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Showing Revision 104 created 01/24/2018 by Raissa Mendes.

  1. Cyndi Stivers: O futuro das narrativas.
  2. Antes de traçarmos o futuro,
  3. vamos falar sobre o que nunca
    vai mudar na criação das histórias.
  4. Shonda Rhimes: O que nunca vai mudar.

  5. Obviamente, acredito
    que boas histórias nunca vão mudar,
  6. a necessidade de as pessoas
    se juntarem para trocar histórias
  7. e conversar sobre as coisas universais,
  8. a nossa necessidade
    irresistível de assistir histórias,
  9. contar e compartilhar histórias...
  10. como se fosse ao redor de uma fogueira
  11. para discutir as questões que nos mostram
    que não estamos sozinhos no mundo.
  12. Para mim, essas coisas nunca vão mudar.
  13. A essência das narrativas nunca vai mudar.
  14. CS: Ao me preparar para esta conversa,

  15. chequei com Susan Lyne,
  16. que dirigia a ABC Entertainment
  17. quando você estava trabalhando
    em "Grey's Anatomy",
  18. e ela disse se lembrar claramente
    de seu processo de escolha do elenco,

  19. no qual você, sem discutir
    com qualquer dos executivos,
  20. punha pessoas para ler seus roteiros,
  21. e cada personagem era
    a gama completa da humanidade,
  22. pois você não descrevia
    ninguém em nenhum aspecto,
  23. e que isso foi muito surpreendente.
  24. Então ela falou que, além de reeducar
    os executivos dos estúdios,
  25. ela acha que você também,
    no que concordo com ela,
  26. reeducou as expectativas
    do público da TV norte-americana.
  27. Então, o que mais o público
    ainda precisa perceber?
  28. SR: O que mais não perceberam?

  29. Bom, não acredito que estejamos
    nem perto disso ainda.
  30. Digo, ainda estamos num ponto
  31. muito aquém do que o mundo real
    apresenta na atualidade.
  32. Eu não trazia um monte de atores
    que pareciam tão diferentes entre si
  33. simplesmente para tentar
    provar alguma coisa,
  34. e eu não estava tentando
    fazer nada de especial.
  35. Nunca me ocorreu que isso seria
    novidade, diferente ou estranho.
  36. Eu simplesmente trouxe atores
    que considerava interessantes.
  37. E, pra mim, a ideia de isso ser
    tão surpreendente pra todo mundo
  38. me passou despercebida por um bom tempo.
  39. Só pensava que queria ver
    aqueles atores naqueles papéis,
  40. queria vê-los lendo e ver o que acontecia.
  41. O interessante é que, quando
    olhamos o mundo com outras lentes,
  42. quando você não está normalmente
    no comando das coisas,
  43. simplesmente elas acontecem
    de um jeito diferente.
  44. CS: Então você controla
    essa máquina imensa

  45. como uma titânide.. ano passado
    ela deu sua palestra TED...
  46. ela é uma titânide.
  47. Então o que você acha
    que vai acontecer daqui pra frente?
  48. Há muito dinheiro envolvido
    na produção dessas séries.
  49. Enquanto as ferramentas para criar
    histórias se democratizaram,
  50. a distribuição ainda é algo grande:
  51. pessoas que alugam redes,
    que alugam o público para anunciantes
  52. e que se paga.
  53. Como você vê
  54. essa mudança no modelo do negócio,
    em que qualquer um pode criar histórias?
  55. SR: Penso que muda todo dia.

