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Beágyazókód kérése
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Showing Revision 13 created 08/17/2020 by Raissa Mendes.

  1. Eu estudo rumores.
  2. Não fofoca,
  3. ou o tipo de rumores que estão fazendo
    com que o mercado de ações caia,
  4. ou suba,
  5. mas o tipo de rumor que afeta a sua saúde
  6. e a saúde mundial.
  7. Rumores como: comer muito alho
  8. ou beber muita água
  9. ajuda a nos proteger contra o coronavírus.
  10. Quem dera!
  11. Rumores têm uma má reputação.
  12. Eles são vistos como não reais,
  13. errados,
  14. ou "somente um rumor".
  15. Mas venho estudando rumores há anos,
  16. e uma coisa que pude perceber
    é que todos eles têm uma história,
  17. e geralmente uma história importante.
  18. Um dos rumores mais comoventes,
    ou alarmantes que eu investiguei

  19. foi no norte da Nigéria.
  20. Eu estava trabalhando com o programa
    de imunização global da UNICEF.
  21. E não foram os rumores em si
    que achei alarmante:
  22. e sim seu impacto global no mundo.
  23. O rumor era sobre a suspeita
  24. de que a vacina para a pólio
    era na realidade um contraceptivo
  25. para controlar o crescimento populacional.
  26. Ou talvez para causar AIDS.
  27. Não, não, talvez seja a CIA
    os espionando, ou talvez os contando.
  28. Qual seria o outro motivo para eles
    continuarem batendo nas portas
  29. oferecendo a mesma vacina várias vezes?
  30. Quando crianças estavam
    morrendo de sarampo,
  31. não havia ninguém oferecendo
    a vacina contra o sarampo.
  32. O que estava em questão não se tratava
    sobre acertar os fatos.

  33. Era sobre confiança,
  34. sobre a quebra da confiança.
  35. Por que tanta desconfiança?
  36. Na verdade, não eram as mães
    que tinham essa desconfiança.
  37. Eram os líderes locais,
  38. os líderes religiosos,
  39. os líderes políticos locais.
  40. Foi o governador do estado de Kano
  41. que decidiu boicotar
  42. o esforço para erradicar
    o pólio do estado...
  43. por 11 meses.
  44. Por que essa desconfiança?

  45. Bem, o ano era 2003.
  46. Dois anos após o atentado
    de 11 de setembro.
  47. E eles estavam certos de que o Ocidente,
  48. e particularmente os Estados Unidos,
  49. estavam em guerra contra os muçulmanos.
  50. E eles sabiam que o Ocidente,
  51. e particularmente os Estados Unidos,
  52. era um grande apoiador
  53. e financiador
  54. da iniciativa de erradicação
    global do pólio.
  55. Eles tinham seus motivos.
  56. A falta de confiança,
  57. aquele "apenas um ou dois rumores"
  58. custou ao programa de erradicação
    do pólio US$ 500 milhões
  59. para correr atrás,
  60. para recuperar o progresso perdido
    naqueles 11 meses
  61. e além.
  62. A cepa nigeriana do pólio
    viajou por mais de 20 países,
  63. para lugares tão distantes
    quanto a Indonésia.
  64. O preço de um rumor.
  65. Esse episódio na Nigéria
    foi um dos muitos que investiguei

  66. quando eu estava na UNICEF
  67. e fui nomeada "diretora
    do corpo de bombeiros da UNICEF".
  68. (Risos)

  69. Naquele momento percebi
    que nunca tive tempo suficiente.

  70. Eu estava muito ocupada apagando
    incêndios, e não tinha tempo suficiente
  71. para entender o que estava causando
  72. não só os episódios individuais,
  73. mas porque existia uma epidemia
    disso ao redor do mundo.
  74. Deixei a UNICEF e voltei para a pesquisa,

