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Showing Revision 14 created 04/20/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Sou uma imigrante da Venezuela
  2. e vivo nos EUA há seis anos.
  3. Se me questionarem sobre
    a minha vida como expatriada,
  4. diria que tenho tido sorte.
  5. Mas, não tem sido fácil.
  6. Em criança, nunca pensei
    que iria deixar o meu país.

  7. Participei pela primeira vez
    numa manifestação estudantil em 2007,
  8. quando o Presidente fechou um dos canais
    de notícias mais importantes.
  9. Estava a graduar-me em Comunicação
  10. e, pela primeira vez, soube que
    a liberdade de expressão não é garantida.
  11. Sabíamos que estava a ficar mal,
    mas não esperávamos o que aí vinha:

  12. uma crise económica,
    o colapso das infraestruturas,
  13. apagões de eletricidade em toda a cidade,
  14. o declínio da saúde pública
    e a falta de medicamentos,
  15. surtos de doenças e fome.
  16. Mudei-me para o Canadá,
    com o meu marido, em 2013
  17. e sempre pensámos que voltaríamos
    para casa quando a crise melhorasse.
  18. Mas, nunca voltámos.
  19. Quase todos os meus amigos de infância
    deixaram o país,
  20. mas os meus pais ainda continuam lá.
  21. Houve momentos em que
    telefonei à minha mãe
  22. e ouvia pessoas aos gritos
    e a chorar, no fundo,
  23. enquanto bombas de gás lacrimogéneo
    explodiam nas ruas.
  24. A minha mãe, como se eu
    não conseguisse ouvir, dizia sempre:
  25. (em espanhol)
    "Não te preocupes, Juanita.

  26. "Estamos bem, não te preocupes."
  27. Mas, claro que me preocupo.
  28. São os meus pais
    e estou a 6500 km de distância.
  29. Hoje, sou só mais uma
    dos quatro milhões de venezuelanos

  30. que deixaram o seu país.
  31. Muitos amigos meus
    são imigrantes venezuelanos,
  32. e nos últimos anos,
  33. começámos a falar sobre
    como podemos fazer a diferença
  34. quando vivemos tão longe.
  35. Foi assim que, em 2019,
    nasceu Code for Venezuela.
  36. Começou com um "hackathon"
    porque somos especialistas em tecnologia

  37. e pensámos que podíamos usar
    as nossas competências
  38. para criar soluções
    para as pessoas no terreno.
  39. Mas, primeiro, foi necessário encontrar
    especialistas que residissem na Venezuela
  40. para nos guiarem.
  41. Víamos tantos outros "hackathons"
  42. que surgiam com astúcia, ambição
    e soluções tecnológicas incríveis
  43. que, em teoria, pareciam ótimas,
    mas que, em última análise, falharam
  44. nos países que era suposto ajudar.
  45. Muitos de nós vivem no estrangeiro há anos
  46. e estamos distanciados
    dos problemas do quotidiano
  47. que os venezuelanos enfrentam.
  48. Assim, procurámos especialistas
    que vivessem dentro do país.
  49. Por exemplo, Julio Castro,

  50. um médico e um dos líderes
    dos Médicos por la Salud.
  51. Quando o governo deixou de publicar
    dados oficiais sobre a saúde em 2015,
  52. o Dr. Julio começou a recolher
    informações sozinho,
  53. utilizando um sistema informal
    mas coordenado
  54. de comunicações por telefone.
  55. Localizam pessoal disponível,
    equipamento médico, dados de mortalidade,
  56. surtos de doenças,
  57. compilam os dados num relatório,
  58. e partilham a informação no Twitter.
  59. Ele tornou-se o nosso especialista
    de saúde a quem recorremos na Venezuela.
  60. Luis Carlos Díaz,

  61. um jornalista amplamente reconhecido
    que relata atos de censura
  62. e violações dos direitos humanos
    sofridas pelos venezuelanos,
  63. ajuda-nos a perceber
    o que está a acontecer lá,
  64. já que as notícias
    são controladas pelo governo.
  65. Apelidamos estas pessoas
    de nossos heróis no terreno.

  66. Com o seu conselho especializado,
    elaboramos uma série de desafios
  67. para os participantes do "hackathon".
  68. No primeiro "hackathon"
    tivemos 300 participantes
  69. de sete países
  70. que apresentaram
    16 projetos diferentes.
  71. Selecionámos os projetos
    com maior potencial
  72. e continuámos a trabalhar
    neles depois do evento.
  73. Hoje, vou partilhar dois
    dos nossos projetos mais bem sucedidos
  74. para mostrar-vos o impacto
    que temos tido até agora.
  75. São o MediTweet
    e o Blackout Tracker.
  76. O MediTweet é um robô inteligente
    no Twitter

  77. que ajuda os venezuelanos
    a encontrar o medicamento que precisam.
  78. Neste momento na Venezuela
  79. quem adoecer e recorrer a um hospital,
  80. tem grande possibilidade de não
    obter o medicamento para se tratar.
  81. A situação é tão má
  82. que os doentes, muitas vezes,
    recebem uma "lista de compras" do médico
  83. em vez de uma receita.
  84. Eu presenciei esta necessidade
    em primeira mão.

