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Showing Revision 6 created 05/22/2019 by Fernando Bufalari.

  1. Anos antes de ser considerada
  2. uma das pessoas mais
    perigosas dos EUA,
  3. uma jovem chamada Emma Goldman
  4. se encontrava numa festa.
  5. Apesar de ser uma ativista
  6. indo ao evento para ganhar
    apoio à sua causa
  7. ela também adorava dançar,
  8. até que um de seus
    aliados a chamou à parte
  9. para criticá-la por ser
    frívola e indigna.
  10. Afinal, deve um ativista sério
  11. ser visto se divertindo tanto?
  12. Furiosa pela interrupção,
  13. Goldman disse ao rapaz
  14. para cuidar da própria vida,
  15. pois a liberdade pela qual lutava
  16. não se baseava na “negação da
    vida e da alegria”.
  17. E então, disse:
  18. “Quero a liberdade,
  19. o direito à autoexpressão,
  20. o direito de todos ao que é
    belo e radiante”.
  21. Para Goldman, uma revolução sem dança
  22. não é uma revolução que valha a pena.
  23. Ela nasceu em 1869 numa família judaica
  24. no Império russo e foi criada
  25. por uma mãe distante e um pai abusivo,
  26. que tentou forçá-la a se casar
    com 15 anos.
  27. Ao recusar, ele jogou seu
  28. livro de francês no fogo, dizendo que
  29. “Garotas não têm que estudar muito!
  30. Uma filha judia só precisa
  31. saber preparar peixe recheado,
  32. cortar macarrão e dar muitos
  33. filhos ao marido.”
  34. Poucas mulheres da época desafiariam
  35. essa ideia de feminilidade tanto
  36. quanto Emma Goldman.
  37. Com 16 anos, ela fugiu do pai
  38. e imigrou para os EUA,
  39. onde descobriu sua verdadeira vocação:
  40. uma rebelde política e uma
    oradora intensa que
  41. passaria a vida chamando a revolução.
  42. Ela ficou horrorizada pela
    história
  43. trágica de trabalhadores
    ativistas executados
  44. em Chicago e se viu atraída
    pelo movimento
  45. dos trabalhadores e enfim pelo anarquismo.
  46. Contrário ao que a palavra possa sugerir,
  47. a filosofia de Goldman não defendia
  48. a desordem e o caos,
  49. mas a liberdade individual
  50. e a rejeição de instituições que
  51. ela julgava opressoras:
  52. governo, religião, guerra,
  53. interesses comerciais
  54. e até o casamento.
  55. Apesar de ter se casado várias vezes,
  56. por conveniência ou pela cidadania,
  57. Goldman rejeitava ideias tradicionais
    de casamento
  58. e decidiu nunca ter filhos.
  59. Goldman rapidamente se tornou uma
  60. das figuras radicais mais famosas nos EUA,
  61. cuja retórica era às vezes
  62. chamada de “marreta”.
  63. Ela viajou pelo país discursando
  64. tão apaixonadamente que a famosa repórter
  65. Nellie Bly a chamou de
    “pequena Joana d’Arc”.
  66. Ao longo dos anos, Goldman foi presa
  67. várias vezes por suas ideias:
  68. por promover métodos contraceptivos,
  69. por desencorajar jovens de se alistarem
  70. no exército e por dizer a trabalhadores
  71. desempregados que “tomassem o pão”
  72. dos ricos, se não tivessem
  73. comida e trabalho.
  74. Mesmo apoiando a independência
    feminina, ela
  75. discordava com frequência das sufragistas
  76. por acreditar que o voto feminino
    era menos
  77. importante que derrubar sistemas
  78. opressores por completo.
  79. Emma dizia: “o direito ao voto ou
    a igualdade de direitos civis
  80. podem ser boas demandas, mas a
    verdadeira emancipação
  81. não começa nem nas urnas
    nem nos tribunais”.
  82. Ela dizia: “começa na alma da mulher”.
  83. Ela acreditava que as mulheres
    deviam rejeitar
  84. as leis sexistas da sociedade e do governo
  85. e reivindicar o direito de
  86. decidirem sobre suas vidas e corpos.
  87. Apenas isso, dizia Goldman,
  88. libertaria as mulheres.
