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← A reimaginação subversiva de um arquiteto quanto ao muro na fronteira EUA-México

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Showing Revision 7 created 03/06/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Não é fascinante como o simples ato
    de desenhar uma linha no mapa
  2. pode transformar a forma como vemos
    e conhecemos o mundo?
  3. E como os espaços
    entre as linhas, as fronteiras,
  4. se transformam em lugares.
  5. Tornam-se em lugares onde
    a língua, a comida e a música
  6. e as pessoas de diversas culturas
    se misturam umas com as outras
  7. de formas magníficas, por vezes, violentas
    e ocasionalmente muito ridículas.
  8. Essas linhas traçadas num mapa
  9. podem criar cicatrizes na paisagem
  10. e podem criar cicatrizes na nossa memória.
  11. O meu interesse nas fronteiras apareceu

  12. quando eu andava a pesquisar
    uma arquitetura das zonas fronteiriças.
  13. Eu estava a trabalhar em vários projetos
    ao longo da fronteira EUA-México,
  14. a projetar edifícios feitos de lama
    retirada diretamente do solo.
  15. Também trabalho em projetos que parecem
    ter imigrado para esta paisagem.
  16. "Prada Marfa", uma escultura de "land-art"
  17. que cruza a fronteira
    entre a arte e a arquitetura
  18. e me demonstrou que a arquitetura
    pode comunicar ideias
  19. que são muito mais complexas
    política e culturalmente,
  20. que a arquitetura pode ser satírica
    e séria simultaneamente
  21. e pode falar para disparidades
    entre a riqueza e a pobreza
  22. e o que é local e o que é estrangeiro.
  23. Assim, na minha pesquisa
    de uma arquitetura das zonas fronteiriças,

  24. comecei a pensar:
  25. O muro é arquitetura?
  26. Comecei a documentar
    os meus pensamentos e as visitas ao muro
  27. criando uma série de recordações
  28. para nos lembrar do tempo
    em que construímos um muro
  29. e que idiota era aquela ideia.
  30. Criei jogos da fronteira...
  31. (Risos)

  32. postais,

  33. globos de neve com pequenos modelos
    arquiteturais lá dentro
  34. e mapas que contavam a história
    da resistência ao muro
  35. e procurei formas em que o "design"
    pudesse esclarecer os problemas
  36. que o muro da fronteira estava a criar.
  37. Então, o muro é arquitetura?

  38. Bom, claro que é uma estrutura projetada
  39. e é projetada numa instalação
    de pesquisa chamada FenceLab,
  40. onde carregavam veículos
    com cinco toneladas
  41. e os atiravam de encontro ao muro
    a 60 km/hora
  42. para testar a resistência do muro.
  43. Mas também havia contra-pesquisa
    do outro lado,
  44. o "design" de pontes levadiças portáteis
  45. que se podiam levar até ao muro
  46. e permitir que os veículos
    passassem por cima.
  47. (Risos)

  48. Tal como todos os projetos de pesquisa

  49. há êxitos e há fracassos.
  50. (Risos)

  51. Mas estas reações medievais ao muro

  52. — pontes levadiças, por exemplo —
  53. existem porque o muro é uma forma
    de arquitetura arcaica e medieval.
  54. É uma resposta demasiado simplista
    a um complexo conjunto de problemas.
  55. E uma série de tecnologias medievais
    surgiram ao longo do muro:
  56. catapultas que lançam fardos
    de marijuana por cima do muro
  57. (Risos)

  58. ou canhões que disparam pacotes
    de cocaína e heroína por cima do muro.

