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← Como a comunidade médica dos EUA atraiçoa as mães negras

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Showing Revision 8 created 10/01/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Se pudesse voltar atrás no tempo
    e trazer Shalon de volta,
  2. eu faria tudo, literalmente tudo.
  3. De bom grado, daria tudo
  4. para voltar a ver o seu rosto sorridente.
  5. Mas, infelizmente, mesmo
    que a Shalon estivesse aqui,
  6. isso não mudaria a realidade:
  7. cerca de 700 a 800 mulheres
    morrem, por ano, nos EUA,
  8. por complicações na gravidez e no parto.
  9. A opção de ter um filho não devia
    ser sinónimo de pena de morte.
  10. A taxa de mortalidade materna
    nos EUA é escandalosa.

  11. Em 2017, a NPR e a ProPublica noticiaram
  12. que os EUA têm a taxa mais alta
    de mortalidade materna
  13. de qualquer país desenvolvido do mundo.
  14. Os EUA são o único país do mundo
    em que essa taxa vai subindo gradualmente.
  15. As mães negras como Shalon
    continuam a ser o principal grupo

  16. da mortalidade materna.
  17. É realmente lamentável
  18. que as mulheres negras morram
  19. numa taxa três ou quatro vezes maior
    do que as mulheres brancas.
  20. É absolutamente vergonhoso
  21. que 60% dessas mortes
    sejam perfeitamente evitáveis,
  22. tal como foi a da minha filha.
  23. Este é um facto chocante:
  24. segundo o relatório da Administração
    dos Recursos e Serviços de Saúde,
  25. a diferença neste risco
    tem-se mantido sempre igual
  26. nos últimos 60 anos.
  27. Sessenta anos!
  28. Manifestamente, os esforços para reduzir
    as taxas de mortalidade materna
  29. e as disparidades raciais
    e de saúde nesta área
  30. mantêm-se terrivelmente inadequadas.
  31. Só quando a etnia deixar
    de ser a percursora
  32. da forma como as mulheres negras
    são tratadas ou não, no sistema de saúde,
  33. é que os resultados serão
    drasticamente diferentes.
  34. Eu quero ser muito clara.

  35. A comunidade médica está a trair
    as mães negras nos EUA.
  36. Durante décadas
  37. as mulheres negras têm sido
    excluídas, ignoradas, desprezadas,
  38. ou, pelo menos,
  39. não têm sido levadas a sério
  40. nas suas interações
    com o sistema de saúde.
  41. Não é invulgar as mulheres negras
    sofrerem racismo e discriminação

  42. por parte do pessoal médico.
  43. Esse racismo pode ser ostensivo
    ou disfarçado subtilmente,
  44. mas não há que enganar — ele está lá.
  45. Não valeu de nada Shalon
    ter dois doutoramentos,
  46. um em Sociologia
    e outro em Gerontologia.
  47. Nem sequer valeu de nada
    que Sharon tivesse dois mestrados,
  48. um deles em Saúde Pública,
    da Universidade Johns Hopkins.
  49. Não fez diferença que Shalon
    fosse capitã-tenente
  50. no Serviço de Saúde Pública dos EUA,
  51. tivesse participado no mundialmente famoso
    Epidemic Intelligence Service,
  52. uma epidemiologista muito respeitada
    nos Centros para Controlo de Doenças
  53. e presidente da sua empresa
    de diversidade.
  54. Não deixava de ser uma mulher negra.
  55. Uma mulher negra que acedera a um sistema
  56. que a via como um estereótipo
  57. e a tratava como tal.
  58. Durante as três semanas
    depois do nascimento do filho dela,

  59. Shalon recorreu ao sistema de saúde
    vezes sem conta, com problemas.
  60. Obviamente, com a sua formação e treino,
  61. descreveu as suas preocupações
    muito claramente.
  62. Contudo, os seus pedidos de ajuda
    foram minimizados e ignorados
  63. pelos preconceitos ocultos
    do seu assistente médico.
  64. Esses mesmos preconceitos,
    alimentados por um racismo estrutural,
  65. são a causa primária das disparidades
    nos cuidados de saúde.
  66. Esses mesmos preconceitos
    tiveram impacto no desfecho de Shalon.
  67. Esses mesmos preconceitos
  68. fizeram com que a minha filha
  69. fizesse parte das estatísticas de 2017.
  70. Em resultado, eu perdi
    a minha querida filha,

  71. a minha filhinha.
  72. Perdi a minha confidente,
  73. perdi a minha melhor amiga,
  74. perdi todo o meu mundo.
  75. A filha de Shalon perdeu a sua mãe

