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← A verdade sobre a excitação involuntária

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Showing Revision 7 created 06/10/2018 by Margarida Ferreira.

  1. [Esta palestra tem conteúdo para adultos]
  2. A minha especialidade,
    enquanto educadora sexual

  3. é usar a ciência.
  4. Mas a minha primeira função,
    e a mais importante,
  5. é de me manter neutra,
  6. quando falo de qualquer coisa
    relacionada com sexo,
  7. sem embaraço, sem excitação,
    sem juízo de valores, sem vergonha,
  8. onde quer que eu esteja,
  9. quaisquer que sejam
    as perguntas que me façam.
  10. Um dia, no final duma conferência,
    na receção de um hotel
  11. dirijo-me para a porta da rua
    e uma colega detém-me.
  12. "Emily, tenho uma pergunta rápida.
  13. "Uma amiga minha...
  14. (Risos)

  15. "quer saber se é possível
    ficar viciada com o vibrador".

  16. A resposta é não,
    mas é possível ficar magoada.
  17. (Risos)
  18. Numa outra conferência,
    agora num paraíso tropical ao ar livre,
  19. estou no bufete do pequeno almoço
    e um casal aborda-me.
  20. "Emily, desculpe interrompê-la,
  21. "mas queríamos fazer-lhe
    uma pergunta rápida
  22. "sobre ejaculação prematura.
  23. "Claro. Eu explico-vos a técnica
    do parar/começar".
  24. É esta a minha vida.
  25. Mantenho-me neutra
    quando outras pessoas ficam chocadas

  26. O choque é uma emoção
    que alia a surpresa ao embaraço,
  27. mais um pouco de desagrado
  28. tipo, sem saber o que fazer com as mãos.
  29. Portanto, é um resultado.
  30. Sentimo-nos chocados
  31. porque passamos
    os primeiros 20 anos da vida
  32. a aprender que o sexo é uma fonte
    perigosa e repugnante
  33. duma vergonha duradoura
  34. e, se não formos mesmo bons nisso,
    ninguém nos amará.
  35. (Risos)

  36. Podem ficar chocados
    ao me ouvirem falar de sexo,

  37. aí sentados numa sala cheia de estranhos,
    isso é normal.
  38. Recomendo-vos que respirem fundo.
  39. Os sentimentos são túneis.
  40. Avançamos através da escuridão
    para alcançar a luz lé no fim.
  41. Prometo que vale a pena.
  42. Porque quero falar-vos
    de uma peça de ciência
  43. que mudou a forma como eu penso
    sobre todas as coisas
  44. desde o comportamento
    dos neurotransmissores
  45. no nosso cérebro emotivo
  46. até à dinâmica das nossas relações
    interpessoais,
  47. até ao nosso sistema judicial.
  48. Começa com o nosso cérebro.
  49. Há uma área do nosso cérebro
    de que talvez já ouviram falar

  50. como o centro da "recompensa".
  51. Chamar-lhe o centro da recompensa
  52. é um pouco como chamar
    ao nariz a nossa cara.
  53. O nariz é um traço proeminente
  54. mas ignora algumas outras partes
    e ficaremos muito confusos
  55. se tentarmos perceber
    como funciona a cara.
  56. Na realidade, há três sistemas
    separados, mas interligados.
  57. O primeiro sistema é gostar.
  58. É parecido com a recompensa,
  59. é o centro dos opioides
    no nosso cérebro emocional.
  60. Avalia o impacto hedónico:
  61. "Este estímulo sabe bem?
    Até que ponto?
  62. "Este estímulo é desagradável?
    Até que ponto?"
  63. Se deitarmos água açucarada
    na língua de um recém-nascido
  64. este sistema semelhante aos opioides
    desencadeia um fogo de artifício.
  65. Depois há o sistema do querer.

  66. A vontade é transmitida
    por uma ampla rede de dopaminas
  67. no cérebro emocional e para além dele.
  68. Motiva-nos a aproximarmo-nos
    ou a afastarmo-nos de um estímulo.
  69. A vontade é como uma criancinha
    que anda sempre atrás de nós,
  70. a pedir mais um bolinho.
  71. Assim, querer e gostar
    estão relacionados.
  72. Mas não são idênticos.
  73. O terceiro sistema é a aprendizagem.

  74. Aprender é o cão de Pavlov.
  75. Lembram-se de Pavlov?
  76. Pôs os cães a salivar
    em reação a uma campainha.
  77. Damos comida a um cão,
    ele saliva automaticamente
  78. e tocamos uma campainha.
  79. Comida, saliva, campainha,
  80. Comida, campainha, saliva.

