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← O que promotores e detentos podem aprender uns com os outros?

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Showing Revision 18 created 07/09/2019 by Custodio Marcelino.

  1. Quando me olho no espelho hoje,
  2. vejo um estudioso de justiça e educação
    da Universidade Columbia,
  3. um mentor de jovens, um ativista
  4. e um futuro senador
    do estado de Nova York.
  5. (Vivas)

  6. Vejo tudo isso

  7. e um homem que passou um quarto
    de sua vida em uma prisão estadual,
  8. seis anos, para ser exato,
  9. começando como adolescente
    em Rikers Island
  10. por um ato que quase custou
    a vida de um homem.
  11. Mas o que me trouxe de lá para cá
  12. não foi o castigo que enfrentei
    quando adolescente na prisão adulta,
  13. nem a crueldade de nosso sistema jurídico.
  14. Em vez disso, foi um ambiente
    de aprendizado de uma sala de aula
  15. que me apresentou a algo que eu achava
    que não era possível para mim
  16. ou para nosso sistema
    de justiça como um todo.
  17. Poucas semanas antes
    de minha liberdade condicional,

  18. um conselheiro incentivou a me matricular
  19. em um curso universitário novo
    oferecido na prisão.
  20. Chamava-se "Inside Criminal Justice".
  21. Parece bastante simples, não é mesmo?
  22. Acontece que a turma
    seria composta por oito detentos
  23. e oito promotores públicos assistentes.
  24. A professora Geraldine Downey,
    de psicologia, da Universidade Columbia,
  25. e a promotora assistente
    de Manhattan, Lucy Lang,
  26. davam o curso,
  27. que era o primeiro do tipo.
  28. Posso dizer sinceramente

  29. que não foi assim que imaginei
    começar a faculdade.
  30. Fiquei impressionado desde o início.
  31. Presumi que todos os promotores
    da sala seriam brancos.
  32. Mas lembro-me de entrar na sala
    no primeiro dia de aula
  33. e ver três promotores negros
  34. e pensar comigo mesmo:
  35. "Uau!
  36. Ser procurador negro...
  37. Que demais!"
  38. (Risos)

  39. No final da primeira sessão,

  40. eu estava todo envolvido.
  41. De fato, algumas semanas
    após minha libertação,
  42. eu me vi fazendo algo
    que rezei para não fazer.
  43. Voltei à prisão.
  44. Mas, felizmente, dessa vez,
    foi apenas como aluno,
  45. para me juntar a meus colegas de turma.
  46. Dessa vez,
  47. pude ir para casa ao término da aula.
  48. Na sessão seguinte,

  49. falamos sobre o que trouxe cada um de nós
    a esse momento da vida e à sala de aula.
  50. Por fim, fiquei bastante à vontade
    para revelar a todos na sala a verdade
  51. sobre minhas origens.
  52. Falei sobre como minhas irmãs e eu
    vimos nossa mãe sofrer anos de abuso
  53. nas mãos de nosso padrasto,
  54. fugindo, só para nos encontrarmos
    vivendo em um abrigo.
  55. Falei sobre como fiz um juramento
    a meus familiares
  56. para mantê-los seguros.
  57. Até expliquei como eu não me sentia
    como um adolescente aos 13 anos,
  58. mas mais como um soldado em uma missão.
  59. E, como qualquer soldado,
  60. isso significava carregar uma carga
    emocional em meus ombros
  61. e detesto dizer isso,
  62. mas uma arma em minha cintura.
  63. Apenas alguns dias após
    meu aniversário de 17 anos,
  64. essa missão fracassou completamente.
  65. Quando minha irmã e eu
    estávamos indo à lavanderia,

  66. uma multidão parou à nossa frente.
  67. Duas garotas atacaram minha irmã do nada.
  68. Ainda confuso sobre o que estava
    acontecendo, tentei afastar uma garota
  69. e, enquanto isso, senti algo
    tocar meu rosto.
  70. Com minha adrenalina correndo,
  71. não percebi que um homem
    havia saltado da multidão e me cortado.
  72. Quando senti sangue quente
    escorrendo pelo meu rosto,
  73. e o vi levantar a faca
    em minha direção novamente,
  74. virei para me defender,
    puxei a arma da cintura
  75. e apertei o gatilho.
  76. Felizmente, ele não perdeu
    a vida naquele dia.
  77. As mãos tremendo e o coração acelerado,
    fiquei paralisado de medo.
  78. A partir daquele momento,
  79. senti um arrependimento
    que nunca me deixaria.
  80. Mais tarde, soube que atacaram minha irmã
    em um caso de erro de identidade,