  76. e todas as possibilidades de relações
  77. que podiam ter existido entre elas duas.
  78. A sociedade pode ter sofrido
    a maior perda.
  79. Quem sabe quantos progressos médicos,
  80. quantas contribuições de justiça social
    a Shalon teria feito
  81. se o seu assistente médico
    lhe tivesse dado ouvidos
  82. e desse atenção aos seus pedidos de ajuda.
  83. Nunca o saberemos.
  84. Mas, pelo menos, sabemos isto:

  85. Por detrás de cada uma dessas 700 a 800
    mulheres que morrem está uma família
  86. e toda uma rede social de entes queridos,
  87. incluindo as crianças
    que ficam para trás, como a Soleil.
  88. Soleil, a filha de Shalon
    tem hoje três anos.
  89. Tem um sorriso fácil
  90. — tão brilhante como era o da sua mãe.
  91. A Soleil não tem medo.
  92. É determinada e é muito opiniosa.
  93. (Risos)

  94. É muito esperta.

  95. A Soleil está sempre a impressionar-me
  96. pela forma confiante
    com que se movimenta no seu mundo.
  97. Mas a Soleil só conhece a mãe
    através das fotografias
  98. e das memórias preciosas que eu tenho
    e partilho com ela todos os dias.
  99. Mas a Soleil ama a mãe
  100. que esteve junto dela
    apenas durante três curtas semanas.
  101. Todos os dias me diz isso.
  102. O meu coração sofre
    sempre que a Soleil chora pela mãe.
  103. Foi numa dessas alturas
    que a Soleil me disse:
  104. "Avó, eu quero ir para o céu
    para poder estar ao pé da minha mãe."
  105. Não devia ser assim.
  106. Não tem de ser assim.
  107. Não pode continuar a ser assim.
  108. Quando eu disse que a comunidade
    médica está a trair as mães negras,

  109. podem ter julgado que estou
    a generalizar demasiado.
  110. Afinal, o que temos de culpar
    são as pessoas, não é?
  111. Ou talvez devêssemos dizer
    que há uma meia dúzia de hospitais
  112. que são os que são mais usados
    pelas mulheres negras
  113. e por outras minorias,
  114. que são o epicentro
    da mortalidade materna nos EUA.
  115. Mas eu defendo que, se nos concentrarmos
    em meia dúzia de indivíduos
  116. ou em meia dúzia de hospitais,
  117. estamos a definir o problema
    de modo demasiado limitado.
  118. O comportamento problemático
  119. não são as ações de indivíduos
    ou de hospitais específicos.
  120. É muito mais sistémico do que isso.
  121. Mais ainda,
  122. a prevalência do problema
    está profundamente enraizado,
  123. incrustado nas bases
    do nosso sistema de saúde.
  124. É esta falha generalizada
    que continua a permitir disparidades

  125. na saúde materna e na morte,
  126. que resulta em que as mulheres
    negras, como a Shalon,
  127. morram a um ritmo 300% mais alto
    do que as mulheres brancas.
  128. Está muito bem documentado,
  129. ano após ano,
  130. década após década,
  131. geração após geração
  132. e não se tem feito nada
    de eficaz para contrariar isso.
  133. Como é que se resolve isto?

  134. Haverá uma resposta definitiva
    para erradicar as disparidades
  135. na mortalidade materna?
  136. A melhoria do rigor
    dos dados é fundamental
  137. mas não é suficiente.
  138. Os algoritmos, as listas de controlo,
    os aplicativos,
  139. tudo isso desempenha um papel importante,
  140. mas também não são uma panaceia.
  141. Não me canso de sublinhar
  142. que uma formação
    de preconceitos implícitos
  143. sem medidas explícitas
    de responsabilização
  144. não fará qualquer diferença.
  145. Chegou a altura
  146. — e já não é sem tempo —
  147. de os líderes da comunidade médica
    darem passos para transformar
  148. o "status quo" do sistema de saúde.
  149. O primeiro passo tem de ser
    o reconhecimento

  150. de que o problema inerente
    no sistema de saúde
  151. é mais do que um problema.
  152. É um fracasso.
  153. O passo seguinte exige
    assumir a responsabilidade
  154. e assumir responsabilidade
    por esse fracasso.
  155. Mas o passo mais importante
  156. é encetar ativamente
    as ações necessárias
  157. para eliminar os erros
    criados por esse fracasso.
  158. Uma mulher sábia disse-me um dia:

  159. "Se quiseres uma coisa diferente,
  160. "tens de fazer
    qualquer coisa de diferente."
  161. A minha filha estava empenhada
    em fazer uma coisa diferente.
  162. Shalon era conhecida
    como uma mulher de grande integridade
  163. e de altos valores morais.
  164. Se lhe perguntassem quais eram
    os seus princípios de conduta na vida,
  165. ela responderia:
  166. "Vejo a desigualdade
    onde quer que ela exista.
  167. "Não tenho medo
    de a chamar pelo seu nome,
  168. "e esforço-me por a eliminar.
  169. "Comprometo-me a criar um mundo melhor."
  170. Shalon punha em prática estas palavras
    todos os dias da sua vida.
  171. O antigo Cirurgião Geral,
    David Satcher, disse um dia:
  172. "Os líderes têm de se preocupar
    o que for preciso,
  173. "os líderes têm de saber
    o que for preciso,
  174. "os líderes têm de estar
    dispostos a fazer o que for preciso
  175. "e os líderes têm de estar dispostos
    a perseverar até o trabalho estar feito."
  176. Shalon era uma líder deste tipo.
  177. Embora nunca vá haver
    outra líder como a Shalon

  178. podemos perseverar
    até o trabalho estar feito.
  179. Isto é aquilo em que eu persevero
  180. até estar feito o trabalho
    de salvar as mães negras.
  181. Para começar,
  182. reuni forças com vários
    amigos de Shalon
  183. e com colegas
    do Centro de Controlo de Doenças.
  184. Fundámos uma organização
    sem fins lucrativos.
  185. Estamos a trabalhar para eliminar
    mortes evitáveis de mães negras.
  186. Eis como estamos a fazer isso:
  187. com ação, ação e mais ação.
  188. Estamos a congregar
    pessoas interessadas
  189. em todos os pontos da saúde pública
    e do espetro dos cuidados de saúde.
  190. Estamos a trabalhar ativamente
    com o gabinete legislativo.
  191. Estamos a promover medidas
    de responsabilização
  192. e projetos de legislação pós-parto
  193. e queremos que eles sejam
    consagradas na lei.
  194. Estamos a preparar um projeto
    de investigação com base na comunidade
  195. para redefinir a qualidade
    dos cuidados médicos
  196. para as mulheres negras.
  197. Por fim, vamos dar mais poder
    às mulheres negras.
  198. Como é que vamos fazer isso?
  199. Dando poder às mulheres negras
    e aos seus parceiros
  200. para combaterem com eficácia
    os preconceitos e o racismo que sofrem
  201. em qualquer altura da gravidez,
    do parto e pós-parto.
  202. Olhem à vossa volta.

  203. Cada um de vocês nesta sala
    tem um círculo de influência.
  204. Convido-vos a pensarem
  205. no impacto poderoso que podem ter
  206. se concentrarem essa influência
    coletiva neste problema,
  207. para fazerem a diferença.
  208. E se nós, tal como a Shalon,
    reconhecêssemos a desigualdade
  209. onde quer que ela exista
    nas nossas comunidades
  210. e não tivéssemos medo
    de a chamar pelo seu nome?
  211. E se cada um de nós
    nos empenhássemos apaixonadamente
  212. no uso de todos os nossos recursos
  213. para eliminar essas desigualdades?
  214. Poderíamos alterar as coisas?
  215. Poderíamos derrubar
    séculos de preconceitos
  216. e décadas de más práticas?
  217. Eu sei que podemos.
  218. Eu sei que podemos,
  219. se nos dedicarmos a esse objetivo,
  220. se nos concentrarmos
    nessa energia coletiva.
  221. Para citar Nelson Mandela:

  222. "Quando as pessoas estão determinadas
  223. "conseguem mover montanhas.
  224. "Mas uma ação sem uma visão
  225. "só serve para passar o tempo.
  226. "Uma visão sem uma ação
    é apenas sonhar acordado.
  227. "Mas uma visão com ação
    pode realmente alterar o mundo."
  228. A vida de Shalon foi a perfeita
    encarnação da visão.
  229. A morte de Shalon é o nosso apelo à ação.
  230. Hoje, vamos comprometer-nos
    em fazer tudo o que pudermos.
  231. Vamos comprometer-nos
    a emendar o que está errado.
  232. Vamos comprometer-nos
    a fazer parte da solução
  233. até as mulheres negras
    deixarem de ser marginalizadas
  234. e de morrerem estupidamente
  235. no sistema da saúde pública.
  236. E, tal como a minha filha,
  237. a Dra. Shalon MauRene Irving,
  238. vamos comprometer-nos
    a criar um planeta melhor.
  239. Obrigada.

  240. (Aplausos)