  75. pesquisa aplicada.
  76. Em 2010, criei o Vaccine Confidence
    Project, projeto confiança na vacina.
  77. na London School of Hygiene
    and Tropical Medicine.
  78. Convoquei antropólogos, epidemiologistas,
  79. psicólogos,
  80. especialistas em mídia digital
  81. e modeladores matemáticos.
  82. E nós nos propusemos a tarefa
  83. de investigar episódios
    históricos de rumores
  84. e seus impactos,
  85. para tentar entender quais foram
    seus primeiros sinais de surgimento,
  86. quais foram os fatores amplificadores
  87. e os impactos,
  88. como eles ganharam força,
  89. para que pudéssemos entender
    com o que precisamos tomar cuidado,
  90. como podemos ajudar os governos
  91. e programas de imunização
    a serem mais alertas e responsivos
  92. aos primeiros sinais de problemas.
  93. Era um sistema de alerta precoce.
  94. Em 2015, nós criamos
    o índice de confiança das vacinas.

  95. É um levantamento que tenta entender
    o quanto as pessoas
  96. são a favor ou contra as vacinas,
  97. que as vacinas são seguras, efetivas,
  98. elas funcionam,
  99. e se elas são compatíveis
    com as crenças religiosas das pessoas.
  100. Nós já entrevistamos centenas
    de milhares de pessoas no mundo todo,
  101. tentando achar a "veia" da confiança,
  102. mas também, e ainda mais importante,
    quando essa confiança aumenta, ou diminui
  103. porque queremos mapear
    quando ela começa a cair,
  104. Essa é a hora de começar a agir,
  105. para chegarmos no local antes
    que uma crise aconteça, como na Nigéria.
  106. Também monitoramos as redes sociais,
    24 horas por dia em todo o mundo,
  107. em vários idiomas,
  108. para escutarmos o que está rolando
    nas conversas sobre vacinas,
  109. tentando identificar preocupações
    ou mudanças de posição sobre ela,
  110. em que deveríamos prestar atenção.
  111. Nós criamos um eco sistema
    de diferentes tipos de informação

  112. para tentarmos entender:
  113. qual é a opinião pública,
    e como podemos interferir?
  114. Procuramos por sinais precoces.
  115. Quando achamos algum,
  116. temos uma rede global
    de colaboradores em diversos países
  117. que têm mais inteligência
    local naquela área,
  118. para tentar entender
  119. se aquele era sinal de uma desinformação,
  120. ou se existia algo ali
    em que precisaríamos prestar atenção.
  121. Em Londres, nós podemos
    enxergar o quadro inteiro.

  122. Observamos os milhares de rumores
    viajar, não somente no local de origem
  123. mas de um país para outro.
  124. Observamos os rumores
    pularem do Japão para a Colômbia,
  125. através da Europa.
  126. Eles se movem.
  127. Vivemos em um ambiente hiperconectado.
  128. Uma das coisas que achamos fascinante,

  129. e aprendemos muito nos últimos dez anos,
  130. este é o nosso aniversário de dez anos,
  131. afinal os rumores
    não são uma coisa recente,
  132. e uma das coisas que aprendemos
  133. no nosso monitoramento global
  134. foi que a Europa
    é o local mais cético do mundo.
  135. Na verdade, a França ganhou o prêmio.
  136. (Risos)

  137. De longe.

  138. Alguns desses rumores viajaram
    para outras partes do mundo.
  139. Mas estamos tentando entender a Europa.
  140. Hmm. Por que a Europa?
  141. Achei que os EUA fosse, na verdade,
  142. os mais céticos,
  143. mas eu estava errada.
  144. E um cientista político,
    um colega com quem trabalhamos,

  145. Jon Kennedy,
  146. coletou os dados de 28 países Europeus,
  147. os observou
  148. e os correlacionou com as sondagens
    de opiniões políticas.
  149. E o que ele descobriu?
  150. Que pessoas com maior probabilidade
    de votar em um partido populista
  151. também eram as com maior probabilidade
    de discordar veementemente
  152. de que as vacinas são importantes,
    seguras ou eficientes.
  153. O que nós aprendemos?
  154. As vacinas não conseguem escapar
    das turbulências sociais e políticas
  155. que as cercam.
  156. Os cientistas não estavam preparados
    para esse tsunami de dúvidas,
  157. questionamentos e falta de confiança.
  158. Por que as vacinas sofrem
    tanta resistência?

