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Showing Revision 40 created 09/13/2020 by Claudia Sander.

  1. Chris Anderson: Bem-vinda,
    Dra. Jane Goodall.
  2. Jane Goodall: Obrigada.

  3. Não seria uma entrevista completa
  4. se o Sr. H não estivesse aqui comigo.
  5. Todos conhecem o Sr. H.
  6. CA: Olá, Sr. H.

  7. Na sua palestra TED há 17 anos,
  8. você nos alertou sobre os perigos
    de os humanos povoarem o mundo natural.
  9. De alguma forma você sente
  10. que a pandemia atual é uma espécie
    de contra-ataque da natureza?
  11. JG: Está muito claro que essas zoonoses,

  12. como COVID-19, HIV/AIDS
  13. e todo tipo de doenças
    que contraímos de animais,
  14. têm certa relação com a destruição
    do meio ambiente.
  15. Conforme os animais perdem seus habitats,
    passam a viver muito próximos,
  16. e isso pode fazer com que um vírus
    em uma espécie reservatório,
  17. na qual viveu harmoniosamente
    por cerca de centenas de anos,
  18. passe para uma nova espécie.
  19. Além disso, os animais são forçados
    a um contato mais próximo com os humanos.
  20. E, às vezes, um animal com um vírus
  21. pode dar a oportunidade para esse vírus
    passar para as pessoas
  22. e criar uma nova doença, como a COVID-19.
  23. Além disso,
  24. desrespeitamos muito os animais.
  25. Nós os caçamos,
  26. matamos, comemos,
  27. traficamos.
  28. Enviamos animais
  29. aos mercados de animais selvagens na Ásia,
  30. onde vivem em péssimas condições,
    amontoados em jaulas pequenas,
  31. com pessoas sendo contaminadas
    pelo sangue, urina e fezes deles.
  32. Condições ideais para um vírus
    passar de um animal para outro
  33. ou de um animal para uma pessoa.
  34. CA: Eu gostaria de voltar
    um pouco no tempo,

  35. pois sua história é muito extraordinária.
  36. Apesar das atitudes
    ainda mais machistas dos anos 1960,
  37. você superou isso e se tornou
    uma das principais cientistas do mundo,
  38. descobrindo uma série de fatos
    incríveis sobre chimpanzés,
  39. como o uso de ferramentas e muito mais.
  40. Na sua opinião, qual característica sua
  41. permitiu que você fizesse
    um avanço desse porte?
  42. JG: Eu já nasci amando os animais

  43. e o mais importante foi ter
    uma mãe que me apoiava muito.
  44. Ela não ficou zangada ao encontrar
    minhocas na minha cama,
  45. apenas disse que era melhor
    que ficassem no jardim.
  46. Ou quando sumi por quatro horas
    e ela precisou chamar a polícia;
  47. eu estava sentada em um galinheiro,
  48. porque ninguém me dizia
    de qual "buraco" saía o ovo.
  49. Eu não sonhava em ser cientista,

  50. porque mulheres não faziam
    esse tipo de coisa.
  51. Na verdade, também não havia
    muitos homens fazendo isso na época.
  52. Todos riram de mim, exceto minha mãe,
  53. que disse: "Se você realmente quer isso,
    terá que se esforçar muito,
  54. aproveitar cada oportunidade,
    e, se não desistir, talvez você consiga".
  55. CA: E de algum modo, você conseguiu
    ganhar a confiança dos chimpanzés

  56. como ninguém jamais havia conseguido.
  57. Em retrospecto, quais foram os momentos
    mais emocionantes que você descobriu
  58. ou o que as pessoas ainda não entendem
    sobre os chimpanzés?
  59. JG: Bem, é como você diz:

