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← Porque devíamos ser pagos pelos nossos dados

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Showing Revision 14 created 09/29/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Eu cresci no final dos anos 70,
    na China rural,
  2. nos últimos anos em que os meus pais
    defenderam uma igualdade absoluta
  3. à custa da liberdade.
  4. Naquela época, todos tinham emprego,
  5. mas todos passavam dificuldades.
  6. No começo da década de 80,
    o meu pai era eletricista,
  7. e a minha mãe trabalhava
    dois turnos no hospital local.
  8. Mesmo assim, não havia comida suficiente,
  9. e as condições em que vivíamos
    eram péssimas.
  10. Éramos, sem dúvida, iguais.
  11. Éramos igualmente pobres.
  12. O Estado era dono de tudo.
  13. Nós não éramos donos de nada.
  14. A história que vou partilhar com vocês
    é sobre as minhas lutas
  15. para superar adversidades
  16. com a minha resiliência, coragem
    e extrema determinação.
  17. Não, estou a brincar.
    Não vou fazer isso.
  18. (Risos)

  19. Em vez disso, vou-vos contar,

  20. vou falar hoje do que diz respeito
    a uma nova forma de pobreza coletiva,
  21. que muitos de nós não reconhecem
  22. e que é urgente ser entendida.
  23. Decerto repararam
    que, nos últimos 20 anos,

  24. este recurso tem crescido.
  25. Tem gerado riqueza a um ritmo acelerado.
  26. Enquanto ferramenta, deu às empresas
    uma visão profunda dos clientes,
  27. uma eficiência operacional
  28. e um enorme crescimento nas receitas.
  29. Mas, para outros,
  30. também proporcionou um dispositivo
    para manipular eleições democráticas
  31. ou fazer vigilâncias para
    fins lucrativos ou políticos.
  32. Que recurso milagroso é esse?
  33. Adivinharam: dados.
  34. Sete das dez empresas mais valiosas
    no mundo são empresas de tecnologia

  35. que, ou geram lucro diretamente
    através de dados
  36. ou são sustentadas por dados
    na sua essência.
  37. Vários inquéritos mostram
  38. que a maioria dos envolvidos
    em decisões de negócios
  39. consideram os dados como um recurso
    essencial para o sucesso.
  40. Já todos percebemos como os dados estão
    a alterar esta mudança de paradigma
  41. nas nossas vidas pessoais,
    económicas e políticas.
  42. Quem possui dados, possui o futuro.
  43. Mas quem é que produz esses dados?

  44. Eu presumo que todos aqui
    têm um "smartphone",
  45. contas em várias redes sociais
  46. e fizeram uma ou duas pesquisas
    no Google na última semana.
  47. Todos nós produzimos dados. Sim.
  48. Estima-se que em 2030,
    daqui a 10 anos,

  49. vai haver cerca de 125 mil milhões
    de dispositivos conectados no mundo.
  50. É uma média de 15 dispositivos por pessoa.
  51. Já estamos a produzir dados todos os dias.
  52. Iremos produzir exponencialmente mais.
  53. A soma das receitas da Google,
    do Facebook e do Tencent em 2018
  54. foi de 236 mil milhões de dólares.
  55. Agora, quantos de vocês
    receberam pagamento deles
  56. pelos dados que geraram?
  57. Ninguém, certo?
  58. Os dados têm imenso valor, mas o seu
    controlo e posse estão centralizados.
  59. Todos nós somos matéria-prima
    para estas grandes companhias de dados,
  60. mas nenhum de nós é pago.
  61. E não é só isso,

  62. nem sequer somos considerados
    como fazendo parte da equação de lucro.
  63. Então, repito,
  64. sem dúvida que somos iguais:
  65. somos igualmente pobres.
  66. Há quem tenha tudo,
    e nós não temos nada.
  67. Soa familiar, não é?
  68. Então, o que devemos fazer?