  56. A mudança super-rápida
    que está acontecendo é incrível.
  57. E sinto que o pânico é palpável,
    e não digo isso no sentido negativo.
  58. Penso que é meio empolgante.
  59. A ideia que há um tipo
    de equalizador acontecendo,
  60. os meios para qualquer um poder
    fazer coisas, é maravilhosa.
  61. Há um certo receio de não
    se encontrarem bons trabalhos.
  62. Há tanto trabalho por aí.
  63. Deve haver uns 417 dramas na TV
    neste momento, a qualquer tempo e lugar.
  64. Mas não conseguimos encontrar
    os realmente bons.
  65. Então, há muita porcaria por aí,
    já que todos podem criar algo.
  66. É como se todo mundo pintasse quadros,
    e não há tantos pintores tão bons assim.
  67. Mas achar boas histórias, séries boas,
    está cada vez mais difícil.
  68. Porque, se você tiver uma série
    pequenininha no AMC,
  69. e outra pequenininha ali,
  70. fica mais difícil
    descobrir onde elas estão.
  71. Assim, penso que encontrar as pérolas
  72. e descobrir quem fez o grande
    "webisódio" e fez aquilo outro é...
  73. Pense nos coitados dos críticos
  74. que agora têm de passar 24 horas por dia
    presos em casa para assistir a tudo.
  75. Não é uma tarefa fácil hoje em dia.
  76. Assim, os mecanismos de distribuição
    estão ficando cada vez mais vastos,
  77. mas achar o programa certo
    para todos da audiência
  78. está ficando mais difícil.
  79. E, diferente das notícias, em que tudo
    está se resumindo a quem você é,
  80. a TV parece estar conseguindo,
  81. e por televisão quero dizer
    qualquer meio em que se assista à TV,
  82. parece estar se tornando
    cada vez mais vasta.
  83. Assim, todo mundo está criando histórias,
  84. e os gênios estão escondidos por aí.
  85. Mas vai ficar mais difícil encontrar.
  86. E, num dado momento, isso vai desmoronar.
  87. Fala-se ainda no pico da TV.
  88. Não sei o que vai acontecer, mas,
    num dado momento, vai cair um pouco,
  89. e nós vamos meio que voltar juntos.
  90. Eu não sei se vai ser rede de televisão.
  91. Não sei qual modelo vai ser sustentável.
  92. CS: E que tal o modelo

  93. no qual a Amazon e a Netflix
    estão investindo montes de dinheiro agora?
  94. SR: É verdade.

  95. Acho esse modelo interessante,
    há algo de estimulante nele.
  96. Acho estimulante
    para os criadores de conteúdo.
  97. Acho estimulante para o mundo.
  98. A ideia de que há séries agora
    em diversas línguas,
  99. com personagens do mundo todo,
  100. que são atraentes e podem ser assistidos
    por todos ao mesmo tempo é empolgante.
  101. Acho que o lado internacional
    que a televisão pode assumir agora,
  102. assim como sua programação,
    faz sentido pra mim.
  103. A televisão é muito feita levando
    em consideração o público norte-americano.
  104. Fazemos essas séries,
    e as distribuímos pelo mundo agora,
  105. e rezamos para que dê certo,
  106. em vez de realmente pensarmos
    de que isso não se resume aos EUA.
  107. Quero dizer, nós nos amamos
    e tudo mais, mas não é tudo.
  108. E deveríamos levar em conta o fato
  109. de que existem tantos lugares no mundo
  110. que deveríamos ter em mente
    quando criamos nossas histórias.
  111. Isso aproxima o mundo.
  112. Acho que passa a ideia
    de que o mundo é um lugar universal,
  113. e de que nossas histórias se tornam
    universais; deixamos de ser os outros.
  114. CS: Pelo que sei, você é pioneira

  115. em lançar séries
    de um jeito interessante também.
  116. Por exemplo, quando
    você lançou "Scandal", em 2012,
  117. houve uma incrível onda
    de apoio no Twitter
  118. como ninguém tinha visto antes.
  119. Você tem outros truques na manga
    para lançar a próxima série?
  120. O que acha que vai ser?
  121. SR: Temos algumas ideias interessantes.

  122. Vamos lançar uma série chamada
    "Still Star-Crossed" no meio do ano.
  123. Temos algumas ideias, mas não sei
    se vamos conseguir fazer a tempo.
  124. Algumas são bem divertidas e engraçadas.
  125. Mas a ideia da série ao vivo no Twitter
    foi porque achamos que seria divertido.
  126. Não achamos que os críticos
    iam começar a tuitar ao vivo também.
  127. Mas fazer os fãs participarem,
    como se estivéssemos ao redor da fogueira,
  128. com todos juntos no Twitter conversando,
    cria uma experiência mais compartilhada.
  129. E encontrar maneiras
    de tornar isso possível
  130. e fazer as pessoas
    participarem é importante.
  131. CS: Mas, quando há
    tanta gente criando histórias

  132. apenas algumas vão dar certo
    e atrair a audiência,
  133. como acha que os bons criadores
    de histórias vão ser pagos?
  134. SR: Na verdade, tenho pensado
    muito nisso também.