  60. "Ver coisas que ninguém tinha visto,
    conquistar a confiança deles".
  61. Ninguém havia tentado, sendo bem sincera.
  62. Então, basicamente,
    usei as mesmas técnicas
  63. que eu tinha para estudar os animais
    ao redor da minha casa quando era criança.
  64. Apenas ficar sentada, pacientemente,
    sem tentar me aproximar rápido demais.
  65. Mas foi terrível, porque havia verba
    para apenas seis meses.
  66. Imagine a dificuldade para uma jovem
    sem diploma conseguir dinheiro
  67. para fazer algo tão bizarro
    quanto ficar sentada em uma floresta.
  68. Por fim, conseguimos verba para seis meses
    com um filantropo norte-americano
  69. e eu sabia que, com o tempo,
    eu ganharia a confiança dos chimpanzés,
  70. mas será que eu tinha tempo?
  71. Semanas viraram meses e finalmente,
    depois de uns quatro meses,
  72. um chimpanzé começou a perder o medo.
  73. E foi ele que eu vi em uma ocasião,
  74. eu ainda não havia chegado muito perto,
    mas tinha meus binóculos,
  75. e o vi usando e criando
    ferramentas para pegar cupins.
  76. E apesar de não estar muito surpresa,
  77. pois já tinha lido sobre o que chimpanzés
    em cativeiro eram capazes de fazer,
  78. eu sabia que a ciência acreditava
  79. que humanos, e apenas humanos,
    usavam e criavam ferramentas.
  80. Eu sabia como o Dr. Louis Leakey
    ficaria animado.
  81. Essa observação permitiu que ele
    procurasse a National Geographic Society.
  82. Eles disseram: "Certo, vamos continuar
    financiando a pesquisa",
  83. e enviaram Hugo van Lawick,
    um fotógrafo e cinegrafista,
  84. para gravar o que eu estava vendo.
  85. Vários cientistas se recusavam
    a acreditar no uso de ferramentas.
  86. Um deles chegou a dizer
    que eu havia ensinado os chimpanzés.
  87. (Risos)

  88. Eu não conseguia chegar perto deles,
    isso teria sido um milagre.

  89. De qualquer forma, quando viram
    as filmagens do Hugo
  90. com todas as minhas descrições
    dos comportamentos deles,
  91. os cientistas começaram a mudar de ideia.
  92. CA: Desde então, muitas outras descobertas

  93. mostraram que os chimpanzés são muito mais
    parecidos conosco do que se acreditava.
  94. Você disse que eles têm senso de humor.
  95. Como você os viu expressando isso?
  96. JG: Vemos isso nas brincadeiras deles,

  97. quando um chimpanzé mais velho
    brinca com um mais novo;
  98. ele puxa um cipó ao redor de uma árvore.
  99. Toda vez que o mais novo
    está prestes a pegar o cipó,
  100. o mais velho puxa o cipó para longe dele.
  101. O mais novo começa a chorar,
  102. e o mais velho começa a rir.
  103. Então, é isso.
  104. CA: E então, Jane, você percebeu
    algo muito mais preocupante,

  105. a ocorrência de gangues,
    tribos, grupos de chimpanzés
  106. sendo cruelmente
    violentos uns com os outros.
  107. Estou curioso para saber
    como você processou isso.
  108. Se de certa forma ficou deprimida conosco,
    que somos parecidos com eles.
  109. Isso fez você sentir
  110. que a violência é inerente
    a todos os grandes primatas?
  111. JG: Bem, obviamente é.

  112. Meu primeiro contato
    com o lado maligno do ser humano
  113. foram as fotos do Holocausto
    ao final da guerra.
  114. Aquilo realmente me chocou.
    Mudou quem eu era.
  115. Acho que eu tinha dez anos, na época.
  116. E quando percebi que os chimpanzés
    tinham esse lado ruim e violento,
  117. pensei que fossem como nós,
    porém mais gentis.
  118. Então percebi que eram ainda mais
    parecidos conosco do que eu pensava.
  119. Naquela época, no início dos anos 1970,
  120. foi muito estranho,
  121. havia muita discussão sobre o fato
    de a agressividade ser inata ou aprendida.
  122. Isso se tornou um debate político.
  123. Foi um período muito estranho,
  124. e eu me manifestava, dizendo:
  125. "Acho que definitivamente a agressividade
  126. faz parte do nosso repertório herdado
    de comportamentos".
  127. Perguntei a um cientista respeitado
    o que ele realmente achava,
  128. porque ele defendia
    que a agressividade é aprendida,
  129. e ele me disse: "Jane, prefiro não falar
    o que eu realmente penso".
  130. Isso foi um grande choque
    para mim em relação à ciência.
  131. CA: Eu fui levado a acreditar
    em um mundo repleto de luz e beleza.

  132. Tantos filmes lindos
    sobre borboletas, abelhas e flores,
  133. a natureza e esses cenários maravilhosos.
  134. E muitos ambientalistas
    se posicionam assim:
  135. "Sim, a natureza é pura e bela,
    os humanos é que são ruins".
  136. Mas então vemos esse tipo de observação,
  137. e ao olhar com mais atenção
    para qualquer parte da natureza,
  138. vemos coisas terríveis, para ser sincero.
  139. O que você acha da natureza,
    como pensa sobre ela,
  140. como devemos pensar sobre ela?
  141. JG: A natureza é...

