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Showing Revision 52 created 04/13/2020 by Maricene Crus.

  1. Cresci na China rural
    do final da década de 70,
  2. durante os últimos anos da busca,
    pelo meu país, da igualdade absoluta
  3. à custa da liberdade.
  4. Naquela época, todo mundo tinha emprego,
  5. mas todos lutavam muito.
  6. No início da década de 80,
    meu pai era eletricista,
  7. e minha mãe trabalhava
    dois turnos no hospital local.
  8. Mesmo assim, não tínhamos
    comida suficiente
  9. e vivíamos em condições sombrias de vida.
  10. Certamente tínhamos igualdade:
  11. éramos todos igualmente pobres.
  12. O estado era o dono de tudo.
  13. Não éramos donos de nada.
  14. A história que vou compartilhar
    é sobre minha luta
  15. para superar as adversidades
  16. com minha extrema resiliência,
    coragem e determinação.
  17. Não, estou só brincando;
    não vou fazer isso com vocês.
  18. (Risos)

  19. Em vez disso,

  20. vou falar sobre uma nova forma
    de pobreza coletiva
  21. que muitos de nós não reconhecem,
  22. e que precisa ser
    compreendida urgentemente.
  23. Tenho certeza de que notaram
    que, nos últimos 20 anos, surgiu um ativo.

  24. E esse ativo tem gerado riqueza
    a um ritmo alucinante.
  25. Como ferramenta, ele trouxe aos negócios
    percepções profundas sobre os clientes,
  26. eficiência operacional
  27. e enorme crescimento das receitas.
  28. Mas, para alguns,
  29. também forneceu um dispositivo
    para manipular uma eleição democrática
  30. ou fazer monitoramento
    para fins lucrativos ou políticos.
  31. Mas que recurso milagroso é esse?
  32. Adivinharam: são os dados.
  33. Das dez companhias mais valiosas do mundo,
    sete são empresas de tecnologia

  34. que lucram diretamente com dados
  35. ou que, em seu âmago, são movidas a dados.
  36. Várias pesquisas mostram que nos negócios
  37. a grande maioria dos tomadores
    de decisão consideram os dados
  38. um ativo essencial para o sucesso.
  39. Todos sabemos como os dados
    estão provocando uma mudança de paradigma
  40. em nossa vida pessoal,
    econômica e política.
  41. Quem detém os dados detém o futuro.
  42. Mas quem produz esses dados?

  43. Suponho que todos aqui
    tenham um smartphone,
  44. contas em mídias sociais
  45. e feito pesquisa no Google
    uma ou duas vezes semana passada.
  46. Todos estamos produzindo dados. Sim.
  47. Estima-se que em 2030, daqui a 10 anos,

  48. vai haver cerca de 125 bilhões
    de dispositivos conectados no mundo.
  49. Isso dá uma média
    de 15 dispositivos por pessoa.
  50. Já produzimos dados todos os dias.
  51. E vamos produzir mais exponencialmente.
  52. A receita combinada, em 2018,
    do Google, Facebook e Tencent
  53. foi de US$ 236 bilhões.
  54. Mas quantos aqui receberam
    pelos dados que geraram para eles?
  55. Ninguém, né?
  56. Dados têm um valor imenso, mas sua posse
    e controle são centralizados.
  57. Todos vocês são matérias-primas ambulantes
    para essas grandes empresas de dados,
  58. mas ninguém aqui é remunerado.
  59. Não bastasse isso,

  60. vocês nem mesmo são considerados
    parte dessa equação para a renda.
  61. Então, mais uma vez,
  62. somos indiscutivelmente iguais:
  63. somos igualmente pobres.
  64. Outrem é dono de tudo,
    e nós não somos donos de nada.
  65. Isso soa familiar, não é mesmo?
  66. O que deveríamos fazer então?

  67. Certamente há pistas
    no modo como minha vida mudou
  68. após aquele começo difícil.
  69. Nos anos 80, as coisas
    melhoraram pra família.
  70. O sistema evoluiu,
  71. e nos foi permitido possuir
    parte do que criávamos.
  72. "Pessoas mergulhando no oceano",
  73. ou "xia hai", a expressão em chinês
  74. para descrever aqueles que deixavam
    empregos corporativos estatais
  75. e começavam o próprio negócio.
  76. Ter a propriedade privada de uma empresa
  77. se estendeu à propriedade de carros,
  78. imóveis, comida, roupas e coisas.
  79. A roda da economia começou a girar,
  80. e a vida das pessoas começou a melhorar.
  81. Pela primeira vez,
  82. ficar rico era considerado uma glória.
  83. Então, nos anos 90, quando fui estudar
    em Chengdu, oeste da China,
  84. muitos jovens como eu
  85. estavam na posição
    de valer-se do novo sistema.
  86. Depois que me formei na universidade,
  87. cofundei meu primeiro negócio
    e me mudei para Shenzhen,
  88. a nova Zona Econômica Especial
    que costumava ser uma vila de pescadores.
  89. Vinte anos depois,
  90. Shenzhen se tornou
    uma potência global em inovação.
  91. A propriedade privada era uma forma
    de liberdade que não tínhamos antes.