  135. Vai ser um modelo de assinatura?
  136. As pessoas vão dizer: "Vou assistir
    aos programas dessa pessoa"...
  137. É assim que vai ser?
  138. CS: Acho que deveríamos comprar
    um passaporte para Shondalândia, certo?

  139. SR: Isso eu não sei, mas traria
    bem mais trabalho pra mim.

  140. Acho que vai haver
    diversas maneiras, mas não sei...
  141. Vou ser bem honesta: há muitos
    criadores de conteúdo
  142. que não estão necessariamente
    interessados em serem distribuidores,
  143. principalmente porque meu sonho
    é criar conteúdo.
  144. Adoro criar conteúdo
    e quero ser paga pra isso,
  145. com o valor que mereço receber para tanto.
  146. E é difícil encontrar isso.
  147. Mas também quero tornar possível
  148. para as pessoas que trabalham
    comigo e pra mim,
  149. que todos possam viver disso.
  150. A forma de distribuição
    está ficando cada vez mais difícil.
  151. CS: E que tal as várias ferramentas,
    como as realidades virtual e aumentada?

  152. Acho fascinante não podermos
    fazer uma maratona para assistir,
  153. não se pode adiantar
    o vídeo nessas coisas.
  154. Como você acha que vai ser no futuro
    para a criação de histórias?
  155. SR: Passei muito tempo
    ano passado explorando isso,

  156. vendo muitas demonstrações
    e prestando atenção.
  157. Eu as acho fascinantes,
  158. especialmente porque a maioria
    das pessoas pensam nelas para jogos,
  159. outras pensam nelas pra coisas como ação,
  160. e acho que há uma ideia de intimidade
  161. muito presente nessas coisas,
  162. a ideia de que, imagine só,
  163. você pode sentar lá e conversar com Fitz.
  164. Ou sentar enquanto Fitz conversa com você,
    o presidente Fitzgerald Grant III.
  165. Ele te explica por que está fazendo
    determinada escolha
  166. e é um momento muito emocionante.
  167. E, em vez de assistir na tela da TV,
    você se senta perto dele e conversa.
  168. Bem, se você se apaixona
    pelo homem assistindo-o pela TV,
  169. imagine sentado ao lado dele.
  170. Ou com um personagem como Huck,
    que está prestes a executar alguém.
  171. E, em vez de ter uma cena
  172. em que ele está falando
    de outro personagem bem rápido,
  173. ele entra no armário, se vira pra você
    e diz o que vai acontecer,
  174. e por que ele está com medo e nervoso.
  175. É parecido com teatro,
    e não sei se vai funcionar,
  176. mas estou fascinada pelo conceito
    e o que significa para o público.
  177. E brincar com essas ideias
    seria interessante,
  178. e acho que, para as pessoas
    que assistem às minhas séries,
  179. que são mulheres dos 12 aos 75 anos,
    há algo interessante lá para elas.
  180. CS: E a contribuição do público?

  181. Você se interessa por algo
    em que o público vai até certo ponto
  182. e depois decide: "Espere, vou escolher
    minha própria aventura.
  183. Vou fugir com Fitz…
  184. SR: Escolher a própria aventura...

  185. é um pouco complicado pra mim.
  186. Não necessariamente
    porque quero controlar tudo,
  187. mas porque, quando estou
    assistindo à TV ou a um filme,
  188. só tenho certeza
    de que uma história não é tão boa
  189. quando controlo exatamente
    o que vai acontecer
  190. com o personagem de alguém.
  191. Sabe, se eu pudesse dizer exatamente
    o que ia acontecer com Walter White,
  192. seria ótimo, mas a história
    não seria a mesma nem tão poderosa.
  193. Se eu decidisse o final de "Os Sopranos",
  194. seria ótimo e eu teria
    o final que é legal e satisfatório,
  195. mas não é a mesma história
    e não tem o mesmo impacto emocional.
  196. CS: Não consigo parar
    de pensar em como seria.