  69. Podem existir pistas
    no desenrolar da minha vida
  70. após aquele começo difícil.
  71. As coisas melhoraram
    para nós nos anos 80.
  72. O sistema evoluiu
  73. e as pessoas passaram a ter direito
    a uma parte do que criávamos.
  74. "Pessoas que mergulham de cabeça"
  75. or "xia hai", o termo em chinês
  76. descreve aqueles que deixaram
    empregos em empresas públicas
  77. e começaram negócios próprios.
  78. Da propriedade privada de um negócio
  79. passou-se para a propriedade
    privada de carros,
  80. de propriedades, de comida,
    de roupas e de coisas.
  81. A máquina da economia começou a trabalhar
  82. e a vida das pessoas começou a melhorar.
  83. Pela primeira vez,
  84. enriquecer era algo glorioso.
  85. Então nos anos 90, quando fui estudar
    em Chengdu na China Ocidental,
  86. muitos jovens como eu
  87. estavam bem posicionados
    para aproveitar o novo sistema.
  88. Após a minha graduação na universidade,
  89. ajudei a fundar o meu primeiro negócio
    e mudei-me para Shenzhen,
  90. a mais recente zona económica especial
    que tinha sido uma aldeia de pescadores.
  91. Vinte anos depois,
  92. Shenzhen tornou-se
    uma potência global de inovação.
  93. A propriedade privada era uma forma
    de liberdade que não tínhamos antes.

  94. Criou oportunidades sem precedentes
    para as nossas gerações,
  95. motivando-nos a trabalhar
    e a estudar arduamente.
  96. O resultado foi que mais de 850 milhões
    de pessoas saíram da pobreza.
  97. De acordo com o Banco Mundial,
  98. a taxa de pobreza extrema da China
    em 1981, quando eu era criança, era 88%.
  99. Em 2015, era 0,7%.
  100. Eu sou resultado deste sucesso,
  101. e é com alegria que vos revelo
    que tenho hoje um negócio de IA,
  102. e levo uma vida muito dinâmica e mundana,
  103. algo que era inimaginável quando eu era
    uma criança a viver na China Ocidental.

  104. É claro, esta prosperidade
    exigiu algo em troca,
  105. como a igualdade,
    o ambiente e a liberdade.
  106. E obviamente não estou a argumentar
    que a China tem tudo solucionado.
  107. Não tem.
  108. Nem vou argumentar que os dados
    são comparáveis aos bens físicos.
  109. Não são.
  110. Mas as minhas vivências permitiram-me
    ver o que está escondido à vista de todos.
  111. Neste momento, o discurso público
  112. está muito focado em assuntos
    de legislação e de privacidade
  113. no que toca à propriedade dos dados.
  114. Mas quero perguntar:
  115. E se olhássemos para a propriedade
    dos dados de forma totalmente diferente?
  116. E se esta propriedade é, de facto,
  117. uma questão pessoal,
    individual e económica?
  118. E se, na nova economia digital,
  119. fosse possível possuir
    uma parte do que criamos
  120. e dar às pessoas a liberdade
    da posse dos dados privados?
  121. O conceito legal de propriedade
    é algo que podemos possuir,

  122. usar, oferecer, transmitir, destruir
  123. ou trocar ou vender
  124. a um preço aceite por nós.
  125. E se dermos essa mesma definição
    aos dados de cada um,
  126. para podermos usar ou destruir os dados
  127. ou vendê-los pelo preço desejado?
  128. Sei que alguns de vocês podem dizer:

  129. "Eu nunca trocaria os meus dados
    por qualquer quantia de dinheiro".
  130. Mas permitam-me que vos recorde,
    é exatamente isso que estão a fazer agora,
  131. só que estão a dar
    os vossos dados gratuitamente.
  132. Além disso, a privacidade é uma questão
    muito pessoal e com muitos matizes.
  133. Vocês podem ter o privilégio
    de dar prioridade à vossa privacidade
  134. em detrimento do dinheiro,
  135. mas, para milhões de pequenos
    proprietários de empresas na China,
  136. que não obtêm facilmente
    empréstimos bancários,
  137. usar os seus dados para obter
    a aprovação de um empréstimo rápido
  138. por parte dos emprestadores
    sustentados por IA
  139. pode responder às suas necessidades
    mais prementes.
  140. O que é privado para uns é diferente
    do que é privado para os outros.
  141. O que é privado para vocês agora
  142. é diferente do que era privado
    quando estavam na faculdade.
  143. Pelo menos, espero que sim.
  144. (Risos)