  81. pensando que ela fosse outra pessoa.
  82. Foi aterrorizante,
  83. mas claro que não fui treinado,
    nem estava qualificado
  84. para ser o soldado que eu achava
    que precisava ser.
  85. Mas, em meu bairro,
  86. eu só me sentia seguro portando uma arma.
  87. Agora, de volta à sala de aula,
    depois de ouvir minha história,

  88. os promotores puderam dizer
    que nunca quis ferir ninguém.
  89. Só queria que fôssemos para casa.
  90. Pude ver a mudança gradual
    no rosto de cada um deles
  91. conforme ouviam uma história após a outra
  92. dos outros detentos na sala.
  93. Histórias que prenderam muitos de nós
    dentro do ciclo vicioso do encarceramento,
  94. do qual a maioria não conseguiu se livrar.
  95. Com certeza, há pessoas
    que cometem crimes terríveis.
  96. Mas as histórias de vida delas,
  97. antes de cometerem esses atos,
  98. eram do tipo que os promotores
    nunca tinham ouvido.
  99. Quando chegou a vez deles falarem,

  100. também fiquei surpreso.
  101. Eles não eram drones,
    nem "robocops" sem emoção,
  102. pré-programados para mandar
    pessoas para a prisão.
  103. Eram filhos e filhas,
  104. irmãos e irmãs,
  105. mas, acima de tudo, bons alunos.
  106. Eram ambiciosos e motivados
  107. e acreditavam que poderiam usar
    o poder da lei para proteger as pessoas.
  108. Eles estavam em uma missão
    que eu, com certeza, conseguia entender.
  109. Na metade do curso, Nick,
    um colega aluno detento,

  110. expressou sua preocupação
    de que os promotores
  111. evitavam confrontar
    o preconceito racial e a discriminação
  112. dentro de nosso sistema
    de justiça criminal.
  113. Quem já esteve na prisão
  114. sabe que é impossível falar
    sobre a reforma da justiça
  115. sem falar de raça.
  116. Então, vibramos em silêncio para o Nick
  117. e estávamos ansiosos
    pela resposta dos promotores.
  118. Não me lembro de quem falou primeiro,
  119. mas, quando Chauncey Parker,
    promotor sênior, concordou com Nick
  120. e disse que estava comprometido
  121. a acabar com o encarceramento
    em massa de pessoas de cor,
  122. acreditei nele.
  123. Eu sabia que estávamos
    indo na direção certa.
  124. Agora começamos a nos mover
    como uma equipe.
  125. Começamos a explorar novas possibilidades
  126. e revelar verdades
    sobre nosso sistema de justiça
  127. e como a mudança real
  128. acontece para nós.
  129. Para mim, não eram os programas
    obrigatórios dentro da prisão.

  130. Em vez disso, era ouvir
    o conselho dos mais velhos,
  131. homens condenados a passar
    o resto da vida na prisão.
  132. Esses homens me ajudaram a reformular
    minha mentalidade sobre a vida adulta.
  133. Eles incutiram em mim
    todas as aspirações e os objetivos deles,
  134. na esperança de que eu nunca
    voltaria à prisão,
  135. e que eu serviria como o embaixador
    deles para o mundo livre.
  136. Enquanto eu falava, pude ver
    a constatação de um promotor,
  137. que disse algo que achei óbvio:
  138. que eu havia me transformado
    apesar de meu encarceramento
  139. e não por causa dele.
  140. Estava claro que esses promotores
    não pensavam muito

  141. sobre o que acontece conosco
    após a condenação.
  142. Mas, pelo simples ato de se sentar
    em uma sala de aula,
  143. esses advogados começaram a ver
    que o fato de nos manter presos
  144. não beneficiava nossa comunidade
  145. nem nós.
  146. Próximo ao final do curso,
    os promotores ficaram animados,