  197. Desculpe, estou viajando um pouco.
  198. SR: Mas não preciso imaginar,

  199. porque Vince tem seu próprio final.
  200. E é poderoso saber que outro o fez.
  201. Se você pudesse decidir isso
  202. em "Tubarão", o tubarão
    vencer ou algo assim,
  203. a história não faz
    o que precisa fazer por você.
  204. Ela é a que é contada, e você pode ficar
    com raiva, discutir, ou brigar,
  205. mas é por isso que funciona.
  206. É por isso que é arte.
  207. Se não fosse assim, seria apenas jogo.
  208. E jogos podem ser arte,
    mas de uma forma muito diferente.
  209. CS: Jogadores na verdade
    vendem o direito de se sentarem ali

  210. e comentar o que está acontecendo.
  211. Para mim, isso é mais comunitário
    do que contar histórias.
  212. SR: É sua própria forma de fogueira.

  213. Não descarto isso como
    uma forma de contar histórias,
  214. mas é uma forma em grupo, suponho.
  215. CS: Tudo bem, que tal o fato de que tudo
    está ficando cada vez mais curto.

  216. Por exemplo, o Snapchat
    agora tem algo chamado shows
  217. com a duração de um minuto.
  218. SR: Isso é interessante.

  219. Em parte, considero isso comerciais.
  220. E são, pois são patrocinados.
  221. Mas, em parte,
    compreendo completamente.
  222. Tem algo de maravilhoso nisso.
  223. Se pensarmos num mundo
    em que a maioria assiste à TV no celular,
  224. se pensarmos num lugar como a Índia,
    de onde a maioria das ideias está vindo
  225. e pra onde muitos dos produtos estão indo,
    mais curto faz todo sentido.
  226. Se você puder cobrar mais
    por períodos mais curtos de conteúdo,
  227. um distribuidor vai descobrir um jeito
    de ganhar muito dinheiro assim.
  228. Se você está produzindo conteúdo,
    custa menos dinheiro fazer e lançar.
  229. E, aliás, se você tem 14 anos
    e pouca concentração, como minha filha,
  230. é isso o que você quer ver e fazer.
  231. É assim que funciona.
  232. E, se você fizer certo,
    e ficar com cara de narrativa,
  233. as pessoas vão assistir.
  234. CS: Bom saber sobre suas filhas,

  235. porque estou imaginando como elas
    vão consumir entretenimento,
  236. e não apenas entretenimento,
    mas notícias também,
  237. quando o senhor dos algoritmos
    der a elas o que elas já têm.
  238. Como você acha que vamos corrigir isso
    e fazer cidadãos mais complexos?
  239. SR: Minha forma de corrigir isso
    pode ser bem diferente da de outra pessoa.

  240. CS: Fique à vontade para especular.

  241. SR: Realmente não sei
    como vamos fazer isso no futuro.

  242. As coitadas das minhas filhas têm sido
    o alvo de todos os meus experimentos.
  243. Ainda fazemos o que chamo
    de "férias amish",
  244. em que desligo todos os eletrônicos
    e guardo todos os computadores,
  245. e as deixo espernear até se acostumarem
    com férias sem eletrônicos.
  246. Mas, honestamente,
    é um mundo muito difícil
  247. no qual agora, como adultos,
  248. estamos tão interessados
    em assistir às nossas próprias coisas,
  249. e nem sabemos que estamos
    sendo alimentados, às vezes,
  250. apenas com nossas próprias opiniões.
  251. A forma como isso funciona
    hoje é que lemos "feeds"
  252. que são ajustados para conteúdos
    que reforçam nossas opiniões,
  253. e reforçamos nossas certezas.
  254. Assim, como começar a discernir?
  255. Está ficando preocupante.
  256. Talvez vá ser hipercorrigido,
    ou talvez vá explodir,
  257. ou talvez todos vamos ficar...
  258. odeio ser negativa sobre isso,
  259. mas talvez nós todos
    vamos ficar mais idiotas.
  260. (Risos)

  261. CS: Sim, você consegue pensar
    numa forma de corrigir isso

  262. com trabalho ficcional, roteiros?
  263. SR: Penso muito no fato
    de que a televisão tem o poder