  145. Estamos sempre, embora frequentemente
    de forma subconsciente,

  146. a fazer tais trocas
  147. com base nas nossas diversas
    crenças pessoais e prioridades de vida.
  148. É por isso que a propriedade
    dos dados ficaria incompleta
  149. sem o poder de fixar os preços.
  150. Atribuindo o poder de estabelecer
    preços aos indivíduos,

  151. ganhamos uma ferramenta
  152. que reflete as nossas preferências
    pessoais e matizadas.
  153. Por exemplo, podemos optar
    por doar os nossos dados gratuitamente
  154. se for uma contribuição
    para uma investigação médica específica
  155. que tiver muito significado para nós.
  156. Ou, se tivéssemos as ferramentas
  157. para estipular o preço
    dos nossos dados comportamentais
  158. digamos, por 100 000 dólares americanos,
  159. duvido que qualquer grupo político
    conseguisse fazer de vocês um alvo
  160. ou manipular o nosso voto.
  161. Nós é que controlamos.
    Nós é que decidimos.
  162. Eu sei que, provavelmente,
    isto soa implausível,

  163. mas as tendências já estão a apontar
    para um movimento crescente
  164. de propriedade de dados
    individuais muito poderoso.
  165. Primeiro, há "start-ups"
    que já estão a criar ferramentas
  166. que nos permitem retomar algum controlo.
  167. Um novo navegador chamado Brave
  168. protege os utilizadores
    com "Escudos Brave"
  169. — é mesmo assim que lhes chamam —
  170. que bloqueiam ferozmente os anúncios
    que captam dados e localizadores,
  171. e impedem fugas de dados
    como outros navegadores.
  172. Em troca, os utilizadores podem recuperar
    poder de negociação e fixação de preços.
  173. Quando os utilizadores optam
    por aceitar anúncios,
  174. o Brave recompensa os utilizadores
    com "fichas de atenção básica".
  175. que podem resgatar conteúdos
    atrás dos muros de pagamento dos editores.
  176. Eu tenho usado o Brave já há uns meses
  177. e ele já bloqueou
    mais de 200 000 anúncios e rastreadores
  178. e poupou horas do meu tempo.
  179. Sei que alguns de vocês
    interagem mais com o vosso navegador
  180. do que com o vosso parceiro, por isso...
  181. (Risos)

  182. devem, pelo menos, encontrar um
  183. que não desperdice o vosso tempo
    e não seja assustador.
  184. (Risos)

  185. Acham que o Google é indispensável?

  186. Pensem bem.
  187. Um motor de busca é indispensável.
  188. A Google só tem o monopólio,
    por enquanto.
  189. Um motor de busca chamado DuckDuckGo
    não armazena a nossa informação pessoal
  190. nem nos persegue com anúncios
  191. nem acompanha
    o nosso histórico pessoal de navegação.
  192. Em vez disso, dá a todos os utilizadores
    os mesmos resultados de pesquisa
  193. em vez de se basear
    nos seus registos pessoais de navegação.
  194. Em Londres, uma empresa chamada digi.me

  195. oferece uma aplicação que podemos
    descarregar no "smartphone"
  196. que ajuda a importar e consolidar
    os dados por nós gerados
  197. do nosso Fitbit, Spotify,
  198. contas das redes sociais.
  199. E podemos escolher
    onde guardar os nossos dados.
  200. O digi.me irá ajudar-nos para que
    os nossos dados funcionem para nós,
  201. fornecendo informações
    que, até agora, só eram acessíveis
  202. a grandes empresas de dados.
  203. Em D.C., uma nova iniciativa
    chamada UBDI, U-B-D-I,

