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← Como salvamos o condor da extinção | Michael Mace | TEDxDeExtinction

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Showing Revision 27 created 08/31/2020 by Maricene Crus.

  1. O condor-da-califórnia
    foi levado à beira da extinção
  2. quando só existiam
    22 condores restantes no mundo.
  3. Imaginem só!
  4. Vinte e dois!
  5. Isso foi devido a pressões
    resultantes de atividades humanas.
  6. O condor remonta ao Pleistoceno.

  7. Alguns dos animais hoje mencionados
    viveram nessa época:
  8. a preguiça-gigante,
  9. o mastodonte americano,
  10. o gato dentes-de-sabre.
  11. O condor vivia entre esse animais.
  12. Conseguem imaginar?
  13. Mas ele foi o único, dentre eles,
    a sobreviver até nossos dias.
  14. Após 10 mil anos,
  15. os registros fósseis mostram
    que foi no estado de Nova York
  16. e no norte da Flórida.
  17. E à medida que os colonizadores
    europeus avançaram pelo país,
  18. seu último refúgio foi a região
    de Vancouver ao noroeste do México.
  19. O condor é único.
  20. É a maior ave voadora da América do Norte
  21. com uma envergadura de quase 3 metros,
    60 centímetros a mais que isto.
  22. Ele vive mais que 60 anos.
  23. Por ser uma espécie estrategista K,
    ele tem uma taxa de reprodução baixa.
  24. E amadurece sexualmente
    quando tem em torno de cinco a seis anos.
  25. Após esses 10 mil anos,

  26. em 1987, houve uma grande discussão.
  27. O número de condores
    estava decaindo tão rapidamente
  28. que se temia que chegassem a ser extintos.
  29. A causa eram os poluentes na natureza,
    como chumbo e DDT,
  30. e eletrocussões e colisões
    com fios elétricos e postes de energia.
  31. Por um lado, um grupo de pessoas dizia:
  32. "Vamos deixar a espécie
    morrer com dignidade".
  33. Por outro lado,
  34. outro grupo dizia que esta não era
    uma extinção natural,
  35. e tínhamos a responsabilidade de intervir.
  36. Então após ações judiciais e debates,
    o órgão federal de conservação ambiental

  37. tomou a medida corajosa
    de proteger o condor
  38. enquanto alguns desses
    problemas se resolviam,
  39. abrigando as aves remanescentes
    nos zoológicos de San Diego e Los Angeles.
  40. Após 10 mil anos,
    o condor estava extinto na natureza.
  41. Imaginem então a responsabilidade
    que esses dois zoológicos tiveram
  42. em cuidar dessas aves
  43. e garantir que não entrassem em extinção.
  44. Nós tivemos que recorrer
    a uma variedade de recursos.
  45. Tivemos que usar aquilo que chamo
    de "Inovação em Conservação",
  46. literalmente escrevendo o livro
    enquanto tentávamos salvar a espécie.
  47. Tivemos que recorrer à nossa experiência
    de trabalho com espécies relacionadas
  48. como o condor-dos-andes
    e outras espécies de aves.
  49. Mas tivemos que rapidamente reunir
    uma variedade de recursos e conhecimentos.
  50. Tivemos que projetar e construir
    centros de criação como este do zoológico.
  51. É uma série de viveiros de aves
    ligados com ninhos.
  52. Alguns disseram que não conseguiríamos
    criar essa espécie num zoológico.
  53. Nosso único objetivo sempre foi
    soltar essa ave de volta à natureza.
  54. Então tivemos que tomar algumas medidas
    enquanto avançávamos nessa direção.

  55. Tivemos até que colocar nas instalações,
    como podem ver no slide,
  56. arame de concertina
    em cima da cerca de perímetro.
  57. Isso porque a discussão a respeito
    dos condores chegou a tal ponto
  58. que algumas pessoas
    ameaçavam invadir o espaço
  59. e soltar os condores de volta ao perigo.
  60. Lembro que eu mesmo
    passei algumas noites no zoológico,
  61. para garantir que isso não acontecesse.
  62. Nós tivemos que empregar técnicas
    como a ninhada dupla.

