Portuguese subtitles

← O perigo chocante da mineração a céu aberto — e porque é que tem de acabar

Get Embed Code
18 Languages

Showing Revision 4 created 12/02/2018 by Margarida Ferreira.

  1. Digamos que queriam
    realizar uma experiência.
  2. Nesta experiência,
  3. escolhem pessoas, ao acaso,
    para viverem em zonas de explosões
  4. ou em locais controlados, sem explosivos
    a passar por cima da cabeça.
  5. Vivem em comunidade, durante anos,
  6. a favor do vento e a jusante do rio
  7. perto de locais onde há toneladas
    de explosivos a rebentar diariamente.
  8. e milhões de litros de água contaminados.
  9. Com esta escolha aleatória,
    poderiam estudar cuidadosamente
  10. os efeitos a longo prazo sobre a saúde
    de viver nestas comunidades com explosões,
  11. sem uma série de fatores irritantes
    que confundem e alteram.
  12. A atribuição ao acaso faz maravilhas.
  13. Seria um estudo científico
    rigoroso e poderoso

  14. sobre os efeitos da exposição
    a estes ambientes.
  15. Claro que um estudo destes
    nunca poderia ser feito.
  16. A maioria dos cientistas
    não teria estômago para isso.
  17. O conselho institucional opor-se-ia,
  18. nunca aprovaria a utilização
    de sujeitos humanos,
  19. porque não seria ético,
    seria imoral.
  20. Contudo, isso está a acontecer,
    neste momento.
  21. Para mim, isso suscita algumas perguntas.
  22. Qual é a obrigação ética
  23. dos cientistas que acreditam
    que as populações estão em perigo?
  24. Quantas provas serão precisas
  25. para termos a certeza
    das nossas conclusões?
  26. Onde está a linha
    entre a certeza científica
  27. e a necessidade de agir?
  28. A experiência não planeada
    que ocorre neste momento

  29. chama-se mineração a céu aberto.
  30. A abreviatura, em inglês, é MTR.
  31. É um tipo de exploração
    de minas de carvão a céu aberto
  32. que ocorre nos Montes Apalaches,
    aqui nos EUA.
  33. Este tipo de exploração
    ocorre em quatro estados:
  34. Virgínia, Virgínia Ocidental,
    Kentucky e Tennessee.
  35. Cerca de 500 000 hectares
    já foram explorados deste modo.
  36. É uma área com o tamanho de Delaware
  37. mas espalha-se por uma superfície
  38. tão grande como Vermont
    e New Hampshire, em conjunto.
  39. Neste processo, são arrasadas
    antigas florestas dos Apalaches,
  40. local de parte da mais rica
    biodiversidade do planeta.
  41. As árvores são queimadas
    ou atiradas para os vales adjacentes.
  42. Depois, para atingir os veios
    do carvão enterrados,
  43. usam-se explosivos para remover
    mais de 250 m da altura da montanha.
  44. Mais de 1500 toneladas de explosivos
  45. são usados para exploração do carvão,
    apenas na Virgínia Ocidental,
  46. todos os dias.
  47. Os detritos de rochas e de solo
    são atirados para os vales

  48. onde enterram para sempre
    os cursos de água.
  49. Até agora, já foram destruídos
    os cumes de mais de 500 montanhas.
  50. Mais de 3000 km de cursos de água
    estão enterrados para sempre.
  51. A água que surge da base do vale
    está profundamente contaminada
  52. e vai manter-se contaminada
    durante décadas.
  53. Depois, o carvão tem de ser
    tratado quimicamente,
  54. esmagado e lavado
    antes de ser transportado
  55. para as centrais de energia e queimado.
  56. Este processo realiza-se no local.
  57. O processo produz mais poluição do ar
  58. e contamina milhares de milhões
    de litros de água com metais,
  59. sulfatos, químicos de limpeza,
    e outras impurezas.
  60. Tudo isto para produzir 3%
    da eletricidade dos EUA
  61. — só 3% da eletricidade dos EUA.
  62. Como podem apreciar, isso suscita
    todo o tipo de outras questões.

