Portuguese, Brazilian 字幕

← Como a comunidade médica americana ignora as mães negras

埋め込みコードを取得する
24言語

Showing Revision 24 created 10/27/2020 by Carolina Aguirre.

  1. Se pudesse voltar no tempo
    e trazer Shalon de volta,
  2. eu faria literalmente
    qualquer coisa para isso.
  3. Eu ficaria feliz em dar tudo
  4. se pudesse vê-la sorrindo mais uma vez.
  5. Mas, infelizmente,
    mesmo que Shalon estivesse aqui,
  6. isso não mudaria o fato
  7. de que entre 700 a 800 mulheres
    morrem a cada ano nos EUA
  8. devido a complicações
    durante a gravidez ou o parto.
  9. A escolha de ter um filho jamais
    deveria significar uma sentença de morte.
  10. A taxa de mortalidade materna
    nos EUA é simplesmente terrível.

  11. Em 2017, NPR e ProPublica relataram
  12. que os Estados Unidos têm
    a maior taxa de mortalidade materna
  13. de qualquer país desenvolvido no mundo.
  14. E os EUA são o único país
    onde essa taxa continua aumentando.
  15. Mães negras como a Shalon
    continuam sendo o grupo principal

  16. para a mortalidade materna.
  17. É realmente repreensível
  18. que mulheres negras morram
  19. a uma taxa três a quatro vezes maior
    se comparada às mulheres brancas.
  20. É simplesmente vergonhoso
  21. que 60% dessas mortes
    sejam totalmente evitáveis,
  22. assim como era a da minha filha.
  23. E aqui está um fato chocante:
  24. de acordo com o relatório da Health
    Resources and Services Administration,
  25. a diferença de risco tem ficado
    regularmente inalterada
  26. nas últimas seis décadas.
  27. Seis décadas!
  28. Obviamente, os esforços atuais
    para abordar taxas de mortalidade materna
  29. e as disparidades raciais
    e de saúde nessa área
  30. permanecem lamentavelmente inadequados.
  31. Apenas quando a raça
    deixar de ser a precursora
  32. de como as mulheres negras
    são tratadas ou não no sistema de saúde,
  33. então os resultados serão
    drasticamente diferentes.
  34. Quero ser bem clara agora.

  35. A comunidade médica vem falhando
    com as mães negras nos Estados Unidos.
  36. Por décadas,
  37. mulheres negras têm sido rejeitadas,
    ignoradas, desconsideradas,
  38. ou, pelo menos,
  39. não têm sido levadas a sério
  40. em suas interações com o sistema de saúde.
  41. Não é incomum para mulheres negras
    serem vítimas de racismo e discriminação

  42. por parte de provedores médicos.
  43. Esse racismo pode ser abertamente
    evidente ou secretamente sutil,
  44. mas não se enganem, ele existe.
  45. Não importava que Shalon
    tivesse dois PhDs,
  46. em Sociologia e Gerontologia;
  47. nem importava que tivesse dois mestrados,
  48. um deles em Saúde Pública
    na Universidade Johns Hopkins.
  49. Não fez diferença alguma o fato
    de que a Shalon era tenente comandante
  50. no Serviço de Saúde Pública dos EUA,
  51. ex-aluna de renome mundial
    na Epidemic Intelligence Service,
  52. uma epidemiologista altamente respeitada
    no Centro de Controle de Doenças, CDC,
  53. e presidente de sua própria
    companhia de diversidade.
  54. Ela era ainda uma mulher negra,
  55. acessando um sistema
    que a via como um estereótipo
  56. e que respondeu a ela como tal.
  57. Durante as três semanas
    após o nascimento da filha dela,

  58. Shalon procurou seus profissionais
    de saúde repetidamente em perigo.
  59. Obviamente, com sua educação e formação,
  60. ela podia, e articulou, suas preocupações
    a eles muito claramente.
  61. Ainda assim, os pedidos de ajuda
    dela foram subestimados e ignorados
  62. pelo viés enrustido do médico dela.
  63. Aquele mesmo preconceito,
    alimentado pelo racismo estrutural,
  64. é a causa raiz das disparidades
    na assistência médica.
  65. Aquele mesmo preconceito
    afetou o resultado de Shalon
  66. e fez com que minha filha
    entrasse para as estatísticas
  67. em 2017.
  68. Como resultado, eu perdi
    minha linda garotinha.

