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← O que os promotores e os presos podem aprender uns com os outros

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Showing Revision 5 created 11/26/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Quando hoje olho para o espelho,
  2. vejo um académico da justiça
    e da educação
  3. na Universidade da Columbia,
  4. um mentor de jovens, um ativista
  5. e um futuro senador
    do estado de Nova Iorque.
  6. (Aplausos)

  7. Vejo isso tudo

  8. e também um homem que passou
    um quarto da vida numa prisão
  9. — seis anos, para ser exato.
  10. Comecei ainda era adolescente
    na prisão de Rikers Island
  11. por um ato que quase
    custou a vida de um homem.
  12. Mas o que me tirou de lá
    e me trouxe até aqui
  13. não foi o castigo que enfrentei
    em adolescente numa prisão de adultos
  14. ou a dureza do nosso sistema legal.
  15. Em vez disso, foi um ambiente
    de aprendizagem duma sala de aulas
  16. que me apresentou a uma coisa
    que eu não julgava possível para mim
  17. ou para o nosso sistema de justiça,
    no seu todo.
  18. Umas semanas antes de sair
    em liberdade condicional,

  19. um conselheiro encorajou-me
    a inscrever-me
  20. num novo curso universitário
    que a prisão oferecia.
  21. Chamava-se A Justiça Criminal por Dentro.
  22. Parece uma coisa muito simples, não é?
  23. Acontece que a turma
    seria formada por oito presos
  24. e oito assistentes
    de advogados distritais.
  25. Geraldine Downey, professora de psicologia
    da Universidade de Columbia
  26. e Lucy Lang, assistente
    do Distrito de Manhattan
  27. ensinavam o curso
    que era o primeiro do género.
  28. Sinceramente, devo dizer

  29. que não era assim que eu imaginava
    começar a faculdade.
  30. Fiquei surpreendido
    logo no primeiro dia.
  31. Eu julgava que todos os promotores
    na sala seriam brancos.
  32. Mas lembro-me de entrar na sala
    no primeiro dia de aulas
  33. e ver três promotores negros
  34. e pensar para comigo:
  35. "Uau! Ser promotor negro é possível!"
  36. (Risos)

  37. No final da primeira sessão
    eu estava convencido.

  38. Na verdade, poucas semanas
    depois de libertado,
  39. encontrei-me a fazer uma coisa
    que tinha jurado nunca mais fazer.
  40. Voltei à prisão.
  41. Felizmente, desta vez
    era apenas como estudante,
  42. para me juntar aos meus colegas da turma.
  43. Desta vez, podia voltar para casa
    quando a aula acabasse.
  44. Na sessão seguinte, falámos
    do que nos tinha levado

  45. àquele momento da nossa vida
  46. e a juntarmo-nos naquela sala de aulas.
  47. Senti-me suficientemente à vontade
  48. para revelar a minha verdade
    a todos naquela sala
  49. sobre a minha origem.
  50. Contei como as minhas irmãs e eu
    víamos a minha mãe sofrer a violência
  51. às mãos do nosso padrasto,
  52. e fugíramos, para irmos viver
    para um abrigo.
  53. Contei como tinha jurado à minha família
  54. mantê-la em segurança.
  55. Até expliquei como, aos 13 anos,
    não me sentia como um adolescente,
  56. mas mais como um soldado
    com uma missão.
  57. E, como qualquer soldado,
  58. isso significava carregar
    uma carga emocional aos ombros
  59. e — detesto dizer isto —
  60. uma arma à cintura.
  61. Poucos dias depois
    do meu 17.º aniversário,
  62. essa missão falhou totalmente.
  63. Quando a minha irmã e eu
    nos dirigíamos à lavandaria,

  64. uma multidão parou à nossa frente.
  65. Duas raparigas, surgidas não sei de onde,
    atacaram a minha irmã.
  66. Ainda confuso com o que estava a acontecer
    tentei puxar por uma das raparigas
  67. e quando o fiz, senti uma coisa rija
    na minha cara.
  68. Com a adrenalina a bombar,
  69. não percebi que um homem tinha saído
    da multidão para me esfaquear.
  70. Quando senti o sangue quente
    a escorrer pelo meu rosto,
  71. e o vi a levantar a faca para mim,
    outra vez,
  72. virei-me para me defender,
    puxei da arma do cinto
  73. e apertei o gatilho.
  74. Felizmente, ele não perdeu a vida
    naquele dia.
  75. Com as mãos a tremer e o coração a bater,
    fiquei paralisado de medo.
  76. A partir daquele momento,
  77. senti um arrependimento
    que nunca mais me largou.
  78. Soube depois que tinham atacado
    a minha irmã,

