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← A verdade sobre a não concordância da excitação

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Showing Revision 98 created 06/05/2018 by Maricene Crus.

  1. [Esta palestra apresenta conteúdo adulto.
    Recomenda-se critério ao espectador]
  2. Como educadora sexual,
    minha especialidade é trazer a ciência.

  3. Mas meu primeiro e mais importante
    trabalho é permanecer neutra
  4. ao falar sobre qualquer coisa
    relacionada a sexo,
  5. sem constrangimento, provocação,
    julgamento ou vergonha,
  6. não importa onde eu esteja.
  7. Não importa qual pergunta me façam.
  8. Após uma conferência
    num saguão de hotel uma vez,
  9. eu estava a caminho da porta
    e uma colega me parou:
  10. "Emily, eu só tenho
    uma pergunta muito rápida.
  11. Uma amiga minha...
  12. (Risos)

  13. quer saber se é possível
    ficar viciada no vibrador".

  14. A resposta é não,
    mas é possível ficar mimada.
  15. Uma conferência diferente,
    num paraíso tropical ao ar livre,
  16. estava no bufê de café da manhã
    e um casal se aproxima de mim.
  17. "Oi, Emily, lamento interromper você,
  18. mas só queríamos fazer uma pergunta
    rápida sobre a ejaculação precoce".
  19. "Claro, deixem-me falar
    sobre a técnica de parar e recomeçar."
  20. Essa é minha vida.
  21. Fico neutra quando outras pessoas
    podem sentir "repulsa".

  22. Repulsa é uma emoção que combina surpresa
  23. com constrangimento e um pouco de nojo,
  24. e tipo, não saber o que fazer com as mãos.
  25. Então, é um produto.
  26. Sentimos isso porque passamos
    as duas primeiras décadas da vida
  27. aprendendo que o sexo é uma fonte perigosa
    e repugnante de vergonha eterna,
  28. e que se não formos bons nisso,
    ninguém jamais nos amará.
  29. (Risos)

  30. Então, podem sentir repulsa,
    me ouvindo falar sobre sexo

  31. enquanto estão sentados numa sala
    cheia de estranhos; é normal.
  32. Eu convido vocês a respirar.
  33. Sentimentos são túneis.
  34. Fazemos nosso caminho
    pela escuridão até a luz no final.
  35. E prometo que vale a pena.
  36. Quero compartilhar hoje
    um pouco da ciência
  37. que mudou o que eu penso sobre tudo,
  38. do comportamento dos neurotransmissores
    em nosso cérebro emocional,
  39. à dinâmica das relações interpessoais.
  40. Até o nosso sistema judicial.
  41. E começa com o nosso cérebro.
  42. Há uma área do cérebro
    que já devem ter ouvido falar,

  43. o "centro de recompensa".
  44. Acho que chamar de centro de recompensa
    é um pouco como chamar o rosto de nariz.
  45. Ele é uma característica proeminente,
  46. mas ignora algumas outras partes
    e vai deixar vocês realmente confusos
  47. se tentarem entender
    como um rosto funciona.
  48. Na verdade, são três sistemas
    interligados, mas separáveis.
  49. O primeiro sistema é o "gostar".
  50. Que é como a recompensa,
  51. são os pontos opiáceos cruciais
    no cérebro emocional.
  52. Avalia o impacto hedônico:
    "Esse estímulo é bom? Quão bom?
  53. Este estímulo é ruim? Quão ruim?"
  54. Se pingarmos água com açúcar
    na língua de um recém-nascido,
  55. o sistema opioide do "gostar"
    dispara fogos de artifício.
  56. E depois há o sistema "querer".

  57. O querer é mediado
    por uma vasta rede dopaminérgica
  58. dentro e além do cérebro emocional.
  59. Ela nos motiva a nos aproximarmos
    ou afastarmos de um estímulo.
  60. O querer é parecido com seu filhinho
    te seguindo por aí, pedindo um biscoito.
  61. Então, querer e gostar estão relacionados.
  62. Eles não são idênticos.
  63. E o terceiro sistema é "aprender".