  142. Se pensarmos em todo
    o espectro da evolução,
  143. há algo especial
    em ir a um lugar intocado,
  144. e a África era muito intocada
    quando eu era jovem.
  145. Havia animais por toda parte.
  146. Eu nunca gostei do fato
    de os leões matarem,
  147. mas é uma necessidade, é o que eles fazem.
  148. Se não matassem outros animais,
    eles morreriam.
  149. Acho que a grande diferença
    entre eles e nós
  150. é que eles fazem isso
    porque é o que devem fazer.
  151. Enquanto nós podemos planejar.
  152. Nossos planos são muito diferentes.
  153. Podemos planejar desmatar
    uma floresta inteira,
  154. porque queremos vender a madeira
  155. ou construir outro shopping,
  156. algo assim.
  157. Então, nossa destruição da natureza
    e nossas guerras,
  158. somos capazes de fazer o mal
    porque podemos nos sentar confortavelmente
  159. e planejar a tortura de alguém bem longe.
  160. Isso é cruel.
  161. Os chimpanzés têm
    um tipo de guerra primitiva
  162. e podem ser muito agressivos,
  163. mas é uma coisa do momento.
  164. É como eles se sentem.
  165. É a resposta a uma emoção.
  166. CA: Então, pela sua percepção,
    a sofisticação dos chimpanzés

  167. não vai tão longe quanto alguns gostariam,
    de dizer que é como o superpoder humano
  168. de ser capaz de simular o futuro
    em nossa mente com muitos detalhes
  169. e fazer planos a longo prazo;
  170. de agir para incentivar uns aos outros
    a alcançar esses objetivos de longo prazo.
  171. Que isso se parece, mesmo para alguém
    que passou tanto tempo com chimpanzés,
  172. com um conjunto de habilidades
    fundamentalmente diferentes
  173. pelas quais temos que nos responsabilizar
    e usar com muito mais sabedoria.
  174. JG: Sim, eu pessoalmente acho,

  175. e há muita discussão sobre o assunto,
  176. que é fato que desenvolvemos
    esta forma de comunicação
  177. que estamos usando,
  178. porque temos palavras.
  179. Quero dizer, a comunicação animal
    é muito mais sofisticada
  180. do que pensávamos.
  181. E chimpanzés, gorilas e orangotangos
  182. podem aprender línguas de sinais humanas.
  183. Mas nós crescemos falando
    uma língua, seja qual for.
  184. Então posso te falar sobre coisas
    que você nunca ouviu dizer.
  185. Um chimpanzé nunca poderia fazer isso.
  186. Podemos ensinar conceitos abstratos
    às nossas crianças,
  187. e chimpanzés não podem fazer isso.
  188. Então, sim, chimpanzés podem fazer
    todo tipo de coisas inteligentes,
  189. assim como elefantes, corvos e polvos.
  190. Mas nós desenvolvemos foguetes
    que vão a outros planetas
  191. e pequenos robôs que tiram fotografias,
  192. e desenvolvemos esta forma extraordinária
    pela qual podemos conversar
  193. a partir de diferentes partes do mundo.
  194. Quando eu era jovem,
  195. não havia TV, não havia celulares,
  196. não havia computadores.
  197. Era um mundo muito diferente:
    eu tinha lápis, caneta, caderno e só.
  198. CA: Voltando à pergunta sobre a natureza,

  199. porque penso muito sobre isso
  200. e tenho dificuldade, honestamente.
  201. Grande parte do seu trabalho
    e de tantas pessoas que respeito
  202. trata dessa paixão por tentar
    não estragar o mundo natural.
  203. É possível, saudável, essencial, talvez,
  204. ao mesmo tempo aceitar
    que muitos aspectos da natureza
  205. são aterrorizantes,
  206. mas também maravilhosos,
  207. e que parte dessa maravilha
    vem do seu potencial de ser aterrorizante
  208. e, ao mesmo tempo,
    ser de uma beleza estonteante,
  209. e que não podemos ser nós mesmos,
  210. por sermos parte da natureza,
    não podemos ser completos
  211. a menos que, de alguma forma,
    nós a acolhamos e nos tornemos parte dela?
  212. Me ajude a expressar, Jane,
    como essa relação deveria ser.
  213. JG: Acho que um dos problemas é que,
    conforme desenvolvemos nosso intelecto,