  59. Durante a época medieval,
  60. corpos doentes, cadáveres
  61. eram por vezes catapultados
    por cima das muralhas
  62. como uma forma de guerra biológica,
  63. e especula-se que hoje
  64. estão a ser projetados seres humanos
    por cima do muro
  65. como uma forma de imigração.
  66. Uma ideia ridícula.
  67. Mas a única pessoa
    conhecida e documentada
  68. a ser projetada por cima do muro
  69. do México para os EUA
  70. foi, de facto, um cidadão norte-americano
  71. a quem deram autorização para ser lançado
    como uma bala humana, por cima do muro,
  72. a 60 metros,
  73. desde que levasse na mão
    o seu passaporte.
  74. (Risos)

  75. Aterrou são e salvo numa rede
    do outro lado.

  76. Os meus pensamentos inspiraram-se
    numa citação do arquiteto Hassan Fathy,
  77. que disse:
  78. "Os arquitetos não projetam muros,
  79. "mas os espaços entre eles".
  80. Embora eu ache que os arquitetos
    não devem andar a conceber muros,
  81. penso que é importante e urgente
    que eles prestem atenção
  82. aos espaços entre eles.
  83. Devem projetar, para os locais
    e para as pessoas,
  84. as paisagens que o muro põe em perigo.
  85. As pessoas já estão a levantar-se
    para esta ocasião

  86. e, embora o objetivo do muro
    seja manter as pessoas afastadas e longe,
  87. ele agrupa as pessoas
    de formas notáveis,
  88. realizando eventos sociais
    como aulas de ioga binacionais
  89. ao longo da fronteira,
  90. para unir as pessoas
    dos dois lados da divisória.
  91. Chamo a isto a "pose do monumento".
  92. (Risos)

  93. Já ouviram falar do "murobol"?

  94. (Risos)

  95. É uma versão fronteiriça
    do voleibol, joga-se desde 1979...

  96. (Risos)

  97. ao longo da fronteira EUA-México

  98. para festejar o património binacional.
  99. Coloca algumas questões interessantes.
  100. Este jogo será legal?
  101. Será que bater uma bola
    de um lado para o outro do muro
  102. constitui um comércio ilegal?
  103. (Risos)

  104. A beleza do voleibol
    é que transforma o muro

  105. apenas numa linha na areia
  106. negociada pelos espíritos e corpos
    dos jogadores de ambos os lados.
  107. Penso que é exatamente
    este tipo de negociação bilateral
  108. que é necessário para deitar abaixo
    os muros que dividem.
  109. Atirar a bola por cima do muro
    é uma coisa

  110. mas atirar pedras por cima do muro
  111. provocou danos nos veículos
    da patrulha fronteiriça
  112. e feriu os agentes
    da patrulha fronteiriça.
  113. A reação do lado dos EUA
    foi drástica.
  114. Os agentes da patrulha fronteiriça
    dispararam através do muro
  115. e mataram pessoas que atiraram pedras
    do lado mexicano.
  116. Outra reação dos agentes
    da patrulha fronteiriça
  117. foi erguer proteções de basebol
  118. para se protegerem a si
    e aos seus veículos.
  119. Estas proteções tornaram-se
    características permanentes
  120. na construção de novos muros.
  121. Eu comecei a pensar se,
    tal como o voleibol,
  122. talvez o basebol devesse ser
    uma característica permanente na fronteira
  123. e os muros pudessem começar a abrir-se
  124. permitindo que as comunidades
    se juntassem e jogassem.
  125. e, se lançassem a bola fora,
  126. talvez um agente da patrulha fronteiriça
    agarrasse na bola
  127. e a devolvesse para o outro lado.
  128. Um agente da patrulha fronteiriça
    compra um "raspado", geladinho,

  129. a um vendedor, apenas a alguns metros.
  130. Troca-se comida e dinheiro através do muro
  131. um evento perfeitamente normal
    tornado ilegal pela linha traçada num mapa
  132. e por alguns milímetros de aço.
  133. Esta cena fez-me lembrar um ditado:
  134. "Se tens mais do que precisas,
    deves criar mesas maiores
  135. "e não muros mais altos".
  136. Assim, criei esta recordação
    para me lembrar do momento
  137. em que podemos partilhar
    comida e conversas através da divisão.
  138. Um balancé permite que uma pessoa
    entre e salte para o outro lado,
  139. até a gravidade o devolver
    para o seu país.
  140. Hoje, pensa-se na fronteira
    e no muro fronteiriço

  141. como uma espécie de teatro político,
  142. por isso, devíamos convidar
    audiências para esse teatro,
  143. para um teatro binacional
    onde as pessoas se podem juntar
  144. com atores, músicos.
  145. Talvez o muro não passe
    de um enorme instrumento,
  146. o maior xilofone do mundo
    e podíamos tocá-lo ao longo do muro
  147. com armas de percussão de massas.
  148. (Risos)