  204. Universal Basic Data Income,
  205. ajuda as pessoas a ganhar dinheiro,
  206. partilhando informações anónimas
    através dos seus dados
  207. a empresas que as podem utilizar
    na pesquisa de mercado.
  208. E sempre que uma empresa
    compra um estudo,
  209. os utilizadores são pagos
    em dinheiro e pontos UBDI
  210. para acompanhar a sua contribuição,
  211. pagamento que pode chegar
    a 1000 dólares americanos por ano
  212. segundo a estimativa deles.
  213. A UBDI poderá ser um caminho muito viável
    para o rendimento básico universal
  214. na economia da IA.
  215. Além disso, a consciência individual
    de privacidade e propriedade de dados

  216. está a crescer rapidamente
  217. à medida que nos damos conta
    deste monstro que soltámos no nosso bolso.
  218. Sou mãe de duas pré-adolescentes,
  219. e acreditem em mim,
  220. a maior fonte de "stress"
    e de ansiedade para os pais,
  221. para mim, é a relação
    dos meus filhos com a tecnologia.
  222. Este é um acordo de três páginas
    que o meu marido e eu os fizemos assinar
  223. antes de receberem
    o seu primeiro telemóvel.
  224. (Risos)

  225. Queremos ajudá-los a tornarem-se

  226. cidadãos digitais,
  227. mas só se conseguirmos que eles sejam
    inteligentes e responsáveis.
  228. Eu ajudo-os a perceber quais os dados
    que nunca devem ser partilhados.
  229. Portanto, se me pesquisarem no Google
  230. — desculpem-me —
    se me pesquisarem no DuckDuckGo,
  231. encontrarão talvez muita coisa
    sobre mim e o meu trabalho,
  232. mas não encontrarão informações
    sobre as minhas filhas.
  233. Quando crescerem,
  234. se elas quiserem expor-se,
    a escolha é delas, não é minha,
  235. apesar de eu insistir
    que elas são as crianças mais belas,
  236. mais inteligentes e mais extraordinárias
    do mundo, é claro.
  237. Eu conheço muitas pessoas
    que estão a ter conversas semelhantes
  238. e a tomar decisões semelhantes,
  239. o que me dá esperança
    que estará para breve
  240. um futuro verdadeiramente
    inteligente e rico em dados.
  241. Mas quero destacar a cláusula 6
    do presente acordo, que diz:

  242. "Eu nunca, mas nunca procurarei
    para qualquer informação 'online'
  243. "que me envergonhasse
    se fosse vista pela avó Dawnie".
  244. (Risos)

  245. Experimentem. É realmente eficaz.

  246. (Risos)

  247. Ao longo da história,

  248. sempre houve um compromisso
    entre liberdade e igualdade
  249. na busca da prosperidade.
  250. O mundo tem evoluído
    constantemente em ciclos
  251. da acumulação de riqueza
  252. à redistribuição da riqueza.
  253. Como a tensão entre
    os que têm e os que não têm
  254. está a desestabilizar muitos países,
  255. é do interesse de todos,
  256. incluindo as grandes empresas de dados,
  257. impedir esta nova forma de desigualdade.
  258. Evidentemente, a propriedade
    individual de dados

  259. não é a resposta perfeita nem completa
  260. a esta questão profundamente complexa
  261. do que faz uma boa sociedade digital.
  262. Mas de acordo com McKinsey,
  263. a IA aumentará 13 biliões
    de dólares americanos
  264. à produção económica
    nos próximos 10 anos.
  265. Os dados gerados por indivíduos
    irão sem dúvida contribuir
  266. a este enorme crescimento.
  267. Não deveríamos, pelo menos,
    considerar um modelo económico
  268. que dê poder às pessoas?
  269. E se a propriedade privada
    ajudar a sair da pobreza
  270. mais de 850 milhões de pessoas
  271. é nossa obrigação — e devemos isso
    às gerações futuras —
  272. para criar uma economia
    de IA mais inclusiva
  273. que dará poder ao povo
    para além das empresas.
  274. Obrigada.

  275. (Aplausos)