Portuguese feliratok

← Porque é que se espalham boatos sobre as vacinas — e como recriar a confiança

Beágyazókód kérése
37 Languages

Showing Revision 4 created 10/01/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Eu estudo os boatos.
  2. Não os mexericos dos tabloides
  3. nem o tipo de boatos
    que provocam a queda das ações
  4. — ou a sua subida —
  5. mas o tipo de boatos
    que afetam a nossa saúde
  6. e a saúde de toda a gente.
  7. Por exemplo, comer muito alho
  8. ou beber muita água
  9. ajuda a proteger-nos do coronavírus
  10. — quem me dera!
  11. Os boatos têm má reputação.
  12. São considerados como não-factos,
  13. falsos,
  14. ou "apenas um boato".
  15. Mas eu estudo boatos há anos
  16. e uma coisa que aprendi
    é que todos eles têm uma história
  17. e, muitas vezes, uma história importante.
  18. Um dos episódios de boatos

  19. mais comovente
    ou mais alarmante que já investiguei
  20. foi no norte da Nigéria.
  21. Eu estava a trabalhar no programa
    de Imunização Global da UNICEF.
  22. Mas não foram os boatos em si mesmos
    que achei tão alarmantes:
  23. foi o impacto global desses boatos.
  24. Os boatos levantavam suspeitas
  25. de que a vacina da poliomielite
    era, na verdade, um contracetivo.
  26. Estava a controlar a população.
  27. Ou talvez causasse SIDA.
  28. Não, talvez fosse a CIA a usá-la
    para espiar ou contar a população.
  29. Porque é que punham pessoas
    a bater-lhes à porta, vezes sem conta,
  30. com a mesma vacina da poliomielite?
  31. Na época em que as crianças
    morriam com sarampo
  32. não tinha aparecido ninguém
    com vacinas para o sarampo.
  33. Isto não tinha a ver
    com má interpretação dos factos,

  34. tinha a ver com confiança.
  35. Tinha a ver com a quebra de confiança.
  36. Porquê tanta desconfiança?
  37. Na verdade, não eram as mães
    as pessoas mais desconfiadas.
  38. Eram os líderes locais,
  39. os líderes religiosos,
  40. os líderes políticos locais.
  41. Era o governador do estado de Kano
  42. que decidira boicotar
  43. toda a tentativa de erradicar
    a poliomielite naquele estado,
  44. durante 11 meses.
  45. Porquê tanta desconfiança?

  46. Foi em 2003,
  47. dois anos depois do 11 de Setembro.
  48. Estavam convencidos de que o Ocidente,
  49. em especial os EUA,
  50. estavam em guerra contra os muçulmanos.
  51. Sabiam que o Ocidente,
  52. em especial os EUA,
  53. era um grande apoiante
  54. — e fundador —
  55. da iniciativa mundial
    de erradicação da poliomielite.
  56. Tinham a sua lógica.
  57. Aquela falta de confiança,
  58. aquele "apenas um boato"
  59. custou 500 milhões de dólares ao programa
    de erradicação da poliomielite,
  60. para recomeçar do zero,
  61. para retomar o progresso perdido
    durante aqueles 11 meses
  62. e para além disso.
  63. O surto do vírus da poliomielite
    na Nigéria passou para mais 20 países,
  64. tão distantes como a Indonésia.
  65. Foi o preço de um boato.
  66. O episódio da Nigéria foi um
    dos muitos episódios que investiguei

  67. quando trabalhei com a UNICEF
  68. e conquistei o título de "diretora
    do departamento de incêndios da UNICEF".
  69. (Risos)

  70. Nessa altura, percebi que
    nunca tinha tempo suficiente.

  71. Andava muito atarefada a apagar fogos
    e não tinha tempo para perceber
  72. o que estava a provocar
    não apenas os episódios individuais,
  73. mas porque é que havia uma epidemia
    destes boatos pelo mundo inteiro.
  74. Saí da UNICEF e voltei à investigação