  92. Ela criou oportunidades
    sem precedentes para gerações,
  93. nos motivando a estudar e trabalhar duro.
  94. O resultado foi que mais de 850 milhões
    de pessoas saíram da pobreza.
  95. De acordo com o Banco Mundial,
  96. o índice de extrema pobreza na China
    em 1981, quando era criança, era de 88%.
  97. Em 2015, era de 0,7%.
  98. Sou produto desse sucesso, e estou
    muito feliz de compartilhar que hoje
  99. tenho meu próprio negócio de IA,
    e levo uma vida cosmopolita e dinâmica,
  100. uma trajetória inimaginável
    quando eu era criança no oeste da China.
  101. É claro que essa prosperidade
    veio com compromissos

  102. com a igualdade,
    o meio ambiente e a liberdade.
  103. E obviamente não estou aqui pra dizer
    que a China tem solução pra tudo.
  104. Nós não temos.
  105. Nem dizer que dados se comparam
    completamente aos ativos físicos.
  106. Não é isso.
  107. Mas minha experiência de vida me permitiu
    ver o que está escondido na nossa frente.
  108. Atualmente, o discurso público
  109. é muito focado na questão
    da regulação e da privacidade
  110. quando se trata da propriedade de dados.
  111. Mas eu pergunto:
  112. e se olhássemos a propriedade de dados
    de um modo completamente diferente?
  113. E se a propriedade de dados fosse de fato
  114. uma questão pessoal,
    individual e econômica?
  115. E se, na nova economia digital,
  116. fôssemos autorizados a possuir
    uma parte do que criamos
  117. e tivéssemos a liberdade
    da propriedade de dados privados?
  118. O conceito legal de propriedade

  119. é poder possuir, usar,
    presentear, transmitir, destruir,
  120. negociar ou vender seu ativo
    a um preço aceito por você.
  121. E se aplicássemos esse mesmo conceito
    aos dados pessoais,
  122. para que nós, indivíduos, pudéssemos
    usar ou destruir nossos dados
  123. ou trocá-los pelo preço escolhido?
  124. Sei que alguns vão dizer:

  125. "Eu não trocaria meus dados
    por dinheiro nenhum deste mundo".
  126. Mas me permitam lembrar que isso é
    exatamente o que estão fazendo agora,
  127. exceto que estão dando
    seus dados de graça.
  128. Além disso, a privacidade
    é uma questão muito pessoal e sutil.
  129. Talvez tenham o privilégio de priorizar
    a privacidade em vez de dinheiro,
  130. mas, para milhões
    de pequenos empresários na China
  131. que não conseguem facilmente
    empréstimos bancários,
  132. usar os dados de vocês para obter
    aprovação de empréstimo rápido
  133. de credores movidos a IA
  134. pode ser a resposta às necessidades
    mais prementes deles.
  135. O que é privado para vocês
  136. é diferente do que é privado para outros.
  137. O que é privado para vocês agora
  138. é diferente do que era privado
    quando estavam na faculdade.
  139. Ou, pelo menos, assim espero.
  140. (Risos)

  141. Sempre estamos, embora
    às vezes inconscientemente,

  142. fazendo essas trocas com base
    em crenças pessoais e prioridades.
  143. É por isso que a propriedade
    de dados estaria incompleta
  144. sem o poder de apreçamento.
  145. Ao atribuir aos indivíduos
    poder de apreçamento,

  146. ganhamos uma ferramenta para refletir
    preferências pessoais e diferenciadas.
  147. Então, por exemplo, podemos escolher
    doar nossos dados gratuitamente
  148. se contribuir para uma pesquisa médica
    específica for importante para nós.
  149. E, se tivéssemos ferramentas
    para vender dados comportamentais
  150. a um valor de, digamos, US$ 100 mil,
  151. duvido que qualquer grupo político
    conseguisse manipular nosso voto.
  152. Nós controlamos; nós decidimos.
  153. Sei que isso provavelmente
    soa implausível,

  154. mas as tendências já apontam
  155. para um crescente e poderoso movimento
    de propriedade de dados individuais.
  156. Primeiro, startups
    já estão criando ferramentas
  157. para nos permitir retomar algum controle.
  158. Um novo navegador chamado Brave
  159. protege os usuários com "Brave Shields",
    literalmente "escudos corajosos",
  160. que bloqueiam agressivamente anúncios
    e rastreadores de captura de dados,
  161. evitando vazamento de dados,
    ao contrário de outros navegadores.
  162. Em troca, os usuários podem recuperar
    algum poder de barganha e preço.
  163. Quando os usuários
    optam por aceitar anúncios,
  164. o Brave recompensa os usuários
    com BAT, "Basic Attention Tokens",
  165. que podem resgatar conteúdo
    atrás de "paywalls" dos anunciantes.
  166. Venho usando o Brave há alguns meses.
  167. Ele já bloqueou mais de 200 mil
    anúncios e rastreadores
  168. e economizou horas do meu tempo.
  169. Sei que algumas pessoas
    interagem mais com seu navegador
  170. do que com seus parceiros, então...
  171. (Risos)