  85. A minha mãe foi diagnosticada
    com cancro em 2015.
  86. Necessitava de uma punção lombar
  87. para receber um diagnóstico final
    e um plano de tratamento.
  88. Mas, não havia agulhas
    para esse procedimento.
  89. Eu estava na Venezuela, naquela época
  90. e presenciava o estado de saúde
    da minha mãe a piorar todos os dias.
  91. Depois de procurar em todo o lado
    encontrámos a agulha num "site"
  92. semelhante ao eBay na América Latina.
  93. Encontrei-me com o vendedor numa padaria,
  94. foi como fazer compras no mercado negro.
  95. A minha mãe levou a agulha ao médico
    e ele fez o procedimento.
  96. Sem aquilo, ela podia ter morrido.
  97. Mas não são só os suprimentos médicos,

  98. também são os medicamentos.
  99. Quando foi diagnosticada
    pela primeira vez,
  100. comprámos o medicamento
    numa farmácia estatal,
  101. e foi praticamente gratuito.
  102. Mas a farmácia estatal
    esgotou o medicamento
  103. e ainda faltavam seis meses
    para o tratamento terminar.
  104. Seis meses para terminar o tratamento.
  105. Comprámos alguns medicamentos "online"
    e o resto no México.
  106. Neste momento,
    está no terceiro ano de regressão
  107. e sempre que lhe telefono, ela diz-me:
  108. "Estou bem, não te preocupes."
  109. Mas nem todos podem
    dar-se ao luxo de deixar o país

  110. e muitos não têm saúde para viajar.
  111. É por isso que as pessoas
    recorrem ao Twitter,
  112. para comprar e vender medicamentos
    usando o "hashtag" #ServicioPublico,
  113. que quer dizer "serviço público".
  114. O nosso "Twitter bot" percorre o Twitter
    à procura do "hashtag" #ServicioPublico
  115. e associa os utilizadores
    que procuram medicamentos específicos
  116. aos utilizadores que estão a vender
    os excedentes pessoais.
  117. Também reunimos dados de localização
    desses utilizadores do Twitter
  118. e utilizamo-los numa ferramenta
    de visualização.
  119. Fornece às organizações locais,
    como a Médicos por la Salud
  120. uma ideia onde estão em falta.
  121. Também podemos aplicar
    algoritmos de aprendizagem de máquina
  122. para identificar nichos de doenças.
  123. Se receberam ajuda humanitária
  124. isto pode ajudá-los
    a tomarem decisões melhores
  125. sobre a distribuição dos materiais.
  126. O nosso segundo projeto,
    é o Blackout Tracker.

  127. A Venezuela está atualmente a passar
    por uma crise de eletricidade.
  128. No ano passado, a Venezuela sofreu
    o que alguns consideram,
  129. os piores cortes de energia
    na história da Venezuela.
  130. Fiquei dois longos dias sem poder
    comunicar com os meus pais.
  131. Algumas cidades sofrem
    apagões todos os dias.
  132. Mas só sabemos disto
    pelas redes sociais.
  133. O governo não reporta
    os apagões nas notícias.
  134. Quando a energia falha,
  135. muitos venezuelanos partilham rapidamente
    a localização com o "hashtag" #SinLuz,
  136. que significa "sem eletricidade",
  137. antes de os seus telefones
    ficarem sem bateria.
  138. Assim, as pessoas no país
    sabem o que está a acontecer.
  139. Tal como o MediTweet,
  140. o Blackout Tracker percorre o Twitter
    à procura do "hashtag" #SinLuz
  141. e cria um mapa recorrendo
    à localização desses utilizadores.
  142. Rapidamente, podemos ver
  143. onde estão a decorrer apagões hoje
  144. e quantos apagões
    decorreram ao longo do tempo.
  145. As pessoas querem saber
    o que está a acontecer,

  146. e esta é a nossa resposta.
  147. Mas é também uma forma
    de responsabilizar o governo.
  148. É fácil negarem que os problemas existem
  149. ou arranjarem desculpas,
  150. porque não existem dados oficiais
    sobre o assunto.
  151. O Blackout Tracker mostra quão mau
    o problema realmente é.
  152. Algumas pessoas em Silicon Valley
    podem olhar para estes projetos

  153. e dizer que não são
    tecnologicamente inovadores.
  154. Mas o objetivo é esse.
  155. Estes projetos não são
    extremamente avançados,
  156. mas são o que as pessoas
    na Venezuela necessitam,
  157. e podem ter um impacto enorme.
  158. Para além destes projetos,
    a nossa conquista mais significativa
  159. talvez tenha sido
    a criação de um movimento,

  160. em que as pessoas de todo o mundo
    se juntam para utilizar
  161. as suas competências profissionais
    para criar soluções para os venezuelanos.
  162. E como fazemos parcerias
    com os nativos,
  163. estamos a criar soluções
    que as pessoas querem e precisam.
  164. O que é extraordinário nisto

  165. é que utilizamos as nossas
    competências profissionais,
  166. e assim, resulta fácil e natural.
  167. Não nos é difícil marcar a diferença.
  168. Se alguém em São Francisco
  169. contratasse profissionais
    para criar soluções
  170. como o MediTweet ou o Blackout Tracker,
  171. isso iria custar uma pequena fortuna.
  172. Doando os nossos serviços,
  173. estamos a causar um impacto maior
    do que se doássemos apenas dinheiro.
  174. E vocês podem fazer o mesmo,

  175. não necessariamente na Venezuela,
  176. mas, na vossa própria comunidade.
  177. Num mundo que está
    mais interligado do que nunca,
  178. ainda se veem comunidades especializadas
    a viver isoladas ou em silos.
  179. Existem muito boas formas de ajudar,
  180. mas acredito que vocês podem usar
    as vossas competências profissionais
  181. para unir diversas comunidades
    e criar soluções eficazes
  182. através dessas relações.
  183. Qualquer pessoa com conhecimentos
    e competências profissionais

  184. tem uma força poderosa
    para dar esperança a uma comunidade.
  185. Para nós, no Code for Venezuela
  186. isto é só o início.
  187. Obrigada.

  188. (Aplausos)