  63. Na natureza, o condor
    cria um filhote a cada dois anos.
  64. Mas usando essa técnica da ninhada dupla,
  65. nós removemos o primeiro ovo
  66. e o colocamos em segurança
    numa incubadeira
  67. e então ele foi chocado.
  68. Isso permitiu aos pais criarem
    o que chamamos de ovo substituto.
  69. Nesse mesmo período de dois anos,
  70. conseguimos produzir quatro filhotes
    em vez de um só.
  71. E estávamos interessados no processo
    de reconhecimento deles.

  72. Como eu disse, o objetivo
    era devolvê-los à natureza.
  73. E por isso desenvolvemos fantoches.
  74. E bem ao lado desse fantoche
    está um dos nossos funcionários,
  75. fazendo o impossível
    para alimentar e cuidar desse filhote.
  76. Esse fantoche se tornou a sua salvação:
  77. ele alimentou o filhote,
    socializou e brincou com ele.
  78. Em dado momento da vida desse filhote,
    ele é colocado numa área
  79. onde ele pode olhar por um portal
    e ver outros condores,
  80. e assim começar a entender como vai ser.
  81. Esse processo leva seis meses
    a partir do momento em que o ovo é chocado
  82. até o filhote emplumar.
  83. E às vezes quando não estão
    emplumando com os pais,
  84. eles emplumam com mentores.
  85. O objetivo é restabelecer
    a espécie na natureza.
  86. Nos laboratórios do Centro de Pesquisa
    de Conservação no zoológico de San Diego

  87. não podíamos deixar de abordar
    as questões genéticas.
  88. Quando a população era de apenas 22 aves,
    cada uma foi mapeada geneticamente,
  89. para que soubéssemos
    o parentesco entre elas.
  90. Isso é primordial quando se lida
    com uma população tão pequena
  91. devido aos efeitos do cruzamento
    endogâmico com outras espécies.
  92. Assim que conseguimos os identificadores,
  93. inserimos os dados
    nos modelos informatizados.
  94. A partir daí, os pais foram estabelecidos.
  95. Felizmente, condores são fáceis
    de lidar em relação a isso.
  96. Quando colocamos só dois condores juntos,
    considerando dados e não comportamento,
  97. na maioria das vezes eles reproduziam.
  98. Isso era crucial.
  99. E nesses mesmos laboratórios,
  100. pela primeira vez,
  101. foi desenvolvida uma técnica
    para saber o sexo das aves
  102. por meio do DNA,
  103. a partir de membranas
    deixadas nos ovos chocados.
  104. Foi muito importante para nós também,
  105. à medida que começávamos a estabelecer
    novos casais reprodutores.
  106. Conseguimos classificá-los
    na idade adequada,
  107. do contrário teríamos
    que esperar cinco ou seis anos
  108. até a maturidade sexual deles
    para sabermos o sexo de cada um.
  109. Ao administrar a população geneticamente,
    nós tivemos que garantir
  110. que, ao estabelecer
    novos centros de criação,
  111. e começarmos a liberar aves
    em vários locais de soltura
  112. na Califórnia, Arizona
    e noroeste do México,
  113. queríamos replicar os genes,
    caso houvesse qualquer catástrofe
  114. como um incêndio ou surto de doença,
    protegendo as linhas genéticas.
  115. Alguns dos fatores conhecidos que causam
    a morte e diminuição de condores,