  64. Aprender é como os cães de Pavlov.
    Vocês se lembram dele?
  65. Ele fazia cachorros salivarem com um sino.
  66. É fácil, damos comida
    para o cachorro e ele saliva.
  67. E tocamos um sino. Comida, saliva, sino.
  68. Comida, sino, saliva. Sino, saliva.
  69. Essa salivação significa
    que o cachorro quer comer o sino?
  70. Significa que o cachorro
    acha o sino delicioso?
  71. Não.
  72. O que Pavlov fez foi
    relacionar o sino à comida.
  73. Quando vemos essa separação
    de querer, gostar e aprender,
  74. é aí que encontramos um quadro explicativo
  75. para entender o que os pesquisadores
    chamam de não concordância da excitação.
  76. Não concordância, simplesmente,

  77. é quando há uma falta de relação preditiva
  78. entre a resposta fisiológica,
    como a salivação,
  79. e a experiência subjetiva
    de prazer e desejo.
  80. Isso acontece em todo sistema
    emocional e motivacional que temos,
  81. incluindo sexo.
  82. Pesquisas nos últimos 30 anos descobriram
  83. que o fluxo sanguíneo
    genital pode aumentar
  84. em resposta a estímulos
    relacionados ao sexo,
  85. mesmo que esses estímulos
    também não estejam associados
  86. com a experiência subjetiva
    de querer e gostar.
  87. Na verdade, a relação preditiva
  88. entre resposta genital
    e experiência subjetiva
  89. está entre 10 e 50%.
  90. O que é uma gama enorme.
  91. Você não pode estimar necessariamente
  92. como uma pessoa se sente sobre
    esse estímulo relacionado ao sexo
  93. apenas vendo o fluxo sanguíneo genital.
  94. Quando expliquei isso ao meu marido,
    ele me deu o melhor exemplo.
  95. Foi assim: "Isso poderia explicar uma vez,
    quando estava no ensino médio, eu...
  96. tive uma ereção em resposta
    à frase "buraco da rosquinha".
  97. (Risos)

  98. Ele queria fazer sexo com a rosquinha?

  99. Não.
  100. Era um adolescente cheio de testosterona,
  101. o que faz tudo parecer relacionado a sexo.
  102. E pode ir em ambas as direções.
  103. Alguém com um pênis pode ter dificuldade
    em conseguir uma ereção uma noite,
  104. e depois acordar na manhã
    seguinte com uma ereção,
  105. quando não é nada além de um incômodo.
  106. Recebi um telefonema de uma amiga
    de uns 30 anos, ela disse:

  107. "Meu parceiro e eu estávamos fazendo
    algumas coisas e eu falava:
  108. 'quero você agora'.
  109. E ele disse: 'Não, você ainda está seca,
    você está apenas sendo legal'.
  110. E eu estava pronta.
  111. Qual é o problema, é hormonal,
    falo com um médico, o que acontece?"
  112. A resposta?
  113. Não concordância da excitação. Se estiver
    com dor indesejada, fale com um médico.
  114. Senão: não concordância da excitação.
  115. O comportamento genital
    não prevê necessariamente
  116. a experiência subjetiva
    de gostar e querer.
  117. Outra amiga, na faculdade,
  118. me contou as primeiras experiências
    de dominação sexual.
  119. Ela me disse que o parceiro a amarrou
  120. com os braços sobre a cabeça,
    ela de pé e ele a posiciona,
  121. ela estava encaixada numa barra,
    pressionando o clitóris dela, assim.
  122. Então, minha amiga está
    ali parada e o cara sai.
  123. É uma dominação, deixá-la sozinha.
  124. Então, minha amiga está lá e pensa:
  125. "Estou entediada."
  126. (Risos)

  127. O cara volta e ela diz: "Estou entediada".

  128. E ele olha para ela e para a barra
    e diz: "Então por que você está molhada?"
  129. Por que estava molhada?
  130. É relacionado ao sexo ter pressão
    diretamente contra o clitóris?
  131. Sim.
  132. Isso diz a ele se ela quer
    ou gosta do que está acontecendo?
  133. Não.
  134. O que diz a ele se ela quer
    ou gosta do que está acontecendo?
  135. Ela diz!
  136. Ela reconheceu e articulou
    o que queria e gostava.
  137. Tudo o que ele tinha que fazer
    era escutar as palavras dela.
  138. Minha amiga no telefone: qual é a solução?
  139. Você diz ao parceiro:
    "Escute as suas palavras".
  140. Também compre lubrificante.
  141. (Risos)

  142. (Aplausos)

  143. Aplausos pro lubrificante, sem dúvida.

  144. (Aplausos)

