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← Os museus deveriam honrar o quotidiano e não só o extraordinário

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Showing Revision 6 created 01/02/2019 by Margarida Ferreira.

  1. A representação é importante.
  2. Representações autênticas
    de mulheres são importantes.
  3. Penso que, demasiadas vezes,
    as representações públicas de mulheres
  4. estão envoltas na linguagem
    do extraordinário.
  5. A primeira norte-americana
    a tornar-se milionária por si própria:
  6. a Senhora C. J. Walker...
  7. Os vestidos das primeiras damas
    dos EUA...
  8. Shirley Chisholm,
    a primeira mulher a concorrer
  9. à presidência dos EUA
    pelo Partido Democrático.
  10. (Aplausos)

  11. Como curadora de museu,

  12. compreendo o porquê
    de estas histórias serem tão sedutoras.
  13. Mulheres excepcionais
    são inspiradoras e ambiciosas.
  14. Mas estas histórias são limitativas.
  15. Por definição, ser extraordinário
    não é representativo.
  16. É atípico.
  17. Essas histórias não criam uma base ampla
    para incorporar a história das mulheres,
  18. e não reflectem
    as nossas realidades diárias.
  19. Se podemos aplicar colectivamente
    a noção radical
  20. de que as mulheres são pessoas,
  21. torna-se mais fácil mostrar
    as mulheres como elas são:
  22. familiares, diversas, presentes.
  23. No quotidiano de toda a gente
    ao longo da história,
  24. as mulheres existem positivamente,
  25. não por uma questão
    de interpretação, mas de facto.
  26. E além de uma representação
    mais precisa da vida humana,
  27. a inclusão de mulheres considera
    as experiências diárias
  28. de quase 3800 milhões de pessoas
    identificadas como mulheres neste planeta.
  29. Nesta célebre cena de museu
    do filme "Pantera Negra",

  30. um curador branco explica,
    erradamente, um artefacto
  31. à personagem de Michael B. Jordan,
  32. um artefacto da sua própria cultura.
  33. Esta cena de ficção causou debates reais
    na comunidade museológica
  34. acerca de quem modela as narrativas
    e os preconceitos que elas contêm.
  35. Os museus são considerados
  36. uma das fontes mais fidedignas
    de informação dos EUA,
  37. e com centenas de milhões de visitantes
    de todo o mundo,
  38. deveríamos contar histórias correctas,
  39. mas não o fazemos.
  40. Há um movimento
    dentro dos próprios museus
  41. para ajudar a combater estes preconceitos.
  42. A simples aceitação
    que os museus não são neutros.
  43. Os museus são didácticos.
  44. Através da exibição de arte e artefactos,
  45. podemos fomentar a criatividade
    e promover a inclusão,
  46. mas somos culpados da distorção histórica.
  47. As histórias centradas no masculino
    deixaram as histórias delas escondidas.
  48. E há verdades duras sobre ser uma mulher,
  49. especialmente uma mulher de cor,
    nesta indústria
  50. que nos impede de centralizar
    exemplos inclusivos da vida das mulheres.
  51. Líderes de museu:
  52. predominantemente brancos e masculinos,
  53. apesar de as mulheres constituírem
    cerca de 60% dos funcionários dos museus.
  54. Os canais de liderança
    para mulheres são desanimadores
  55. sobretudo para mulheres de cor.
  56. A presença de mulheres
    não garante por si só
  57. um aumento da representação pública
    das mulheres.
  58. Nem todas as mulheres são aliadas
    da igualdade de género.

  59. Nas palavras da feminista Bell Hooks:
  60. "A patriarquia não tem género."
  61. As mulheres podem apoiar
    o sistema patriarcal
  62. tal como há homens que apoiam
    a luta pela igualdade de género.
  63. Muitas vezes minimizamos
    a importância da interseccionalidade.
  64. Marian Anderson foi uma das vozes
    mais célebres do século XX,
  65. e o Smithsonian
    guardou o seu fato de 1939.
  66. Após as "Daughters of the American
    Revolution" — brancas —
  67. a terem proibido de cantar
    no "Constitution Hall" por ela ser negra,
  68. ela cantou
    na escadaria do Lincoln Memorial,
  69. para uma multidão
    de mais de 75 000 pessoas.
  70. Nas bibliotecas de todo o lado,
    incluindo museus,

  71. ainda se encontra a antologia inovadora
    de 1982, intitulada:
  72. "Todas as Mulheres são Brancas,
  73. "Todos os Negros são Homens,
  74. "mas Alguns de Nós são Corajosos."
  75. As exigências para o aumento
    da representação feminina

  76. não incluem automaticamente
    mulheres afro-latinas como eu...
  77. ou mulheres imigrantes, mulheres asiáticas
    ou mulheres indígenas,
  78. ou mulheres transexuais,
    ou mulheres sem documentos,
  79. ou mulheres com mais de 65 anos,
    ou raparigas
  80. — e a lista continua e continua.
  81. Então o que podemos fazer?

