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← O perigo alarmante da remoção do topo de montanhas e por que ela deve acabar

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Showing Revision 28 created 11/12/2018 by Maricene Crus.

  1. Digamos que você quisesse
    realizar um experimento.
  2. Nesse experimento,
  3. você designa aleatoriamente pessoas
    para viver em zonas de detonação
  4. ou em locais controlados sem explosões
    acontecendo acima da cabeça delas.
  5. Elas vivem na comunidade há anos,
  6. a favor do vento e rio abaixo
  7. de locais onde toneladas de explosivos
    são usados quase que diariamente.
  8. E milhões de galões de água
    são contaminados.
  9. Com a atribuição aleatória, você poderia
    estudar cuidadosamente os efeitos
  10. em longo prazo na saúde de quem vive
    nessas comunidades de detonação
  11. sem uma porção de fatores
    e covariáveis irritantes.
  12. Atribuição aleatória faz maravilhas.
  13. Isso seria uma investigação científica
    rigorosa e poderosa

  14. a respeito dos efeitos
    dessas exposições ambientais.
  15. Claro, tal estudo nunca poderia ser feito.
  16. A maioria dos cientistas
    não teria estômago para isso.
  17. O Institutional Review Board
    jamais a aprovaria;
  18. nunca passaria pela revisão
    com sujeitos humanos,
  19. porque seria antiético, imoral.
  20. No entanto, na verdade,
    está acontecendo agora.
  21. Em minha opinião,
    isso nos leva a algumas perguntas.
  22. Qual é a obrigação ética
  23. dos cientistas que acreditam
    que as populações estejam em perigo?
  24. Quanta evidência basta para nos sentirmos
    confiantes em nossas conclusões?
  25. Onde está a linha que separa a certeza
    científica da necessidade de agir?
  26. O experimento não planejado
    acontecendo agora

  27. é chamado de remoção do topo de montanha.
  28. A abreviação para isso é RTM.
  29. É uma forma de mineração
    de carvão de superfície
  30. que acontece nos Apalaches,
    aqui nos Estados Unidos.
  31. A RTM ocorre em quatro estados: Virgínia,
    Virgínia Ocidental, Kentucky e Tenessi.
  32. Mais de 1,2 milhões de acres
    foram explorados desse modo.
  33. Isso equivale a uma área
    do tamanho de Delaware,
  34. mas está espalhada numa região
  35. tão extensa quanto Vermont
    e Nova Hampshire combinados.
  36. O processo envolve o desmatamento
    da antiga floresta dos Apalaches,
  37. lar de uma das mais ricas
    biodiversidades do planeta.
  38. As árvores são normalmente queimadas
    ou despejadas em vales adjacentes.
  39. Então, para alcançar
    os veios enterrados de carvão,
  40. explosivos são usados para remover
    até 243 metros de elevação da montanha.
  41. Mais de 1,5 mil toneladas de explosivos
  42. são usadas para mineração de carvão
    apenas na Virgínia Ocidental.
  43. Todo dia.
  44. Rochas e detritos despejados
    nas laterais do vale enterram

  45. cabeceiras de riachos permanentemente.
  46. Até agora, mais de 500 montanhas
    já foram destruídas.
  47. Cerca de 3,2 quilômetros de riachos
    foram permanentemente enterrados.
  48. A água que emerge da base das cheias
    do vale está altamente contaminada
  49. e permanecerá assim por décadas.
  50. O carvão precisa então ser quimicamente
    tratado, triturado e lavado
  51. antes de ser transportado
    para usinas de energia e queimado.
  52. Essa limpeza ocorre no local.
  53. O processo produz mais poluição do ar
  54. e contamina bilhões
    de galões de água com metais,
  55. sulfatos, produtos químicos de limpeza
    e outras impurezas.
  56. Tudo isso para produzir 3% da demanda
    de eletricidade dos Estados Unidos;
  57. apenas 3% da demanda
    de eletricidade dos EUA.
  58. Como podem perceber,
    isso nos leva a várias outras perguntas.