  145. Todos, em todo lugar.

  146. Quero contar uma história sombria
    sobre "escutar as palavras dela".
  147. Esta vem de um bilhete
    que uma estudante me enviou
  148. numa palestra sobre a não
    concordância da excitação.
  149. Ela estava com um novo parceiro,
    feliz por estar fazendo coisas,
  150. estava em um ponto
    tão longe quanto queria ir
  151. e, então, ela disse não.
  152. E o parceiro disse: "Você está molhada,
    você está tão pronta, não seja tímida".
  153. Tímida?
  154. Como se já não tivesse custado
    toda a coragem e confiança que tinha
  155. dizer não a alguém de quem ela gostava.
  156. Cujos sentimentos ela não queria ferir.
  157. Mas ela disse de novo.
  158. Ela disse não.
  159. Ele escutou as palavras dela?
  160. Na época do "eu também" e
    "o tempo acabou", as pessoas me perguntam:

  161. "Como sei o que meu parceiro quer e gosta?
  162. Todo o consentimento
    é verbal e contratual agora?"
  163. Às vezes, o consentimento é ambíguo
  164. e precisamos de uma conversa cultural
    em larga escala sobre isso.
  165. Mas podemos ter certeza de que estamos
    percebendo como o consentimento é claro
  166. se eliminarmos esse mito?
  167. Em todos os exemplos que descrevi aqui,
  168. a parceira reconheceu e articulou
    o que queria e gostava:
  169. "Eu quero você agora".
  170. "Não."
  171. E o parceiro delas disse
    que estavam erradas.
  172. É um abuso psicológico.
  173. Profundo e degradante.
  174. Você diz que se sente de um jeito,
    mas seu corpo prova que se sente de outro.
  175. E só fazemos isso em torno da sexualidade,
    porque a não concordância da excitação

  176. acontece em todo sistema emocional
    e motivacional que temos.
  177. Se minha boca salivar
    ao morder uma maçã bichada,
  178. alguém vai me dizer:
  179. "Você disse não, mas seu corpo disse sim"?
  180. (Risos)

  181. E não são só nossos parceiros que erram.

  182. O Programa Nacional de Educação Judiciária
    publicou um documento
  183. chamado: "Juízes contam: o que eu
    gostaria de saber antes de presidir
  184. um caso de uma vítima
    adulta de agressão sexual".
  185. Número 13:
  186. "A vítima, feminina ou masculina,
    pode experimentar uma resposta física,
  187. mas isso não é uma resposta sexual
    no sentido de desejo ou reciprocidade".
  188. Isso me leva um passo
    mais perto da escuridão,
  189. depois prometo que acharemos
    o caminho pra luz.
  190. Me lembro de um caso judicial
    envolvendo várias instâncias
  191. de contato sexual não consensual.
  192. Imaginem que vocês estão no júri
  193. e ouvem que a vítima teve orgasmos.
  194. Isso altera sua intuição sobre o caso?
  195. Deixem-me lembrá-los,
    o orgasmo é fisiológico;
  196. é uma liberação de tensão
    espontânea e involuntária,
  197. gerada em resposta a estímulos
    relacionados ao sexo.
  198. Mas o advogado do agressor garantiu
    que o júri soubesse desses orgasmos
  199. porque achou que os orgasmos podiam
    ser interpretados como consentimento.
  200. Acrescento que se tratava de uma criança
    sendo abusada por um adulto da família.
  201. Eu convido vocês a respirarem.

  202. Esse tipo de história pode
    despertar vários sentimentos,
  203. de raiva, vergonha, ou excitação confusa
  204. porque é relacionado ao sexo,
  205. mesmo que seja terrível.
  206. Mas, mesmo sabendo que é difícil
    ter esses sentimentos entre estranhos,
  207. se pudermos encontrar um caminho
    através de todos os sentimentos confusos,
  208. acredito que encontraremos
    nosso caminho para a luz da compaixão
  209. por aquela criança,
  210. cuja relação com o próprio
    corpo foi estragada
  211. por um adulto que devia protegê-la.
  212. E nós vamos encontrar esperança
    de que havia um adulto confiável
  213. que poderia dizer: resposta genital
  214. significa que foi um estímulo relacionado
    ao sexo; não desejado ou apreciado,
  215. certamente não significa
    que foi consentido.
  216. (Aplausos)