  147. quando falamos sobre nossos planos
    para a vida depois de sermos libertados.
  148. Mas eles não haviam percebido
    como, na verdade, seria difícil.
  149. Ainda consigo ver o choque no rosto
    de uma promotora assistente
  150. quando se deu conta:
  151. a identidade temporária dada a nós
    com nossa liberdade
  152. mostrava que acabávamos
    de ser libertados da prisão.
  153. Ela não havia imaginado
    quantas barreiras isso criaria para nós
  154. ao voltarmos para a sociedade.
  155. Mas eu também conseguia ver
    a empatia sincera dela
  156. pela escolha que tivemos que fazer
  157. entre voltar para casa
    a uma cama em um abrigo
  158. ou a um sofá no apartamento
    superlotado de um parente.
  159. O que aprendemos na aula

  160. funcionou para recomendações
    de políticas concretas.
  161. Apresentamos nossas propostas
  162. ao comissário estadual
    do Departamento de Correções
  163. e ao promotor público de Manhattan,
  164. em nossa formatura
    num auditório lotado da Columbia.
  165. Como equipe,
  166. eu não poderia imaginar
    um modo mais memorável
  167. de concluir nossas oito semanas juntos.
  168. Apenas dez meses
    após chegar em casa da prisão,

  169. eu me encontrei novamente
    em uma sala estranha,
  170. convidado pelo comissário
    da polícia de Nova York
  171. para compartilhar minha perspectiva
  172. em uma cúpula de policiamento.
  173. Enquanto eu falava,
  174. reconheci um rosto familiar na plateia.
  175. Era o advogado que havia
    processado meu caso.
  176. Ao vê-lo,
  177. pensei em nossos dias no tribunal,
  178. sete anos atrás,
  179. enquanto o ouvia recomendar
    uma longa pena de prisão,
  180. como se minha vida jovem
    não tivesse sentido
  181. nem potencial.
  182. Mas, dessa vez,
  183. as circunstâncias eram diferentes.
  184. Eu me livrei de meus pensamentos
  185. e me aproximei para apertar a mão dele.
  186. Ele parecia feliz em me ver.
  187. Surpreso, mas feliz.
  188. Ele admitiu que estava orgulhoso
    de estar naquela sala comigo,
  189. e começamos a conversar
    sobre trabalhar juntos
  190. para melhorar as condições
    de nossa comunidade.
  191. E hoje,

  192. carrego todas essas experiências comigo,
  193. enquanto desenvolvo o "Justice Ambassadors
    Youth Council" na Universidade Columbia,
  194. trazendo jovens nova-iorquinos,
    alguns que já passaram um tempo presos
  195. e outros ainda matriculados
    no ensino médio,
  196. junto com os funcionários da cidade.
  197. Nessa sala de aula,
  198. todos irão propor ideias
  199. sobre como melhorar a vida dos jovens
    mais vulneráveis da cidade
  200. antes de serem julgados
    dentro do sistema de justiça criminal.
  201. Isso é possível se fizermos o trabalho.

  202. Nosso sistema de justiça
    e sociedade nos convenceu
  203. de que podemos trancar nossos problemas
  204. e forçar nosso caminho
    por desafios sociais.
  205. Mas isso não é real.
  206. Imaginem comigo por um instante
  207. um futuro em que ninguém possa se tornar
  208. promotor,
  209. juiz,
  210. policial
  211. ou até mesmo oficial da condicional
  212. sem primeiro se sentar em uma sala de aula
  213. para aprender e se conectar
  214. com as próprias pessoas
    cuja vida estará em suas mãos.
  215. Faço minha parte para promover
    o poder das conversas

  216. e a necessidade de colaborações.
  217. É por meio da educação
  218. que chegaremos a uma verdade
    que seja inclusiva e unificadora
  219. na busca da justiça.
  220. Para mim, foi uma conversa totalmente nova
  221. e um tipo novo de sala de aula
  222. que me mostrou como minha mentalidade
  223. e nosso sistema de justiça criminal
  224. poderiam ser transformados.
  225. Dizem que a verdade nos libertará.

  226. Mas acredito
  227. que seja a educação
  228. e a comunicação.
  229. Obrigado.

  230. (Aplausos)

  231. (Vivas)