  81. Campainha, saliva.
  82. Esta saliva significa
    que o cão quer comer a campainha?
  83. Significa que o cão
    acha a campainha deliciosa?
  84. Não.
  85. Pavlov fez com que a campainha
    se relacionasse com a comida.
  86. Quando vemos esta separação
    entre o querer, o gostar e o aprender,
  87. é aqui que encontramos
    um quadro explicativo
  88. para percebermos aquilo a que
    os investigadores chamam
  89. excitação não concordante.
  90. A não concordância

  91. é quando há falta de relação previsível
  92. entre a nossa reação fisiológica,
    como a salivação,
  93. e a nossa experiência subjetiva
    do prazer e do desejo.
  94. Isso acontece em todos os sistemas
    emocionais e motivacionais que temos,
  95. incluindo o sexo.
  96. A investigação dos últimos 30 anos
  97. descobriu que o fluxo sanguíneo
    genital pode aumentar
  98. em reação a estímulos
    relacionados com o sexo
  99. mesmo que esses estímulos relacionados
    com o sexo não estejam associados
  100. com a experiência subjetiva
    de querer e gostar.
  101. Com efeito, a relação previsível
  102. entre a reação genital
    e a experiência subjetiva
  103. situa-se entre 10 a 50%,
  104. o que é um intervalo enorme.
  105. Não podemos prever necessariamente
  106. como se sente uma pessoa
    quanto a um estímulo relacionado com sexo
  107. apenas por observar
    o seu fluxo sanguíneo genital.
  108. Quando expliquei isto ao meu marido,
    ele deu-me o melhor exemplo possível.
  109. Disse-me:
  110. "Isso explica porque é que, uma vez,
    quando eu andava no liceu,
  111. "tive uma ereção em resposta
    à frase 'buraco do donut".
  112. (Risos)

  113. Seria que ele queria ter sexo
    com o donut?

  114. Não.
  115. Era um adolescente,
    inundado de testosterona,
  116. que torna quase tudo
    relacionado com sexo.
  117. E pode funcionar nas duas direções.
  118. Uma pessoa com um pénis pode ter
    dificuldade em ter uma ereção numa noite
  119. e depois acordar na manhã seguinte
    com uma ereção,
  120. quando isso é embaraçoso.
  121. Recebi um telefonema de uma amiga
    com mais de trinta anos:

  122. "O meu parceiro e eu
    estávamos a meio de fazer umas coisas
  123. "e eu disse-lhe:
    'Quero possuir-te já'.
  124. "Mas ele: 'Não, ainda não estás húmida,
    estás só a ser simpática'.
  125. "Mas eu estava pronta.
  126. "Qual é o problema, é hormonal?
    Devo falar disso a um médico?
  127. "O que se passa?"
  128. Resposta?
  129. É uma não concordância da excitação.
  130. Se sentirem uma dor indesejada,
    falem com um médico.
  131. Caso contrário,
    é uma não concordância de excitação.
  132. O comportamento genital
    não anuncia necessariamente
  133. a vossa experiência subjetiva
    de gostar e de querer.
  134. Outra amiga, na faculdade,
  135. falou-me das suas primeiras experiências
    de "power play" numa relação sexual.
  136. O parceiro tinha-a atado
    com os braços por cima da cabeça
  137. e colocou-a escarranchada sobre uma barra,
  138. pressionando o clitóris, assim.
  139. A minha amiga fica ali,
    o tipo vai-se embora.
  140. É "power play"
  141. Deixa-a sozinha.
  142. A minha amiga fica ali e diz:
  143. "Estou aborrecida".
  144. (Risos)

  145. Depois, o tipo volta e ela diz:
    "Estou aborrecida".

  146. Ele olha para ela
    e olha para a barra e diz:
  147. "Então, porque é que estás húmida?"
  148. Porque é que ela estava húmida?
  149. Fazer pressão diretamente no clitóris
    está relacionado com sexo?
  150. Está.
  151. Isso significa que ela quer ou gosta
    do que está a acontecer?
  152. Não.
  153. O que é que lhe diz se ela quer
    ou gosta do que está a acontecer?
  154. É ela.
  155. Ela reconheceu e articulou
    o que queria e gostava.
  156. Ele só tinha que escutar
    as palavras dela.
  157. A minha amiga ao telefone
    - qual era a solução?
  158. "Tens que dizer ao teu parceiro:
    'Escuta o que eu digo'.
  159. "Também podes comprar
    um lubrificante".
  160. (Risos)

  161. (Aplausos)

  162. Aplausos para o lubrificante,
    obviamente.

  163. (Aplausos)