  172. é melhor encontrar um que não desperdice
    seu tempo nem seja sinistro.
  173. (Risos)

  174. Vocês acham o Google indispensável?

  175. Pensem bem.
  176. Um mecanismo de busca é indispensável.
  177. O Google só tem o monopólio...
  178. por enquanto.
  179. Um mecanismo de busca chamado DuckDuckGo
    não armazena informações pessoais
  180. nem nos persegue com anúncios
  181. ou acompanha nosso histórico de navegação.
  182. Ele mostra os mesmos resultados a todos,
  183. em vez de resultados baseados
    nos registros da navegação pessoal.
  184. Em Londres, uma empresa chamada digi.me

  185. oferece um aplicativo para smartphone
  186. que ajuda a importar e consolidar
    os dados gerados por nós
  187. no Fitbit, no Spotify,
  188. nas contas de mídia social...
  189. Daí, podemos escolher
    onde armazenar esses dados,
  190. e o digi.me nos ajuda
    a utilizá-los para nós mesmos,
  191. fornecendo informações que estavam
    acessíveis exclusivamente
  192. a grandes empresas de dados.
  193. Em Washington DC,

  194. uma nova iniciativa chamada UBDI,
  195. U-B-D-I, Universal Basic Data Income,
    renda básica universal de dados,
  196. ajuda as pessoas a ganhar dinheiro
  197. compartilhando informações anônimas
    através dos próprios dados
  198. com empresas que podem usá-los
    para pesquisa de mercado.
  199. E, sempre que uma empresa
    compra um estudo,
  200. usuários recebem em dinheiro e pontos
    UBDI para rastrear sua contribuição,
  201. podendo chegar a pagar US$ 1 mil por ano
  202. pelo cálculo deles.
  203. UBDI pode ser um caminho viável
    para renda básica universal
  204. na economia da IA.
  205. Além disso, a consciência
    da privacidade e propriedade dos dados

  206. está aumentando rapidamente
  207. à medida que nos conscientizamos da falta
    de controle sobre o que nos é devido.
  208. Sou mãe de duas meninas pré-adolescentes
  209. e, acreditem,
  210. como mãe, minha maior fonte
    de estresse e ansiedade
  211. é o relacionamento
    das minhas filhas com a tecnologia.
  212. Esse é o contrato de três páginas
    que eu e meu marido as fizemos assinar
  213. antes de receberem seu primeiro celular.
  214. (Risos)

  215. Queremos ajudá-las a se tornarem

  216. cidadãs digitais,
  217. mas somente se conseguirmos
    torná-las inteligentes e responsáveis.
  218. Eu as ajudo a entender que tipo de dado
    nunca deve ser compartilhado.
  219. Se me pesquisarem no Google,
  220. desculpem, quero dizer, no DuckDuck,
  221. vocês vão encontrar
    muito sobre mim e meu trabalho,
  222. mas nenhuma informação
    sobre minhas filhas.
  223. Quando crescerem,
  224. se elas quiserem se expor,
    é escolha delas, não minha,
  225. apesar de eu garantir
    que elas são as meninas
  226. mais bonitas, inteligentes
    e extraordinárias do mundo, claro.
  227. E conheço muita gente tendo
    conversas semelhantes
  228. e tomando decisões semelhantes,
  229. o que me dá esperança
  230. de que um futuro rico de dados
    inteligentes estará aqui em breve.
  231. Mas queria destacar
    a cláusula 6 desse contrato.

  232. Ela diz: "Nunca, jamais, vou pesquisar
    qualquer informação on-line
  233. de que eu me envergonharia,
    caso fosse vista pela vovó Dawnie".
  234. (Risos)

  235. Tentem. É realmente eficaz.

  236. (Risos)

  237. Ao longo da história,

  238. sempre houve um compromisso
    entre liberdade e igualdade
  239. na busca da prosperidade.
  240. O mundo tem se movido
    em ciclos de acumulação
  241. e redistribuição de riqueza.
  242. Enquanto a tensão entre os que têm
    e os que não têm divide tantos países,
  243. é do interesse de todos,
  244. incluindo das grandes empresas de dados,
  245. evitar essa nova forma de desigualdade.
  246. Obviamente, a propriedade de dados
    individuais não é a resposta perfeita

  247. a essa pergunta profundamente complexa
  248. do que faz uma boa sociedade digital.
  249. Mas, de acordo com McKinsey,
  250. a IA vai obter US$ 13 trilhões
    de rendimentos nos próximos 10 anos.
  251. Sem dúvida, os dados gerados
    por indivíduos sem dúvida contribuirão
  252. para esse enorme crescimento.
  253. Não deveríamos ao menos considerar
    um modelo econômico
  254. que empodere o povo?
  255. E, se a propriedade privada ajudou
    a tirar mais de 850 milhões de pessoas
  256. da pobreza,
  257. é nosso dever,
  258. e devemos isso às gerações futuras,
  259. criar uma economia de IA mais inclusiva
  260. que empodere as pessoas,
    além das empresas.
  261. Obrigada.

  262. (Aplausos)