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Showing Revision 26 created 04/06/2020 by Elisa Santos.

  1. Sou imigrante da Venezuela
  2. e moro nos Estados Unidos há seis anos.
  3. Se vocês me perguntarem
    sobre minha vida como expatriada,
  4. eu diria que tive sorte.
  5. Mas não tem sido fácil.
  6. Quando criança, nunca pensei
    que deixaria minha terra natal.

  7. Participei de meu primeiro
    protesto estudantil em 2007,
  8. quando o presidente fechou
  9. uma das mais importantes
    redes de notícias.
  10. Eu estava obtendo meu diploma
    de bacharel em comunicação,
  11. e aquela foi a primeira vez
  12. que percebi que não podia dar
    a liberdade de expressão por certa.
  13. Sabíamos que as coisas iriam piorar,
    mas nunca vimos o que estava por vir:

  14. crise econômica,
    colapso da infraestrutura,
  15. apagões em toda a cidade,
  16. declínio dos serviços de saúde pública
    e escassez de medicamentos,
  17. surtos de doenças e fome.
  18. Eu me mudei para o Canadá
    com meu marido em 2013,
  19. e sempre pensávamos em voltar para casa
    quando a crise passasse.
  20. Mas nunca voltamos.
  21. Quase todos os meus amigos
    de infância deixaram o país,
  22. mas meus pais ainda estão lá.
  23. Havia momentos em que eu
    telefonava para minha mãe
  24. e ouvia pessoas
    gritando e chorando ao fundo
  25. enquanto bombas de gás lacrimogêneo
    explodiam nas ruas.
  26. Minha mãe, como se eu não pudesse
    ouvir aquilo, sempre me dizia:
  27. (Espanhol) "Não se preocupe,
    Johannita, estamos bem".

  28. "Estamos bem, não se preocupe."

  29. Mas é claro que me preocupo.
  30. São meus pais, e estou
    a cerca de 6,5 mil km de distância.
  31. Hoje, sou apenas uma
    dos mais de 4 milhões de venezuelanos

  32. que deixaram seu país de origem.
  33. Muitos de meus amigos
    são imigrantes venezuelanos
  34. e, nos últimos anos, começamos a falar
    sobre como poderíamos fazer a diferença
  35. quando moramos tão longe.
  36. Foi assim que surgiu
    Code for Venezuela em 2019.
  37. Tudo começou com um "hackathon",
    porque somos especialistas em tecnologia

  38. e achamos que poderíamos usar
    nossas habilidades tecnológicas
  39. para criar soluções
    para as pessoas no local.
  40. Mas, primeiro, precisávamos encontrar
    especialistas que morassem na Venezuela
  41. para nos guiar.
  42. Víamos tantos outros hackathons
  43. que propunham soluções tecnológicas
    engenhosas, ambiciosas e incríveis
  44. que pareciam ótimas na teoria,
  45. mas que, no final, não funcionavam
    nos países onde pretendiam ajudar.
  46. Muitos de nós moramos no exterior há anos
  47. e estamos afastados
    dos problemas do dia a dia
  48. que as pessoas enfrentam na Venezuela.
  49. Por isso, procuramos especialistas
    que moram no país.
  50. Por exemplo, Julio Castro,

  51. médico e um dos líderes
    da Médicos por la Salud.
  52. Quando o governo
    parou de publicar dados oficiais
  53. sobre assistência médica em 2015,
  54. o Dr. Julio começou a coletar informações
  55. usando um sistema informal,
    mas coordenado,
  56. de comunicações por telefone celular.
  57. O sistema localiza pessoal disponível,
    suprimentos médicos, dados de mortalidade,
  58. surtos de doenças;
  59. compila os dados num relatório
  60. e depois o compartilha no Twitter.
  61. Ele se tornou nosso especialista
    em assistência médica na Venezuela.
  62. Luis Carlos Díaz,

  63. jornalista amplamente reconhecido
    que denuncia atos de censura
  64. e violações de direitos humanos
    sofridos pelo povo da Venezuela,
  65. nos ajuda a entender
    o que está acontecendo lá,
  66. já que as notícias
    são controladas pelo governo.
  67. Chamamos essas pessoas
    de nossos heróis no local.

  68. Com seus conselhos de especialistas,
  69. sugerimos uma série de desafios
    aos participantes do hackathon.
  70. Naquele primeiro hackathon,
    tivemos 300 participantes de 7 países
  71. com 16 propostas de projetos diferentes.
  72. Escolhemos os projetos com maior potencial
  73. e continuamos a trabalhar neles
    depois do evento.
  74. Hoje vou compartilhar
    dois de nossos projetos de maior sucesso
  75. para lhes dar uma amostra
    do impacto que temos até agora.
  76. Eles se chamam MediTweet
    e Blackout Tracker.
  77. O MediTweet é um software
    inteligente do Twitter

  78. que ajuda os venezuelanos a encontrarem
    o medicamento de que necessitam.
  79. Neste momento, na Venezuela,
  80. se você ficar doente e for a um hospital,
  81. há uma boa chance de não haver
  82. os suprimentos médicos certos
    para seu tratamento.
  83. A situação está tão ruim
  84. que os pacientes geralmente recebem
    uma "lista de compras" do médico
  85. em vez de uma receita.
  86. Eu mesma passei por isso.