  164. Para todos, em toda a parte.

  165. Vou contar uma história mais sombria
    do escutar-as-palavras-dela.
  166. Esta vem de uma nota
    que uma estudante me enviou
  167. depois de uma aula
    sobre não concordância da excitação.
  168. Ela estava com um parceiro,
    um parceiro novo, feliz a fazer coisas,
  169. e chegaram a um ponto
  170. muito avançado do que ela
    estava interessada,
  171. por isso, ela disse não.
  172. O parceiro disse: "Não, tu estás húmida
    por isso, estás pronta, não sejas tímida".
  173. Tímida?
  174. Como se não tivesse precisado
    de toda a coragem e confiança que tinha
  175. para dizer não a alguém de quem gostava.
  176. Cujos sentimentos ela não queria magoar.
  177. Mas voltou a dizer.
  178. Disse que não.
  179. Ele ouviu as palavras dela?
  180. Na era do Eu Também e Acabou o Tempo,
    as pessoas perguntam-me:

  181. "Como é que eu sei
    o que o meu parceiro quer e gosta?
  182. "O consentimento agora
    tem que ser verbal?"
  183. Há alturas em que o consentimento
    é ambíguo
  184. e precisamos de uma enorme
    conversa cultural sobre isso.
  185. Mas podemos garantir que percebemos
    como o consentimento é claro
  186. se eliminarmos este mito.
  187. Em todos os exemplos
    que dei até aqui
  188. um parceiro reconheceu e articulou
    o que queria e gostava:
  189. "Quero possuir-te já".
  190. "Não".
  191. E os parceiros disseram
    que elas estavam enganadas.
  192. É um abuso psicológico.
  193. Profundo e degradante.
  194. Dizemos que sentimos
    de determinada forma
  195. mas o nosso corpo mostra
    que sentimos outra coisa.
  196. Isto só acontece com a sexualidade

  197. porque a não concordância da excitação
  198. acontece com todos os nossos sistemas
    emocionais e motivacionais.
  199. Se a minha boca saliva
    quando trinco uma maçã com bicho,
  200. ninguém diz:
  201. "Disseste que não,
    mas o teu corpo disse sim.
  202. (Risos)
  203. Não são só os nossos parceiros
    que percebem mal.

  204. O Programa Nacional de Educação Judicial
    publicou um documento

  205. chamado "Os juízes dizem: O que eu
    gostava de ter sabido antes de presidir
  206. "num processo de uma vítima adulta
    de ataque sexual".
  207. "Número 13.
  208. "Numa ocasião, a vítima, mulher ou homem,
    pode experimentar uma reação física
  209. "mas não ser uma reação sexual
    no sentido de desejo ou reciprocidade".
  210. Isto faz-me avançar mais um passo
    no meio da escuridão
  211. e, depois encontraremos
    o caminho para a luz.
  212. Penso num recente julgamento
    que envolveu múltiplas instâncias
  213. de contacto sexual não consensual.
  214. Imaginem que estão no júri
  215. e informam-vos que a vítima teve orgasmos.
  216. Isso muda a forma como o vosso
    instinto reage ao processo?
  217. Lembrem-se que o orgasmo
    é fisiológico.
  218. É uma libertação de tensão
    espontânea e involuntária.
  219. gerada em resposta a estímulos
    relacionados com o sexo.
  220. Mas o advogado do acusado tratou
    de informar o júri desses orgasmos
  221. porque achava que os orgasmos
    podiam significar consentimento.
  222. Acrescento que foi uma criança
    violentada por um adulto da família.
  223. Recomendo que respirem fundo.
  224. Estas histórias provocam
    todo o tipo de sentimentos numa pessoa

  225. desde a raiva à vergonha
    de uma excitação confusa
  226. porque está relacionada com sexo,
  227. embora seja chocante.
  228. Eu sei que é difícil
  229. ter estes sentimentos
    no meio de estranhos,
  230. mas se encontrarem um caminho
    através desses sentimentos misturados,
  231. creio que encontraremos a saída
    para a luz da compaixão
  232. por aquela criança,
  233. cuja relação com o seu corpo
    foi conspurcada
  234. por um adulto cujo dever
    era protegê-la.
  235. E encontraremos a esperança
    de que um adulto de confiança diga:
  236. "Uma resposta genital só significa
    que foi um estímulo sexual,

  237. "não significa que a criança
    tenha querido ou gostado,
  238. "não significa que tenha consentido".
  239. (Aplausos)