  82. Iniciativas específicas
    ajudaram a incorporar perspectivas
  83. que deveriam ter sido sempre incluidas.
  84. Cheguei ao Smithsonian numa iniciativa
    para curadores latinos
  85. cuja contratação de curadores latinos
  86. — já agora, na maioria mulheres —
  87. elevou a visibilidade de histórias latinas
    por toda a instituição.
  88. E serviu de modelo
  89. para a nossa maior iniciativa Smithsonian
    da História das Mulheres Americanas
  90. que procura ampliar a diversidade
    das representações das mulheres
  91. de todas as maneiras,
  92. para que as mulheres apareçam,
  93. não só nas imagens
    da nossa realidade contemporânea,
  94. mas nas nossas representações históricas,
  95. pois sempre estivemos aqui.
  96. No entanto, em 2018,
    ainda ando em áreas profissionais
  97. e ainda sou a única
  98. a única pessoa abaixo de 40 anos,
    a única pessoa negra,
  99. a única mulher negra, a única latina,
  100. às vezes, a única mulher.
  101. A minha mãe é afro-americana
    e o meu pai é afro-panamiano.

  102. Sinto muito orgulho em ser
    indissociavelmente as duas coisas.
  103. Como afro-latina sou uma em milhões.
  104. Como curadora afro-latina,
    sou uma em muito poucas.
  105. E trazer todo o meu ser
    para o campo profissional
  106. é como um acto de bravura.
  107. Confesso que nem sempre estive
    à altura do desafio,
  108. fosse por medo da rejeição
    ou por auto-preservação.
  109. Nas reuniões, eu só falava
  110. quando tinha um comentário
    totalmente desenvolvido para partilhar.
  111. Nenhum "brainstorming" audível
    nem repetir algo dito pelos colegas.
  112. Durante muito tempo,
  113. neguei a mim própria a alegria
    de usar as minhas queridas argolas
  114. nem o colar com o meu nome, no trabalho,
  115. pensando que seriam demasiado berrantes,
    pouco académicos ou pouco profissionais.
  116. (Risos)

  117. Pensava em como as pessoas
    iriam reagir ao meu cabelo natural,

  118. ou se me considerariam mais aceitável
    ou menos autêntica se o esticasse.
  119. Alguém que se tenha sentido fora
    das representações convencionais
  120. compreende que há elementos básicos
    do nosso dia-a-dia
  121. que podem fazer as outras pessoas
    sentirem-se desconfortáveis.
  122. Mas, como sou apaixonada
  123. pela representação quotidiana
    das mulheres, tal como somos,
  124. deixei de apresentar uma representação
    não autêntica de mim ou do meu trabalho.
  125. E fui testada.
  126. Isto sou eu a apontar
    para as minhas argolas no meu gabinete.
  127. (Risos)

  128. O mês passado fui convidada para falar
    num evento do Mês do Património Latino.

  129. Na semana da apresentação,
    a organização estava preocupada.
  130. Disseram que os meus "slides"
    eram "activistas",
  131. e diziam isso de forma negativa.
  132. (Risos)

  133. (Aplausos)

  134. Dois dias antes da apresentação,

  135. pediram que não exibisse um video
    de dois minutos a apoiar o cabelo natural,
  136. pois "poderia criar uma barreira
    no processo de aprendizagem
  137. !para alguns dos participantes."
  138. (Risos)

  139. Aquele poema, "Hair", foi escrito
    e apresentado por Elizabeth Acevedo,

  140. vencedora dominicana-americana
    do "National Book Award" de 2018,
  141. e apareceu numa exposição premiada
    no Smithsonian que eu organizei,
  142. Cancelei a palestra,
  143. explicando-lhes que a censura deles
    a mim e ao meu trabalho me incomodavam.
  144. (Aplausos)

  145. Políticas de respeitabilidade
    e de feminilidade idealizada

  146. influenciam a forma
    como exibimos as mulheres
  147. e quais as mulheres
    que escolhemos mostrar.
  148. Essa exibição inclinou-se
    para o bem sucedido e extraordinário
  149. para o respeitável e o desejável,
  150. que mantém a exclusão sistémica
  151. e a marginalização do quotidiano,
    do regular, do sub-representado
  152. e, normalmente, do não-branco.
  153. Como curadora de museu,
    tenho o poder de mudar essa narrativa.
  154. Pesquiso, colecciono e interpreto
    objectos e imagens com significado.
  155. Celia Cruz, a rainha da Salsa
  156. (Vivas)

  157. sim, é significativa.