  87. Minha mãe foi diagnosticada
    com câncer em 2015.
  88. Ela precisava de uma punção lombar
  89. para obter um diagnóstico final
    e um plano de tratamento.
  90. Mas a agulha para esse procedimento
    não estava disponível.
  91. Eu estava na Venezuela naquela época
  92. e via minha mãe piorar
    diante de mim todos os dias.
  93. Após procurar em toda parte,
  94. encontramos a agulha num site
    que é como o eBay da América Latina.
  95. Fui ao vendedor numa padaria local,
  96. e foi como comprar algo ilegalmente.
  97. Minha mãe levou a agulha ao médico,
    e ele fez o procedimento.
  98. Sem isso, ela poderia ter morrido.
  99. Mas não são apenas suprimentos médicos,

  100. são medicamentos também.
  101. No primeiro diagnóstico dela,
  102. compramos o tratamento
    em uma farmácia do estado,
  103. praticamente gratuito.
  104. Mas então a farmácia ficou sem,
  105. e ainda tínhamos seis meses
    de tratamento pela frente.
  106. Seis meses de tratamento pela frente.
  107. Compramos alguns remédios on-line
    e o restante no México.
  108. Agora ela está no terceiro ano
    de melhora dos sintomas
  109. e, toda vez que telefono,
  110. ela me diz: "Estou bem, não se preocupe".
  111. Mas nem todos têm condições
    de deixar o país,

  112. e muitos não estão saudáveis
    o suficiente para viajar.
  113. É por isso que as pessoas
    recorrem ao Twitter,
  114. comprando e vendendo medicamentos
    usando a hashtag #ServicioPublico,
  115. que significa "serviço público".
  116. Nosso software do Twitter
    procura pela hashtag #ServicioPublico
  117. e conecta usuários que solicitam
    medicamentos específicos
  118. àqueles que vendem o que ainda resta.
  119. Também agrupamos os dados de localização
    desses usuários do Twitter
  120. e os usamos para uma ferramenta
    de visualização.
  121. Essa ferramenta dá a organizações locais,
    como Médicos por la Salud,
  122. uma noção de onde há escassez.
  123. Também podemos aplicar
    algoritmos de aprendizado de máquina
  124. para detectar grupos de doenças.
  125. Se elas recebessem ajuda humanitária,
  126. isso poderia ajudá-las
    a tomarem decisões melhores
  127. sobre a distribuição dos suprimentos.
  128. Nosso segundo projeto
    se chama Blackout Tracker.

  129. Atualmente, a Venezuela
    está passando por uma crise energética.
  130. No ano passado, a Venezuela sofreu
    o que algumas pessoas consideram
  131. as piores falhas de energia elétrica
    da história venezuelana.
  132. Passei dois longos dias
    sem me comunicar com meus pais.
  133. Algumas cidades
    sofriam apagões todos os dias.
  134. Mas só sabemos disso pelas mídias sociais.
  135. O governo não informa
    apagões nas notícias.
  136. Quando a energia elétrica acaba,
  137. muitos venezuelanos tuítam rapidamente
    o local com a hashtag #SinLuz,
  138. que significa "sem energia elétrica",
  139. antes que a bateria dos celulares acabe,
  140. para que as pessoas em todo o país
    saibam o que está acontecendo.
  141. Assim como o MediTweet,
  142. o Blackout Tracker procura
    pela hashtag #SinLuz no Twitter
  143. e cria um mapa usando os dados
    de localização desses usuários.
  144. Podemos ver rapidamente
  145. onde estão ocorrendo os apagões hoje
  146. e quantos ocorreram ao longo do tempo.
  147. As pessoas querem saber
    o que está acontecendo,

  148. e essa é nossa resposta.
  149. Mas é também uma maneira
    de responsabilizar o governo.
  150. É fácil para ele negar
    que o problema existe
  151. ou dar desculpas,
  152. porque não há dados oficiais a respeito.
  153. O Blackout Tracker mostra
    o quanto o problema vai mal.
  154. Algumas pessoas do Vale do Silício
    podem analisar esses projetos

  155. e dizer que não há inovações
    tecnológicas importantes.
  156. Mas essa é a questão.
  157. Esses projetos não são
    extremamente avançados,
  158. mas o povo da Venezuela precisa deles,
  159. e eles podem ter um impacto enorme.
  160. Além desses projetos, talvez
    nossa conquista mais significativa
  161. seja a criação de um movimento,
  162. no qual pessoas de todo o mundo se reúnem
  163. para usar suas habilidades profissionais
    e criar soluções para o povo da Venezuela.
  164. Como temos parceiros locais,
  165. criamos as soluções que as pessoas
    querem e das quais precisam.
  166. O bom disso é que estamos usando
    nossas habilidades profissionais,

  167. então é fácil e natural.
  168. Não é tão difícil para nós
    fazer a diferença.
  169. Se alguém de São Francisco
  170. contratasse profissionais
    para criar soluções,
  171. como o MediTweet ou o Blackout Tracker,
  172. isso custaria uma pequena fortuna.
  173. Ao doar nossos serviços,
  174. causamos um impacto maior
    do que se apenas doássemos dinheiro.
  175. Vocês podem fazer o mesmo,

  176. não na Venezuela, necessariamente,
  177. mas em sua própria comunidade.
  178. Em um mundo mais conectado do que nunca,
  179. ainda vemos como comunidades
    especializadas
  180. conseguem viver isoladas ou em silos.
  181. Existem muitas ótimas maneiras de ajudar,
  182. mas acredito que podemos usar
    nossas habilidades profissionais
  183. para conectar comunidades diversas
    e criar soluções eficazes
  184. por meio desses relacionamentos.
  185. Qualquer pessoa com conhecimento
    e habilidades profissionais

  186. tem uma força poderosa
    para levar esperança a uma comunidade.
  187. Para nós, do Code for Venezuela,
  188. isso é apenas o começo.
  189. Obrigada.

  190. (Aplausos)