  240. É por essa compaixão e essa esperança
    que eu viajo sem parar

  241. falando sobre estas coisas
    a todos os que queiram ouvir.
  242. Vejo que isso ajuda as pessoas,
    mesmo que eu diga as palavras.
  243. Convido-vos a dizerem as palavras.
  244. Não precisam de dizer "clitóris"
    em frente de mil estranhos.
  245. Mas tenham uma conversa ousada.
  246. Contem isto a todos os que conhecem
    e que sofreram violência sexual
  247. - devem conhecer alguém.
  248. Nos EUA é uma em cada três mulheres,
  249. um em cada seis homens
  250. e quase metade dos transsexuais.
  251. Digam: "Uma reação genital significa
    que é um estímulo sexual,
  252. "não significa que a pessoa
    quisesse ou gostasse".
  253. Digam isso a um juiz que conheçam
    ou a um advogado que conheçam
  254. ou a um polícia ou a quem puder
    sentar-se num júri
  255. num processo de ataque sexual.
  256. Digam: "Há pessoas que pensam
    que o corpo não reage
  257. "se não quisermos ou gostarmos
    do que está a acontecer".
  258. "Como se isso fosse verdade.
  259. "Mas há a não concordância da excitação".
  260. Digam isto ao adolescente confuso
  261. que está a tentar perceber
    o que é o quê?
  262. Digam: "Se morderes este fruto podre
    e a tua boca salivar,
  263. "ninguém vai dizer:
  264. "Não queres reconhecer,
    mas gostas imenso disso".
  265. O mesmo acontece cá em baixo,
    a não concordância da excitação.
  266. Digam-no ao vosso parceiro:
  267. "Os meus genitais não te dizem
    o que eu quero ou que gosto.
  268. "Eu é que digo".
  269. (Aplausos)
  270. As raízes deste mito são profundas

  271. e estão emaranhadas com
    algumas forças sombrias da nossa cultura.

  272. Mas com todas as conversas
    ousadas que tivermos,
  273. tornamos o mundo um pouco melhor,
    um pouco mais simples
  274. para o adolescente confuso.
  275. Um pouco mais fácil para a nossa amiga
    ao telefone, com medo de ser defeituosa.
  276. Um pouco mais fácil e mais seguro
    para os sobreviventes,
  277. para uma em cada três mulheres,
  278. para um em cada seis homens,

  279. para metade dos transsexuais
  280. e para mim também.
  281. Por cada conversa ousada que tiverem,
  282. obrigada.
  283. (Aplausos)
  284. Obrigada.

  285. (Aplausos)
  286. Helen Walters: Emily, chega aqui.

  287. Muito obrigada.

  288. Sei que estás sempre a fazer isto
  289. e, contudo, agradeço-te teres a coragem
  290. de vir falar sobre isto,
    aqui num palco.
  291. É preciso coragem
    e estamos-te muito gratos.
  292. Por isso, obrigada.
  293. Emily Nagoski: Estou agradecida
    por estar aqui.
  294. HW: No teu dia normal de trabalho,

  295. imagino, tal como disseste
    no início da palestra,

  296. que te fazem muitas perguntas.
  297. Mas qual é a pergunta
    que te estão sempre a fazer
  298. e que podes partilhar com todos nós
    para não teres que responder mil vezes
  299. durante o resto da semana?
  300. EN: A pergunta que mais vezes me fazem
  301. é a pergunta subjacente a todas
    as outras perguntas,

  302. ou seja, "podemos ficar viciadas
    no vibrador",
  303. "ajude-me na minha disfunção erétil".
  304. Subjacente a todas as perguntas
    está a pergunta: "Eu sou normal?"
  305. A minha resposta a isso é:
  306. O que é que é normal
  307. e porque é que querem
    que a vossa sexualidade seja normal?
  308. Porque é que só queremos ser normais
    na sexualidade?
  309. Não queremos ser extraordinários?
  310. Ou seja, querem só sexo normal
    ou querem sexo fantástico?
  311. Mas penso que há muito medo
  312. em ser demasiado diferente
    na sexualidade.
  313. Quando as pessoas me perguntam:
  314. "Isto que eu sinto será normal?"
  315. o que me estão a perguntar é:
    "Encaixo-me?"
  316. "Encaixo-me nesta relação?
  317. "Encaixo-me nesta comunidade de pessoas?
  318. "Encaixo-me no planeta,
    enquanto pessoa sexual?"
  319. A todas estas perguntas
    a resposta é um sonoro "sim".
  320. A única barreira que há,
    o único limite que há, são dois:
  321. Um, se sentem dores sexuais
    indesejáveis
  322. falem com um médico.
  323. E dois: Enquanto todos os envolvidos
    sejam livres e se sintam felizes,
  324. e livres para se irem embora
    quando quiserem,
  325. podem fazer tudo o que quiserem.
  326. Não há nenhum guião, não há
    nenhuma caixa onde se encaixarem,
  327. tudo é permitido.
  328. Desde que haja consentimento
    e não haja sofrimento indesejado,
  329. têm toda a liberdade
    de fazer o que quiserem.
  330. HW: Sensacional. Muito obrigada.
  331. EN: Obrigada.

  332. HW: Obrigada, és mesmo incrível.

  333. (Aplausos)