  59. Quais os impactos na saúde com a mineração
    de remoção do topo de montanha?
  60. Existem mais de um milhão de pessoas
    morando em municípios onde ocorre a RTM
  61. e milhões mais rio abaixo
    e a favor do vento.
  62. Qual tem sido a resposta
    da indústria e do governo
  63. quando essas questões são documentadas?
  64. E novamente, qual é
    a obrigação ética da ciência
  65. quando confrontada
    com esta situação perturbadora?
  66. Comecei a pesquisar esse assunto em 2006.

  67. Tinha acabado de aceitar um emprego
    na Universidade de West Virginia.
  68. Antes disso, eu não havia feito
    nenhuma pesquisa relacionada ao carvão.
  69. Mas comecei a escutar as histórias
  70. de pessoas que vivem
    nessas comunidades de mineração.
  71. Elas disseram que a água
    que bebem não é limpa,
  72. que o ar que respiram é poluído.
  73. Elas me falaram
    sobre suas próprias doenças
  74. ou doenças na família delas.
  75. Como estão preocupadas com a incidência
    frequente do câncer nas vizinhanças.
  76. Me encontrei com muitas pessoas no sul
    da Virgínia Ocidental e leste do Kentucky
  77. para escutar essas histórias
    e suas preocupações.
  78. Pesquisei a literatura científica
  79. e fiquei surpreso ao descobrir
    que nada havia sido publicado
  80. sobre os efeitos na saúde pública devido
    à mineração de carvão nos Estados Unidos.
  81. Direi novamente:
  82. nada havia sido publicado
    sobre os efeitos na saúde pública
  83. devido à mineração de carvão nos EUA.
  84. Então, pensei: "Posso fazer
    uma nova contribuição,

  85. não importa o que eu descubra,
  86. que confirme essas preocupações
    ou que as reduza".
  87. Eu não tinha uma agenda
    pessoal ou organizacional.
  88. Muitos dos meus colegas
    inicialmente ficaram céticos
  89. de que haveria alguma conexão
    entre a saúde pública e a mineração.
  90. Eles previam que os problemas de saúde
    poderiam ser explicados pela pobreza
  91. ou por questões de estilo de vida,
    como tabagismo e obesidade.
  92. Quando comecei, cheguei a achar
    que talvez eles estivessem certos.
  93. Começamos analisando
    bancos de dados existentes,
  94. que nos permitiram conectar a saúde
    da população à atividade de mineração
  95. e a controlar estatisticamente idade,
    sexo, raça, tabagismo, obesidade, pobreza,
  96. educação, seguro saúde
    e outros que pudemos medir.
  97. Encontramos evidências que confirmavam
    as preocupações dos moradores,
  98. e começamos a publicar nossas descobertas.
  99. Em um breve resumo,

  100. descobrimos que as pessoas que vivem
    em áreas de remoção do topo da montanha
  101. têm níveis significativamente mais altos
    de doenças cardiovasculares,
  102. doença renal e doença pulmonar
    crônica como a DPOC.
  103. Taxas de mortalidade por câncer
    são significativamente elevadas,
  104. especialmente para o câncer de pulmão.
  105. Há evidências para taxas mais elevadas
    de defeitos congênitos
  106. e para bebês com baixo peso ao nascer.
  107. A diferença na mortalidade total
    equivale a cerca de 1,2 mil mortes a mais
  108. todos os anos nas áreas de RTM,
    supervisionando-se outros riscos.
  109. São 1,2 mil mortes a mais todos os anos.
  110. As taxas de mortalidade são mais altas
  111. e aumentam conforme os níveis de mineração
    sobem seguindo o modo dose-resposta.
  112. A seguir, passamos a conduzir pesquisas
    de saúde comunitária de porta em porta.
  113. Pesquisamos pessoas vivendo
    a alguns quilômetros da RTM
  114. versus comunidades rurais
    semelhantes sem a mineração.
  115. Resultados da pesquisa mostram níveis
    mais altos de doença pessoal e familiar,
  116. o autorrelato sobre a saúde
    é mais deficiente,
  117. e sintomas de doenças
    num espectro amplo é mais comum.
  118. Esses estudos são apenas associativos.

