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← A reimaginação subversiva de um arquiteto sobre o muro da fronteira EUA-México

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Showing Revision 8 created 03/05/2019 by Leonardo Silva.

  1. Não é fascinante como o simples ato
    de desenhar uma linha no mapa
  2. pode transformar nossa maneira
    de ver e sentir o mundo?
  3. E como os espaços
    entre linhas e fronteiras
  4. transformam-se em lugares.
  5. Tornam-se lugares onde a língua,
    a comida, a música
  6. e as pessoas de culturas diferentes
    se misturam umas com as outras
  7. de maneiras belas e, às vezes,
    violentas e muito ridículas.
  8. Essas linhas traçadas em um mapa
  9. podem, na verdade,
    criar cicatrizes na paisagem
  10. e em nossa memória.
  11. Meu interesse pelas fronteiras surgiu

  12. quando eu estava pesquisando
    uma arquitetura das regiões fronteiriças.
  13. Eu estava trabalhando em vários projetos
    ao longo da fronteira EUA-México,
  14. projetando edifícios feitos de lama
    retirada diretamente do solo.
  15. Também trabalho em projetos que parecem
    ter imigrado para essa paisagem.
  16. "Prada Marfa", uma escultura de "land art"
  17. que cruza a fronteira
    entre a arte e a arquitetura
  18. e que demonstrou para mim
    que a arquitetura pode comunicar ideias
  19. muito mais complexas
    política e culturalmente,
  20. que a arquitetura pode ser
    satírica e séria ao mesmo tempo
  21. e pode mostrar as desigualdades
    entre riqueza e pobreza
  22. e o que é local e o que é estrangeiro.
  23. Em minha pesquisa de uma arquitetura
    das regiões fronteiriças,

  24. comecei a me perguntar:
  25. "O muro é arquitetura?"
  26. Comecei a documentar meus pensamentos
    e minhas visitas ao muro
  27. criando uma série de recordações
  28. para nos lembrar da época
    em que construímos um muro
  29. e de que aquela era uma ideia maluca.
  30. Criei jogos da fronteira,
  31. (Risos)

  32. postais,

  33. globos de neve com pequenos
    modelos arquiteturais dentro deles
  34. e mapas que contavam a história
    da resistência ao muro,
  35. e busquei maneiras pelas quais o design
    pudesse esclarecer os problemas
  36. que o muro da fronteira estava criando.
  37. Então, o muro é arquitetura?

  38. Bem, é certamente uma estrutura de design
  39. projetada numa instalação
    de pesquisa chamada FenceLab,
  40. em que veículos de quase
    cinco toneladas eram carregados
  41. e atirados contra o muro a 60 km/h
    para testar a resistência dele.
  42. Mas também havia
    uma contrapesquisa do outro lado:
  43. o projeto de pontes levadiças portáteis
  44. que poderíamos levar até ao muro
  45. e permitir que os veículos
    passassem por cima.
  46. (Risos)

  47. Como em todos os projetos de pesquisa,
    há sucessos e fracassos.

  48. (Risos)

  49. Mas essas reações medievais ao muro -

  50. pontes levadiças, por exemplo -
  51. existem porque o muro em si é uma forma
    de arquitetura misteriosa e medieval.
  52. É uma resposta simplista demais
    a um conjunto complexo de assuntos.
  53. E várias tecnologias medievais
    surgiram ao longo do muro:
  54. catapultas que lançam fardos
    de marijuana por cima dele,
  55. (Risos)

  56. ou canhões que disparam pacotes
    de cocaína e heroína por cima do muro.