  63. Quais os impactos para a saúde
    desta extração mineira a céu aberto?
  64. Há mais de um milhão de pessoas
    que vivem perto destas minas
  65. e outros milhões a jusante do rio
    e a favor do vento.
  66. O que fizeram a indústria e do governo
  67. quando estes problemas foram documentados?
  68. E, de novo, qual é a obrigação
    ética da ciência
  69. quando confrontada
    com esta situação preocupante?
  70. Comecei a investigar
    este problema em 2006.

  71. Aceitei trabalho na Universidade
    de Virgínia Ocidental.
  72. Antes disso, nunca tinha feito
    investigação relacionada com o carvão.
  73. Mas comecei a ouvir histórias
  74. de pessoas que viviam
    nestas comunidades mineiras.
  75. Diziam que a água que bebiam
    não era pura,
  76. que o ar que respiravam
    estava poluído.
  77. Queriam falar-me das suas doenças
  78. ou das doenças das suas famílias.
  79. Estavam preocupadas com a incidência
    do cancro nos seus bairros.
  80. Encontrei-me com muitas pessoas
  81. na Virgínia Ocidental
    e no Kentucky oriental,
  82. ouvindo essas histórias
    e as suas preocupações.
  83. Pesquisei a literatura científica
  84. e fiquei surpreendido ao saber
    que não havia nada publicado
  85. sobre os efeitos para a saúde pública
    da mineração do carvão nos EUA.
  86. Vou repetir:
  87. Não havia nada publicado
  88. sobre os efeitos para a saúde pública
    da mineração do carvão nos EUA.
  89. Pensei: "Eu posso contribuir,

  90. "seja o que for que encontrar,
  91. "para confirmar estas preocupações
    ou para as atenuar".
  92. Não tinha um programa pessoal
    nem organizacional.
  93. Muitos dos meus colegas,
    inicialmente, tinham dúvidas
  94. quanto a haver qualquer ligação
    entre a saúde pública e a mineração.
  95. Achavam que os problemas de saúde
    podiam ser explicados pela pobreza,
  96. ou por questões do estilo de vida,
    como o tabaco ou a obesidade.
  97. Quando comecei, pensava
    que eles talvez tivessem razão.
  98. Começámos por analisar
    as bases de dados existentes
  99. que nos permitiram ligar
    a saúde da população à atividade mineira
  100. tendo em conta a idade, o sexo,
    a etnia, a obesidade, a pobreza,
  101. a escolaridade, o seguro de saúde
    e outras coisas que podíamos medir.
  102. Encontrámos provas que confirmavam
    as preocupações dos residentes
  103. e começámos a publicar
    as nossas conclusões.
  104. Resumindo,

  105. descobrimos que as pessoas que vivem
    onde ocorre a exploração a céu aberto
  106. têm níveis significativamente mais altos
    de doenças cardiovasculares,
  107. doenças renais e doenças pulmonares
    crónicas, como a DPOC.
  108. As taxas de morte por cancro
    são significativamente elevadas,
  109. em especial, o cancro do pulmão.
  110. Encontrámos provas de taxas
    mais altas de defeitos à nascença
  111. e de bebés nascidos com baixo peso.
  112. A diferença na mortalidade total
    situa-se em cerca de 1200 mortes a mais
  113. todos os anos nas regiões mineiras,
    tendo em conta outros riscos.
  114. Mil e duzentas mortes a mais por ano.
  115. A taxa de mortalidade é mais alta
  116. e aumenta quando
    a exploração mineira aumenta
  117. numa relação dose-efeito.
  118. A seguir, realizámos inquéritos
    sobre saúde, porta a porta.
  119. Inquirimos pessoas que viviam
    a poucos quilómetros dessas minas,
  120. comparando com comunidades rurais
    semelhantes, sem exploração mineira.
  121. Os resultados mostraram níveis mais altos
    de doenças pessoais e familiares,
  122. piores estados de saúde
  123. e sintomas de doença mais comuns
    de um espetro mais amplo.
  124. Esses estudos são apenas de associação.