  119. Todos sabemos que correlação
    não prova causalidade.
  120. Esses estudos não incluíram dados
  121. sobre as condições ambientais reais
    em comunidades de mineração.
  122. Então começamos a coletar e relatar isso.
  123. Descobrimos que violações
    dos padrões públicos de água potável
  124. são sete vezes mais comuns em áreas RTM
    comparados a áreas não mineradoras.
  125. Coletamos amostras de ar
  126. e descobrimos que o material particulado
    é elevado em comunidades de mineração,
  127. especialmente na classificação ultra-fina.
  128. A poeira nas comunidades de mineração
    contém uma mistura complexa,
  129. mas inclui altos níveis de sílica,
    um carcinógeno pulmonar conhecido,
  130. e compostos orgânicos
    potencialmente prejudiciais.
  131. Nós usamos a poeira
    em experimentos de laboratório
  132. e descobrimos que ela induziu
    disfunção cardiovascular em ratos.
  133. A poeira também promoveu o desenvolvimento
  134. de câncer de pulmão em células
    pulmonares humanas in vitro.
  135. Este é apenas um breve resumo
    de alguns de nossos estudos.
  136. A indústria do carvão não gosta
    do que temos a dizer.

  137. Nem o governo no país do carvão.
  138. Assim como a indústria do tabaco
    pagou pela pesquisa
  139. para defender a segurança do tabagismo,
  140. a indústria do carvão
    tentou fazer o mesmo,
  141. pagando pessoas para escrever artigos
    alegando que a RTM é segura.
  142. Advogados me enviaram queixas de assédio
    sob a Lei de Liberdade de Informação,
  143. negadas, por fim, pelos tribunais.
  144. Já fui atacado em depoimento público
    numa audiência do Congresso
  145. por um congressista com ligações
    com a indústria de energia.
  146. Um governador declarou publicamente
    que se recusa a ler a pesquisa.
  147. E após uma reunião
    com um membro do Congresso,
  148. na qual eu especificamente
    compartilhei minha pesquisa,
  149. mais tarde eu o ouvi dizendo que eles
    não sabiam nada sobre o assunto.
  150. Trabalhei com cientistas
    do Serviço Geológico dos EUA

  151. sobre amostragem ambiental
    por mais de dois anos.
  152. E assim que começaram
    a publicar as descobertas deles,
  153. foram subitamente instruídos
    pelos seus superiores
  154. a interromper os trabalhos neste projeto.
  155. Em agosto deste ano,
    a Academia Nacional de Ciências dos EUA
  156. foi subitamente instruída
    pelo governo federal
  157. a parar a revisão independente deles
  158. sobre as consequências à saúde pública
    devido à mineração de superfície.
  159. Essas ações são politicamente
    motivadas, em minha opinião.
  160. Mas há oposição dos pesquisadores, também.

  161. Em conferências ou reuniões,
    eles expressam ceticismo.
  162. Tudo bem, todos somos ensinados,
    como cientistas, a sermos céticos.
  163. Eles perguntam: "E quanto
    a esta possível explicação?"
  164. "Você já considerou
    essa interpretação alternativa?"
  165. Eles se perguntam: "Deve haver
    algum fator que deixamos passar.
  166. Alguma outra variável
    que não consideramos".
  167. "Um estudo in vitro? O que isso prova?"
  168. "Estudos com ratos? Como saber se esses
    efeitos seriam encontrados em pessoas?"
  169. Pode ser.
  170. Tecnicamente, temos que reconhecer
    que eles poderiam estar certos,
  171. mas talvez esses problemas de saúde
  172. não sejam o resultado
    de algum fator não medido.
  173. Talvez eles resultem
    da explosão de montanhas
  174. sobre a cabeça das pessoas.
  175. (Risos)

  176. (Aplausos)

