro.
  117. Atua durante horas,
  118. dando tempo suficiente para silenciar
    e bloquear os genes sobreviventes.
  119. Agora, esses superpoderes genéticos
    já estão fora de ação.
  120. O que resta é uma célula cancerosa
    sem defesas especiais.
  121. Depois, a droga da quimioterapia
    sai do núcleo
  122. e destrói a célula do tumor,
    de modo limpo e eficaz.
  123. Com bloqueadores genéticos suficientes,
  124. podemos tratar muitos tipos
    diferentes de mutações,
  125. permitindo a hipótese
    de erradicar tumores,
  126. sem deixar para trás nenhuns vilões.

  127. Como é que funciona a nossa estratégia?
  128. Testámos estas partículas
    de nano-estrutura em animais
  129. usando uma forma muito agressiva
    de cancro da mama triplamente negativo.
  130. Este cancro da mama
    triplamente negative exibe o gene
  131. que expele a droga para o cancro
    logo que ela é ministrada.

  132. Normalmente, é a doxorrubicina
    — chamemos-lhe "dox" — a droga
  133. para o tratamento de primeira linha
    do cancro da mama.
  134. Portanto, primeiro tratámos os animais
    com um núcleo de dox, dox apenas.
  135. O tumor diminuiu o ritmo de crescimento,
  136. mas continuou a crescer rapidamente,
  137. duplicando de tamanho
    durante um período de duas semanas.

  138. Depois, tentámos
    a nossa superarma combinada.
  139. Uma nanocamada de partículas com siRNA
    contra a bomba química,
  140. mais a dox no núcleo.
  141. Reparem — verificámos
    que os tumores deixaram de crescer
  142. e também diminuíram de tamanho
  143. e, nalguns casos, foram eliminados.
  144. Os tumores estavam a regredir.

  145. (Aplausos)

  146. O que é importante nesta abordagem
    é que pode ser personalizada.
  147. Podemos adicionar
    muitas camadas diferentes de siRNA
  148. para tratar de diferentes mutações
    e mecanismos de defesa de tumores.
  149. Podemos pôr drogas diferentes
    no núcleo da nanopartícula.
  150. À medida que os médicos aprendam
    a testar os doentes
  151. e compreendam determinados
    tipos genéticos de tumores,
  152. podem ajudar-nos a determinar
  153. quais os doentes que podem
    beneficiar desta estratégia
  154. e quais os bloqueadores genéticos
    que podemos usar.

  155. O cancro do ovário
    vibra em mim uma corda especial.
  156. É um cancro muito agressivo,
  157. em parte porque só se descobre
    em fases muito tardias,
  158. quando está demasiado avançado
  159. e há uma série de mutações genéticas.
  160. Depois da primeira fase de quimioterapia
  161. este cancro regressa em 75% das doentes.
  162. Normalmente, regressa numa forma
    resistente às drogas.
  163. O cancro do ovário de alto nível
  164. é um dos supervilões á solta.
  165. Estamos agora a dirigir a nossa superarma
  166. para o derrotar.

  167. Enquanto investigadora,
  168. normalmente não trabalho com doentes.
  169. Mas, recentemente, encontrei uma mãe
    sobrevivente dum cancro do ovário.
  170. Mimi e a sua filha Paige.
  171. Senti-me profundamente inspirada
    pelo otimismo e força
  172. que mãe e filha exibiam
  173. e pela sua história de coragem e apoio.
  174. Nesta conferência, falámos
    das diversas tecnologias
  175. viradas para o cancro.
  176. Mimi estava desfeita em lágrimas
  177. quando me explicou
    que ouvir falar destes esforços
  178. lhe dá esperança para as gerações futuras,
  179. incluindo a sua filha.
  180. Isso comoveu-me.
  181. Não se trata apenas
    de criar uma ciência elegante,
  182. trata-se de mudar a vida das pessoas.
  183. Trata-se de perceber o poder da engenharia
  184. à escala das moléculas.

  185. À medida que estudantes como Paige,
    avançam nas suas carreiras,
  186. vão abrir novas possibilidades
  187. na abordagem de alguns dos grandes
    problemas de saúde mundiais
  188. — incluindo o cancro do ovário,
    os distúrbios neurológicos,
  189. as doenças infecciosas —
  190. tal como a engenharia química
    encontrou forma de me abrir algumas portas
  191. e me proporcionou uma forma de engenharia
  192. à escala mais diminuta,
    a das moléculas,
  193. para curar à escala humana.

  194. Obrigada.

  195. (Aplausos)