  149. Quando antevi esta biblioteca binacional,

  150. queria imaginar um espaço
    onde se pudesse partilhar
  151. livros e informações
    e conhecimentos cruzando a divisória
  152. onde o muro não passasse
    de uma estante de livros.
  153. Talvez a melhor forma de ilustrar
    a relação mútua que temos
  154. com o México e os EUA,
  155. seja imaginando um balancé
  156. onde as ações de um lado
    têm uma consequência direta
  157. no que acontece do outro lado,
  158. porque a própria fronteira
  159. é um ponto de apoio simbólico e literal
    para as relações EUA-México
  160. e construir muros entre vizinhos
    impede essas relações.
  161. Provavelmente lembram-se desta citação:
    "Boas vedações criam bons vizinhos".

  162. Considera-se a moral do poema
    de Robert Frost, "Mending Wall".
  163. Mas o poema contesta
    a necessidade de construir muros.
  164. É um poema sobre remendar
    as relações humanas.
  165. O meu verso preferido é o primeiro:
  166. "Há ali uma coisa
    que não gosta de um muro".
  167. Porque se há uma coisa
    que, para mim, é clara
  168. é que não há dois lados
    definidos por um muro.
  169. É uma paisagem dividida.
  170. De um lado, pode ter este aspeto.
  171. Um homem a cortar a relva
    enquanto o muro se eleva no quintal.
  172. E do outro lado,
    pode ter este aspeto.

  173. O muro é a quarta parede
    da casa de qualquer pessoa.
  174. Mas a realidade é que o muro
    está a separar a vida das pessoas.
  175. Está a separar
    a nossa propriedade privada,
  176. as terras públicas,
  177. as terras americanas nativas,
    as nossas cidades,
  178. uma universidade,
  179. os nossos bairros.
  180. E não posso deixar de pensar

  181. o que seria se o muro
    dividisse uma casa.
  182. Lembram-se das disparidades
    entre riqueza e pobreza?
  183. À direita está a dimensão média
    duma casa em El Paso, no Texas,
  184. e à esquerda está a dimensão média
    duma casa em Juarez.
  185. Aqui, o muro passa diretamente
    pela mesa da cozinha.
  186. E aqui, o muro passa pela cama
    no quarto de dormir.
  187. Porque eu queria transmitir
    que os muros não dividem apenas os locais,
  188. estão a dividir pessoas,
    estão a dividir famílias.
  189. A desgraçada política do muro
  190. está a separar crianças dos seus pais.
  191. Devem conhecer este sinal
    de trânsito muito conhecido.

  192. Foi desenhado pelo
    "designer" gráfico John Hood,
  193. um veterano de guerra americano nativo,
  194. que trabalha para o Departamento
    de Transportes da Califórnia.
  195. Foi encarregado de criar
    um sinal para avisar os motoristas
  196. de imigrantes acampados
    ao longo da autoestrada
  197. que podem tentar atravessar a estrada.
  198. Hood comparou a dificuldade
    dos emigrantes hoje
  199. à dos navajos, durante a Longa Marcha.
  200. É uma peça brilhante
    de ativismo no "design".
  201. Foi muito cauteloso
  202. pensando em usar uma rapariga
    com tranças, por exemplo,
  203. porque pensou que, assim, motivaria
    melhor a empatia dos motoristas
  204. e usou a silhueta de Cesar Chavez,
    o líder dos direitos civis
  205. para criar a cabeça do pai.
  206. Eu queria criar sobre o génio deste sinal

  207. para chamar a atenção para o problema
    da separação das crianças na fronteira,
  208. e fiz uma mudança muito simples.
  209. Virei a família para se encararem
    uns aos outros.
  210. Nas últimas semanas,
  211. tive a oportunidade de voltar
    a trazer este sinal para a autoestrada
  212. para contar uma história
  213. a história das relações
    que devíamos estar a remendar
  214. e um lembrete de que devíamos
    estar a projetar
  215. uns estados reunidos
    e não uns estados divididos.
  216. Obrigado.

  217. (Aplausos)