  177. Sempre pode haver dúvida,
    se é a dúvida que você busca.

  178. Porque nunca podemos fazer
    aquela avaliação determinante.
  179. Qualquer próximo estudo
    deve sempre ser associativo.
  180. Então talvez possam entender
    porque comecei a me perguntar:
  181. "Quanta evidência é suficiente?"
  182. Publiquei mais de 30 artigos
    sobre este assunto até agora.
  183. Com meus coautores, outros pesquisadores
    adicionaram à evidência,
  184. mas o governo não quer escutar,
  185. e a indústria diz que é
    apenas correlacionado.
  186. Dizem que os apalaches têm
    um estilo de vida questionável.
  187. Como se nunca nos tivesse ocorrido
  188. supervisionar tabagismo, obesidade
    pobreza, educação ou seguro saúde.
  189. Supervisionamos tudo isso e muito mais.
  190. Chega um ponto em que
    não precisamos de mais pesquisas

  191. e não podemos pedir que as pessoas,
    relutantes, sejam objeto de pesquisa
  192. apenas para que possamos
    fazer o próximo estudo.
  193. Como cientistas, seguimos
    os dados onde estiverem,
  194. mas, às vezes, eles só
    nos levam até certo ponto
  195. e temos que decidir como
    seres humanos que pensam e sentem,
  196. o que isso significa
    e quando é a hora de agir.
  197. Acredito ser verdade, não só para a RTM,
    mas para outras situações
  198. nas quais a evidência é forte
    e pertinente mas imperfeita.
  199. E quando deixar de agir se estivermos
    errados se refere à vida das pessoas.
  200. Pode parecer estranho
    que exista qualquer controvérsia

  201. sobre os efeitos na saúde decorrentes da
    mineração de remoção do topo de montanhas.
  202. Mas, de algum modo, esse assunto acabou
    numa zona sombria científica e política,
  203. acompanhando o debate
    sobre as mudanças climáticas
  204. ou o argumento anos atrás
    sobre se fumar causa ou não câncer.
  205. Nesta zona sombria, muitos dos dados
    parecem apontar para uma conclusão.
  206. Mas a economia, a política
    ou a opinião pública predominante
  207. insistem na conclusão oposta.
  208. Quando você é cientista
    e acha que tem uma visão válida
  209. e a saúde de populações
    inteiras está em jogo,
  210. mas você se encontra de mãos atadas
  211. nessa zona sombria da negação e descrença,
  212. qual é a sua obrigação moral e ética?
  213. Obviamente, cientistas são responsáveis
    por dizer a verdade como a veem,

  214. baseados em evidências.
  215. Ou seja, temos uma obrigação
    de defender os dados.
  216. Pode ser extremamente frustrante
    ficar esperando que a opinião pública
  217. ou o consenso político tentem
    alcançar o entendimento científico.
  218. Mas quanto mais controverso o assunto
    e quanto mais frustrante o debate,
  219. mais crítico é para nós, cientistas,
    preservarmos a nossa objetividade
  220. e nossa reputação pela integridade.
  221. Porque a integridade é a moeda imperial
  222. no debate científico
    e de políticas públicas.
  223. Em longo prazo,

  224. nossa reputação pela integridade
    é a ferramenta mais poderosa que temos,
  225. ainda mais poderosa que os próprios dados.
  226. Sem uma integridade reconhecida
    por parte dos cientistas,
  227. nenhuma quantidade de dados
    jamais convencerá as pessoas
  228. em acreditar em verdades
    dolorosas ou difíceis.
  229. Mas quando cultivamos e protegemos
    nossa reputação pela integridade,
  230. pacientemente defendendo os dados,
    continuamos a fazer os estudos,
  231. e calmamente a trazer
    os resultados para o público,
  232. é assim que causamos nosso maior impacto.
  233. Por fim, a verdade científica
    vence e continuará vencendo.

  234. Quantas vidas serão perdidas
    enquanto esperamos?
  235. Muitas, com certeza.
  236. Mas nós prevaleceremos.
  237. Obrigado.

  238. (Aplausos)