  75. — investigação aplicada —
  76. e iniciei em 2010 aquilo a que chamei
    o Projeto da Confiança nas Vacinas,
  77. na Escola de Higiene
    e Medicina Tropical, de Londres.
  78. Reuni antropólogos, epidemiologistas,
  79. psicólogos,
  80. especialistas em "media" digitais
  81. e criadores de modelos matemáticos.
  82. Determinámos que iríamos
    investigar episódios históricos de boatos
  83. e quais as suas consequências,
  84. tentando perceber quais eram
    os primeiros sinais,
  85. quais eram os fatores de amplificação
  86. e os seus efeitos,
  87. como é que ganhavam peso,
  88. para podermos compreender
    o que é que devíamos procurar,
  89. como podíamos ajudar os governos
  90. e os programas de imunização
    a estarem mais atentos e reativos
  91. aos primeiros sinais dos problemas.
  92. Era um sistema de aviso precoce.
  93. Em 2015, desenvolvemos um índice
    de confiança em vacinas.

  94. É uma sondagem que visa saber
    até que ponto as pessoas
  95. estão de acordo ou não
    quanto à importância das vacinas,
  96. se elas são seguras, se são eficazes
  97. — se funcionam —
  98. e se são compatíveis
    com as nossas crenças religiosas.
  99. Reunimos dados junto de centenas
    de milhares de pessoas em todo o mundo,
  100. tentando auscultar a confiança
  101. mas também para procurar os momentos
    em que essa confiança aumenta ou diminui,
  102. porque queríamos ver
    se, quando ela começa a diminuir,
  103. é a altura de agir,
  104. para intervir antes de haver
    uma crise como a da Nigéria.
  105. Também implementámos a monitorização
    permanente dos "media" e redes sociais
  106. a nível mundial
  107. — em diversas línguas —
  108. escutando o que se passava
    nas conversas sobre vacinas.
  109. tentando detetar as primeiras
    preocupações ou mudanças de opinião
  110. que merecessem a nossa atenção.
  111. Criámos um ecossistema
    de diversos tipos de informações

  112. para tentar perceber
  113. quais são as opiniões do público
    e como podemos intervir.
  114. Procuramos os primeiros sinais
  115. e, quando encontramos um deles,
  116. temos uma rede mundial de colaboradores
    numa série de países
  117. que têm mais informações
    locais nesse cenário
  118. para tentar perceber
  119. se é um sinal de má informação
  120. ou é alguma coisa que está
    a fervilhar e que devemos saber?
  121. Em Londres, temos uma imagem mais ampla.

  122. Observamos os enxames de boatos,
    não só os que viajam localmente
  123. mas os que saltam países.
  124. Já os vimos a saltar
    do Japão para a Colômbia,
  125. através da Europa e não só.
  126. Os boatos viajam.
  127. Vivemos num ambiente
    altamente interligado.
  128. Uma das coisas que achámos fascinante

  129. e aprendemos imenso
    nos últimos 10 anos
  130. — já fizemos 10 anos,
  131. este problema dos boatos
    não começou ontem —
  132. uma das coisas que aprendemos
  133. é que, na nossa monitorização mundial,
  134. a Europa é a região mais cética do mundo.
  135. A França é quem ganha o primeiro prémio.
  136. (Risos)

  137. De longe.

  138. Alguns desses boatos viajaram
    para outras partes do mundo.
  139. Mas tentámos perceber a Europa.
  140. Hum, porquê a Europa?
  141. Eu julgava que os EUA
  142. eram o país mais cético
  143. mas, meu Deus, estava enganada.
  144. Um cientista político,
    um colega com quem trabalhamos,

  145. Jon Kennedy,
  146. agarrou nos nossos dados
    de 28 países europeus,
  147. analisou-os
  148. e correlacionou-os
    com sondagens da opinião política.
  149. O que é que ele encontrou?
  150. Descobriu que as pessoas mais suscetíveis
    de votar num partido populista
  151. também são as que mais facilmente
    discordam profundamente
  152. de que as vacinas sejam importantes
    seguras ou eficazes.
  153. O que é que aprendemos?
  154. As vacinas não escapam à turbulência
    política e social
  155. que a rodeia.
  156. Os cientistas não estavam preparados
    para este tsunami de dúvidas,
  157. de questões e de desconfiança.
  158. Porque é que as vacinas
    são tão suscetíveis à resistência?