  116. são a colisão com fios de alta tensão
    e o pouso em estruturas elétricas.
  117. Talvez perguntem: "Muitas aves
    pousam em estruturas elétricas?"
  118. Com uma envergadura de quase três metros,
    eles encostariam em fios e transformadores
  119. e seriam eletrocutados.
  120. Trabalhamos com uma empresa local
    para instalar postes elétricos falsos,
  121. nos quais os fios liberariam
    uma baixa carga elétrica.
  122. O condor é uma espécie
    muito inteligente e curiosa.
  123. Inteligente o bastante para saber
    que, após terem pousado num poste
  124. e levado choque uma ou duas vezes,
    eles não vão querer mais fazer isso.
  125. Essa mudança de comportamento correspondeu
    exatamente ao que aconteceu no campo.
  126. Quando soltamos condores
    de volta à natureza,
  127. eles pararam de pousar
    em áreas perigosas para eles.
  128. Contudo, eles ainda se chocavam
    em alguns fios elétricos.
  129. Quando um condor evolui
    e o meio de vida dele é voar em térmicas,
  130. ele não precisa olhar pra frente
    estando a 300 metros do chão.
  131. E quando ele sobe ao topo
    de uma montanha voando numa térmica
  132. e se depara com fios de alta tensão,
    isso provoca essas colisões.
  133. Quando as empresas de energia
    se deram conta disso,
  134. começaram a enterrar os fios
    dessas regiões chave.
  135. Em um projeto como este,
    que está ativo há 30 anos,
  136. alguns desses fatores
    podem ser previstos, outros não.
  137. Ninguém poderia ter previsto

  138. que o vírus do Nilo Ocidental chegaria
    nos Estados Unidos em 1999,
  139. e rapidamente varreria o país,
  140. levando consigo vidas humanas,
    bem como muitas espécies de aves.
  141. E os condores não ficaram imunes a isso.
  142. Perdemos condores para esse vírus.
  143. Mas o Centro de Controle de Doenças
    desenvolveu uma vacina usada por nós
  144. que nos obrigou a vacinar
    todos os condores da população.
  145. Fácil de falar, porém mais difícil fazer
  146. quando se tem aves tanto na natureza
    quanto nos centros de criação.
  147. E após serem vacinados, devem receber
    uma dose de reforço ao ano.
  148. Uma estratégia monumental de se fazer
    apenas para proteger a população.
  149. Nós também descobrimos

  150. que o ambiente em que soltávamos
    os condores estava bastante sujo.
  151. E nós tínhamos subestimado isso.
  152. Isto é o que chamamos de microlixo,
  153. itens que as pessoas deixam para trás
    quando estão curtindo a natureza.
  154. São tampas de garrafa, cacos de vidro,
    objetos plásticos e aparelhos elétricos.
  155. E vocês podem ver nessa radiografia
    esse microlixo no corpo de um condor.
  156. Para removê-lo é necessário cirurgia.
  157. Condores adultos ingerem esse microlixo.
  158. Não temos certeza do porquê,
    mas teoriza-se que condores,
  159. durante certas épocas,
  160. ingerem fragmentos de osso, pelo cálcio,
  161. em especial quando as fêmeas
    se preparam para botar um ovo.
  162. Esse comportamento deu lugar
    à ingestão desses fragmentos,
  163. que eles acham que são de ossos,
    mas que na verdade é microlixo.
  164. O condor ocupa
    um importante nicho ecológico.
  165. Trata-se de uma espécie necrófaga.
  166. Isso é importante porque
    eles limpam o ambiente
  167. quando um animal morre.
  168. Eles se alimentam das carcaças.
  169. Essas carcaças apresentam toxinas
    tais como botulismo e antraz,
  170. que são prejudiciais ao humanos
    e certamente a outras espécies selvagens.
  171. O condor é imune a esses tipos de toxina,
    portanto, acabam fazendo uma limpeza.
  172. Mas com relação a esse comportamento,
  173. eles não fazem distinções
    quando se alimentam de uma carcaça.
  174. Ingerem tecidos, órgãos,
    e fragmentos de osso.
  175. E às vezes ingerem
    o chumbo da caça esportiva.