  125. Todos sabemos que a correlação
    não implica causa e efeito.
  126. Estes estudos não incluíam dados
  127. sobre as condições ambientais
    nas comunidades mineiras.
  128. Por isso, começámos a recolhê-las
    e a estudá-las.
  129. Descobrimos que as violações
  130. dos padrões de fornecimento
    de água pública
  131. são sete vezes mais comuns
    nas áreas de exploração mineira
  132. Recolhemos amostras do ar
  133. que tinham mais partículas de matéria
    nas comunidades mineiras,
  134. especialmente na gama das ultrafinas.
  135. A poeira nas comunidades mineiras
    contém uma mistura complexa,
  136. mas inclui altos níveis de sílica,
    um conhecido carcinogénico dos pulmões
  137. e, potencialmente, compostos
    orgânicos prejudiciais.
  138. Usámos a poeira em experiências
    de laboratório
  139. e descobrimos que induzia disfunções
    cardiovasculares em ratos.
  140. A poeira também fomentava
    o desenvolvimento
  141. do cancro do pulmão em células
    humanas in vitro.
  142. Isto é apenas um breve resumo
    de alguns dos nossos estudos.
  143. A indústria do carvão não gosta
    do que nós temos a dizer.

  144. Nem os governos dos Estados do carvão.
  145. Tal como a indústria do tabaco
    pagou a investigação
  146. para defender a segurança de fumar,
  147. também a indústria do carvão
    tentou fazer o mesmo
  148. pagando a pessoas para escreverem artigos
    afirmando que o MTR não apresenta perigo.
  149. Advogados assediaram-me com exigências
  150. ao abrigo da Lei
    da Liberdade de Informações,
  151. que foram rejeitadas pelos tribunais.
  152. Fui atacado num testemunho público
    numa audição do Congresso,
  153. por um congressista ligado
    à indústria da energia.
  154. Um governador declarou publicamente
    que se recusa a ler a investigação.
  155. E, depois de uma reunião
    com um membro do Congresso,
  156. em que eu expus a minha investigação,
  157. ouvi dizer depois que esse representante
    disse não saber nada sobre o assunto.
  158. Trabalhei com cientistas
    do estudo geológico dos EUA

  159. sobre amostras ambientais
    durante mais de dois anos.
  160. Quando eles estavam a começar
    a publicar as conclusões
  161. receberam ordens dos superiores
  162. para abandonarem esse projeto.
  163. Em agosto deste ano,
    a Academia Nacional das Ciências
  164. foi subitamente instruída
    pelo governo federal
  165. para parar com o seu estudo independente
  166. sobre as consequências da exploração
    a céu aberto para a saúde pública.
  167. Estas ações, segundo penso,
    são motivadas por razões políticas.
  168. Mas também há oposição
    dos investigadores.

  169. Em conferências ou reuniões,
    exprimem ceticismo.
  170. Ok, todos somos ensinados
    que os cientistas devem ser céticos.
  171. Perguntam:
    "Que tal esta explicação possível?"
  172. "Tiveram em consideração
    esta interpretação alternativa?"
  173. Pensam: "Tem de haver qualquer fator
    de confusão que ignorámos.
  174. "Talvez outra variável
    que não tomámos em consideração".
  175. "Um estudo 'in vitro', o que é que prova?"
  176. "Um estudo com ratos — como sabemos
  177. "que se encontram
    os mesmos efeitos em pessoas?"
  178. Talvez.
  179. Tecnicamente, temos de reconhecer
    que podem ter razão,
  180. mas estes problemas de saúde
    talvez não sejam o resultado
  181. de algum fator de confusão
    que não foi medido.
  182. Talvez resultem das explosões
    das montanhas
  183. por cima da cabeça das pessoas.
  184. (Risos)

  185. (Aplausos)