  79. por uma confusão de identidade,
  80. pensando que ela era outra pessoa.
  81. Foi aterrorizador,
  82. mas foi óbvio que eu não tinha treino,
    nem qualificações
  83. para ser o soldado
    que eu julgava precisar de ser.
  84. Mas no meu bairro
  85. só me sentia seguro, se tivesse uma arma.
  86. Voltando à sala de aulas,
    depois de ouvirem a minha história,

  87. os promotores puderam dizer
    que eu nunca quisera ferir mais ninguém.
  88. Eu só queria voltar para casa.
  89. Pude ver, literalmente,
    a mudança gradual na cara de todos eles
  90. à medida que ouviam
    história após história
  91. dos outros presos na sala.
  92. Histórias que encurralaram muitos de nós
  93. no ciclo vicioso da prisão
  94. de que muitos não se conseguem libertar.
  95. E claro, há pessoas que fizeram
    crimes terríveis.
  96. Mas as histórias da vida
    daqueles indivíduos
  97. antes de terrem praticado tais atos
  98. eram histórias de um tipo
    que os promotores nunca tinham ouvido.
  99. Quando chegou a vez deles
    de falar — os promotores —

  100. eu também fiquei surpreendido.
  101. Não eram "drones" nem robôs em emoções,
  102. programados para enviar
    pessoas para a prisão.
  103. Eram filhos e filhas,
  104. irmãos e irmãs.
  105. Mas sobretudo eram bons alunos.
  106. Eram ambiciosos e motivados.
  107. Acreditavam que podiam usar
    o poder da lei para proteger as pessoas.
  108. Tinham uma missão
    que eu compreendia muito bem.
  109. A meio do curso, Nick,
    um estudante preso,

  110. manifestou a sua preocupação
  111. de que os promotores estavam com rodeios
  112. sobre o preconceito racial
    e a discriminação
  113. no nosso sistema de justiça.
  114. Se já estiveram numa prisão,
  115. devem saber que é impossível
    falar sobre a reforma da justiça
  116. sem falar de racismo.
  117. Por isso, silenciosamente,
    aplaudimos Nick
  118. e ficámos ansiosos por ouvir
    a resposta dos promotores.
  119. Não me lembro quem falou primeiro
  120. mas, quando Chauncey Parker,
    um promotor mais velho,
  121. concordou com Nick
  122. e disse que estava empenhado em acabar
    com a prisão em massa de pessoas de cor,
  123. acreditei nele.
  124. Percebi que estávamos a caminhar
    na direção certa.
  125. Começámos a funcionar como uma equipa.
  126. Começámos a explorar novas possibilidades
  127. e a descobrir verdades
    sobre o nosso sistema de justiça
  128. e como, para nós, acontece
    uma verdadeira mudança.
  129. Para mim, não foram os programas
    obrigatórios dentro da prisão.

  130. Em vez disso, eu dava ouvidos
    aos conselhos dos mais velhos
  131. — homens que tinham sido condenados
    a passar o resto da vida na prisão.
  132. Esses homens ajudaram-me a refazer
    a minha mentalidade sobre a masculinidade.
  133. Instilaram-me todas
    as suas aspirações e objetivos,
  134. na esperança de eu nunca mais
    voltar para a prisão
  135. e de eu poder ser seu embaixador
    no mundo livre.
  136. Enquanto eu falava, vi a luz
    acender-se num dos promotores
  137. que disse uma coisa
    que me parecia óbvia:
  138. que eu me tinha transformado
    apesar de estar preso
  139. e não por causa disso.
  140. Era óbvio que estes promotores
    nunca tinham pensado muito

  141. no que nos acontece
    depois de sermos condenados.
  142. Mas, através do simples processo
    de estar numa sala de aulas,
  143. aqueles advogados começaram a ver
    que manter-nos encarcerados
  144. não beneficiava a nossa comunidade
  145. nem a nós próprios.
  146. Para o fim do curso, os promotores
    estavam entusiasmados,