  159. Identificámos uma série de coisas,
  160. uma delas em especial:
  161. o governo intervém muito
  162. que exige, regulamenta
    e, por vezes, recomenda as vacinas
  163. — ou frequentemente recomenda
    e, por vezes, exige.
  164. As grandes empresas fabricam as vacinas
  165. e nenhuma dessas instituições,
    quer o governo quer as grandes empresas,
  166. são de confiança neste momento.
  167. Depois há cientistas que descobrem
    e desenvolvem vacinas
  168. e pertencem a uma elite
  169. que não é acessível ao público em geral,
  170. pelo menos, quanto à linguagem que usam.
  171. Em terceiro lugar, vivemos hoje
    num mundo altamente interligado
  172. graças às redes sociais
  173. e as pessoas podem partilhar
    livremente as suas opiniões,
  174. interesses, ansiedades e preocupações
  175. e encontrar muita gente
    que pensa da mesma maneira
  176. e pensam que talvez valha a pena
    prestar atenção às suas preocupações.
  177. Finalmente, as vacinas dizem respeito
    a toda a gente no planeta.
  178. Que outra intervenção,
    a nível da saúde,
  179. para além do acesso à água,
  180. toca na vida de toda a gente?
  181. Se querem perturbar qualquer coisa,
  182. as vacinas são uma oportunidade perfeita.
  183. Talvez seja essa uma das razões
    de que precisamos prestar mais atenção

  184. e refazer a nossa confiança nos problemas.
  185. As pessoas estão a fazer
    todo o tipo de perguntas.
  186. Andam a perguntar
  187. porque é que as vacinas
  188. — isto é o tipo de coisas
    que ouvimos nas redes sociais —
  189. porque é que o meu filho não pode ter
    um calendário de vacinação personalizado?
  190. Qual é a justificação para tantas vacinas?
  191. Qual o papel de todos esses
    ingredientes e conservantes?
  192. Estas pessoas não são malucas,
  193. não são analfabetas,
  194. são mães preocupadas.
  195. Mas algumas delas vieram
    ter comigo e disseram:
  196. "Sentimo-nos ignoradas,
    somos julgadas se fazemos uma pergunta,
  197. "e até nos sentimos demonizadas
  198. "e acusam-nos de fazermos parte
    de um grupo antivacinas."
  199. Temos de saber escutar.

  200. Talvez por isso, o ano passado
  201. realizou-se uma investigação que descobriu
  202. que, num período de seis meses, em 2019,
  203. "online"
  204. — realizou-se com 100 milhões
  205. de utilizadores diferentes
    nas redes sociais
  206. — embora o número dos indivíduos
    que se exprimiram nos seus grupos "online"
  207. fossem positivos,
  208. enquanto grupos,
  209. aqueles que eram os mais negativos
  210. estavam a recrutar
    as conversas no meio
  211. que estavam indecisos sobre
    se queriam apanhar as vacinas.
  212. Os muito negativos
  213. — aquilo a que podemos chamar
    os grupos antivacinas —
  214. estavam a recrutar os indecisos
  215. a um ritmo 500% mais rápido
  216. do que os grupos pró-vacinas.
  217. 500% mais depressa!
  218. Eram mais hábeis, mais eficazes,
  219. e sabiam escutar.
  220. A maioria das pessoas acha
    que as vacinas são boas

  221. e acreditam na sua importância.
  222. Mas essa crença está ameaçada.
  223. Precisamos de criar
    mais oportunidades para conversa.
  224. E há formas de o fazer.
  225. Não é fácil para alguns
    profissionais da saúde