  89. Apesar de heterossexual,
  90. Goldman foi uma das primeiras
  91. defensoras dos gays nos EUA,
  92. assim como de métodos contraceptivos
  93. e da liberdade sexual das mulheres.
  94. “Exijo a independência da mulher;
  95. seu direito de se sustentar,
  96. de viver por conta própria,
  97. de amar quem ela quiser,
  98. ou quantos ela quiser”, ela escreveu.
  99. “Exijo liberdade para ambos os sexos,
  100. liberdade de ação, liberdade no amor,
  101. e liberdade na maternidade”.
  102. Muitas de suas ideias sobre gênero,
    sexo e sexualidade
  103. seriam consideradas polêmicas ainda hoje,
  104. e no fim do séc. XIX
  105. eram categoricamente chocantes.
  106. Goldman foi um espinho no pé das
  107. autoridades americanas por muitos anos.
  108. Em 1919, por fim anularam sua
  109. cidadania americana e a deportaram
    para a Rússia,
  110. onde havia acabado de
  111. acontecer uma revolução popular.
  112. Mas o que ela encontrou
  113. não foi a utopia de seus sonhos,
  114. e sim outro regime opressor
  115. disposto a esmagar os direitos
    de seus cidadãos.
  116. Após se encontrar com o próprio Lênin,
  117. ela ficou bastante desiludida
  118. com o novo governo comunista.
  119. Então ela foi ao exterior discursar sobre
  120. a opressão dos sovietes,
  121. o que afastou muitos de seus aliados
  122. e causou sua expulsão tanto
  123. da Suécia quanto da Alemanha.
  124. Quando finalmente voltou aos EUA, em 1934,
  125. com permissão da administração Roosevelt,
  126. Goldman era uma senhora com mais
    de 60 anos,
  127. mas continuava tão obstinada e franca
  128. quanto sempre fora.
  129. Em sua última turnê nos EUA, seus
  130. discursos se opunham
  131. ao fascismo da Alemanha de Hitler
  132. e ao comunismo da Rússia de Stalin,
  133. enfurecendo membros da direita
    e da esquerda.
  134. Mesmo a velhice não pôde apagar
  135. seu espírito revolucionário;
  136. aos 67 anos, ela foi a Barcelona apoiar
  137. trabalhadores e anarquistas
  138. que haviam se insurgido contra o fascismo
  139. durante a Guerra Civil Espanhola.
  140. Ela os chamou de um “brilhante exemplo”
  141. para o resto do mundo
  142. e disse a uma audiência de 10.000 que
  143. “o seu ideal tem sido o meu ideal
    por 45 anos,
  144. e continuará sendo até meu
    último suspiro”.
  145. No fim da vida, quando
  146. as metas de sua causa pareciam
  147. mais impopulares e distantes
  148. da realidade que nunca,
  149. Goldman jamais titubeou em suas crenças,
  150. mesmo quando o preço foi deportação,
  151. ameaças violentas e penas de prisão.
  152. Ela esperava que seu exemplo pudesse
    iluminar o caminho
  153. para as futuras gerações.
  154. Como ela escreveu a um amigo
    e ex-amante,
  155. anos antes de sua morte:
  156. “um dia, muito depois de termos partido,
  157. talvez a liberdade erga sua cabeça
    com orgulho.
  158. Cabe a nós iluminar o caminho, mesmo
  159. que hoje nossa tocha pareça fraca
  160. ela ainda é a verdadeira chama."
  161. Ao longo da vida, Goldman
    teve o dom
  162. de enfurecer amigos e inimigos, mas
  163. jamais comprometeu suas convicções
  164. ou seu jeito de viver para agradar
    a algum deles.
  165. “Uma trilha de fogueiras marcou o alvoroço
  166. que fora Goldman pela vida”,
  167. escreveu um historiador e, de fato,
  168. Goldman queimaria quase qualquer ponte
  169. em nome de sua verdade.
  170. Como ela disse quando
  171. um jovem tentou impedi-la
    de dançar, ela
  172. jamais deixaria de lutar por um mundo
  173. onde a liberdade seja um
  174. direito universal
  175. e onde as mulheres possam
  176. viver, amar e dançar
  177. tão livremente quanto queiram.