  264. de educar as pessoas
    de uma forma poderosa.
  265. E, em estudos feitos
    sobre programas médicos na TV,
  266. 87% das pessoas obtêm a maioria de seu
    conhecimento sobre medicina e saúde
  267. nos programas de televisão.
  268. Muito mais do que de seus
    próprios médicos ou de artigos.
  269. Assim tentamos ser bastante precisos.
  270. Toda vez que erramos, me sinto culpada,
    como se tivesse feito algo ruim.
  271. Mas também damos muitas informações boas.
  272. Existem tantas maneiras
    de dar informação nesses programas.
  273. As pessoas estão sendo entretidas
    e talvez não queiram ler as notícias,
  274. mas há muitas maneiras
    de dar boa informação nessas séries.
  275. Não de uma forma bizarra,
    tipo vamos controlar a mente das pessoas,
  276. mas de uma maneira
    muito interessante e inteligente,
  277. sem forçar uma versão ou outra,
  278. mas transmitindo a verdade.
  279. Seria estranho, no entanto,
  280. se o drama televisivo
    virasse um telejornal.
  281. CS: E Isso seria estranho, mas li
    que muito do que você escreveu como ficção

  282. se tornou realidade nesta temporada.
  283. SR: Sabe,"Scandal" ficou
    bem perturbador por causa disso.

  284. Temos essa série mostrando
    como a política enlouqueceu,
  285. e basicamente a forma
    que sempre fizemos a série...
  286. todo mundo fica atento às notícias,
    lemos e falamos sobre tudo,
  287. temos muitos amigos em Washington,
    e sempre fizemos a série como especulação.
  288. Sentamos na nossa sala e pensamos:
  289. "O que aconteceria se algo
    desse errado e tudo ficasse louco?
  290. E isso sempre foi funcionou,
  291. exceto agora, quando parece que as coisas
    estão dando errado, uma loucura.
  292. Assim, nossas especulações
    estão se tornando realidade.
  293. A temporada este ano ia terminar com
    os russos controlando as eleições nos EUA.
  294. Tínhamos escrito, estava
    tudo planejado, estava tudo lá.
  295. E aí os russos são suspeitos de estar
    envolvidos na eleição norte-americana,
  296. e de repente tivemos de mudar
    nossa temporada.
  297. Eu falei: "Aquela cena em que
    nossa mulher misteriosa fala russo?
  298. Temos de mudar aquilo
    e pensar no que vamos fazer".
  299. Isso veio de extrapolar o que tínhamos
    pensado que iria acontecer,
  300. ou o que achamos que ia ser louco.
  301. CS: Que ótimo.

  302. Que outro lugar no mundo
    ou nos EUA você acha
  303. que se criam histórias
    interessantes hoje em dia?
  304. SR: Não sei bem, há muita coisa
    interessante por aí.

  305. Obviamente a televisão britânica sempre
    é incrível e faz coisas interessantes.
  306. Eu não assisto muito à TV,
    principalmente por estar trabalhando.
  307. E tento não assistir muita TV em geral,
    mesmo a norte-americana,
  308. até terminar uma temporada,
  309. porque senão as coisas tomam
    conta da minha cabeça
  310. e começo a pensar
  311. por que nossos personagens não usam
    coroas e e tentam tomar o trono.
  312. Vira uma loucura.
  313. Assim, tento não assistir muito
    até que as temporadas terminem.
  314. Mas penso que há muita TV
    europeia interessante por aí.
  315. Eu estava nos Emmy internacionais
    e dei uma olhada,
  316. vi alguns trabalhos europeus
    e fiquei fascinada.
  317. Há algumas coisas que quero assistir.
  318. CS: Sei que você não passa muito tempo
    pensando em coisas técnicas,

  319. mas há alguns anos
    tivemos uma palestra TED
  320. com alguém falando sobre usar Google Glass
    e assistir a programas de TV nos olhos?
  321. Você alguma vez fantasiou,
  322. quando menina, sentada no chão
    da casa dos seus pais,
  323. alguma vez você imaginou
    algum outro meio?
  324. Ou imaginaria agora?
  325. SR: Outro meio... pra contar
    histórias, além dos livros?