  226. ter conversas em que
    a sua autoridade é questionada.
  227. É desconfortável.
  228. Andam muito ocupados
    para dar atenção a todas as perguntas.
  229. Mas precisamos de fazer alguma coisa,
  230. porque estamos a perder
    muitos pais preocupados
  231. que só querem conversar.
  232. Temos de ter voluntários
    especialistas em salas de conversação,
  233. em linhas de apoio,
  234. em fóruns de conversa "online"
  235. em grupos de conversa.
  236. Quem ensina os mais pequenos na escola,
  237. a propósito dos sistemas imunitários
  238. e lhes explica o que é aquela vacina
  239. que o irmão mais pequeno apanhou
  240. e que reforçou
    o sistema imunitário natural.
  241. É uma grande coisa
    e vou dizer porquê.
  242. Precisamos de criar essa confiança,
  243. precisamos de escutar.
  244. Apesar de todo este questionamento

  245. — que não é pouco,
  246. eu provavelmente oiço mais
    do que a maior parte das pessoas —
  247. sou uma otimista.
  248. O meu otimismo baseia-se
    na geração mais jovem.
  249. A geração mais jovem que está
    a tomar consciência
  250. dos riscos das redes sociais,
  251. das notícias falsas,
  252. das identidades falsas,
  253. e está a começar a seguir a ciência.
  254. Alguns deles são um grupo de miúdos
    cujas mães se recusaram a vaciná-los.
  255. Na primavera passada, em 2019,

  256. Ethan Lindenberger, de 18 anos,
  257. publicou uma mensagem no Reddit:
  258. "A minha mãe não acredita nas vacinas.
  259. "Está deveras preocupada
    que elas causem autismo.
  260. "Acredita nisso, mesmo a sério.
  261. "Mas eu tenho 18 anos.
  262. "Sou finalista do secundário.
  263. "Já tenho carta de condução. Posso votar
  264. "e posso decidir vacinar-me.
  265. "Podem informar-me onde devo dirigir-me?"
  266. Esta mensagem tornou-se viral.
  267. Provocou um enorme movimento
    de gente mais nova.
  268. Vi Ethan a falar numa conferência,

  269. a Cimeira da Vacinação Global
    na União Europeia, no outono passado.
  270. Falou eloquentemente,
  271. — eu fiquei impressionada —
  272. em frente de um fórum cheio.
  273. Contou a sua história pessoal
  274. e depois disse ao grupo:
  275. "Toda a gente fala
    das informações incorretas
  276. "mas eu vou falar de um tipo
    diferente de informações incorretas..
  277. "São as informações ditas
    pelas pessoas como a minha mãe,
  278. "que é uma mãe amorosa,
  279. "mas é má pessoa
    porque não me dá vacinas.
  280. "Quero dizer-vos que ela
    não me deu as vacinas
  281. "porque me adora
  282. "e porque acredita que isso
    era o melhor para mim.
  283. "Eu penso de modo diferente,
  284. "sei que nunca vou alterar
    a opinião dela
  285. "mas ela não é má pessoa."
  286. Era esta a mensagem de um adolescente.
  287. Empatia, bondade e compreensão.
  288. Temos grande abundância
    de informações científicas

  289. para desmistificar boatos falsos.
  290. Não é esse o nosso problema.
  291. Temos um problema de relacionamento,
  292. não um problema
    de informações defeituosas.
  293. As informações defeituosas
    são os sintomas, não são a causa.
  294. Se as pessoas confiarem.
  295. estão dispostas a correr um pequeno risco
    para evitar um risco muito maior.
  296. A única coisa que quero
    e que tenho a esperança de conseguir

  297. é que nós, enquanto comunidade
    médica e da saúde,
  298. tenhamos a coragem moral e a humildade
  299. de ter diálogos construtivos,
  300. tal como Ethan,
  301. com aqueles que discordam de nós.
  302. Assim espero.
  303. Obrigada.

  304. (Aplausos)