  176. Sabemos que caçadores existem
    desde o início da humanidade.
  177. E essa comunidade gera US$ 8 bilhões
    ao ano para conservação.
  178. E é importante que programas
    como esse sejam sustentáveis.
  179. Mas o chumbo que os condores
    ingerem é tóxico para eles,
  180. assim como para outras formas de vida.
  181. Esta é uma radiografia de um fragmento
    de chumbo retirado de dentro de um condor.
  182. Devo dizer que alguns
    dos nossos maiores conservacionistas,
  183. como John Audubon e Theodore Roosevelt,
  184. eram ávidos caçadores, mas também
    eram conservacionistas dedicados.
  185. Então não é uma questão de caça esportiva,
    mas sim de toxinas num ambiente.
  186. E uma delas é o chumbo.
  187. Já tivemos chumbo
    em outros produtos, como tintas.
  188. E descobrimos que crianças
    colocando seus brinquedos na boca,
  189. ou mordendo o berço
    estavam ingerindo chumbo da pintura.
  190. Ele foi removido da tinta e da gasolina.
  191. O chumbo foi removido até de cartuchos
    de espingarda e substituído por aço
  192. por causar problemas a aves aquáticas.
  193. Podemos fazer ajustes
    em projetos como este
  194. na medida em que isso afeta
    a vida selvagem e seres humanos.
  195. Nós também temos que prever
    qual poderá ser o próximo desafio.

  196. E a vinda de turbinas eólicas
    aos Estados Unidos
  197. é uma boa iniciativa ecológica pra reduzir
    nosso consumo de combustíveis fósseis.
  198. E a energia eólica é uma das alternativas.
  199. E até agora, nenhum condor jamais
    se chocou com uma turbina,
  200. mas elas já afetaram outras aves
    de rapina, como águias e gaviões.
  201. E por isso estamos trabalhando
    com empresas de energia eólica,
  202. para desenvolver técnicas
    que reduzam o perigo.
  203. Podemos fazer isso observando condores
    e como eles utilizam seu habitat
  204. por meio da ecologia espacial,
  205. não apenas observando como voam
    para norte, sul, leste e oeste,
  206. mas também como voam
    na terceira dimensão, em altitude.
  207. Então trabalhamos com empresas para ver
    se estão dispostas a ajustar o campo
  208. com base na atividade de um condor,
    e entender a preferência de habitat deles.
  209. Isso é parte da pesquisa no momento.
  210. Também estamos trabalhando
    com empresas de energia
  211. na área de sistemas de detecção precoce.
  212. Condores equipados com dispositivos
    que enviam um sinal
  213. à medida que seguem em direção
    a um campo com turbinas,
  214. já instalada ou em planejamento.
  215. Isso permitiria às empresas de energia
  216. desligar essas turbinas quando os condores
    estivessem voando na área.
  217. Num projeto como este,
    é imprescindível a colaboração
  218. de tantas pessoas
    e organizações diferentes.
  219. Nenhuma entidade pode fazer
    tudo isso sozinha,
  220. mas coletivamente, como vimos, é possível.
  221. Então onde estamos hoje?

  222. Nós começamos com 22 condores
    restantes no mundo.
  223. Agora temos mais de 400,
  224. dos quais mais da metade
    estão voando livremente
  225. nos céus da Califórnia,
    Arizona e noroeste do México.
  226. O projeto completou seu ciclo.
  227. Como podem ver, há um ovo
    no habitat natural prestes a chocar.
  228. O ponto preto no ovo é a casca quebrada,
  229. pois um filhote está prestes a nascer.
  230. E a foto no canto inferior direito mostra
    um filhote chocado no habitat natural.
  231. Aves que cresceram em zoológicos
    e centros de criação e foram soltas
  232. estão agora cumprindo o ciclo de vida
    por si mesmas na natureza.
  233. As pessoas sempre me perguntam: "Por quê?"

  234. E ouvimos isso hoje:
  235. "Por que gastar tantos recursos
    e tanta energia para salvar uma espécie?"
  236. Se pensarem nessas espécies: o condor,
    o urso panda, o elefante e o tigre,
  237. compartilhamos os mesmos ambientes
    ao redor do planeta.
  238. Vivemos nos mesmos lugares que eles.
  239. Se os virmos como indicadores ambientais,
  240. eles nos mostram que o ambiente
    que compartilhamos está saudável.
  241. Só precisamos ver o que estão mostrando.
  242. Nós podemos gerar mudança.
  243. Já vimos isso acontecer.
  244. Podemos gerar mudança ao redor do mundo.
  245. Apenas não devemos nos esquecer
    de dar continuidade a essas iniciativas
  246. porque tudo isso é possível.
  247. Obrigado.
  248. (Aplausos)