  57. Durante a época medieval,
  58. corpos doentes, cadáveres,
  59. eram, às vezes, catapultados
    por cima das muralhas
  60. como uma forma primitiva
    de guerra biológica,
  61. e especula-se que hoje
  62. os seres humanos estão sendo
    lançados por cima do muro
  63. como uma forma de imigração.
  64. Uma ideia ridícula.
  65. Mas a única pessoa
    conhecida e documentada
  66. lançada por cima do muro
  67. do México para os EUA
  68. foi, de fato, um cidadão norte-americano
  69. a quem autorizaram ser lançado como bala
    de canhão humana por cima do muro,
  70. a 60 metros,
  71. contanto que levasse
    o passaporte dele na mão.
  72. (Risos)

  73. Ele aterrissou com segurança
    em uma rede do outro lado.

  74. Meus pensamentos são inspirados
    numa citação do arquiteto Hassan Fathy,
  75. que disse:
  76. "Os arquitetos não projetam muros,
  77. mas os espaços entre eles".
  78. Embora eu ache que os arquitetos
    não devam projetar muros,
  79. considero importante e urgente
    que eles prestem atenção
  80. aos espaços entre os muros.
  81. Eles devem projetar,
    para os locais e as pessoas,
  82. as paisagens que o muro põe em perigo.
  83. As pessoas já estão se levantando
    para essa ocasião

  84. e, embora o objetivo do muro
    seja manter as pessoas afastadas e longe,
  85. ele, na verdade, reúne as pessoas
    de maneiras extraordinárias,
  86. com eventos sociais como aulas de ioga
    binacionais ao longo da fronteira,
  87. para unir as pessoas
    dos dois lados da divisória.
  88. Chamo isso de "pose do monumento".
  89. (Risos)

  90. Já ouviram falar do "murobol"?

  91. (Risos)

  92. É uma versão fronteiriça do voleibol,
    praticada desde 1979,

  93. (Risos)

  94. ao longo da fronteira EUA-México,

  95. para comemorar o patrimônio binacional.
  96. Isso levanta algumas
    perguntas interessantes:
  97. "Tal jogo é mesmo legal?
  98. Será que bater uma bola
    de um lado para o outro do muro
  99. constitui um comércio ilegal?"
  100. (Risos)

  101. A beleza do voleibol
    é que ele transforma o muro

  102. em nada mais do que uma linha na areia
  103. negociada pela mente, pelo corpo
    e espírito de jogadores dos dois lados.
  104. Acho que é exatamente desse tipo
    de negociação bilateral
  105. que precisamos para derrubar
    os muros que dividem.
  106. Arremessar a bola
    por cima do muro é uma coisa,

  107. mas atirar pedras por cima dele
  108. tem causado danos aos veículos
    da patrulha da fronteira
  109. e ferido os agentes dela.
  110. A reação do lado dos EUA foi drástica.
  111. Os agentes da patrulha da fronteira
    dispararam pelo muro
  112. e mataram pessoas que atiraram
    pedras do lado mexicano.
  113. Outra reação dos agentes da patrulha
  114. foi erguer proteções de basebol
  115. para protegerem a si mesmos
    e a seus veículos.
  116. Essas proteções se tornaram
    uma característica permanente
  117. na construção de novos muros.
  118. Comecei a pensar se, como o voleibol,
  119. talvez o beisebol deveria ser
  120. uma característica
    permanente na fronteira,
  121. e os muros poderiam começar a se abrir
  122. permitindo que as comunidades
    se encontrassem e jogassem.
  123. e, se elas rebatessem a bola pra fora,
  124. talvez um agente da patrulha
    pegaria a bola
  125. e a arremessaria de volta
    para o outro lado.
  126. Um agente da patrulha da fronteira
    compra uma raspadinha gelada

  127. de um vendedor, apenas a alguns metros.
  128. Troca-se comida e dinheiro pelo muro,
  129. um evento totamente normal torna-se ilegal
    pela linha traçada em um mapa
  130. e por alguns milímetros de aço.
  131. Essa cena me fez lembrar de um ditado:
  132. "Se você tem mais do que necessita,
    deve fabricar mesas maiores
  133. e não muros mais altos".
  134. Então, criei este suvenir
    para me lembrar do momento
  135. em que pudemos compartilhar
    comida e conversas por toda a divisória.
  136. Um balanço permite que uma pessoa
    entre e salte para o outro lado,
  137. até que a gravidade a deporte
    de volta ao próprio país.
  138. A fronteira e o muro dela

  139. são hoje considerados
    uma espécie de teatro político.
  140. Por isso, talvez devêssemos convidar
    um público para esse teatro binacional,
  141. onde as pessoas podem se reunir
  142. com artistas, músicos.
  143. Talvez o muro não passe
    de um enorme instrumento,
  144. o maior xilofone do mundo,
    que poderíamos tocar ao longo do muro
  145. com armas de percussão em massa.
  146. (Risos)