  326. Quer dizer, cresci querendo ser
    Toni Morrison, então, não.
  327. Nem imaginava escrever para TV.
  328. A ideia de poder haver um mundo maior,
  329. alguma forma mais mágica
    de fazer as coisas,
  330. sempre fico empolgada
    com novas tecnologias
  331. e sou sempre a primeira
    a querer experimentá-las.
  332. As possibilidades parecem
    infinitas e animadoras agora,
  333. que é o que me deixa animada.
  334. Parece que estamos no tempo do faroeste,
    porque ninguém sabe onde vamos parar.
  335. Podemos colocar histórias em qualquer
    lugar agora, e tudo bem pra mim.
  336. E acho que, quando descobrirmos
    como juntar a tecnologia
  337. e a criatividade de criar histórias,
    as possibilidades são infinitas.
  338. CS: A tecnologia também permitiu
    algo que mencionei antes:

  339. assistir aos episódios em maratonas,
    que é um fenômeno recente,
  340. desde que você faz séries, certo?
  341. Como você acha que isso muda
    o processo de criação de histórias?
  342. Sempre havia um planejamento
    para temporada inteira, certo?
  343. SR: Não, eu só sabia como íamos terminar.

  344. Para mim, a única forma de comentar isso
  345. é que eu tenho uma série
    que já tem 14 temporadas,
  346. então há pessoas que
    acompanharam as 14 temporadas,
  347. e há meninas de 12 anos de idade
    que encontro no supermercado
  348. que tinham assistido
    a 297 episódios em 3 semanas.
  349. (Risos)
  350. Sério, e essa é uma experiência
    bem diferente para elas,
  351. porque elas imergiram em algo
  352. bastante intenso por um período
    muito curto de tempo.
  353. E para elas a história tem um arco
    completamente diferente,
  354. um significado completamente diferente,
    porque não teve pausas.
  355. CS: É como visitar um país
    e depois partir. É estranho…

  356. SR: É como ler um romance
    incrível e depois largá-lo.

  357. Acho que aí está a beleza da experiência.
  358. Você não precisa assistir algo
    durante as 14 temporadas.
  359. Não é assim necessariamente
    a forma como tudo tem de ser.
  360. CS: Você acha que existe algum tópico
    que não deveria ser abordado nas séries?

  361. SR: Não penso na história desse jeito.

  362. Penso em termos do que os personagens
    fariam ou precisam fazer
  363. para avançarem.
  364. Assim nunca penso na história
    apenas em termos do enredo.
  365. E quando roteiristas vêm
    a minha sala apresentar um roteiro,
  366. eu falo: "Você não está falando inglês".
  367. É isto o que digo: "Não estamos falando
    inglês. Preciso de algo que real".
  368. Como não penso nisso dessa forma,
    não sei pensar em termos do que não faria,
  369. porque isso parece que estou tirando
    peças do enredo de uma parede.
  370. CS: Ótimo. Até que ponto
    você acha que vai usar…

  371. recentemente você fez parte
    do conselho de paternidade planejada
  372. e se envolveu na campanha
    da Hillary Clinton...
  373. Em que medida você acha
    que vai usar sua criação de histórias
  374. no mundo real
  375. para efetuar mudanças?
  376. SR: Bem, existe...

  377. Esse é um assunto intenso pra mim,
    pois acho que essa falta de narrativa
  378. que muitas pessoas têm é difícil.
  379. Existem muitas organizações
  380. que não têm uma narrativa positiva
    criadas por elas mesmas
  381. que poderia ajudá-las.
  382. Existem muitas campanhas
    que poderiam ser ajudadas
  383. por uma narrativa melhor.
  384. Os democratas poderiam fazer muito
    com uma narrativa forte para si mesmos.
  385. Há várias coisas possíveis em termos
    de usar a voz da criação de histórias.
  386. E não digo no sentido fictício,
    mas no sentido de um redator de discursos.
  387. Enxergo isso, mas não sei
    se caberia a mim fazê-lo.
  388. CS: Tudo bem.

  389. Por favor, me ajudem a agradecer Shonda.

  390. (Aplausos)
  391. SR: Obrigada.