  147. quando falámos sobre os nossos planos
    para a vida depois de sermos libertados.
  148. Mas não se tinham apercebido
    como isso iria ser difícil.
  149. Ainda posso ver o choque
  150. na cara de uma das mais novas
    quando se apercebeu
  151. do BI temporário que nos deram
    com a nossa liberdade
  152. que referia que tínhamos acabado
    de sair da prisão.
  153. Ela não tinha imaginado
    quantas barreiras isso nos iria criar
  154. quando reentrássemos na sociedade.
  155. Mas também pude ver
    a sua genuína empatia
  156. pela escolha que tivemos de fazer
  157. entre voltar para casa
    numa cama num abrigo
  158. ou num sofá num apartamento
    superlotado de um familiar.
  159. O que aprendemos nas aulas

  160. resultou em recomendações
    de políticas concretas.
  161. Apresentámos as nossas propostas
  162. ao comissário do Departamento de Correção
  163. e ao procurador de Manhattan,
  164. na cerimónia de graduação
    num auditório apinhado da Columbia.
  165. Enquanto equipa,
  166. eu não podia ter imaginado
    uma forma mais memorável
  167. de concluir aquelas oito semanas juntos.
  168. Ao fim de 10 meses
    depois de sairmos da prisão,

  169. voltei a encontrar-me numa sala estranha,
  170. convidado pelo comissário do NYPD
    para partilhar a minha perspetiva
  171. numa cimeira de polícias.
  172. Enquanto estava a falar,
  173. reconheci uma cara familiar
    na audiência.
  174. Era o promotor público do meu processo.
  175. Quando o vi,
  176. pensei naqueles dias no tribunal
  177. sete anos antes,
  178. enquanto ele recomendava
    uma longa sentença de prisão,
  179. como se a minha vida de jovem
    não tivesse sentido
  180. e não tivesse potencial.
  181. Mas, naquela altura,
    as circunstâncias eram diferentes.
  182. Afastei os meus pensamentos
  183. e fui ter com ele para lhe apertar a mão.
  184. Ele pareceu feliz por me ver.
  185. Surpreendido, mas feliz.
  186. Mostrava como se sentia orgulhoso
    por estar na mesma sala comigo
  187. e começámos uma conversa
    sobre trabalharmos em conjunto
  188. para melhorar as condições
    da nossa comunidade.
  189. Assim, atualmente,

  190. transporto comigo todas estas experiências
  191. enquanto desenvolvo
    o Conselho de Jovens Embaixadores
  192. da Universidade da Columbia,
  193. juntando os jovens nova-iorquinos
  194. — alguns dos quais já estiveram presos
  195. e outros que ainda estão inscritos
    na faculdade —
  196. com funcionários da cidade.
  197. Nesta sala de aulas,
  198. todos apresentam as suas ideias
  199. para melhorar a vida
    dos jovens mais vulneráveis da cidade
  200. antes de serem postos à prova
    no sistema de justiça criminal.
  201. Isto é possível, se trabalharmos.

  202. A nossa sociedade e o sistema judicial
    convenceram-nos
  203. de que podemos acabar
    com os nossos problemas
  204. e punir, para evitar problemas sociais.
  205. Mas a realidade não é essa.
  206. Imaginem por instantes
  207. um futuro em que ninguém
  208. possa vir a ser promotor,
  209. nem juiz,
  210. nem polícia,
  211. nem sequer um funcionário
    de liberdade condicionada
  212. sem primeiro assistir a aulas,
  213. entrar em contacto e aprender
  214. com as pessoas cuja vida
    está nas suas mãos.
  215. Faço o meu papel para promover
    o poder da conversa

  216. e a necessidade de colaboração.
  217. É através da educação
  218. que chegaremos a uma verdade
    que seja inclusiva e nos una a todos
  219. na procura da justiça.
  220. Para mim, foi uma conversa
    completamente nova
  221. e um novo tipo de aulas
  222. que me mostrou como
    a minha mentalidade
  223. e o nosso sistema de justiça criminal
  224. podiam ser transformados.
  225. Dizem que a verdade nos liberta.

  226. Mas eu creio
  227. que é a educação
  228. e a comunicação.
  229. Obrigado.

  230. (Aplausos)