  147. Quando previ essa biblioteca binacional,

  148. eu queria imaginar um espaço
    em que fosse possível compartilhar
  149. livros, informação e conhecimento
    por toda a divisória,
  150. e o muro não passasse
    de uma estante de livros.
  151. Talvez a melhor maneira de ilustrar
  152. a relação mútua que temos
    com o México e os EUA,
  153. seja imaginando uma gangorra
  154. em que as ações de um lado
    têm consequência direta
  155. no que acontece do outro,
  156. porque a fronteira em si
  157. é um ponto de apoio simbólico e literal
    para as relações EUA-México
  158. e construir muros entre vizinhos
    rompe essas relações.
  159. Talvez se lembrem desta citação:
    "Boas cercas fazem bons vizinhos".

  160. Ela é frequentemente considerada a moral
    do poema de Robert Frost, "Mending Wall".
  161. Mas o poema questiona
    a necessidade de construir muros.
  162. Trata-se de um poema sobre melhorar
    as relações humanas.
  163. Meu verso preferido é o primeiro:
  164. "Algo existe que não adora um muro".
  165. Porque uma coisa é clara para mim:
  166. não há dois lados definidos por um muro.
  167. Isso é uma paisagem dividida.
  168. De um lado, pode ser assim:

  169. um homem que corta a grama
    enquanto o muro surge no quintal dele.
  170. Do outro lado, pode ser assim:
  171. o muro é a quarta parede
    da casa de alguém.
  172. Mas a realidade é que o muro
    está separando a vida das pessoas.
  173. Está separando nossa propriedade privada,
  174. as terras públicas, nossas terras
    norte-americanas nativas, nossas cidades,
  175. uma universidade,
  176. nossos bairros.
  177. E não consigo deixar de pensar

  178. no que seria se o muro dividisse uma casa.
  179. Lembram-se das desigualdades
    entre riqueza e pobreza?
  180. À direita, está o tamanho médio
    de uma casa em El Paso, Texas;
  181. à esquerda, o tamanho médio
    de uma casa em Juarez.
  182. Aqui o muro passa diretamente
    pela mesa da cozinha.
  183. E aqui ele passa pela cama do quarto.
  184. Porque eu queria comunicar que o muro
    não está dividindo apenas os lugares,
  185. mas também pessoas e famílias.
  186. A política infeliz do muro está
    separando hoje crianças de seus pais.
  187. Vocês devem conhecer
    esta famosa placa de trânsito.

  188. Foi desenhado pelo
    designer gráfico John Hood,
  189. veterano de guerra norte-americano nativo,
  190. que trabalha para o Departamento
    de Transportes da Califórnia.
  191. Foi encarregado de criar uma placa
    para avisar os motoristas
  192. sobre imigrantes abandonados
    ao longo da rodovia
  193. que podem tentar atravessar a estrada.
  194. Hood relacionou a situação
    deplorável dos imigrantes de hoje
  195. com a dos navajos,
    durante a Grande Caminhada.
  196. Essa é realmente uma peça brilhante
    de ativismo no design.
  197. Ele foi muito cauteloso
  198. ao pensar no uso de uma menininha
    com tranças, por exemplo,
  199. porque achou que os motoristas
    poderiam se identificar mais com isso,
  200. e usou a silhueta de Cesar Chavez,
    líder dos direitos civis,
  201. para criar a cabeça do pai.
  202. Eu queria me basear
    na genialidade dessa placa

  203. para chamar a atenção para o problema
    da separação das crianças na fronteira,
  204. e fiz uma mudança muito simples:
  205. virei a família para que pudessem se ver.
  206. Nas últimas semanas,
  207. tive a oportunidade de trazer
    de volta essa placa para a rodovia
  208. para contar uma história:
  209. a história das relações
    que deveríamos estar melhorando
  210. e um lembrete de que deveríamos
    estar projetando estados reunidos
  211. e não estados divididos.
  212. Obrigado.

  213. (Aplausos)