  214. nos tornamos cada vez melhores
  215. em modificar o meio ambiente
    para nosso próprio uso,
  216. criar campos e cultivar plantações
  217. onde costumava haver
    uma floresta ou um bosque,
  218. não vamos entrar nisso agora,
  219. mas temos a habilidade
    de mudar a natureza.
  220. Conforme migramos para as cidades
  221. e passamos a depender mais da tecnologia,
  222. muitas pessoas se sentem
    distanciadas do mundo natural.
  223. Há centenas, milhares de crianças
  224. crescendo em centros urbanos
  225. onde basicamente não há natureza alguma.
  226. Por isso o movimento atual para tornar
    as cidades mais verdes é tão importante.
  227. Foram feitos experimentos,
  228. acho que em Chicago, não tenho certeza,
  229. onde havia vários terrenos baldios
  230. em uma parte muito violenta da cidade.
  231. Então, tornaram algumas
    dessas áreas mais verdes,
  232. plantaram árvores, flores e arbustos
    nesses terrenos baldios.
  233. E a taxa de criminalidade diminuiu muito.
  234. Então plantaram árvores
    nos outros terrenos, claro.
  235. Isso mostra, assim como muitos estudos,
  236. que as crianças realmente
    precisam de natureza verde
  237. para um bom desenvolvimento psicológico.
  238. Mas, como você diz,
    somos parte da natureza

  239. e a desrespeitamos.
  240. Isso é muito terrível para nossos filhos
  241. e para nossos netos,
  242. porque dependemos da natureza
    para termos ar puro e água potável,
  243. para a regulação do clima e das chuvas.
  244. Veja o que fizemos,
    está aí a crise climática.
  245. Fomos nós. Nós causamos isso.
  246. CA: Então, há pouco mais de 30 anos,

  247. você passou de cientista
    para ativista principalmente.
  248. Por quê?
  249. JG: Foi na conferência científica em 1986,
    eu já tinha meu PhD na época,

  250. o qual me levou a descobrir como, ou se,
    o comportamento dos chimpanzés diferia
  251. de um ambiente para outro.
  252. Havia seis locais de estudos na África.
  253. Então pensamos: vamos reunir
    esses cientistas e explorar isso,
  254. o que foi fascinante.
  255. Mas também tivemos
    uma sessão sobre conservação
  256. e outra sobre as condições
    em algumas situações de cativeiro,
  257. como a pesquisa médica.
  258. Essas duas sessões foram
    muito chocantes para mim.
  259. Fui à conferência como cientista
  260. e saí como ativista.
  261. Não foi uma decisão;
    algo aconteceu dentro de mim.
  262. CA: Então, você passou os últimos 34 anos

  263. meio que fazendo campanha
    a favor de uma melhor relação
  264. entre as pessoas e a natureza.
  265. Como deveria ser essa relação?
  266. JG: Bem, aqui nos confrontamos
    com todos esses problemas.

  267. As pessoas precisam de espaço para viver.
  268. Mas o problema é que nos tornamos
  269. muito gananciosos, nas sociedades ricas.
  270. Sinceramente, quem precisa
    de quatro casas com terrenos enormes?
  271. Por que precisamos de mais um shopping?
  272. E por aí vai.
  273. Focamos benefícios econômicos
    de curto prazo,
  274. o dinheiro se tornou
    um deus a ser adorado,
  275. enquanto perdemos toda a conexão
    espiritual com o mundo natural.
  276. Buscamos ganhos financeiros
    a curto prazo, ou poder,
  277. em vez de olharmos para a saúde do planeta
  278. e para o futuro de nossas crianças.
  279. Parece que não nos
    importamos mais com isso.
  280. Por esse motivo, nunca vou parar de lutar.
  281. CA: No seu trabalho, especialmente
    com a preservação dos chimpanzés,

  282. você criou o hábito
    de envolver as pessoas,
  283. de engajar os nativos.
  284. Como isso funcionou?
  285. E você acredita que isso é essencial,
  286. se quisermos ter sucesso
    na proteção do planeta?
  287. JG: Depois daquela famosa conferência,