  158. Uma afro-latina.
  159. O Smithsonian recolheu
    as suas roupas, sapatos,
  160. o seu retrato, o seu selo postal
  161. e esta reinvenção...
  162. do artista Tony Peralta.
  163. Quando reuni e mostrei este trabalho,
  164. foi uma vitória
    das contradições simbólicas.
  165. O orgulho em exibir
    uma latina de pele escura,
  166. uma mulher negra,
  167. cujo cabelo está em rolos enormes
    que alisam o cabelo dela,
  168. talvez uma aceitação
    dos padrões de beleza brancos.
  169. Uma mulher refinada, glamorosa,
    com jóias de ouro grandes e volumosas.
  170. Quando este trabalho foi exibido,
  171. foi dos que teve mais "posts"
    no Instagram.
  172. Os visitantes disseram que se relacionaram
    com os elementos comuns
  173. da sua pele escura,
    dos rolos ou das jóias.
  174. As nossas colecções incluem Celia Cruz
  175. e um retrato raro
    da jovem Harriet Tubman...
  176. roupa icónica
    da incomparável Oprah Winfrey.
  177. Mas os museus podem literalmente
    mudar a forma
  178. como centenas de milhões
    de pessoas vêem as mulheres
  179. e que mulheres vêem.
  180. Por isso, mais do que nunca,
    o primeiro ou mais famoso,
  181. é também da nossa responsabilidade
  182. mostrar um sábado comum
    no salão de beleza,
  183. a arte dos brincos
    estilo aldrava de porta...
  184. (Risos)

  185. uma irmandade chique...

  186. (Risos)

  187. e o orgulho cultural em todas as idades.

  188. Histórias de mulheres comuns
  189. cujas histórias têm sido omitidas
    das nossas histórias nacionais e globais.
  190. Muitas vezes, nos museus,
    vemos mulheres representadas por roupas

  191. ou retratos ou fotografias...
  192. mas histórias com impacto,
    transformadoras, de mulheres comuns
  193. podem parecer como
    este assento de barco de Esmeraldas.
  194. Os Esmeraldas no Equador,
    eram uma comunidade "marron".
  195. A sua floresta tropical protegia
    populações indigenas e africanas
  196. dos colonizadores espanhóis.
  197. Hoje há estradas,
  198. mas também há zonas interiores
    só acessíveis por canoa.
  199. Débora Nazareno viajava frequentemente
    de canoa por esses canais equatoriais
  200. por isso, tinha o seu próprio
    assento de barco,
  201. personalizado,
    com uma teia de aranha e uma aranha,
  202. representando Anansi,
    uma personagem do folclore oeste africano.
  203. Débora também usava o assento em casa,
    para contar histórias ao seu neto, Juan.
  204. E este inatingível ritual de amor
  205. na forma de narrativa intergeracional
  206. é comum em várias comunidades
    da diáspora africana.
  207. Este acto habitual despertou em Juan
    o desejo de coleccionar e preservar
  208. mais de 50 000 documentos relacionados
    com a cultura afro-indiana.
  209. Em 2005, Juan García Salazar,
    o neto de Débora,
  210. e agora um académico afro-equatoriano
    mundialmente reconhecido,
  211. viajou até Washington, D.C.
  212. Reuniu com Lonnie Bunch,
    o director do museu onde trabalho,
  213. e no final da conversa,
  214. Juan agarrou na sua mala e disse:
    "Gostaria de lhe dar um presente."
  215. Nesse dia, o assento de barco,
    simples de madeira, de Débora Nazareno
  216. tornou-se o primeiro objecto doado
  217. ao Museu Nacional Smithsonian
    da História e Cultura Afro-Americana.
  218. Encontra-se em exibição e já foi visto
    por quase cinco milhões de visitantes
  219. de todo o mundo.
  220. Vou continuar a coleccionar coisas
    de extraordinários criadores de histórias.

  221. As suas histórias são importantes.
  222. Mas o que me motiva
    a aparecer hoje e todos os dias
  223. é a paixão de escrever
    os nossos nomes na história,
  224. mostrá-los publicamente
    para milhões verem,
  225. e andar na luz sempre presente
    que é a mulher.
  226. Obrigada.

  227. (Aplausos)