  159. Bem, nós identificamos alguns fatores,
  160. mas em especial:
  161. elas são altamente mediadas pelos governos
  162. que exige, regula, e algumas vezes
    recomenda vacinas,
  163. ou às vezes recomenda e às vezes exige.
  164. Grandes companhias produzem as vacinas,
  165. e nenhum desses dois,
    governos ou grandes empresas,
  166. estão com muita credibilidade
    nos dias de hoje.
  167. E também existem os cientistas
    que descobrem e criam vacinas.
  168. E eles são da elite
  169. não acessível para população em geral,
  170. pelo menos a linguagem falada por eles.
  171. Em terceiro, vivemos
    em um mundo hiperconectado,
  172. ainda mais com as mídias
    sociais hoje em dia,
  173. e as pessoas podem publicar
    suas opiniões sem restrições,
  174. preocupações, ansiedades e cuidados.
  175. E acham pessoas que compartilham
    das suas ideias
  176. e pensam que talvez as suas preocupações
    sejam dignas de atenção.
  177. E, por último,
  178. as vacinas tocam
    todas as pessoas no planeta.
  179. Qual outra intervenção médica,
  180. além da água,
  181. toca todas as vidas do planeta?
  182. Então, se você está procurando
    por algo para atrapalhar,
  183. é o palco perfeito.
  184. talvez seja por isso que precisemos
    prestar mais atenção

  185. e reconstruir nossa confiança
    nessas questões.
  186. As pessoas estão fazendo
    todo o tipo de perguntas.
  187. Elas perguntam:
  188. "Por que as vacinas...",
  189. e esses são os tipos de coisas
    que ouvimos em nossas redes sociais:
  190. "Por que meu filho não pode ter
    um cronograma de vacinação personalizado?"
  191. "Qual é o motivo de tantas vacinas?"
  192. "E todos aqueles ingredientes
    e conservantes?"
  193. Estas pessoas não são loucas,
  194. ou ignorantes;
  195. são, na realidade, mães preocupadas.
  196. Mas algumas delas já vieram me dizer:
    "Nós nos sentimos ignoradas,
  197. nos sentimos julgadas
    se fizermos perguntas,
  198. e até demonizadas
  199. como se fizéssemos
    parte de um grupo antivacina".
  200. Nós temos que ouvir.

  201. E talvez seja por isso que, no último ano,
  202. uma pesquisa descobriu
  203. que em 6 meses em 2019,
  204. on-line,
  205. com milhares de pessoas,
  206. 100 milhões de diferentes usuários
    nas redes sociais,
  207. apesar de o número de pessoas
    nos grupos on-line que se expressaram
  208. de forma positiva,
  209. como grupos,
  210. os que foram mais negativos
  211. estavam buscando as conversas nos meios
  212. que estavam indecisos
    sobre vacinar ou não seus filhos.
  213. Os mais negativos,
  214. que chamamos de grupos antivacina,
  215. estavam recrutando os indecisos
  216. 500 vezes mais rápido
  217. que os grupos pró-vacina,
  218. 500 vezes mais rápido.
  219. Eles foram mais ágeis, mais responsivos
  220. e estavam ouvindo.
  221. A maioria das pessoas
    acreditam que vacinas são boas

  222. e acreditam na sua importância.
  223. Mas essa crença está sob ataque.
  224. Nós precisamos criar
    mais oportunidades para conversas.
  225. E existem meios para fazermos isso.
  226. Não é fácil para profissionais
    de saúde terem conversas