  288. precisei descobrir por que os chimpanzés
    estavam sumindo na África
  289. e o que acontecia com as florestas.
  290. Então juntei um pouco de dinheiro
    e visitei seis países da região.
  291. Aprendi muito sobre os problemas
    enfrentados pelos chimpanzés:
  292. caçados por sua carne
    e para o comércio de animais vivos,
  293. capturados em armadilhas,
  294. o aumento da população humana
    e a necessidade de mais terras
  295. para suas colheitas, gado e aldeias.
  296. Mas soube também das dificuldades
    enfrentadas por muitas pessoas.
  297. A pobreza absoluta,
    a falta de saúde e educação,
  298. a degradação da terra.
  299. Tudo culminou quando estava sobrevoando
    o pequeno Gombe National Park.
  300. Ele já tinha sido parte do cinturão
    de florestas equatoriais
  301. que cruzava a África até a costa oeste,
  302. e, em 1990,
  303. era uma pequena floresta isolada,
    um minúsculo parque nacional.
  304. Ao redor, as colinas estavam desmatadas
  305. e foi aí que a ficha caiu.
  306. Se não fizermos algo para ajudar
    as pessoas a acharem formas de viver
  307. que não destruam o meio ambiente,
  308. não podemos nem pensar
    em salvar os chimpanzés.
  309. Então o Instituto Jane Goodall
    iniciou o projeto "Take Care",
  310. que chamamos de "TACARE".
  311. Nosso método de conservação
    é baseado na comunidade,
  312. totalmente holístico.
  313. Hoje, colocamos as ferramentas
    de conservação nas mãos dos aldeões,
  314. porque a maioria dos chimpanzés selvagens
    da Tanzânia não estão em áreas protegidas,
  315. estão nas reservas florestais das aldeias.
  316. E agora eles medem
    a saúde da floresta deles.
  317. Eles entenderam
  318. que proteger a floresta não tem a ver
    apenas com a vida selvagem,
  319. mas sim com o futuro deles.
  320. Que eles precisam da floresta.
  321. E eles se sentem muito orgulhosos.
  322. Os voluntários vão a oficinas,
    aprendem a usar smartphones,
  323. aprendem a carregar vídeos
    na nuvem e outras plataformas.
  324. É tudo transparente.
  325. E as árvores voltaram,
  326. as colinas não estão mais devastadas.
  327. Eles concordaram em fazer
    um cinturão verde em torno de Gombe,
  328. então os chimpanzés têm
    mais florestas do que em 1990.
  329. Estão abrindo corredores nas florestas
  330. para conectar grupos
    dispersos de chimpanzés
  331. e reduzir a reprodução consanguínea.
  332. Então, sim, isso tem funcionado
    e está em seis outros países agora.
  333. A mesma coisa.
  334. CA: Você tem sido uma voz extraordinária
    e incansável ao redor do mundo,

  335. viajando muito,
  336. falando por toda parte,
    inspirando pessoas em todos lugares.
  337. Como você encontra energia,
  338. ânimo para fazer isso,
  339. pois é muito exaustivo,
  340. todas as reuniões com muitas pessoas,
  341. é fisicamente exaustivo,
  342. e, ainda assim, aqui está você,
    ainda fazendo isso.
  343. Como você faz isso, Jane?
  344. JG: Bem, eu sou obstinada,
    não gosto de desistir.

  345. Não vou permitir
  346. que os CEOs das grandes empresas
    destruam as florestas,
  347. ou que os políticos desmantelem
    todas as proteções
  348. estabelecidas por presidentes anteriores,
  349. e você sabe de quem estou falando.
  350. Vou continuar lutando,
  351. eu me importo, sou apaixonada
    pela vida selvagem.
  352. Sou apaixonada pelo mundo natural.
  353. Eu amo as florestas,
    dói em mim vê-las destruídas.
  354. Eu me importo intensamente pelas crianças.
  355. E estamos roubando o futuro delas.
  356. Não vou desistir.
  357. Acho que sou abençoada
    com uma boa genética, isso é um dom,
  358. e outro dom que descobri que tenho
  359. é a comunicação,
  360. seja escrita ou falada.
  361. Se andar por aí não desse resultado...
  362. mas, a cada vez que dou uma palestra,
  363. as pessoas me procuram e dizem:
    "Eu tinha desistido, mas você me inspirou,
  364. prometo fazer a minha parte".
  365. Temos nosso programa para jovens,
    Roots and Shoots, em 65 países,
  366. que cresce rapidamente,
  367. para todas as idades,
  368. todos escolhendo projetos para ajudar
    pessoas, animais, o meio ambiente,
  369. arregaçando as mangas e agindo.
  370. Eles vêm com os olhos brilhando,
  371. querendo contar para a Dra, Jane
    o que eles têm feito
  372. para tornar o mundo um lugar melhor.
  373. Como posso decepcioná-los?
  374. CA: Ao olhar para o futuro do planeta,