  217. Essa compaixão e esperança são
    a razão de eu viajar por toda parte,

  218. falando sobre isso para quem quiser ouvir.
  219. Posso ver isso ajudando as pessoas,
    mesmo quando eu digo as palavras.
  220. Eu convido vocês a dizer as palavras.
  221. Você não precisa dizer "clitóris"
    na frente de mil estranhos.
  222. Mas tenham uma conversa corajosa.
  223. Digam isso para um conhecido
    que sofreu violência sexual;
  224. certamente conhecem alguém.
  225. Nos EUA, é uma em cada três mulheres.
  226. Um em cada seis homens.
  227. Quase metade dos transgêneros.
  228. Digam: "A resposta genital é
    um estímulo relacionado ao sexo.
  229. Não significa desejado ou apreciado".
  230. Digam a um juiz ou advogado que conheçam,
  231. um policial ou qualquer pessoa que possa
    estar no júri num caso de agressão sexual.
  232. Digam: "Algumas pessoas pensam
    que o corpo não responde
  233. se você não quer ou gosta
    do que está acontecendo;
  234. se isso fosse verdade..."
  235. Mas há a não concordância da excitação.
  236. Digam isso para o adolescente
    confuso em sua vida,
  237. que está apenas tentando
    descobrir as coisas.
  238. Digam: se você mordesse
    uma fruta mofada e salivar,
  239. ninguém diria a você:
  240. "Bem, você simplesmente não quer
    admitir o quanto você gosta".
  241. O mesmo vale lá para baixo,
    não concordância da excitação.
  242. Digam isso ao seu parceiro.
  243. Meus genitais não dizem
    o que eu quero ou gosto.
  244. Eu digo.
  245. (Aplausos)

  246. As raízes desse mito são profundas

  247. e estão emaranhadas com algumas
    forças muito obscuras em nossa cultura.
  248. Mas a cada conversa corajosa que temos,
  249. fazemos o mundo um pouquinho melhor,
    um pouco mais simples
  250. para o adolescente confuso.
  251. Mais fácil para a amiga no telefone,
    preocupada se ela está "quebrada".
  252. Um pouco mais fácil e seguro
  253. para os sobreviventes,
    uma em cada três mulheres.
  254. Um em cada seis homens.
  255. Metade dos transgêneros.
  256. Eu também.
  257. Então, para cada conversa
    corajosa que tiverem,
  258. obrigada.
  259. (Aplausos)

  260. Obrigada.

  261. Obrigada.
  262. (Aplausos)

  263. Helen Walters: Emily, venha aqui.

  264. Muito obrigada.
  265. Eu sei que você faz isso o tempo todo,
  266. e, ainda assim, sou muito grata
    a você por ter a coragem
  267. de vir e falar sobre isso nesse palco.
  268. Realmente valeu muito
    e estamos muito gratos.
  269. Então, obrigada.
  270. Emily Nagoski: Estou grata por estar aqui.

  271. HW: No seu trabalho normal,

  272. como você falou no início da palestra,
    muitas perguntas lhe são feitas.
  273. Mas qual é a única pergunta
    que lhe fazem o tempo todo
  274. que você pode compartilhar com todos aqui,
    para não precisar responder mil vezes
  275. durante o resto da semana?
  276. PT: A pergunta que mais me fazem

  277. é na verdade a questão subjacente
    a praticamente todas as outras questões:
  278. você pode ficar viciado em seu vibrador,
    me ajude com minha disfunção erétil?
  279. Por trás de toda pergunta está realmente
    a pergunta: "Eu sou normal?"
  280. Para o que minha resposta é:
  281. o que é normal e por que quer
    isso para sua sexualidade?
  282. Por que só queremos
    ser normais na sexualidade?
  283. Não queremos ser extraordinários?
  284. Tipo, você só quer sexo normal
    ou quer sexo incrível na vida?
  285. Eu acho que há muito medo
  286. em torno de ser diferente sexualmente.
  287. Quando as pessoas me perguntam:
    "O que estou fazendo é normal?",
  288. o que elas estão realmente
    me perguntando é: "Eu me encaixo?"
  289. Eu me encaixo neste relacionamento,
  290. eu me encaixo nesta comunidade de pessoas,
  291. eu me encaixo na Terra
    como uma pessoa sexual?
  292. Para o que a resposta
    é sempre um retumbante sim.
  293. As únicas barreiras ou limites são:
  294. um, se sentir dor sexual indesejada,
  295. fale com um médico.
  296. E, dois: enquanto os envolvidos
    estiverem livres e felizes por estarem lá,
  297. e livres para sairem quando quiserem,
  298. você tem permissão para fazer
    qualquer coisa que quiser.
  299. Não há roteiro ou uma caixa
    em que tenha que se ajustar,
  300. você está autorizado, desde que haja
    consentimento e sem dor indesejada,
  301. você é totalmente livre
    para fazer o que quiser.
  302. HW: Fantástico. Muito obrigada.
    EN: Obrigada.

  303. HW: Obrigada, você é incrível.

  304. (Aplausos)