  227. em que sua autoridade é questionada.
  228. É desconfortável.
  229. E eles estão muito ocupados
    para ouvir todas essas perguntas.
  230. Mas nós precisamos fazer
    algo a respeito disso,
  231. porque nós estamos perdendo
    muitos pais preocupados
  232. que só querem uma conversa.
  233. Nós devíamos ter voluntários treinados
    para sentar em salas de espera,
  234. ter linhas diretas,
  235. ter fóruns on-line,
  236. bate-papo on-line.
  237. Com as crianças mais novas na escola,
  238. ensinar a elas sobre o sistema imunológico
  239. e ensinar a elas que: "Sabe aquela vacina
    que seu irmão mais novo tomou?
  240. Bem, ela foi só para inspirar
    o seu sistema imunológico.
  241. Isso é muito bom, e isso porque...".
  242. Precisamos criar essa confiança;
  243. precisamos ouvir.
  244. Apesar de todos esses questionamentos,

  245. e há muitos,
  246. eu provavelmente ouço
    mais que a maioria das pessoas,
  247. sou otimista.
  248. E o meu otimismo é
    com a geração mais nova.
  249. A geração mais nova que na realidade
    está cada vez mais atenta
  250. aos riscos nas mídias sociais,
  251. notícias falsas,
  252. identidades falsas,
  253. e estão começando a adotar a ciência.
  254. E alguns deles são de um grupo
    cujas mães se recusaram a vaciná-los.
  255. No primeiro semestre de 2019,

  256. um jovem de 18 anos, Ethan Linderberger,
  257. foi ao Reddit e postou:
  258. "A minha mãe não acredita em vacinas,
  259. ela se preocupa que elas
    possam causar autismo.
  260. Na realidade ela acredita
    fortemente nisso.
  261. Mas eu tenho 18 anos.
  262. Estou no meu último ano do colégio,
  263. posso dirigir, votar
  264. e posso me vacinar.
  265. Alguém pode me dizer
    onde posso me vacinar?"
  266. Aquela postagem viralizou.
  267. Começou um grande movimento de jovens.
  268. Eu vi o Ethan falando em uma conferência,

  269. Global Vaccine Summit,
    na União Europeia, no segundo semestre.
  270. Ele falou eloquentemente,
  271. E eu fiquei impressionada.
  272. Na frente de milhares de pessoas,
  273. ele contou a sua história de vida,
  274. e então falou para todos.
  275. Ele disse: "Muitas pessoas
    falam sobre desinformação,
  276. mas quero falar para vocês
    sobre uma desinformação diferente,
  277. e essa desinformação fala
    que pessoas como a minha mãe,
  278. que é uma mãe muito carinhosa,
  279. são pessoas más
    porque não vacinam os filhos
  280. Bem, eu queria dizer a todos vocês
    que ela não me vacinou,
  281. porque ela me ama,
  282. e porque ela acreditou
    que essa era a coisa certa a se fazer.
  283. Eu penso diferente
  284. e nunca vou conseguir
    fazê-la mudar de ideia,
  285. mas ela não é uma pessoa ruim".
  286. Essa foi a mensagem de um adolescente.
  287. Empatia, gentileza e compreensão.
  288. Temos informação científica em abundância

  289. para desbancar falsos rumores.
  290. Esse não é o nosso problema.
  291. Temos um problema no relacionamento,
  292. não um problema de desinformação.
  293. A desinformação é um sintoma,
  294. não a causa.
  295. Se as pessoas confiassem,
  296. elas assumiriam um pequeno risco
    para evitar um grande risco.
  297. A única coisa que quero e desejo

  298. é que nós, como comunidade médica,
  299. tenhamos a coragem moral e humildade
  300. para nos engajar produtivamente,
  301. assim como o Ethan,
  302. com aqueles que discordam de nós.
  303. Assim espero.
  304. Muito obrigada!

  305. (Aplausos)