  69. Minha filhinha.
  70. Eu perdi minha confidente,
  71. minha melhor amiga,
  72. perdi meu mundo todo.
  73. A filha de Shalon perdeu a mãe

  74. e todas as possibilidades
    de relacionamento
  75. que poderia ter existido entre elas.
  76. A sociedade pode ter sofrido
    a maior de todas as perdas.
  77. Quem sabe quantos avanços médicos
  78. ou contribuições para a justiça social
    Shalon poderia ter dado
  79. se o médico dela a tivesse ouvido
  80. e atendido aos pedidos de ajuda dela?
  81. Nunca saberemos.
  82. Mas isso, nós sabemos.

  83. Por trás de cada uma daquelas
    700 a 800 mulheres que morrem
  84. há uma família
  85. e todo um grupo de entes queridos,
  86. incluindo as crianças
    deixadas para trás, como a Soleil.
  87. A filha de Shalon, Soleil,
    tem três anos agora.
  88. Ela tem um sorriso largo
  89. e é tão genial quanto a mãe dela era.
  90. Soleil é destemida.
  91. É determinada e tem opinião própria,
  92. é tão inteligente!

  93. Ela me surpreende constantemente
  94. com a confiança que demonstra
    ao navegar em seu mundo.
  95. Mas ela só conhece a mãe pelas fotos
  96. e pelas lembranças queridas que tenho
    e compartilho com ela todos os dias.
  97. Ainda assim, Soleil ama a mamãe dela,
  98. que ficou com ela por apenas três semanas.
  99. Ela me diz isso todos os dias.
  100. Meu coração dói cada vez
    que a Soleil chora pela mamãe dela.
  101. E nesses momentos ela me diz:
  102. "Vovó, eu quero ir para o céu,
    para ficar com a mamãe".
  103. E não deveria ser assim.
  104. Não precisa ser assim.
  105. É impossível que isso siga dessa maneira.
  106. Quando disse antes que a comunidade médica
    está falhando com as mães negras,

  107. alguns de vocês podem ter se perguntado
    se não estou generalizando.
  108. Afinal, são indivíduos que devem
    ser culpados aqui, certo?
  109. Ou talvez devêssemos
    dizer que alguns hospitais,
  110. que por coincidência são amplamente
    usados por mulheres negras
  111. e pelas minorias,
  112. estão no epicentro da mortalidade
    durante a maternidade nos Estados Unidos.
  113. Mas eu diria que focar alguns indivíduos
  114. ou alguns hospitais
  115. significa definir o problema
    de modo muito restrito.
  116. O comportamento do problema
    não está nas ações
  117. de indivíduos ou hospitais específicos;
  118. é muito mais sistêmico do que isso.
  119. Além do mais,
  120. a prevalência do problema
    está profundamente enraizada
  121. na própria fundação
    do nosso sistema de saúde.
  122. É esta falha ampla de base
    que continua a permitir disparidades

  123. na saúde materna e na morte,
  124. que faz com que mulheres negras,
  125. como a Shalon,
  126. morram 300% mais do que mulheres brancas.
  127. Está tudo bem documentado,
  128. ano após ano,
  129. década após década,
  130. geração após geração,
  131. e nada tem sido feito
    efetivamente para corrigir isso.
  132. Como podemos corrigir o sistema?

  133. Será que há uma resposta definitiva
    para erradicar disparidades
  134. na mortalidade materna?
  135. Bem, melhorias na precisão
    dos dados são críticas,
  136. mas não o suficiente.
  137. Algoritmos, aplicativos
    e listas de verificação
  138. desempenham um papel importante,
  139. mas também não são uma panaceia.
  140. E realmente não consigo
    enfatizar o suficiente
  141. que o treinamento de preconceito implícito
  142. sem medidas explícitas
    de responsabilização
  143. não fará diferença alguma.
  144. Está na hora,
  145. já passou da hora,
  146. de os líderes da comunidade médica
    tomarem medidas para transformar
  147. o status quo do sistema de saúde.
  148. O primeiro passo deve ser reconhecer

  149. que o problema inerente
    ao sistema de saúde
  150. é mais do que um problema;
  151. é um fracasso.
  152. O próximo passo requer assumir
    a responsabilidade por esse fracasso.
  153. Mas o passo mais importante
  154. é ativamente tomar as ações necessárias
  155. para corrigir os erros
    criados por esse fracasso.
  156. Uma mulher sábia me disse certa vez:

  157. "Se você quer algo diferente,
  158. tem que fazer algo diferente".
  159. Minha filha estava comprometida
    a fazer algo diferente.
  160. Shalon era conhecida
    como uma mulher de grande integridade
  161. e valores morais nobres.
  162. Quando a perguntavam sobre princípios
    que guiavam sua vida,
  163. ela respondia:
  164. "Vejo desigualdade onde quer que exista.
  165. Não tenho receio de dar um nome a ela,
  166. e trabalho muito para eliminá-la.
  167. Prometo criar um mundo melhor".
  168. Shalon colocou essas palavras em prática
    durante toda a sua vida.
  169. O ex-cirurgião geral
    David Satcher disse uma vez:
  170. "Líderes devem se preocupar o suficiente,
  171. devem saber o suficiente,
  172. estar dispostos a fazer o bastante
  173. e a persistir até que o trabalho
    esteja concluído".
  174. Shalon era essa líder.
  175. Embora jamais haverá outra líder como ela,

  176. cada um de nós pode persistir
    até que o trabalho esteja feito.
  177. Aqui está o que faço para persistir
  178. até que o trabalho para salvar
    mães negras esteja feito.
  179. Para começar,
  180. uni forças com vários amigos da Shalon
  181. e colegas do CDC.
  182. Fundamos uma organização
    sem fins lucrativos.
  183. Trabalhamos muito para eliminar
    mortes evitáveis entre mães negras.
  184. E fazemos isso
  185. com muita ação e mais ação.
  186. Engajamos as partes interessadas
  187. em todos os pontos da saúde pública
    e espectro de cuidados de saúde.
  188. Trabalhamos ativamente
    com o poder legislativo.
  189. Promovemos medidas de responsabilização
    e projetos de lei sobre o pós-parto,
  190. e queremos que sejam consagrados na lei.
  191. Estamos embarcando num projeto
    de pesquisa baseado na comunidade,
  192. o qual irá redefinir a qualidade
    de atendimento médico a mulheres negras.
  193. Assim, vamos colocar mais poder
    nas mãos dessas mulheres.
  194. Como faremos isso?
  195. Capacitando mulheres negras
    e seus parceiros de parto
  196. para efetivamente neutralizar o viés
    e o racismo que elas vivenciam
  197. a qualquer momento durante a gravidez,
    o parto e o pós-parto.
  198. Olhem a sua volta.

  199. Cada um de nós neste auditório
    tem um círculo de influência.
  200. Convido vocês a considerarem o poder
    do impacto que poderíamos causar
  201. se focássemos essa influência
    coletiva neste problema,
  202. para fazer a diferença.
  203. E se nós, como Shalon,
    reconhecêssemos a iniquidade
  204. onde quer que ela existisse
    em nossas comunidades
  205. e não tivéssemos receio
    de dar um nome a ela?
  206. E se cada um de nós fosse
    comprometido e engajado
  207. a usar todos os nossos recursos
  208. para eliminar essa desigualdade?
  209. Podemos mudar essa situação?
  210. Poderíamos derrubar séculos de preconceito
  211. e décadas de más práticas?
  212. Eu sei que poderíamos.
  213. Sei que poderíamos
  214. se nos concentrássemos nesse problema,
  215. nessa energia coletiva.
  216. Para citar Nelson Mandela:

  217. "Quando as pessoas estão determinadas,
  218. elas podem superar qualquer coisa.
  219. Mas ação sem visão
  220. significa perda de tempo.
  221. Visão sem ação significa sonhar acordado.
  222. Mas visão com ação
    pode realmente mudar o mundo".
  223. A vida de Shalon era a perfeita
    personificação da visão.
  224. A morte dela é nosso chamado à ação.
  225. Então, hoje, que cada um de nós
    prometa fazer o que pode
  226. para corrigir esse erro.
  227. Vamos prometer ser parte da solução
  228. até que mulheres negras não sejam mais
    marginalizadas nem morram
  229. no sistema de saúde.
  230. E como minha filha,
  231. (Voz embargada)
    Dra. Shalon MauRene Irving,
  232. vamos prometer criar um mundo melhor.
  233. Obrigada.

  234. (Aplausos)