  186. Haverá sempre dúvidas,
    se é a dúvida que procuram.

  187. Porque nunca poderemos fazer
    essa experiência definitiva.
  188. Qualquer estudo posterior
    será sempre de associação.
  189. Talvez assim possam entender
    porque é que eu comecei a pensar
  190. quantas mais provas serão suficientes?
  191. Já publiquei mais de 30 artigos
    sobre este tópico.
  192. Os meus colegas e outros investigadores
    acrescentaram novas provas
  193. mas o governo não quer ouvir.
  194. A indústria diz que é apenas
    uma correlação,
  195. que a população dos Apalaches
    tem problemas de estilo de vida.
  196. Como se nunca nos tivesse ocorrido
  197. controlar o tabaco ou a obesidade
    ou a pobreza ou a escolaridade
  198. ou o seguro de saúde.
  199. Controlámos todos estes fatores
    e outros mais.
  200. Chega-se a um ponto em que
    não precisamos de mais investigação,

  201. em que não podemos pedir às pessoas
    para serem cobaias da investigação,
  202. para podermos fazer mais um estudo.
  203. Enquanto cientistas, seguimos
    os dados que existem,
  204. mas quando os dados deixam de nos guiar
  205. temos de decidir, enquanto
    seres humanos pensantes e sensíveis,
  206. o que significa e quando
    chega a altura de agir.
  207. Penso que é verdade, tanto para as minas,
    como para todas as outras situações
  208. em que as provas são fortes
    e preocupantes, mas incompletas.
  209. Quando não se atua e se está enganado,
    isso significa a vida de pessoas.
  210. Pode parecer estranho
    que haja qualquer polémica

  211. sobre os efeitos para a saúde
    da mineração a céu aberto.
  212. Mas, por alguma razão,
    este assunto acabou
  213. numa zona de sombra
    científica e política
  214. tal como o debate
    sobre a alteração climática
  215. ou a discussão, há uns anos,
  216. sobre se o tabaco causava
    o cancro ou não.
  217. Nesta zona de sombra, os dados
    parecem apontar para uma conclusão.
  218. Mas a economia, a política
    ou a opinião pública predominante
  219. insiste na conclusão oposta.
  220. Quando somos cientistas
    e pensamos que temos uma opinião válida
  221. em que está em jogo a saúde
    de toda uma população
  222. mas nos encontramos encurralados
  223. nesta zona de sombra
    de negação e incredulidade,
  224. qual é a nossa obrigação
    moral e ética?
  225. Obviamente, os cientistas são responsáveis
    por dizer a verdade, conforme a veem,

  226. com base em provas.
  227. Em palavras simples, temos a obrigação
    de defender esses dados.
  228. Pode ser extremamente frustrante
    esperar que a opinião pública
  229. ou o consenso político
    acompanhem a compreensão científica.
  230. Mas quanto mais controverso for o assunto,
    quanto mais frustrante for o debate,
  231. mais importante é que os cientistas
    preservem a sua objetividade
  232. e a sua reputação de integridade.
  233. Porque a integridade é a regra de ouro
  234. do debate entre a ciência e a política.
  235. A longo prazo,

  236. a nossa reputação de integridade
    é a ferramenta mais poderosa que temos,
  237. muito mais poderosa
    do que os próprios dados.
  238. Sem uma integridade reconhecida
    por parte dos cientistas,
  239. nenhuma quantidade de dados
    convencerá as pessoas
  240. a acreditarem em verdades
    dolorosas ou difíceis.
  241. Mas, se cultivarmos e mantivermos
    a nossa reputação de integridade,
  242. se defendermos pacientemente os dados
    e continuarmos os estudos
  243. e continuarmos calmamente
    a publicar os resultados ao público,
  244. será quando teremos o nosso maior impacto.
  245. Eventualmente,

  246. a verdade científica impor-se-á.
  247. Quantas mais vidas humanas
    se perderão enquanto esperamos?
  248. Demasiadas, já.
  249. Mas havemos de vencer.
  250. Obrigado.

  251. (Aplausos)