  375. o que mais te preocupa, atualmente,
  376. o que te assusta mais,
    no ponto em que estamos?
  377. JG: O fato de termos
    uma pequena janela de tempo

  378. em que podemos ao menos
    começar a reparar um pouco dos danos
  379. e desacelerar as mudanças climáticas.
  380. Mas a janela está se encerrando,
  381. e vimos o que acontece
    com o confinamento no mundo todo
  382. em função da COVID-19:
  383. o céu das cidades fica mais límpido,
  384. algumas pessoas respiram ar limpo
    como nunca tinham respirado
  385. e olham para o brilhante céu noturno,
  386. que nunca tinham visto antes.
  387. Sabe,
  388. o que mais me preocupa
    é como conquistar pessoas suficientes.
  389. As pessoas entendem, mas não agem,
  390. como ter pessoas suficientes agindo?
  391. CA: A National Geographic acaba de lançar
    um filme extraordinário sobre você,

  392. destacando seu trabalho de seis décadas.
  393. O filme se chama "Jane Goodall: The Hope".
  394. Qual é a esperança, Jane?
  395. JG: Minha maior esperança são os jovens.

  396. Na China, me dizem:
  397. "Claro que me preocupo
    com o meio ambiente,
  398. na escola, participei
    do Roots and Shoots".
  399. O Roots and Shoots
    se apega tanto aos valores
  400. e eles ficam tão entusiasmados
    ao saber dos problemas
  401. e ter o poder de agir,
  402. que limpam os riachos
    e removem espécies invasoras.
  403. Eles têm muitas ideias.
  404. Temos um intelecto extraordinário.
  405. Estamos começando a usá-lo
    para criar tecnologia
  406. que realmente vai nos ajudar
    a viver com mais harmonia,
  407. e, em nossa vida individual,
  408. vamos pensar nas consequências
    do que fazemos a cada dia.
  409. O que compramos, de onde veio,
  410. como foi feito?
  411. Isso causou dano ao meio ambiente
    ou crueldade aos animais?
  412. É barato por vir de trabalho
    escravo infantil?
  413. Fazer escolhas éticas.
  414. A propósito, quem vive na pobreza
    não consegue fazer isso.
  415. E finalmente, esse espírito indomável
  416. das pessoas que enfrentam
    o que parece impossível
  417. sem desistir.
  418. Você não pode desistir
    quando tem tudo isso.
  419. Mas há coisas com que não posso lutar.
  420. Não posso lutar contra a corrupção.
  421. Não posso lutar contra
    regimes militares e ditadores.
  422. Só posso fazer o que posso fazer,
  423. e se todos nós fizermos
    o pouco que podemos,
  424. certamente isso será tanto
    que finalmente sairemos vencedores.
  425. CA: A última pergunta, Jane.

  426. Se houvesse uma ideia, um pensamento,
  427. uma semente que você pudesse plantar
    na mente de cada um que nos assiste,
  428. qual seria?
  429. JG: Apenas se lembre
    que, a cada dia que você vive,

  430. você causa um impacto no planeta.
  431. Você não pode evitar esse impacto.
  432. E, a não ser que viva em extrema pobreza,
  433. você tem uma escolha
    sobre que tipo de impacto causar.
  434. Mesmo na pobreza você tem uma escolha,
  435. mas quando somos mais abastados,
    temos mais escolhas.
  436. E se todos nós fizermos escolhas éticas,
  437. começamos a ir em direção a um mundo
  438. que não será tão desesperador
    de deixar para nossos bisnetos.
  439. Acho que isso é algo para todos.
  440. Porque muitas pessoas entendem
    o que está acontecendo,
  441. mas se sentem impotentes,
    sem esperança, sem saber o que fazer,
  442. então não fazem nada e ficam apáticas.
  443. E a apatia é um perigo enorme.
  444. CA: Dra. Jane Goodall, incrível.

  445. Agradeço sinceramente
    por sua vida extraordinária,
  446. por tudo que tem feito
  447. e por passar esse tempo conosco.
  448. Obrigado.

  449. JG: Eu que agradeço.